20 Out, 2017

Floris Schaap. “O maior desafio nesta época é subir de divisão”

Romário IvoAbril 29, 201713min0

Floris Schaap. “O maior desafio nesta época é subir de divisão”

Romário IvoAbril 29, 201713min0

Na China para fazer história e elevar seu clube de divisão, o holandês Floris Schaap ex-defesa central de SC Braga, Portimonense, Olhanense e hoje treinador adjunto, está ao lado do treinador português Manuel Cajuda e do preparador físico Ahmed Harzallah, na belíssima província de Sichuan com a responsabilidade de gerir o acesso da equipe mais organizada da China League Two ao primeiro escalão do futebol chinês. Floris retorna à China após duas passagens anteriores, por Qinghai Senke  FC e Tianjin Songjiang, para defender o Sichuan Longfor FC. Confira a entrevista exclusiva do Fair Play com Floris Schaap, antigo atleta holandês e polivalente que construiu quase toda a sua carreira no futebol português.


Perfil

Nome: Floris Schaap
Idade: 52 anos                                                                                                                                       Naturalidade: Katwijk – Holanda
Principais clubes como jogador, treinador e treinador adjunto: SC Olhanense, SC Braga, Portimonense SC, VV Katwijk, Sport Clube União Torreense, Lusitano FC, Sharjah FC, Tianjin Songjiang, BEC Tero Sesana, Qinghai Senke e Sichuan Longfor (2017 até o momento)


fp. Como tem sido a adaptação e como foi o recebimento dos torcedores e profissionais do clube? Como veio o convite para a sua ida novamente para a China?

FS. A adaptação foi fácil e como é a terceira vez que estamos na China, fomos muito bem recebidos aqui por todos, mesmo sabendo tudo e sendo um clube do 3° escalão da China. As condições de trabalho são incríveis, muito boas. O convite foi dirigido ao filho do Manuel Cajuda, e, como todos sabem, o Sichuan é a terceira equipe que trabalhamos na China. O clube sempre vem com bons resultados na China League Two nas últimas temporadas.

Floris Schaap em mais um dia de treino no Sichuan Longfor. (Foto: Site oficial do Sichuan)

fp. Na sua chegada ao clube, quais foram os maiores desafios em termos esportivos e estruturais?

FS. O maior desafio nesta época é subir de divisão e sem nenhuma dúvida trabalhamos todas dias para atingir esta meta. Em termos estruturais, o Mister Cajuda tenta implantar a ideia dele e, como é uma pessoa muito inteligente, também sabe que não pode mudar tudo aqui em um dia. No entanto, estamos a mudar muita coisa na organização e na estrutura do clube.

fpQual é a avaliação que você faz desses quase 5 meses de trabalho na China?

FS. A avaliação é boa. Temos uma boa equipe, tentamos melhorar todos os dias a capacidade de todos os nossos jogadores e também melhorar a organização aqui, mas ter sempre em mente a diferença das culturas. De vez em quando não é fácil, nem todos os dias podes dar passos para frente.

fpComo foi a pré-temporada do Sichuan realizada em Dubai e na China? Nesses meses de preparação vocês enfrentaram grandes adversários (exemplo o Tianjin Quanjian de Fábio Cannavaro e o Shenzen FC de Sven-Göran Eriksson). A equipe apresentou uma evolução que vocês gostariam?

FS. Sim, a nossa pré-temporada durante 3 semanas foi muito boa. O Mister implantou a partir desse momento muitas ideias dele na equipe e também com cada vez mais dias e tempo na frente do clube a evolução é notória. Fizemos 3/4 jogos de preparação no Dubai onde saímos com uma ideia muito positiva pois jogar com equipes mais fortes faz nos evoluir mais rápido.

Floris Schaap e Manuel Cajuda ao serviço do Sichuan. (Foto: Arquivo Pessoal)

fpComo tem sido o trabalho ao longo desses anos com o Manuel Cajuda?

FS. Agora tenho 52 anos. A primeira vez que trabalhei com ele foi quando eu tinha 19 anos. Era jogador, fui durante 4 ou 5 anos jogador dele e em 2009 entrei na sua equipa técnica. Trabalhei com ele em Portugal, Emirados Árabes Unidos, Tailândia e agora na China. Aprendi muito com ele e com os outros membros da equipa técnica tanto agora como no passado e mantemos uma relação muito boa. Aqui no Sichuan Longfor também trabalha o nosso preparador físico da Tunísia Ahmed Harzallah, mais dois treinadores adjuntos chineses e um treinador de guarda-redes.

fp. Qual a maior dificuldade que vocês enfrentam e enfrentaram na adaptação e na vida na China?

FS. A maior dificuldade é mesmo a língua. Mesmo com um tradutor às vezes é complicado. Mas vamos andando. Também há muita diferença entre a nossa comida europeia e a chinesa, mas tudo tem solução.

fp. O que é diferente da sua primeira passagem na China?

FS. Um exemplo: o Qinghai Senke FC, minha equipe anterior, era muito mal organizada e sem infraestruturas onde não recebíamos salário. Aqui não temos este problema e o clube tem muito a oferecer. Praticamente não nos falta nada.

Academia do Sichuan Longfor e treinamentos dos jogadores. (Foto: Site oficial do Sichuan)

fpComo é a estrutura do Sichuan Longfor?

FS. A estrutura para uma equipa de terceira divisão é muito boa, com boas infraestruturas. Evidente que as culturas são diferentes, mas também tenho ser honesto pois existem poucas equipas com estas condições de trabalho que a nossa tem, no entanto, ainda tem aprender muita coisa com a organização. Acho que esta falha tem muito a ver com a diferença entre as culturas. É difícil comparar o futebol europeu com o chinês. O nosso presidente tem muita vontade para subir de divisão com o clube e também vai com certeza mexer muito com a organização. O Mister está a trabalhar e a ajudar nessa área estrutural.

fp. Infelizmente o Sichuan Longfor foi eliminado na Copa da China logo na primeira fase, mas ainda resta a China League Two. Isso gerou uma preocupação extra e foi fundamental da recuperação da equipe?

FS. Nunca é bom perder, mas não ficamos muito preocupados com a nossa derrota na Copa da China porque mesmo nesta partida fomos a melhor equipe. Só não conseguimos fazer o golo. Sim, depois ganhamos os dois primeiros jogos no campeonato contra o Hunan Billows FC e o derby de Sichuan contra o Chengdu Qianbao FC.

Chen Tao, o craque e artilheiro do Sichuan Longfor no campeonato após as duas primeiras rodadas, celebra o gol e mais uma vitória. (Foto: Site oficial do Sichuan)

fp. Qual é o objetivo do Sichuan Longfor na temporada? E como tem sido esse início tão arrasador?

FS. O objetivo aqui, como já tinha dito, é simples: subir de divisão. O nosso começo também não é arrasador, mas é muito bom. Começar bem é sempre melhor, mas estamos com os pés bem assentes no chão. O segredo é trabalhar muito e também a experiência que o Mister Cajuda já tem no futebol chinês. Mas, como eu digo, não conta como se começa, mas sim como acaba.

fp. Mesmo o Sichuan estando na terceira divisão chinesa, você pode afirmar que o clube possui melhor organização do que alguns clubes da China League One e talvez algum da Super Liga Chinesa?

FS. Sim, também é verdade porque já tivemos em Tianjin e a organização está no mesmo nível ou até é mesmo superior.

fp. Qual é o projeto do clube para os próximos anos e por quanto tempo vocês pretendem ficar no clube? Em caso de acesso prosseguirão ou não na próxima temporada?

FS. O projecto do clube é relativamente claro: tentar em 3 anos subir ao escalão máximo do futebol chinês. Temos um ano de contrato, com mais um ano um de opção e como você sabe, no futebol isso não conta para nada. Contam os resultados e às vezes nem isso.

Integrantes da comissão técnica do Sichuan Longfor, Cajuda, Ahmed, Floris e o diretor Ma Mingyu. (Foto: Arquivo pessoal)

fp. Pouco se fala dos trabalhos das pessoas internas nos clubes e hoje, sem dúvida, o Sichuan é a maior e também a mais organizada equipe da terceira divisão chinesa. Como tem sido o trabalho e o apoio do ex-jogador chinês e hoje diretor executivo Ma Mingyu?

FS. Ma Mingyu é um grande nome do futebol chinês. Conhece muita gente e com certeza o trabalho dele é também muito importante para o clube. A sua colaboração com Mister Cajuda tem sido muito boa para o nosso trabalho.

fp. O que foi determinante para o rendimento de sua carreira como jogador?

FS. Acho que não tive muita sorte na minha carreira. Lesionei-me com gravidade no tendão de Aquiles com 27 anos e na altura que eu estava na melhor forma de sempre precisei de mais dois anos para recuperar de 3 operações.

fp. Qual foi a temporada mais marcante na sua carreira como atleta?

FS. Acho que foi o meu primeiro ano no Portimonense SC. Depois da primeira volta tínhamos somado somente 11 pontos e na segunda fomos a terceira equipe que ganhou mais pontos. Tínhamos uma belíssima equipe e ganhámos por 4-1 ao Sporting Clube de Portugal em nossa casa.

Floris Schaap rumo ao acesso. (Foto: Arquivo pessoal)

fp. Durante duas temporadas você trabalhou na elite dos Emirados Árabes Unidos, e nas divisões menores da China. Que diferença você pode ver nos dois países em questões futebolísticas?

FS. O futebol é muito mais vivido na China do que nos Emirados Árabes Unidos pois muito mais pessoas vão ver o jogo. A Super Liga Chinesa é mais forte e tem mais qualidade do que o futebol praticado no país árabe, onde os jogadores têm outra mentalidade, de trabalhar mais. E o futebol na China está chegando. Nos EAU eu acho que o campeonato é menos competitivo nesta temporada.

fp. Tem o sonho de se tornar técnico no futuro? Visto que você e o Manuel Cajuda tiveram a oportunidade de conhecer um pouco dos outros clubes da China League Two, de fato qual foi a impressão que vocês tiveram?

FS. Acho que qualquer treinador adjunto quer ser um dia o treinador principal, mas também, com toda a sinceridade, me sinto bem em estar na equipa técnica liderada pelo Manuel Cajuda. Achamos o campeonato muito equilibrado, e de conhecer algumas equipas do ano passado podemos concluir que o campeonato que disputamos aqui está mais forte este ano.

fpGostaria novamente de treinar alguma equipe portuguesa um dia?

FS. Sim. Já fui treinador do SC Olhanense, clube onde eu comecei como jogador profissionalmente, mas onde infelizmente passaram pessoas que deram cabo no clube para proveito próprio. Esse é o clube que me marca mais aí em Portugal.

fp. Tem alguma mensagem final para os nossos leitores?

FS. Para todos os leitores do site Fair Play espero que continuem a acompanhar as vossas entrevistas. Vocês estão fazendo um grande trabalho. Continuem assim. Um grande abraço.

A classe e a sabedoria, na direção do sucesso e objetivo estabelecido. (Foto: Arquivo Pessoal)


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