23 Out, 2017

Angélica André. “Por vezes não existe fair play nas águas abertas, mas muita porrada (risos)”

Rodrigo ZaccaMaio 9, 20178min0

Angélica André. “Por vezes não existe fair play nas águas abertas, mas muita porrada (risos)”

Rodrigo ZaccaMaio 9, 20178min0

Na segunda entrevista da série com nadadores de águas abertas convidamos Angélica André (Clube Fluvial Portuense), que é treinada pelo Técnico Rui Borges. Ela teve um bate papo com Rodrigo Zacca, nosso colunista de águas abertas, e contou um pouco sobre seu passado, presente e futuro no desporto.

 fp: Angélica, como surgiu o teu interesse pela vertente de águas abertas?

AA. No início tinha muito medo das águas abertas, tanto que acabei por desistir das duas primeiras provas que fiz, entretanto tive a oportunidade de nadar a prova aberta em Setúbal de 2km, onde no aquecimento o Rui teve que entrar comigo dentro de água, tamanho era o medo. Essa prova correu bem, ganhei com uma grande vantagem e por aí é que começou a surgir a ideia de fazer provas de águas abertas.

 fp: E qual foi a competição que mais te marcou até hoje?

AA. O Europeu de 2016 na Holanda, pois depois de Setúbal eu queria mostrar a mim mesma que era capaz de fazer novamente uma boa prova.

 fp: Fizemos a mesma pergunta à Vânia. Qual é a importância de teres como tua companheira de treino a tua maior adversária em Portugal?

AA. É sempre ótimo ajudamos-nos uma à outra, e conseguimos elevar o nível do treino.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Ao contrário da piscina onde o ambiente é controlado, muitos são os fatores (como por exemplo, temperatura, correntes marítimas, etc.) que tornam cada prova de águas abertas única e muitas vezes imprevisível. Nesse sentido, como é a tua preparação nas semanas que antecedem cada prova? Estudas as características do local da prova e procuras saber detalhes sobre as adversárias?

AA. Esta é uma questão que eu estou pensando em melhorar, pois realmente é muito importante. Eu não tenho por hábito estudar pré prova com tantos detalhes, mas costumo ver o clima, ondas, temperatura da água… tenho que trabalhar mais neste sentido.

 fp: Setúbal 2016, quais as lições que ficam?

AA. Setúbal era completamente diferente de todas as provas que fizemos. Mentalizei muito o final da prova e não no percurso todo. A lição que tiro desta prova é manter o foco do início ao fim, mas principalmente ouvir o treinador.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Qual era a tua estratégia de prova para esta qualificação? O que funcionou e o que não funcionou?

AA. Eu pensei em ir para a frente e depois ficar no grupo e no final tentar um lugar para garantir a qualificação. O que funcionou foi o pré prova, pois até Setúbal eu tinha muita dificuldade em alimentar-me e isto correu muito bem. O que não funcionou foi a prova em si.

 fp: A pouco mais de dois meses para o Mundial da Hungria, como avalias a tua preparação até agora?

AA. Na parte física, os treinos estão a correr muito bem. Na parte mental, falta mais experiência competitiva. As provas até o mundial servirão para afinar isso.

 fp: E quais são os teus objectivos para este mundial?

AA. Ainda não delineamos os objetivos, pois ainda dependemos da definição das nossas adversárias.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Quais os principais aspetos que precisam ser ajustados na tua preparação para Tokyo2020?

AA. Esta época iniciou de uma forma diferente, tive vários fatores que me limitaram nos treinos (lesões, etc.). O ciclo até setúbal foi muito produtivo, pois tive a oportunidade de realizar diversos estágios, nomeadamente EUA, Itália e Serra Nevada e evoluí muito fisicamente. Era nítido durante as séries na piscina.

 fp: Vou ser direto, consegues dedicar-te aos treinos para Tokyo2020 com tranquilidade do ponto de vista financeiro? Tens algum apoio ou patrocínio?

AA. Tranquila nunca estou, pois nem sempre posso contar com apoio da família. Tenho bolsa atleta da federação que dura apenas um ano, mas tentarei renovar no mundial com uma boa classificação. Sou muito grata ao apoio de todos que seguem comigo, o Dr. Jaime Milheiro da CMEP, que me dá todo suporte nas questões multidisciplinares, a AQUALOJA que me tem fornecido material de treino e a ESCOLA EDUARDO CIRÍLIO MÉTODO DEROSE que me tem me ajudado muito a aprimorar a minha concentração, foco e mentalização.

 fp: Como vês o desenvolvimento das águas abertas em Portugal?

AA. Acho que está a evoluir. Tivemos marcas muito boas no último indoor… Já aparece um número maior de nadadores e nadadoras, muito evoluídos tecnicamente. Mas será possível verificar isso mesmo na próxima competição já este mês.

 fp: Há cada vez mais jovens nadadores a optar pela variante de águas abertas. És sem dúvida uma referência dentro e fora d’água para estes jovens. Como vês isso?

AA. Eu tento fazer o meu melhor. No ano passado não faltei uma única vez aos treinos. Raramente saio à noite. Acredito que aqueles que treinam comigo diariamente veem em mim uma boa referência.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Que conselhos darias para os nadadores de piscina que se querem iniciar nas águas abertas?

AA. Eu sugiro experimentar as provas mais curtas e informarem-se com a organização da prova e conversarem com seus treinadores. Existem muitas em Lisboa e Algarve.

 fp: Quem são os nadadores e nadadoras de futuro das águas abertas em Portugal?

AA. Talentos existem muitos, mas ainda estão a optar pela natação pura. 

 fp: Há Fair Play nas águas abertas?

AA. Por vezes não existe fair play nas águas abertas, mas muita porrada (risos). A maior parte das nadadoras tem fair play. Nas águas abertas somos todos muito mais simpáticos, talvez por ser um grupo mais restrito, todos se conhecem. Em Portugal somos uma família, e mesmo lá fora nos damos todos muito bem, até entrarmos na água.

Foto: Arquivo Pessoal

Muito obrigado Angélica André e votos de sucesso para o futuro!

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