23 Out, 2017

Fernando Fernandes. “A minha aposta vai continuar a ser a formação”

António Pereira RibeiroAbril 26, 20178min0

Fernando Fernandes. “A minha aposta vai continuar a ser a formação”

António Pereira RibeiroAbril 26, 20178min0

Nenhum outro atleta conseguiu deixar uma marca tão acentuada na história do kickboxing nacional como Fernando Fernandes. Lançou recentemente Ser Campeão no Ringue Como na Vida, um manual imprescindível para todos aqueles que desejam triunfar no kickboxing. O Fair Play esteve à conversa com esta figura incontornável da modalidade, responsável pela formação no Sporting Clube de Portugal há 25 anos.

fp. Já revelaste em diversas ocasiões que a longa-metragem Luta de Gigantes (1979), protagonizada por Chuck Norris, teve um papel decisivo na tua incursão pelo kickboxing. No meio de tantos filmes de artes marciais realizados nas décadas de 1970 e 1980, o que é que este tinha de tão especial?

FF. Foi o primeiro filme que debateu o início da modalidade. Quando o filme saiu, a modalidade tinha acabado de surgir, começou a ser falada no início dos anos 70. O Chuck Norris era já um actor de cinema bastante conceituado, porque tinha feito A Fúria do Dragão (1972) com o Bruce Lee. Foi um filme bastante emocional porque retratou a realidade dos desportos de combate e dessa modalidade em particular. Foi bastante importante para mim e inspirador, porque não estava habituado a esse tipo de filmes.

fp. Quando é que o kickboxing passou da ficção para a tua realidade?

FF. Comigo as coisas na vida aconteceram de uma forma muito natural e crescente, a vencer obstáculos. O espírito do desporto de combate já cá estava dentro. Esse filme veio apenas despoletar em mim aquilo que eu procurava. Um colega da escola levou-me ao sítio onde praticava a modalidade, que na altura chamava-se Karate Full Contact, depois passou a ser só Full Contact, e posteriormente kickboxing. Agora também há a versão Ultra, que é uma mistura de kickboxing com Muay Thai. Também a evolução da modalidade é de uma forma natural. O que me puxou foi o filme, o colega da escola que me levou a um sítio espectacular, onde eu treinei e aprendi imensas coisas.

fp. O teu palmarés no kickboxing é impressionante. Campeão Nacional de Kickboxing em 1992, 1993 e 1994, Campeão Europeu em 1991 e 1993, e Campeão Intercontinental e Campeão Mundial em 1994. Ficou algum título atravessado na garganta?

FF. Não. A minha carreira desportiva está concluída, atingi os meus objectivos.

fp. Ainda te lembras do combate em que te sagraste campeão do mundo?

FF. Lembro-me perfeitamente. Lembro-me da preparação para o combate, da entrada no ringue, do desenrolar do combate, do final, o contentamento e a alegria da vitória, e acima de tudo, lembro-me da minha mulher. Foi o concluir de um objectivo que o universo tinha marcado para mim.

fp. Como era o teu estilo, enquanto lutador?

FF. O meu estilo não era de predador, nunca foi o meu objectivo chegar lá e deitar o meu adversário abaixo, mas sim fazer do combate um jogo, uma troca de golpes. Como um jogo de xadrez.

fp. Conta-nos a história da tua longa relação com o Sporting Clube de Portugal, que já leva 25 anos.

FF. A minha relação com o Sporting Clube de Portugal é uma relação de amor, íntima e próxima, que como todas as relações, tem altos e baixos. Fui convidado pelo Sporting para desenvolver a modalidade, e ainda hoje mantenho esse espírito. Depois fui campeão, formei atletas, dirigentes, árbitros, uma série de pessoas que passaram pela modalidade. O kickboxing sempre teve o seu dinamismo, empenho e formação. A minha aposta vai continuar a ser a formação, agora com o meu colega de há muitos anos, o Mestre Miguel Franco.

fp. Começaste a dar formação muito cedo, quase sempre em simultâneo com a competição. Ensinar kickboxing foi sempre algo natural para ti?

FF. Sim. Actualmente já não acontece muito, e há atletas com os seus próprios treinadores, mas dantes havia uma carência de treinadores e atletas, e era natural a mesma pessoa ter as duas funções, tendo sempre apoio de alguns técnicos que me ajudavam, ou de alunos mais antigos.

fp. Depois de tantos títulos conquistados, e de milhares de alunos, ainda existe espaço para aprender com o kickboxing?

FF. Estamos sempre a aprender, e não é bom quando isso não acontece. Ainda hoje continuo a aprender tecnicamente nas várias disciplinas, e a nível da relação com os outros. Tenho essa noção a cada dia que passa, senão a modalidade estaria parada, e eu também.

fp. Fala-nos sobre a tua incursão nas massagens terapêuticas.

FF. Na área da recuperação, continuo a desempenhar a função de massagista. Na altura, a capacidade dos técnicos de recuperação não era muita, e o desporto em si não estava tão desenvolvido como está hoje, por isso tive a necessidade de recuperar as minhas lesões. Mais tarde, quando comecei a dar aulas, ajudava os atletas quando tinham alguma lesão, sempre procurei desenvolver os meus conhecimentos nessa área. Depois começaram a aparecer familiares e amigos. Por uma questão económica, dediquei à parte da recuperação, tirando cursos, e ainda hoje tenho essa função.

fp. No último ano, lançaste o livro Ser Campeão no Ringue Como na Vida, um desejo teu muito antigo. Como nasceu a necessidade de escrever este livro?

FF. Actualmente com a internet, as pessoas vão buscar informação a qualquer lado. Há uns anos atrás não havia nada. Uma pessoa queria um par de luvas, e não tinha informação. A informação que eu tinha era de vídeos que eu mandava vir dos Estados Unidos ou de França, livros…era assim que eu adquiria os meus conhecimentos e tentava melhorar a minha aprendizagem. Senti necessidade na altura de fazer um livro.

Também era uma forma de mostrar o meu trabalho e a minha dinâmica, só que não havia ninguém que quisesse investir no livro, porque a modalidade não era muito conhecida. Passados 20 anos, surgiu essa oportunidade, e o livro está cá. Tem o meu percurso como atleta, quatro artigos médicos, componente técnica e condição física que dá para qualquer desporto, aconselhamento…Uma série de coisas que são importantes para o desenvolvimento da modalidade, e também tem o mundo do Sporting Clube de Portugal. Acho que é um livro bastante completo. Em futuras edições penso vir a desenvolver outros temas, e isso é o meu projecto e objectivo.

fp. Podemos afirmar que estamos perante um guia essencial para todos aqueles que queiram triunfar no kickboxing?

FF. É um manual que pode ajudar as pessoas a adquirirem mais conhecimentos de alguém que já passou determinado tipo de obstáculos, e pode ser útil para quem queira evoluir, não só no kickboxing, mas na prática desportiva.

fp. Como é que vês a actualidade do kickboxing em Portugal?

FF. Vejo que o kickboxing em Portugal tem outra estrutura, outra dinâmica, outras bases. A própria consciencialização de todos os intervenientes, desde atletas, treinadores, árbitros, dirigentes foi importante para mudar a ideia generalizada de que no kickboxing andam dois indivíduos ‘à porrada’, quando não é nada disso. A modalidade tem muitas componentes, não só desportivas, mas também éticas, mentais e espirituais.


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