18 Out, 2017

Francisco Domingues, o Lobo à Conquista de Madrid

Francisco IsaacSetembro 6, 201611min0

Francisco Domingues, o Lobo à Conquista de Madrid

Francisco IsaacSetembro 6, 201611min0

Francisco Domingues, o jogador formado no CDUL e AIS Agronomia segue viagem para o exterior, pela 3ª vez na sua carreira. O Lobo deseja conquistar um lugar entre os “maiores” do rugby e o caminho fora de Portugal é a forma de consegui-lo. O Fair Play conversou com o jovem pilar português.

fp. Francisco, com apenas 23 anos, já estiveste em França e agora em Espanha, como jogador semi-profissional/profissional. Que tal foram as experiências e em que clubes passaste?

FD. O ano e meio que passei em Aix En Provence foi sem dúvida o melhor da minha vida. Mais uma vez encontrei-me fora da minha zona de conforto, pude descobrir o desporto 100% profissional e deparei-me como muitas e novas responsabilidades que me permitiram crescer não só como desportista, mas também como pessoa. Em relação ao próximo ano em Espanha, ainda não posso falar, pois ainda não começou, mas com muita certeza também vai ser uma experiência excelente nos campos desportivo e pessoal.

fp. Já tinhas estado no Provence antes, em 2013, e agora voltaste em 2015. Qual gostaste mais? E quais foram as tuas maiores dificuldades?

FD. Desportivamente foram anos totalmente diferentes. No primeiro ano ingressei na academia na Federal 1, enquanto na segunda época ingressei na mesma Academia mas na Prod2. Ambos os campeonatos são muito exigentes e equilibrados, mas sem dúvida que o dinheiro investido na Prod2 é três vezes maior. Com isto as infraestruturas, salários, qualidade de jogadores, etc, são superiores. Foram portanto dois anos diferentes. Na Federal 1 fui sempre convocado para a primeira equipa tendo mesmo feito dois jogos a titular. De outra forma, na época passada apenas fiz 2 jogos amigáveis (1 a titular) e duas convocatórias como 24º. O nível era muito superior, e os objectivos eram totalmente diferentes. Na Prod2 as equipas que lutam pela manutenção não correm o risco de jogar com os mais novos de forma regular, tendo assim jogado com alguma frequência no campeonato de esperanças (que é altamente equilibrado e físico). Apesar de muitas diferenças, sem dúvida que gostei de ambas as épocas. Na primeira porque era posto em grande pressão todos os fins-de-semana, na segunda porque treinava e jogava com muito mais qualidade, tendo aprendido e desenvolvido o meu jogo. A maior dificuldade que encontrei foi a formação ordenada. Como se sabe França é a melhor da Europa, e principalmente na Prod2. Não tem nada a ver com a que temos em Portugal. Foi uma guerra ao inicio.

No Aix en Provence (Foto: Geo LA)
No Aix en Provence (Foto: Geo LA)

fp. Foste para França com que intuito? Conseguiste estudar e jogar ao mesmo tempo? Tens algum conselho para jovens jogadores que gostavam de seguir as tuas pisadas?

FD. Da primeira vez que parti, estudei ao mesmo tempo sim. Tive a oportunidade de fazer o programa de intercâmbio entre universidades (“Erasmus”) ao mesmo tempo que jogava como profissional. Apenas fiz “Erasmus” porque me era possível jogar bom nível de Rugby. No segundo ano, em paralelo ao Rugby apenas tirei um curso de língua francesa adaptado à minha disponibilidade. O conselho que dou, é que tudo é possível e que sem dúvida alguma os estudos devem estar em primeiro lugar, mas que quando se quer muito uma coisa, há que fazer sacrifícios, procurar alternativas e lutar até o alcançar. E como podem ver é possível conciliar os estudos com o desporto profissional (principalmente em França onde os apoios são enormes).

fp. Algum momento que guardes com boa memória da tua passagem pelo Provence?

FD. Guardo muitos. Mas ter jogado contra o USAP no ano passado é sem dúvida uma recordação para a vida.

fp. Em relação às tuas origens… sempre foste “agrónomo” (AIS Agronomia)? Tem-te custado a saída de casa? O que foi importante para ti nos anos que passaste em Portugal a jogar?

FD. Em França no início foi difícil adaptar-me a um espírito “rugbistico” totalmente diferente. Estava habituado ao espírito caseiro. No Rugby profissional não é tão assim. Há muita pressão, há muito dinheiro à nossa volta. Não se pode falhar de maneira nenhuma. Com efeito, essa diferença custou-me ao inicio, mas com o tempo habituei-me e comecei a jogar com os nervos a meu favor. Foi na tapada que comecei a jogar ao alto nível. À Agronomia tudo devo enquanto desportista. Todas as apostas que fizeram em mim desde os sub-16 contribuíram para o jogador e pessoa que sou hoje. A Agronomia é o meu clube do coração. E sem dúvida que custa sair de casa e não poder jogar com os meus amigos. Os momentos mais marcantes na minha passagem em Portugal foram a Taça de Portugal que ganhei apenas com 18 anos, as grandes épocas em que pude jogar com os amigos. O Rugby não dura para sempre, mas as amizades duram. E isso sem dúvida que é importante para mim.

fp. Jogo que melhor te recordas como jogador de Agronomia? E melhor e o pior momento lá?

FD. Recordo-me muito bem do jogo em Monsanto em Janeiro de 2015, no qual fui MVP e fiz coisas que achava não poder fazer (risos). Mas recordo-me de quase todos os meus 50 jogos por Agronomia. O melhor momento em França foram todos os momentos, tirando o pior que foi quando me magoei com alguma gravidade no ombro.

À carga pela Agronomia (Foto: Mario Januário Fotografia)
À carga pela Agronomia (Foto: Mario Januário Fotografia)

fp. Qual foi a sensação quando vestiste a pele de Lobo pela 1ª vez? Qual é o teu objectivo na Selecção Nacional?

FD. Desde o momento que comecei a jogar Rugby que esse era um desejo gigante. Sempre quis ser Lobo. Lembro-me de treinar e trabalhar sempre com esse foco. Foi portanto o cumprimento do meu maior objectivo enquanto jogador, uma sensação muito boa. Tive orgulho em mim e estava muito feliz, só queria jogar e viver aquele momento. Os meus objectivos enquanto jogador de selecção passam por uma qualificação e respectiva presença num Mundial.

fp. Como atleta internacional português, quais são as qualidades que temos enquanto jogadores portugueses? Em França elogiaram-te por algum motivo ou técnica individual?

FD. Temos milhões de qualidades e nível técnico. Mas fisicamente ainda não estamos no nível mínimo exigido, mas estamos a trabalhar bem, é um projecto e compromisso de longo prazo. Não nos podemos focar nas coisas boas, mas sim nas más e tentar corrigi-las. Em França era muito elogiado pela minha mobilidade com a bola em campo por exemplo, já que o tradicional pilar francês apenas defende e trabalha bem na formação ordenada.

fp. Quem te impulsionou para praticar Rugby? Como começou?

FD. Tive duas pessoas que me impulsionaram: A minha mãe sempre quis que eu jogasse, tendo-me inscrito no CDUL dos 9 aos 13 anos. Mas foi o João Santa Barbara (um grande amigo e na altura da minha turma no colégio são João de Brito) que fez com que eu fosse para a Agronomia aos 14 e nunca mais saísse.

fp. Porquê o Rugby?

FD. Na verdade porque não era bom em nenhum outro desporto.

fp. Alcobendas de Madrid é a tua nova etapa. Que esperas em terras de “nuestros hermanos”?

FD. Espero um campeonato equilibrado e em pleno crescimento. Com muito bons atletas e boas infraestruturas. Espero a nível pessoal poder mostrar o meu valor como jogador e representar o Rugby português da melhor forma.

fp. É possível conciliar os estudos com o Rugby? Achas que a Universidade e os Estudos Superiores apoiam, da melhor forma, os jogadores internacionais ou sentes que podia existir uma “ponte” mais forte?

FD. É possível, mas não é fácil. Eu tirei licenciatura em Gestão na Nova SBE. Em vez de três anos, fi-la em quatro anos. Fiz muitos sacrifícios durante esses anos, mas em nada me arrependo. Pude sempre continuar a jogar a alto nível. Em Madrid vou também fazer um mestrado em gestão. Sei que não vai ser fácil fazer tudo mas sinto-me capaz. Isto porque, quantas mais coisas possuo na minha vida, mais organizado e disciplinado sou. Em relação à ponte que existe entre universidades e atletas internacionais, acho que é muito pequena. O apoio é quase irrelevante. No meu caso apenas me permitia mudar com facilidade os horários e em caso de falta, mesmo se justificada, a alguma avaliação continua, a percentagem equivalente era automaticamente juntada ao peso do exame final, que como se sabe é muito mais difícil (isto na verdade acontecia com qualquer aluno, o que não é normal). O valor aos atletas não é devidamente dado e acho que as Universidades apenas têm a ganhar ao terem este tipo de alunos, já que se certa forma, representam as universidades. Mas não é só o apoio universitário. O apoio que empresas desportivas dão a atletas de Rugby em Portugal é inexistente, o que de certa forma, desmotiva devido aos sacrifícios que fazemos, tal como os outros atletas de outras modalidades (senão forem talvez maiores, porque a preparação para o Rugby é gigante).

Com as Cores da U. Nova de Lisboa (Foto: Nova)
Com as Cores da U. Nova de Lisboa (Foto: Nova)

fp. Qual é o teu maior sonho no mundo do Rugby? E na tua vida?

FD. Sem dúvida que a participação num campeonato do mundo com Portugal é o meu maior sonho desportivo, mas não escondo objectivos como jogar nas primeiras divisões europeias. Na vida, acima de tudo ser feliz podendo sempre jogar, ter um bom trabalho, ter família, ser saudável, etc. Mas sou uma pessoa que pensa no curto prazo.

fp. Estás feliz com esta vida “às costas”? Porquê é que decidiste este caminho?

FD. Não poderia estar mais feliz. Ganho o meu próprio dinheiro, tenho responsabilidades maiores, aproveito para viajar, conheço milhões de pessoas de nacionalidades diferentes e jogo Rugby de bom nível. Decidi este caminho porque em Portugal, infelizmente, não é possível fazer de Rugby vida.

fp. Queres efectuar um agradecimento a alguém em especial?

FD. Apenas agradecer à minha família e amigos por todo o apoio que me dão.

En Hora Buena! (Foto: Alcobendas Rugby)
En Hora Buena! (Foto: Alcobendas Rugby)


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