23 Nov, 2017

Cândido Costa, “Os adeptos são a alma dos clubes, são eles que alimentam o fenómeno”

Francisco IsaacJaneiro 17, 201711min0

Cândido Costa, “Os adeptos são a alma dos clubes, são eles que alimentam o fenómeno”

Francisco IsaacJaneiro 17, 201711min0

Cândido Costa, antigo jogador do FC Porto, CF “Os Belenenses” e SC Braga, é agora treinador da Ovarense (femininos) e comentador do Porto Canal. Uma conversa sobre transições, mudanças, histórias do passado recente e de palavras motivadoras do antigo extremo português. Uma entrevista do Fair Play

fpCândido Costa… ao fim de tantos anos de ligação ao Porto como clube e, principalmente, cidade ainda tem o mesmo sabor quando gritas golo?

CC. Tem o mesmo sabor de sempre. Ter representado o clube enquanto atleta e agora estar ligado à comunicação do mesmo não faz de mim mais nem menos Portista que ninguém. Entendo e sinto-o como um privilégio. Privilégio que procuro levar com muita responsabilidade e profissionalismo.
Um golo, um cesto ou uma vitória é sempre um momento único para mim!

fp:O que significou para ti fazer parte da História do Futebol Clube do Porto?

CC. Sinto um enorme orgulho. Contido, porque não sou vaidoso ou presunçoso.
Digamos que agradeço a oportunidade que o clube me deu, consciente que ter jogado com a maravilhosa equipa de 2003 ajudou a ficar na História.

fp:Sente saudades de pisar os “relvados” ou essa fome foi canalizada para a carreira como comentador?

CC. Sinto saudade da pressão/adrenalina que o futebol me provocava enquanto profissional. A linha ténue do elogio e crítica negativa acaba por te viciar. Tenho saudades de me expor fisicamente, de me sentir exausto. Não tenho saudades dos meandros, da gente mal formada, guiada somente pelo poder monetário que ocupam cargos sem competência nenhuma. Refiro-me a competência para o futebol, gerir uma equipa não é o mesmo que ter uma empresa com um bom produto que vende muito e te torna rico.

Comentador e jogador são coisas muito distintas. Pressões diferentes, energias diferentes. Sofro mais como comentador, quero muito que o Porto jogue bem e ganhe.

fp:Foi difícil a transição de carreiras? Tem algum conselho a dar aos seus colegas que estão em vias de se retirarem?

CC. É difícil a transição porque acaba o bom/razoável/excelente  ordenado que ganhamos enquanto futebolistas, acaba o “para si temos sempre mesa sr Cândido”. Eu estava preparado, nunca me iludi. Sabia que chegaria o momento de o cabelo escassear, o(S) kilo(S) a mais aparecerem e naturalmente a vida seguir. Fui acabar os meus estudos no IEFP, tirei o 12-ano, leio muito e converso também. Há muito que tenho consciência que não sou o melhor em tudo, provavelmente não sou o melhor em nada. Gosto de apreender e gosto de ouvir, também, os outros. É mais difícil escutar do que falar! Não tenho conselhos, talvez: não deixem que notem que choram, não deixem de acreditar. Eu acredito!

Cândido Costa na Era Mourinho (Foto: Facebook do Próprio)

fp:É mais complicado marcar um golo ou comentar um jogo de futebol?

CC. Marcar um golo! Marquei pouco e comento muito( tempo).
Difícil é esvaziar o tanque, dar o corpo às balas. Maioria dos comentadores não comenta futebol, comenta ditos e não ditos!

fp:Regressando ao passado, recordas-te do primeiro jogo na Primeira Liga?

CC. Penso que sim… Salgueiros-Farense?!?

fp:
Em 1999/2000 tudo correu-lhe de feição: campeão Europeu de sub-18, estreia na liga e transferência para o FC Porto… foi resultado de muito trabalho, talento ou sorte? Ou um pouco dos três?

CC. Desses três factores e dos meus Pais. Educaram-me muitíssimo bem e o meu Pai treinava-me todos os dias. Eu era extremamente dedicado ao meu sonho, treinava como um animal e tinha fome de bola. Com esse início de carreira, a verdade é que a restante parece pouco. E é. Tinha potencial e foi-me aberta as portas para uma carreira melhor. Tudo minha responsabilidade.

fp:Vê alguma parecença ou características semelhantes neste FC Porto de Nuno Espírito de Santo com aquela equipa de 2002/2003?

CC. Honestamente não. Até acho um pouco injusto colocar as coisas assim. Este é um grupo jovem, talentoso e à procura do seu lugar na história. Na altura essa equipa era uma mescla de jogadores com anos e anos de casa, juventude, jogadores tarimbados na primeira liga. Agora, acredito muito nesta equipa e acho que pode até vir a ser superior.

fp:O que faltou para ficar naquela equipa de José Mourinho? Se pudesse voltar atrás faria alguma coisa de diferente?

CC. Só me faltou saber esperar, ter calma. Estava a jogar pouco e por força disso a perder espaço na seleção Nacional. Isso aliado a conselhos menos bons acabei por pedir para ser emprestado e competir mais. O Mourinho nem queria acreditar. É a vida, são escolhas, aprendizagens que irremediavelmente tens que passar por elas.

fp:Sente saudades da “aventura” no Derby County?

CC. Joguei a época toda e bem. O problema é que o Del Neri não estava a ver. No final da época o Mourinho sai e vem um treinador novo, quem é o Cândido? Terá sido a primeira pergunta quando abriu o meu “processo”. Inglaterra, futebolisticamente falando é uma realidade aparte, não falta nada.

fp:Como última pergunta sobre o seu percurso enquanto jogador, vamos ao Belenenses. Tem noção que ainda é relembrado como um dos grandes jogadores e símbolos do clube no século XXI?

CC. O Belenenses é um grande clube, grande mesmo. Óptimas condições de treino, sócios e adeptos poucos mas bons, sempre presentes. Leais. É um clube que te sentes craque, pela sua história e grandeza, pela sua localização, por haver Belenenses em todo o Mundo. Enriquece-me ter contribuído para o sucesso recente do clube. Também estive no ano da descida. No fundo, passei por tudo e nunca me falharam. Fiéis e leais, no futebol isso é ouro!

Com a Cruz de Cristo ao Peito (Foto: Alvaro Isidoro/CITYFILES)

fp:Pode-nos falar da experiência como treinador de uma equipa feminina? Quais foram, até este momento, os maiores desafios?

CC. Estou na segunda época à frente das Juniores e Seniores da Ovarense. Pelas funções que ocupo no Porto Canal não me deixa muito tempo e disponibilidade para assumir um projecto profissional, tenho recusado algumas situações. Mas a verdade é que tem sido uma aventura fantástica e carnavalesca. As mulheres são fantásticas, legitimidade é a palavra que mais ocorre para descrever a “jogadora”. São puras no treino, apaixonadas. Não desistem. Talvez a maior dificuldade para mim é gerir socialmente 32 atletas de idades díspares. Tenho meninas de 12 e mulheres de 30, treinam todas juntas e isso leva a um cuidado em várias vertentes. Comportamentos distintos e liderança também diferente. Depois desta experiência o balneário do Real Madrid é canja (risos)

fp:Sentes que o futebol feminino tem o destaque necessário ou ainda há algum tipo de preconceito?

CC. Tem havido mudanças positivas e a tentativa de melhorar o futebol feminino. Creio que este feito da nossa seleção ajuda e ajudará a “lavar” algumas mentes mesquinhas. Mulher é guerreira, capaz de tudo. Até de chorar. Tudo. São abordagens diferentes ao jogo é certo, menos físico e intenso. Mas quem disse que isso é defeito? Eu acredito nas “meninas” e seja o que for o meu futuro, elas já ganharam o meu respeito e admiração. Todas, não só as minhas. As melhores que as minhas e aquelas que perdem connosco e mantém a vontade e crença intactas. A Federação e todos os seus departamentos têm feito muito bem as coisas. Como exemplo positivo gostava de realçar a AFATV, projecto da Associação Futebol de Aveiro, tem sido um exemplo e pioneiro na forma como promove o seu produto/clubes.

fp:A Ovarense está a realizar um excelente campeonato na Série C, com zero derrotas em 9 jogos. Algum segredo dos velhos tempos?

CC. Nada. Só trabalho e talento das miúdas. Só profissionalizei os recursos humanos. Aumentei a intensidade de treino e a predisposição para “sangrar”, saber sofrer. Herdei uma equipa de miúdas muito boas jogadoras. Quando partir, quem chegar pode e deve querer fazer melhor.

fp:Naqueles momentos mais difíceis, o que dizes às tuas atletas?

CC. Lidero com sentimento. Não confundir com moleza ou ligeireza. Para mim tenho que estar conectado às atletas, tiro a camisola e entrego-me, tem que vir da alma. Ninguém decide sujeitar-se a magoar-se só porque o treinador está aos gritos. Tu sujeitas-te se acreditares, se sentires. Liderança ditatorial não é para mim. Treino no máximo sem tangas, até ao cone é até ao cone. Mas isso não te impede de dar um bom-dia com um sorriso e abraçares um/a jogador/a. Nos momentos difíceis digo o que me vai na alma, recorro aos sacrifícios que fazem, elas e os pais delas.

No meio dos comandos (Foto: Facebook do Próprio)

fp:Tu foste jogador do Fernando Santos… há algo que nos possas dizer que explique este sucesso no Campeonato da Europa em 2016?

CC. A resposta que dei na pergunta acima podia ser para esta. Fernando Santos antes de ser um extraordinário treinador é um homem extraordinário. Por isso faz coisas extraordinárias.
Lidera com exigência mas com espaço para o contraditório. Não te mente. Diz-te a verdade. Isso é coragem e carácter.

fp:Tens algum sonho que gostavas de completar nos próximos tempos? E objectivo para 2017?

CC. Continuar a ser responsável e apaixonado em tudo o que faço. Ser bom Pai. Chegar ao final de 2017 mais rico enquanto ser humano. Gostava de continuar a minha formação.

fp:Gostavas de um dia regressar ao FC Porto como treinador?

CC. Se chegar o momento de contribuir para o sucesso do clube, o cargo é o menos importante. O Porto é muito grande, com gente extremamente competente. Nunca chegaria ao Porto para ensinar, muito mais para apreender. Sempre disponível para o meu clube como naturalmente qualquer adepto.

fp:Queres deixar uma mensagem aos adeptos da Ovarense, do FC Porto e do Fair Play?

CC. Sim, mas a todos os outros também. Dou muito mais valor ao adepto agora que me transformei também somente em adepto. De facto, os adeptos são a alma dos clubes, são eles que alimentam o fenómeno. Sou apologista que o adepto comum devia ter mais direitos e conhecimento da vida dos seus clubes. Sem adeptos o futebol era uma estupidez. Um abraço a todos e obrigado pelo convite para esta entrevista.

A nova equipa do Porto (Foto: Facebook do Próprio)


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