20 Ago, 2017

Diogo Hasse Ferreira,“Somos uma geração com ambição”

Francisco IsaacNovembro 23, 201616min0

Diogo Hasse Ferreira,“Somos uma geração com ambição”

Francisco IsaacNovembro 23, 201616min0

Numa Europa com cada vez mais portugueses a conquistá-la, Diogo Hasse Ferreira partiu em direcção de Terras de Sua Majestade. Pilar formado no GDS Cascais, decidiu dar o salto para Inglaterra com 16 anos, estando, agora, nos Sale Sharks, uma das equipas da principal divisão de rugby inglesa. Fiquem a conhecer Diogo Hasse Ferreira

fpDiogo… Inglaterra, Selecção Nacional, muito aconteceu num espaço de meses. Como te sentes?

DHF. De um certo modo, concretizado. Por outro lado, nada está garantido… é tudo a meio termo. Estou envolvido com a selecção sénior, o que era um dos meus objectivos. Fui lá para fora para ser profissional, já entrei no “sistema”… mas ainda tenho de assegurar o meu lugar, ainda estou longe do objectivo final. Tenho uma grande ambição em conseguir atingir esse nível.

fpSentes saudades de Portugal? O que te fez ir para fora?

DHF. Sinto bastantes saudades… faz parte. Já tinha ido com 16 anos, na altura foi uma experiência nova, uma descoberta… estamos longe de tudo o que conhecemos. Mas agora estou a fazer aquilo que quero fazer. Quero ser profissional e uma das vantagens é que estava e estou apaixonado pelo desporto. Quero ser melhor a cada dia que passa. O balanço que posso fazer, até a este momento, é positivo.

fpConta-nos a tua experiência em Sale. Como te receberam?

DHF. Eu entrei para uma Escola secundária que estava liga à Academia deles de sub-18. Daí dei o salto para a Academia! Sempre fui bem tratado… da Academia para a equipa sénior só um punhado de jogadores é que conseguem um contrato profissional (na minha altura fomos quatro, já no seguinte só dois tiveram essa sorte)… em 30. Na altura consegui, depois de muita luta, vontade e coragem. Tive um grande apoio desde sempre, bem aceite e integrado. Eles sabem da minha ambição e dos meus objectivos. Não me posso queixar! Na Academia sénior dos Sharks, há uma vantagem: o plantel é menor que as restantes equipas do Aviva Premiership. O que possibilita treinarmos com os melhores durante toda a semana, como foi o meu caso quando estive ao lado do Mike Phillips. Passei o Verão a treinar com eles e é um excelente ambiente, ajudam-me com tudo.

fpTendo noção que o nível é largamente diferente, aonde sentiste mais dificuldades? E houve algo que os surpreendeu?

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Uma nova alcateia (Foto: João Peleteiro Fotografia)

DHF. Foi mais a intensidade… a maior diferença é de facto a intensidade, a velocidade de jogo/treino. Qualquer jogador queria e conseguia pôr o jogo andar mais rápido. No início tive dificuldades em “apanhá-los”… mas depois de muito trabalho consegui chegar ao que se pretendia. Repara que há muito talento em Portugal, há jogadores que teriam sorte lá mas falta-nos, talvez, mais compromisso, mais trabalho. Em termos tácticos não acho que estejamos muito atrás. Precisamos de mais tempo de treino. Em termos de surpreender, eles não esperavam um jogador português tão forte fisicamente, a nível do treino de força. Eles trabalharam muito nesse aspecto comigo para que conseguisse passar do “cru” para o “real”. A paixão que sentia pelo jogo, a forma como entrava em campo e lutava pelas oportunidades, a forma de estar… eles gostaram desses aspectos e seguiram-me sempre com atenção.

fpJá tiveste uma hipótese de ir ao plantel principal dos Sale Sharks?

DHF. Em termos de jogo ainda não. Tenho noção que vai ser difícil. Nos treinos, como disse, estamos sempre juntos. Especialmente na minha posição será difícil, para já, chegar lá. Eles têm noção que estou a acabar o curso. Mais cedo ou mais tarde, (espero que mais cedo) espero chegar ao plantel principal.

fpComo é a tua vida em Sale? As tuas rotinas, o teu dia-a-dia?

DHF. Em Sale é completamente diferente quando estou na Universidade (Ciências do Desporto em Durham). Nos Sharks é outra vida… podemos treinar 2ª e 3ª de manhã, com ginásio, treino individual e de equipa. Há uma refeição “comunal”, todos juntos. Depois temos tempo livre, que é usado para o que quisermos. Durante a época não há massacre físico, há outro planeamento, outras ideias. 4ª é dia livre, 5ª treino igual ao de 2ª. Na sexta-feira, normalmente, há um captains run que pode variar. E no fim-de-semana jogamos pelos clubes-satélites. Jogo pela Universidade (um acordo com essa unidade de ensino com os Sharks), um nível que se pode equiparar à 3ª divisão inglesa, com vários semiprofissionais. Entre os Sharks e os Durham são três horas de distância.

fpObjectivos para 2017?

DHF. Posso dizer desde já que como equipa da faculdade nós queremos ganhar a nossa liga (BUCS SuperLeague), tem uma visibilidade muito grande nos clubes profissionais. Costuma ser um foco de recrutamento. Com Portugal é complicado traçar… eu sou ambicioso e isto é um sonho… mas não quero estar a dizer que vou jogar na equipa principal, mas claro que gostava muito e vou agarrar a oportunidade se ela surgir, com todas as minhas forças. Quero fazer parte da equipa. Com os Sharks, em termos de jogos é complicado, mas vou jogando na A-League (parecido com a Challenge portuguesa). Quero conseguir a renovação de contrato, para na próxima época estar lá encima.

A Portuguese Shark (Foto: Facebook do Próprio)
A Portuguese Shark (Foto: Facebook do Próprio)

fpEm relação à Selecção Nacional… como tem sido a nova experiência?

DHF. Não estava à espera que o ambiente fosse tão bom… há sempre um nervosismo de ir treinar com os seniores. Não sabemos como vão correr as coisas, desconhecemos por completo quem são os colegas, etc. Mas tem sido excelente. Tenho gostado bastante, somos uma selecção nova, com focos de liderança mais experiente. Em termos físicos e de jogo, os nossos treinadores estão a trabalhar muito no rugby positivo. Quando fui ao estágio há umas semanas atrás não esperava estas ideias, fui surpreendido com tudo isto.

fpFoste um dos jogadores que deixou uma “marca” no Campeonato do Mundo de sub-20, “B”. És o mesmo jogador ou modificaste em alguma maneira?

DHF. É certo que modifiquei e vejo isso. Dois dos treinadores da selecção sénior destacaram isso: o Martim Aguiar e o o João Pedro Varela (há dois anos atrás meu treinador de então dos sub-20), que tem uma visão positiva do jogo, notou uma diferença em mim porque na altura não era um jogador tão activo, tão ritmado. Com a ida para os Sharks evolui muito, modifiquei-me, sou um jogador muito diferente. Se não houvesse uma evolução era mau sinal!

fpE como vês a nossa selecção? Achas que voltaremos ao convívio dos “grandes”?

DHF. Tudo a seu tempo, a ambição existe! Essa é a nossa ideia. Mas como jogador, não sou ninguém para definir os objectivos da federação. Temos de ser realistas, do onde estamos e para onde queremos ir.

fpA experiência e ideias novas que os jogadores que estão no estrangeiro trazem podem e devem ser importantes para Portugal?

DHF. Acho que sim, sinto que é verdade. Na formação ordenada trabalhamos mais e de forma diferente. Eu por exemplo aprendi novas técnicas, novas ideias. Na Selecção temos uma equipa técnica que sabem o que estão a fazer e têm tido atenção. A Formação Ordenada é um ponto fundamental do jogo de rugby, é daí que podes ganhar o jogo. Há vários exercícios e drills que me foram transmitindo que passam pelas rotinas de jogo. É preciso ter tempo para trabalhar tudo e em Portugal, por vezes, não há tanto tempo para trabalhar em todos os sectores. Estamos muito focados no jogo corrido. Na minha experiência em três épocas (esta é a 4ª) é de uma aprendizagem enorme, bastante maior que os meus colegas da mesma idade, que ficaram por cá.

fpAgora, indo um pouco ao teu passado… quando começaste a jogar? E porquê, já agora?

DHF. Comecei a jogar em 2008, em Cascais. Na altura foi por pura curiosidade, era um “rapaz grande”, e um dos meus colegas picou-me para ir experimentar a modalidade. Éramos leigos, achámos que lá por sermos grandes que iríamos logo fazer a diferença. Tentei vários desportos e nenhum me correu bem, verdadeiramente. Na altura estava parado, não fazia nenhuma modalidade. Em termos de recordações lembro-me quando era sub-12, quando entrei, e tínhamos torneios ao fim-de-semana… recordo-me de um dos primeiros, em que sabia pouco do que andava a fazer… era maior que a maioria dos meus colegas ou adversários, o que me ajudava a fazer a diferença. Por outro lado, tive vários colegas de equipa que me ajudaram bastante e foram-me dando a confiança. A melhor imagem que tenho do início é ter entrado com a bola e os meus colegas terem-se colado a mim e termos ido para a frente. Os valores do rugby apaixonaram-me logo, em Cascais estava bastante presente, fez-me apaixonar pelo desporto. Era um ambiente positivo, forte e apaixonado pelo rugby, pela equipa e clube. Fui ficando pelo compromisso, evoluí e fui aprendendo a jogar cada vez melhor.

A geração que precisamos (Foto: João Peleteiro Fotografia)
A geração que precisamos (Foto: João Peleteiro Fotografia)

fpSempre te viste como pilar ou gostavas de ter ido parar a outra posição?

DHF. Não sei sinceramente… fiz um torneio de sub-14 a nº8. Quando brincamos, digo sempre que gostava de jogar à ponta, por achar que sou rápido (risos). Mas, na realidade, não tenho grandes fantasias…gosto muito de ser pilar.

fpJogador que mais gostaste de jogar com até hoje?

DHF. Os Sharks fazem um uso da A-League como forma de pôr a jogar jogadores seniores que estiveram lesionados, alguns internacionais. Mas gosto de voltar atrás no tempo, gostava de voltar a jogar com os meus colegas do passado, que cresceram comigo. Podem nem ser muito conhecidos de rugby, há um ou dois que jogaram comigo nas selecções jovens que gostava de voltar a partilhar. O António Vidinha é um dos casos que está a jogar comigo na selecção (ainda não joguei mas treinamos juntos).

fpSentes saudades do teu GDS Cascais? O que achas que podem fazer esta temporada?

DHF. Tenho saudades do Cascais… é uma casa, é a minha “segunda” família, estão sempre de braços abertos. Fazem-me questão de mostrar isso todas as vezes que os encontro ou falo com eles. Até porque se jogasse em Portugal seria aí que estaria a jogar. Quando estou cá sigo-os, vou falando com um ou dois jogadores, mas não posso ter tanta atenção como gostava. Sei que as coisas estão a correr bem, há um novo burburinho dentro da equipa, há ambição.

fpGostarias de trabalhar com o Professor Tomaz Morais?

DHF. Gostava sim. É uma experiência única, porque é um treinador com muito valor, é um privilégio. Tive a oportunidade de trabalhar com ele em ocasiões esporádicas, quando ele ia ao Cascais. Tem um conhecimento amplo.

fpQue jogador te identificas mais no cenário internacional?

DHF. Dan Cole, dos Tigers da Selecção inglesa. É o tipo de pilar com que me identifico, é o tipo de jogo que é mais parecido com o meu. Gosto de o ver jogar. Aprendo sempre algo com os jogos dele. Tive a oportunidade de treinar com o Cipriani nos Sharks e de facto, ele trás um brilhantismo, skill ou conhecimento que muda por completo o jogo. Treina bem, joga melhor ainda, é um rugby que gosto de ver. O Tommy Taylor que está nos Wasps, que foi dos Sharks, era um jogador que me “ensinou” muito… uma capacidade de trabalho gigante, inspirava-nos a todos.

Welcome to Durham (Foto: Facebook do Próprio)
Welcome to Durham (Foto: Facebook do Próprio)

fpVês jogos internacionais?

DHF. Sim, sempre que posso ver o jogo dos Sharks vou. Não há qualquer despesa (risos), eles até fazem questão de estarmos nas bancadas.

fpVês-te a jogar noutro país?

DHF. Bem, em primeiro lugar estou aonde quero estar. Gosto muito de Inglaterra. Claro que gostava de ir parar ao Hemisfério Sul, mas tudo a seu tempo.

fpDe onde vem a força da vossa geração, que tem jogadores como o António Vidinha, do Vasco Ribeiro, Duarte Diniz ou tu?

DHF. Vem lá de cima… vem das lendas, dos mais velhos, sempre os admirámos. Queríamos ser iguais a eles. E para isso, tínhamos de trabalhar mais e melhor todos os dias. Fomos percebendo os sacrifícios que queríamos fazer mas não tínhamos intenções de parar… os nossos objectivos são outros! No Cascais, foi-nos incutido um sentido forte de trabalho e compromisso, havia uma ambição profunda no clube. Se eu quero ser Lobo tenho de trabalhar, tenho de dar o meu melhor, não posso “encostar-me”. É excelente ver que os jogadores da minha idade ou mais novos trabalham de uma forma impecável, pois queremos todos ser parte de algo que no futuro mude o rugby português.

fpPortugal num Mundial?

DHF. Sim, sem datas… mas sim acredito que sim. É preciso ser realista, claro… há argumentos para acreditar: o trabalho dos mais jovens, que tem vindo a ser cada vez mais, o talento que surgiu daí. A ambição que é um factor fulcral para o acreditar que é possível atingir. Temos todas as “ferramentas”, falta só a mentalidade e o querer, manter o nosso compromisso. Há todo um processo de reconstrução. Não podemos dar um passo maior que a perna.

Na altura que Diogo Hasse Ferreira disponibilizou-se para discutir temas e responder às nossas questões, ainda não tinha recebido notícia se iria ser  convocado para o jogo entre Portugal e Bélgica. Felizmente, para o grande pilar, Martim Aguiar e o restante staff técnico da Selecção, deram a merecida convocatória para fazer parte dos 23, conseguindo a sua primeira internacionalização aos 20 anos.

Um novo Lobo (Foto: João Peleteito Fotografia)
Um novo Lobo (Foto: João Peleteito Fotografia)


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