20 Ago, 2017

Clemente. “Se tivesse oportunidade de jogar na Primeira Liga, sei que iria fazer golos”

António Pereira RibeiroNovembro 8, 201611min0

Clemente. “Se tivesse oportunidade de jogar na Primeira Liga, sei que iria fazer golos”

António Pereira RibeiroNovembro 8, 201611min0

Quis o irónico destino que o melhor marcador da história do CD Santa Clara se chamasse Clemente, um homem que demonstra tudo menos clemência na hora de rematar à baliza. Em 2016/17, já leva oito golos, e apresenta-se como uma das principais figuras do bom arranque protagonizado pelo emblema açoriano na Ledman LigaPro. Conheça melhor a história deste icónico artilheiro, que vai muito para além do golo apontado ao FC Porto no Estádio do Jamor.

fp. Actuaste nas divisões inferiores até relativamente tarde. Como explicas isso? Poderias ter feito alguma coisa de maneira diferente?

C. Fiz a minha formação no Operário dos Açores, onde tive a oportunidade de aparecer no futebol sénior e onde fiz muitos golos, mas como estava nos Açores, era um pouco esquecido. Quando o treinador que estava lá (Jorge Portela) saiu, deu-me a mão. Fui para o Algarve e fiz uma época muito boa no Louletano, tive logo propostas da Primeira Liga de clubes como o Beira-mar, de Espanha também tive uma proposta do Salamanca. Infelizmente, no ano seguinte, parti a perna e estive quase um ano parado, com muita dificuldade em regressar. Depois de ter partido a perna, voltei aos golos, e apareceu uma proposta do Gondomar, da Segunda Liga.

fp. O que é que falhou em Gondomar?

C. Na altura, quando fui para o Gondomar, até cheguei a fazer alguns golos, mas não estava completamente recuperado. Em Janeiro pedi para ir embora, não me estava a adaptar, não estava a conseguir ser o jogador que era. Preferi dar um passo atrás. Acho que foi um momento-chave da minha carreira, quando fui para Chaves.

fp. Regressaste à II Divisão B, onde despontaste no GD Chaves. Que recordações guardas dessa feliz passagem, pontuada pela subida à Segunda Liga, sob o comando do técnico Leonardo Jardim?

C. Em meia época fiz oito golos, tivemos azar em não subir de divisão. No ano seguinte subimos de divisão e eu fui o melhor marcador. O Chaves estava longe das ligas profissionais, eu cheguei lá, e conseguimos subir, com o Leonardo Jardim, um dos melhores treinadores que apanhei na minha carreira, e uma pessoa importante no meu percurso.

fp. Era possível testemunhar o talento de Leonardo Jardim e antecipar o seu actual sucesso?

C. Agora é fácil dizer porque ele está no Mónaco, mas na altura, os meus colegas e eu reparávamos que ele era diferente. Um treinador que ia aos pormenores, muito exigente, amigo dos jogadores. Na primeira palestra disse que era o melhor treinador em Portugal. Nós ficámos ali a olhar para ele, que tinha vindo da Camacha, a dizer que era o melhor treinador de Portugal.

fp. 2009/10 acabou por ser uma temporada agridoce no GD Chaves. Três técnicos e uma descida de divisão, mas por outro lado, a final da Taça de Portugal, onde apontaste um golo.

C. É um exemplo que dou aos meus colegas, que no futebol tudo é possível. Na primeira volta estávamos em terceiro lugar, todos apontavam o Chaves para subir de divisão, e na segunda volta fizemos quatro pontos, e fomos à final da Taça de Portugal. Um ano conturbado do Chaves, com muitos problemas, as coisas a não correrem bem. Valeu pela final da Taça.

fp. Fala-nos sobre a caminhada do GD Chaves na Taça de Portugal.

C. A primeira eliminatória foi com o Leça, e o nosso treinador na altura era o Ricardo Formosinho. Ele pôs no balneário uma fotografia do Jamor, e os minutos que faltavam para lá chegarmos. As eliminatórias iam passando, e víamos que cada vez faltavam menos minutos. Conseguimos chegar, apesar do treinador não ter conseguido chegar ao fim, mas foi ele que começou. Foi um momento bonito para todos os transmontanos.

fp. Como é marcar no Estádio do Jamor, contra o FC Porto?

C. Foi o golo mais importante da minha carreira. No futebol, Deus não dorme, costumo dizer isso muitas vezes. Naquele dia, foi um pouco isso que aconteceu comigo. Nunca tinha sido suplente no Chaves, e naquele jogo o treinador tirou-me. Imagina, fiz as eliminatórias todas da Taça de Portugal, chega a final e não jogo. Fiquei triste. Ainda mais triste fiquei quando soube que o meu pai tinha comprado a passagem para ir ver o jogo. São momentos que marcam. O meu pai foi ter comigo antes do jogo, e a primeira coisa que lhe disse é que não ia jogar. Nesse jogo, fui o terceiro jogador a entrar. O Chaves estava a perder por 2-0, e eu quando estava a aquecer via toda a gente a entrar, e os minutos a passar. Pensei: tenho de fazer algo especial para ficar na memória do meu pai. O meu pai não pode vir aqui e não ver nada de importante. Quando entrei no campo nem quis saber se estava a jogar com o FC Porto, queria era deixar uma marca, e foi o que aconteceu. Fiz um golo, e podia ter feito o segundo.

fp. Desde então construíste uma carreira sólida na Segunda Liga, primeiro no UD Oliveirense…

C. No Oliveirense tive dois anos muito bons, onde quase que subíamos de divisão. Infelizmente não conseguimos, mas atingimos o recorde de chegar às meias-finais da Taça de Portugal. Um clube do qual gostei, trataram-me muito bem, mas depois apareceu uma proposta do Arouca que não podia recusar, para um projecto de subida.

fp. …e depois no FC Arouca, onde alcançaste a subida de divisão, com Vítor Oliveira. Como explicas o sucesso deste mítico treinador na Segunda Liga?

C. É um treinador que consegue manter o controlo emocional, e tem uma liderança muito forte. Ao contrário de muitos treinadores, quando a equipa perde, ele dá moral aos jogadores. A subida foi difícil, mas tínhamos uma equipa muito boa, e ele sem dúvida que é o obreiro dessa subida, ele é que escolheu a equipa e fez um trabalho fantástico.

fp. O que é que aconteceu para não teres transitado para o plantel primodivisionário?

C. Na altura, o Vítor Oliveira saiu. Tínhamos três pontas-de-lança, o Joeano, o Roberto e eu. O Pedro Emanuel entrou no clube, e foi correcto comigo. Disse que não contava comigo, e ficou com o jogador que tinha mais margem de progressão, o Roberto. Respeitei a decisão dele e continuei a minha caminhada.

fp. Nunca surgiram propostas interessantes para jogares na Primeira Liga? Ainda consideras a hipótese de experimentar?

C. Os meus colegas e treinadores perguntam-me como é que eu nunca joguei na Primeira Liga, porque vinham muitos jogadores da Primeira Liga para as equipas onde estava, e era eu que jogava. Uma vez, um presidente de outro clube veio falar comigo depois de um jogo da Taça de Portugal, dizendo-me que estava a contar comigo para a próxima temporada. Depois acabou a época e foram buscar um avançado que tinha feito três golos, quando eu tinha feito pelo menos sete. São essas coisas que, por vezes, não consigo compreender no futebol. Não tenho dúvidas que as balizas são iguais na Primeira, na Segunda ou na Terceira Divisão. Se tivesse oportunidade de jogar na Primeira Liga, sei que iria fazer golos, porque quando joguei contra equipas da Primeira Liga na Taça de Portugal, sempre os fiz. Infelizmente, as pessoas não me deram essa oportunidade. Nunca deixei de pensar jogar na Primeira Liga. Sei que é difícil, e que ninguém me vem buscar agora. Eles olham para mim, vêem que tenho 33 anos, e não me vêm buscar agora. Em Portugal, torna-se difícil quando ganhas um rótulo. A mim colocaram-me o rótulo de jogador de Segunda Liga, e de lá não devo sair.

fp. No CD Santa Clara, as tuas estatísticas têm sido superiores do que em qualquer outro clube. Sagraste-te inclusivamente o melhor marcador da história do clube, ultrapassando Brandão. Será isto resultado do conforto de jogar nos Açores, tua terra natal?

C. Também pode ser isso. Já cheguei ao Santa Clara um pouco tarde, aos 31 anos. A minha família esteve privada de me ver jogar durante dez anos, e eu procuro compensar esse tempo que estive fora. A motivação e a confiança vêm daí. Tento fazer bons campeonatos, apesar das classificações do clube não terem sido as melhores. Este ano começámos bem, embora eu mantenha sempre a mesma média de golos.

fp. Sentes-te bem fisicamente?

C. Sim, sem dúvida nenhuma. Sempre me tratei bem, treino nos limites. Quem me vê jogar sabe que eu não me poupo, e dou sempre o máximo pelo clube.

fp. Na presente temporada, depois de um excelente arranque na Segunda Liga, o CD Santa Clara já conheceu três treinadores em catorze jornadas. Como é que o plantel tem reagido a estas mudanças no comando técnico?

C. Começámos muito bem. Entraram três ou quatro jogadores novos, mas que já conheciam os Açores, e isso torna as coisas mais fáceis. Se déssemos continuidade ao trabalho com as pessoas que estavam cá, seria mais fácil, mas os jogadores têm tido confiança. Temos tido infelicidade nalguns jogos, e as coisas não correram sempre como queremos. Vamos tentar dar a volta à situação, estamos a três pontos do segundo lugar. Já fomos a campos difíceis, e acho que vamos ganhar muito mais jogos do que aqueles que vamos perder. Temos um bom plantel, e o treinador vai dar continuidade ao trabalho que tem sido feito. A equipa tem qualidade, e as equipas com qualidade ganham mais vezes.

Um dos próximos desafios de Clemente e do CD Santa Clara é uma viagem até Braga, para nova eliminatória da Taça de Portugal, onde o ponta-de-lança açoriano fará certamente tudo por colocar a bola no fundo das redes.


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