21 Nov, 2017

António José Silva, “A prioridade da natação pura é a Final Olímpica em Tóquio2020”

João BastosFevereiro 8, 201716min0

António José Silva, “A prioridade da natação pura é a Final Olímpica em Tóquio2020”

João BastosFevereiro 8, 201716min0

O Fair Play entrevistou o Presidente da Federação Portuguesa de Natação. A iniciar o seu segundo ciclo olímpico à frente dos destinos da natação portuguesa, concomitante com a reeleição para o segundo mandato, António José Silva fez o balanço dos últimos 4 anos e prognosticou os próximos 4

fp: Professor António José Silva, ocupa o cargo de Presidente da FPN desde 2013 e foi reeleito o ano passado para levar a natação portuguesa até Tóquio 2020. Qual é o balanço que faz do mandato que passou e que expectativas guarda para o que agora começa?

AJS: Foram quatro anos (2013-2016) onde o objetivo definido no plano de ação de diminuir o fosso da nossa natação relativamente à elite mundial foi alcançado progressivamente. Os resultados são inequívocos. Nas águas abertas com as classificações obtidas nas etapas da taça do mundo FINA pelos nossos nadadores e respetivo apuramento olímpico da Vânia Neves.

Na natação sincronizada a participação assídua nos grandes eventos internacionais, campeonato Mundo Kazan e Europeus de londres, onde pela primeira vez na história da modalidade ultrapassamos a barreira mítica dos 70 pontos atestando a melhoria do índice técnico.

No polo aquático, com a participação na fase final dos campeonatos europa absolutos femininos em Belgrado com a melhor classificação de sempre com o 10.º lugar e a equipa masculina com o melhor ranking de sempre 17º.

Na natação pura, a par do aumento do número de nadadores integrados nas seleções nacionais, as medalhas nos europeus de piscina curta de 2013 e 2015 e mais recentemente a obtenção do lugar de pódio nos recentes campeonatos europa feito alcançado após 31 anos, pelo Alexis Santos, sem resultados de relevo e as classificações de meia-final nos JO Rio 2016 feito que não era alcançado há mais de 30 anos.

Estes resultados devem-se todos ao trabalho dos atletas, treinadores e clubes. Mas é justo reconhecer o papel progressivo que os diferentes programas da FPN têm, ao proporcionar as condições e o contexto de excelência para que eles surjam. Por vezes são pequenas coisas mas que fazem a diferença.

É assim que pretendemos continuar: proporcionar condições aos que querem, merecem e têm características de exceção para trilharem o caminho de excelência.

Continuaremos a aposta entre outros:

  1. Nos projetos de desenvolvimento desportivo, centros de formação desportiva cíclicos e regulares para promoção do talento;
  2. Na convergência, no âmbito da política desportiva nacional, entre clubes, associações e federação no apoio ao rendimento desportivo;
  3. No controlo e avaliação multidisciplinar do processo de treino e competição dos nossos atletas em formação e elite;
  4. Nos programas específicos de suporte aos atletas/seleções de alto rendimento desportivo com critérios de exigência na sua integração.
  5. Nos instrumentos e meios de apoio a treinadores e atletas de eleição para o resultado desportivo.

O objetivo é inequívoco, Tóquio 2020 com melhoria da classificação obtida no Rio 2016.

fp: Assumiu como objectivo deste quadriénio atingir os 100.000 praticantes federados. Segundo os números do IPDJ (actualizados a 2014) vamos nos 21.700. Como pensa quintuplicar o número de filiados em apenas 6 anos?

AJS: São públicos os dados publicados pela tutela, IPDJ, com o resumo de todos os indicadores métricos sobre o desempenho da FPN.

Fonte: IPDJ

A leitura é simples, o quadro é inequívoco e aponta para uma melhoria sustentada de todos os indicadores:

  1. De massificação da prática desportiva, não só do número de praticantes mas também de técnicos, árbitros e clubes;
  2. Democratização do acesso à prática por género (a participação feminina total tem apresentado uma considerável e interessante evolução);
  3. Melhoria gradual do posicionamento da FPN no “ranking” das federações desportivas (Score/Ranking) nos dois parâmetros de análise:
    1. Desenvolvimento da Prática Desportiva onde passamos de 16.º para 2.º lugar em 4 anos, entre 74 federações;
    2. Alto Rendimento e Seleções Nacionais, onde passamos do 13.º lugar para 6.º em 67 Federações, no ano de 2015. Ou seja, nos 4 anos do mandato da atual Direção.

Esta trajetória será para manter como resultado esperado, porque programado, da operacionalização do plano estratégico 2014-2024 alicerçado em dois programas básicos: Portugal a Nadar (crescimento dos indicadores de prática regular) e a “Política desportiva nacional/territorial/regional”.

Com base nestes indicadores que ações prioritárias para o próximo ciclo?

  1. Continuar a alargar o programa “Portugal a Nadar” a mais escolas de natação, com a necessária certificação de qualidade do ensino integrado das diferentes vertentes (Natação Sincronizada; Pólo Aquático; Natação Pura; Natação Adaptada). O objetivo é claro: alcançar a meta simbólica dos 100 000 Praticantes.
  2. Continuar a operacionalizar o programa “política desportiva nacional e territorial”, convergindo as estratégias de clubes, associações e federação em prole do desenvolvimento da atividade;
  3. Aplicação de medidas de prevenção do abandono desportivo e retenção em cada modalidade e a criação de condições para a transição em final de carreira de modalidade para modalidade
  4. Cadastrar nacionalmente e divulgar as instalações e espaços aquáticos, de acordo com as suas potencialidades para a prática, inclusive para os nadadores com deficiência, auxiliando a implementação de programas de desenvolvimento desportivo.

fp: Caso seja bem sucedido, a natação só será superada pelo futebol em número de praticantes. Que benefícios espera obter atingida essa meta?

AJS: A conclusão é incontornável: A Federação Portuguesa de Natação registou, nos últimos quatro anos, um crescimento exponencial em todos os indicadores métricos publicados pelo Instituto Português do Desporto e Juventude.

Os benefícios são decorrentes. 100.000 é um número mais que simbólico pois reflete uma realidade que consideramos fundamental para o incremento de todos os outros parâmetros do desenvolvimento da natação em Portugal: ter mais e melhor natação.

fp: A FPN pretende pôr “Portugal a Nadar”. Fale-nos no que consiste esse projecto.

AJS: O programa “Portugal a nadar” (PAN), é um dos programas que resultam do Plano Estratégico da FPN (2014-2024).

Este programa facilita o acesso a programas de prática, devidamente cadastrados, certificados e inclusivos; promove a massificação da prática que procura garantir, complementarmente à disponibilidade de infraestruturas devidamente registadas e cadastradas, a existência de programas diversificados e técnicos competentes para o ensino, com práticas aquáticas, devidamente certificadas, que visem diferentes públicos-alvo, desde bebés (ligação aos centros de saúde – saúde familiar), crianças em idade pré-escolar (ligação às câmaras municipais); crianças em idade escolar (ligação ao desporto escolar), até aos idosos, olhando também para as diferentes práticas que ocorrem nas piscinas paralelamente à prática das disciplinas.

Integrado no programa PORTUGAL A NADAR e, com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino e de reconhecer a qualidade do ensino já existente em várias Escolas de Natação (EN) portuguesas, a FPN desenvolveu um sistema no qual é implementado, aferido e monitorizado um sistema de ensino com caraterísticas adequadas ao bom e adequado desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem da natação que se pretende que envolva as suas várias vertentes: natação pura, polo aquático, natação sincronizada, natação adaptada.

Ainda neste âmbito da melhoria das condições de prática, implementamos neste processo parcerias com várias empresas para a implementação de serviços integrados de auditoria e proposta de implementação para certificação energética, multitécnica, desportiva, qualidade da água, qualidade do ar, sem custos adicionais no que se refere ao processo de auditoria.

Foto: FPN

fp: Apesar da natação ser um dos desportos mais parcimonioso entre géneros, as senhoras representam apenas 40% dos praticantes de natação e 25% no desporto português. Esta é uma questão sensível à FPN e sobre a qual há algum plano de acção específico?

AJS: A implantação do ‘Portugal a Nadar’ veio a reintroduzir uma variável corretiva destes indicadores na natação. Segundo os últimos números estatísticos, métricas do IPDJ, existem em Portugal um total de 52.354 de praticantes da natação dos quais 53,11% são do sexo feminino. Em competição existem cerca de 12293 praticantes dos quais apenas 42,01% são mulheres, no entanto dos 40061 praticantes das escolas de natação mais de metade são senhoras (56,51%), fazendo com que haja um “domínio” das senhoras no panorama nacional.

fp: E em relação à distribuição geográfica. A prática da natação, como tantas actividades, está circunscrita ao litoral? Ou hoje já existem mais e melhores infraestruturas por todo o país?

AJS: A natação está devidamente implantada a nível nacional. Temos atletas, clubes e associações em todo o território continental e insular. Continuaremos com a política iniciada há 4 anos de descentraliza a organização de competições do norte a sul, este a oeste e ilhas no âmbito do desígnio constitucional de continuidade territorial do País.

fp: Proponho-lhe um exercício. Diga-me a maior prioridade da FPN para: 1. natação pura, 2. águas abertas, 3. Pólo aquático, 4. natação sincronizada, 5. Masters e 6. natação adaptada.

  1. Natação pura: Final Olímpica em Tóquio 2020.
  2. Águas abertas: Apuramento masculino e feminino para a maratona Olímpica em Tóquio 2020.
  3. Pólo aquático: Apuramento da seleção absoluta masculina e feminina para a fase final do campeonato europeu de Pólo aquático de Barcelona 2018.
  4. Natação sincronizada: Aproximar da barreira dos 80 pontos no dueto Olímpico.
  5. Masters: Estabilização do quadro competitivo nacional quer quanto ao formato quer quanto ao conteúdo.
  6. Natação adaptada: Apostar no desenvolvimento desportivo e no desenvolvimento de escolas de natação adaptada em todo o território nacional e ilhas. No Alto Rendimento, presenças em finais dos Jogos Paralímpicos de Tóquio.

fp: Que balanço faz da participação da natação portuguesa nos Jogos Olímpicos do Rio?

AJS: Desde logo um aumento qualitativo na inclusão dos nadadores que participaram. É importante que em termos de balanço se refira o facto de terem obtido mínimos A de participação nos JO 3 nadadores e não apenas 1 como em Londres. Para além disso houve 8 nadadores que cumpriram os mínimos estabelecidos pela FPN embora 4 destes não tenham tido oportunidade de participar, o que não deixa de ser também uma evolução em relação à edição anterior. Depois é óbvio que o destaque fica com as 2 classificações dentro dos 16 primeiros, lugares de meia-final, obtidas pelo Alexis Santos que são um marco que não era atingido há mais de 30 anos pelo mítico nadador Português Alexandre Yokoshi.

Comitiva da natação portuguesa nos jogos olímpicos e paralímpicos | Foto: FPN

fp: E o que espera dos próximos mundiais em Budapeste?

AJS: Obtenção de mais classificações dentro dos 16 primeiros. É aliás o objetivo para todo o ciclo e conseguir nos mundiais é o melhor indicador possível.

fp: O Centro de Alto Rendimento de Rio Maior cumpre a sua 4ª época de desenvolvimento do grupo de elite da natação. Já se pode considerar uma aposta ganha?

AJS: Em termos de condições reunidas a aposta está ganha. Os Nadadores dispõem de tudo o que necessitam num raio de uma centena de metros – ginásio, piscina, escola (até ao 12.º ano), alojamento com condições excecionais, apoio médico, fisioterapia, nutricionista, psicólogo, acompanhamento técnico em todos os treinos com rácio de 1 treinador para cada 6 nadadores. Falta apenas integrar anualmente os melhores nadadores com condições e vontade para abraçarem de forma efetiva o Alto Rendimento desportivo. Como nota, em 9 nadadores referenciados na seleção sénior, elite e jovem, 5 estiveram em Rio Maior nos últimos 2 anos e 4 continuam lá.

fp: Ao longo da História, já tivemos vários nadadores de referência nos escalões de formação que não conseguiram “dar o salto” para o nível absoluto. Nos últimos anos prolongou-se mais um ano a chegada a sénior no escalão feminino e tem havido um enfoque na selecção sénior jovem. Actualmente temos um grupo de elite que continua a evoluir depois da chegada a sénior?

AJS: Os resultados falam por si. Temos nadadores a obterem as suas melhores marcas depois dos 20 anos de uma forma consistente. Veja-se o caso de Ana Monteiro, Miguel Nascimento, Vitoria Kaminskaya, Alexis Santos, Diogo Carvalho, Diana Durães e mais um conjunto significativo de nadadores. É a prova de que o mito de que a carreira dos nadadores termina quando chegam a sénior está cada vez mais próximo de ser esquecido. Para além disto devo realçar o facto de a federação ter apostado na criação de uma tabela de mínimos mais acessíveis para os nadadores dos primeiros anos de sénior o que permitiu alargar a participação nos campeonatos europeus do ano passado, aumentando assim a possibilidade de se afirmarem inequivocamente a nível internacional e serem merecedores do apoio por parte da FPN.

Nadadores da selecção nacional absoluta | Foto: FPN

fp: Acha que a natação precisa urgentemente de uma referência ao nível da Vanessa Fernandes no Triatlo, da Telma Monteiro no Judo ou do Carlos Lopes no atletismo?

AJS: Há algo de comum entre todos os atletas que foram referidos, uma dedicação absolutamente excecional à modalidade em que cada um se destacou. Ter uma referência como essas era com certeza algo que podia ser uma mais-valia em termos do nosso crescimento no alto rendimento. Contudo o máximo que se pode fazer é estar preparados para dar uma resposta efetiva caso essa sorte nos bata à porta. Sorte essa que convém dizer dá muito trabalho a alcançar. 

fp: Sobre a carta aberta do Treinador Miguel Frischknecht, veiculou na Circular 03-17 da FPN que a discussão “se fará nos momentos e locais apropriados, encerrando em absoluto este assunto”. Respeitando os procedimentos institucionais da FPN, permita-nos perguntar se o “local apropriado” é o Conselho de Disciplina?

AJS: Este assunto para a FPN está encerrado. O contraditório foi feito e o clube foi informado. A natação é muito mais importante do que estas questiúnculas que procuram criar.

fp: Por fim, fazemos-lhe a nossa pergunta de marca: Há Fair Play na natação?

AJS: Penso que sim. É uma modalidade na qual o espírito de partilha, solidariedade, amizade e superação são uma constante.

fp: Muito obrigado, Sr. Presidente. Para concluir, deixe uma mensagem aos nossos leitores e particularmente àqueles que estão a pensar iniciar-se na prática da natação.

AJS: Façam natação ou qualquer outro desporto por lazer, ocupação, saúde, competição e acima de tudo boa disposição.


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