21 Ago, 2017

Vicente Neto. “Eu me adaptei muito rápido ao futebol chinês e fui vivendo um ano de cada vez”

Romário IvoMarço 4, 201714min0

Vicente Neto. “Eu me adaptei muito rápido ao futebol chinês e fui vivendo um ano de cada vez”

Romário IvoMarço 4, 201714min0

No futebol moderno, a longevidade está cada vez mais a ser esquecida deixada no banco de reservas e substituída por aquilo que traz resultados de imediato. Só que, desafiando o impossível no continente asiático, um brasileiro de 37 anos, que alinha há 14 temporadas na China, contabiliza mais de 340 jogos no futebol chinês. Seu nome é Vicente De Paula Neto, um baiano arretado que já se tornou o jogador estrangeiro mais longevo dentro da história do futebol chinês. Abaixo você confere a entrevista exclusiva do Fair Play com o experiente jogador Vicente.

Perfil


Nome: Vicente de Paula Neto
Idade: 37 anos                                                                                                                                       Naturalidade: Salvador – Bahia
Principais títulos no futebol chinês: 1x Campeonato Chinês da Série B: 2004, 1x Chinese Super League Cup: 2005
Principais clubes: Caxias,  Wuhan Guanggu, Shanghai International / Inter Shanghai, Shanxi Baorong FC, Shanghai Shenhua, Wuhan Zall, Xinjiang Tianshan Leopard (2013 até o presente)


fp. Como você foi parar no futebol chinês em 2004? Porque você foi para o futebol chinês deixando o Brasil tão cedo e o que de fato te atraiu nessa decisão?

VN. Eu estava jogando no Caxias de Joinville, o campeonato catarinense de 2004, estava muito bem, sendo o artilheiro do campeonato, e com várias propostas para me transferir a algumas equipes da elite nacional. Aí despertou o interesse do Wuhan da China que fez uma oferta boa junto com meu empresário e eu resolvi junto com ele para aceitar a oferta. Não foi por causa só do dinheiro, mas também porque na época no Brasil o futebol estava vivendo um momento de dificuldades e muitos clubes não estavam arcando com seus compromissos. Isso pesou muito.

Vicente em ação pelo Wuhan FC. (Foto: Arquivo pessoal)

fpComo era o futebol chinês em 2004, os clubes adversários e o Wuhan seu primeiro clube no futebol chinês?

VN. Naquele momento, os clubes não tinham o poder de compra que têm hoje, havia poucos jogadores estrangeiros e a seleção chinesa tinha jogadores bons que eram estrelas em seus clubes. Hoje em dia, com o poder que a maioria dos clubes têm, eles podem comprar jogadores fantásticos, dos melhores times do mundo, mas os jogadores chineses precisam de acompanhar isso.

fp Em 2004 você chegou a China, você tinha o pensamento que o futebol chinês teria toda essa transformação e a evolução dos dias atuais?

VN. Não, realmente eu não imaginava isso. Eu imaginava sempre que a seleção da China iria ser uma potência na Ásia, que chegaria fácil à um Copa do Mundo, mas que os clubes chegariam a esse nível nos dias de hoje, isso realmente não passava pela minha cabeça.

fp Qual era o seu pensamento, na verdade, em 2004, permanecer por um ano ou se tornar esse jogador estrangeiro mais longevo dentro do futebol chinês?

VN. Meu pensamento era ficar dois anos e depois voltar para disputar a Serie A do Campeonato Brasileiro. Tive algumas propostas e recusei, não pela parte financeira, mas pela organização dos clubes, pois sabia que não cumpriam com o compromisso do pagamento em dias.

fp Como foi a sua adaptação ao futebol chinês no ano de 2004? Como é a vida hoje na China e como é a cidade onde você vive hoje com a sua família?

VN. Bom, a adaptação ao clube, aos jogadores e à forma de jogar foram rápidas porque tinha mais 2 brasileiros no elenco que me ajudaram muito (Da Costa e Will). Dois jogadores experientes pois o Acosta já estava no terceiro ano na China e o Will tinha jogado no Japão. Só na alimentação é que demorei a me adaptar e tive dificuldades nessa parte. Mas hoje em dia, a vida aqui na China mudou muito. Você pode ir no supermercado que encontra tudo. Antes era mais fechado e lembro que até desodorante era difícil de encontrar (risos). Hoje vivo em duas cidades (Wuhan e Urumqi) e são as duas bem diferentes. Wuhan é a minha segunda casa, a cidade que vivo por mas tempo, e Urumqi é uma cidade também muito boa, mas muito fria e por isso nosso time fica metade do tempo na primeira. Minha família sempre que pode vem me visitar. Minha mulher ama a China.

Foto: Weibo

fp. O que mudou fora do campo de futebol, da China de 2004 para 2017 na sua opinião? Pra você é necessário gastar todo esse dinheiro com atletas que atuam dentro da Europa para ajudar no desenvolvimento do futebol chinês?

VN. Na minha opinião, mudou muito. A economia chinesa, hoje, é mais aberta e tem muitos estrangeiros vivendo aqui. Isso muda muito o país. O futebol é só um pouco do que é a economia chinesa, na verdade eu acho que para os olhos do mundo que estão vendo o futebol chinês, eles têm que comprar o que tem de melhor. E é isso que eles estão fazendo. Se Messi, Neymar ou Cristiano Ronaldo não estão jogando na China foi por opção porque hoje os grandes clubes podem pagar por eles. Assim, porque não? No entanto, eu acho que não pode só pensar em comprar os melhores jogadores do mundo pois tem que fazer jogadores chineses para no futuro jogarem nos melhores clubes da Europa ou do Brasil e para fazerem uma seleção chinesa forte e competitiva.

fp. É notável a evolução dentro do futebol chinês, para quem acompanha, desde a China Amateur League (4ª divisão) até à Superliga da China, mas nem todos os clubes e a seleção estão a obter bons resultados. O que precisa ser feito para a China poder ‘dominar’ e se tornar a primeira força no continente asiático?

VN. Eu acho que ter uma divisão de base forte aqui na China é muito importante. Pensar mais nos jogadores jovens, para que possam jogar em grandes equipes da Europa e serem bem treinados desde cedo. Só assim a China poderá chegar a ser a primeira força da Ásia.

fp. O que a China de tão especial para que o Vicente continue, ano após ano, algumas vezes a mudar de casa e de clube dentro do país, mas mesmo assim sempre no futebol chinês?

VN. Eu me adaptei muito rápido ao futebol chinês e fiz muitos amigos aqui. Fui vivendo um ano de cada vez e apesar de estar jogando na China, sempre ouvi amigos meus, jogando em grandes clubes, dizendo para eu não voltar que o Brasil estava difícil. Alguns me diziam mesmo que quando perdiam um jogo, não podiam sair de casa… então tudo isso fez com que eu ficasse aqui até hoje, sem falar no tempo de férias que sempre tive: 2 meses em média. Tudo isso influenciou na minha decisão.

Vicente Neto em ação pelo Xinjiang. (Foto: chuansong.me)

fpQual foi a situação mais inusitada que você vivenciou na China?

VN. Uma vez estávamos em Beijing, em 2004, e pedimos para o tradutor escrever os endereços da praça celestial e o de volta para o hotel. Saímos do hotel, andamos uma quadra para pegar o táxi e aí o Will trocou os endereços. Mostrou para o taxista o endereço do hotel e ele estava apontando que era só a gente andar um pouco que chegava no hotel (risos). A gente sem entender, não saímos do táxi e brigamos com ele que era para ele levar a gente. Depois de muita insistência, ele nos levou de volta. Quando chegou na porta do hotel, a gente se deu conta que estava mostrando o endereço errado para o motorista. Aí pedimos desculpas (risos).

fpComo é o clube do Xinjiang Tianshan na China e como é a sua estrutura? E como tem sido a pré-temporada (que iniciou com a Copa Lunar do ano novo chinês)?

VN. O nosso time é bom, tem uma estrutura boa. Presidente, treinadores, diretores, jogadores, torcedores, todos formam uma grande família. Nossa pré-temporada foi boa esse ano pois ganhamos um torneio e ficamos em segundo em outro.

fpQual o objetivo do Xinjiang Tianshan Leopard na temporada? E quais são os projetos do clube para os próximos anos?

VN. O nosso objetivo esse ano é, a princípio, ficar bem colocado na liga. Esse é o nosso objetivo principal mas para os próximos anos eu tenho a certeza que o clube tem pretensões de subir à Super Liga e de assistir grandes jogos em nossa cidade.

fpComo você avalia sua passagem pelo Shanghai Shenhua? Pode se dizer que foi o seu auge dentro do futebol chinês?

VN. No Shanghai Shenhua eu atuei ao lado do colombiano Riascos, que jogou no Cruzeiro e no Vasco (risos), mas não posso dizer que foi meu auge, não. Posso dizer que foi o meu melhor clube que joguei aqui na China, um dos melhores do país, e foi inesquecível comemorar gols no estádio.

Foto: Asian News

fp. Qual é a diferença entre a primeira e a segunda divisão chinesa?

VN. Isso eu posso falar o seguinte: a primeira divisão tem mais qualidade, os estádios estão lotados quase todos os jogos e o futebol é mais técnico. Os times tem um elenco maior e melhor também. A segunda divisão é mais um pouco na correria, os jogos são mais truncados, porém os times são um pouco idênticos em relação à primeira, que tem 6 times que você sabe que vão brigar pelo título e pelas vagas da Liga dos Campeões asiática.

fp. Qual foi a temporada e o jogo mais especial para você dentro do futebol chinês? Quem você considera como o melhor técnico e o melhor estrangeiros com quais você trabalhou e atuou?

VN. A minha temporada inesquecível foi a de 2005 onde fomos campeões da Copa e fizemos um ano brilhante com a equipe. 2006, para mim, individualmente, foi uma temporada muito boa pois fui um dos artilheiros do campeonato e mais tarde convocado para o ‘jogo das estrelas’. Foi mais um jogo especial aqui. Me lembro como se fosse hoje. Foram vários jogadores que joguei, que formei dupla de ataque, e alguns treinadores que tenho muito respeito. Os jogadores foram Will em 2004, depois Gilson em 2005, que até hoje dizem que foi a melhor dupla de ataque que o clube já teve (risos). Depois Ronny e Sheidt em 2008, Riascos o colombiano, que foi o artilheiro também e por fim o Adiel ex-Santos em 2012. Foram muitos grandes jogadores que atuei junto. Já como treinadores tive Balzevic, José Carlos, Cheng Yao, Dong, Pei e Lee Jun, que estou com ele até hoje no Xinjiang.

fpQual a avaliação que você da sua carreira ao longo desses, você se sente realizado por tudo que fez dentro desses anos?

VN. Sim, eu me sinto realizado por tudo que fiz. Pelo meu recorde aqui na China e pelos títulos. Só uma coisa eu sinto falta esses anos aqui: nunca ter sido artilheiro de um campeonato. Se desse para voltar no tempo, eu me esforçaria mais para conseguir.

fpEstá a pensar num regresso ao Brasil, ou a estadia na China é algo que tem em mente ainda para as próximas temporadas?

VN. Estou pensando no regresso ao Brasil, sim. Penso em jogar só mais essa temporada e a princípio voltar para minha terra e para minha família. E só depois de descansar bastante vou pensar no que fazer depois de aposentado (risos).

fpQuais são os planos para o futuro na sua carreira, e seguir como treinador é um sonho?

VN. Por enquanto ainda não parei para pensar, mas a ideia de ser treinador, eu acho que essa eu não quero, apesar de já ter alguns convites nesse sentido.

fp. Você possui algum apelidos que você possui dentro do futebol chinês, e quem é o jogador chinês que você tem uma grande amizade dentro e fora de campo? Você já aprendeu o mandarim?  

VN. Aqui eu sou chamado pelo meu nome mesmo. Não tenho apelido. Me lembro que os torcedores do Shanghai Shenhua me chamavam de ‘Obama’, mas era só brincadeira (risos). Os meus melhores amigos aqui são ex-jogadores, que jogaram comigo, e que hoje são treinadores: Zheng Bin e Wang Wenhua. Tenho amizade estreita não só com eles mas com toda a família.

fpTem alguma mensagem final para os leitores do nosso site Fair Play?

VN. A mensagem que deixo é que fico muito feliz em participar na entrevista e poder contar com pormenor um pouco do futebol chinês. Para vocês, um grande abraço a todos. Vou acompanhar vocês do FairPlay.pt sempre.

Vicente, uma lenda do futebol chinês saudado ao final do jogo pela torcida ‘adversária’. (Foto: cnhubei.com)


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