20 Out, 2017

Alexis Santos. “O objectivo para o Mundial é estar no meu melhor”

João BastosAbril 4, 201716min0

Alexis Santos. “O objectivo para o Mundial é estar no meu melhor”

João BastosAbril 4, 201716min0

Durante os nacionais de Coimbra, no intervalo entre um record e outro, o Fair Play conseguiu conversar com Alexis Santos. O semi-finalista olímpico e medalha de bronze nos campeonatos da Europa do ano passado revelou os seus planos para o futuro e os seus constrangimentos no presente

fp: Alexis, obrigado por nos concederes esta entrevista. Começava por satisfazer uma curiosidade. Quando estás com o equipamento do Sporting vestido, confundem-te com o Bryan Ruiz?

AS. [Risos] Confundir não confundem, mas de vez em quando oiço essa comparação.

fp: 2016 foi um ano perfeito para ti. Pódio nos Europeus, meia-final nos JO. Se tiveres de escolher só um ponto alto da tua época, qual deles é?

AS. É difícil de escolher, foram os dois muito marcantes. Os Jogos Olímpicos são sempre os Jogos Olímpicos e sinto-me privilegiado de ter podido nadar na sessão de finais e isso é algo único. Mas no currículo o que fica são as medalhas e ter sido bronze nos Europeus de Piscina Longa de Londres foi muito importante.

Por isso, sinceramente não sei responder a essa pergunta. Ambos foram momentos muito marcantes na minha carreira.

O que sei é que um ajudou o outro. Ter sido medalhado no campeonato da Europa deu-me um “boost” de confiança para os Jogos Olímpicos porque me mostrou que estava no caminho certo.

Nunca vamos saber se eu teria conseguido a meia final se não tivesse subido ao pódio em Londres, mas acredito que os Europeus foram fundamentais para o desempenho nos JO.

fp: Estavas à espera de tanto?

AS. Se me dissessem antes que seria medalhado no campeonato da Europa e semi-finalista dos JO, talvez acreditasse mais na segunda hipótese.

No campeonato da Europa nem fui com o objectivo de pódio, mas à medida que os campeonatos se foram desenrolando, percebi que a medalha estava ao meu alcance.

Em termos de tempos, os objectivos eram aqueles ou melhores. Eu gosto de ter os meus objectivos bem definidos e as marcas que queria fazer eram aquelas ou melhores.

Em termos de classificações, foi um ano perfeito. Não podia pedir mais!

fp: Os horários tardios do Rio não te permitiram estabelecer novo record nacional aos 200 estilos?

AS. Não quero arranjar desculpas, mas basta ver que tirando os 3/4 primeiros de cada prova, toda a gente nadou melhor nas eliminatórias. Por exemplo, nos 200 estilos, nomes consagrados como o Ryan Lochte e o Thiago Pereira ficaram aquém do seu melhor.

Eu nadei à meia noite. Eram exactamente 0:00 horas quando eu terminei a minha prova de 200 metros estilos.

Para além disso, chegamos ao Rio apenas 5 dias antes da prova. Cá fizemos uma mini adaptação aos horários em que iríamos competir, mas lá deveríamos ter tido mais tempo de adaptação.

Nadar 5 horas depois de escurecer era complicado. O horário da manhã era o ideal. Nem precisava de despertador, acordava por mim e fazia as coisas com naturalidade. Mas depois, mesmo com 4 ou 5 cafés – e eu nem bebo café – conseguia estar devidamente preparado para nadar uma meia final de uns Jogos Olímpicos à meia noite.

Mas estávamos todos nas mesmas condições e consegui fazer 12º lugar, o que foi excelente. Por isso, não é desculpa porque não há nada para desculpar quando consegui ser o 12º melhor do mundo.

Alexis Santos no estágio de adaptação aos horários do Rio | Foto: FPN

fp: O facto de ter sido a tua estreia olímpica, criou-te alguma ansiedade?

AS. Obviamente que os Jogos Olímpicos são uma prova única, mas o facto de eu já ter participado noutras provas, como o Festival Olímpico da Juventude Europeia, que é uma prova quase igual mas com atletas da mesma idade, Campeonatos da Europa, Campeonatos do Mundo, etc…eu já estava acostumado àquele ambiente e sempre que pensei na minha estreia olímpica, pensei que ia ser assim.

Realmente o Festival Olímpico da Juventude Europeia preparou-me bem porque eu já sabia que ia ser um evento universal, onde ia estar toda a gente na sua melhor forma, e onde a pressão para obter bons resultados seria enorme.

A minha única preocupação era saber que no dia da prova teria feito tudo para estar nas melhores condições, desde a minha preparação até ao descanso, à alimentação, a todos os pormenores que me permitissem estar no meu melhor.

As pessoas que apareceram na câmara de chamadas foram as mesmas que apareceram nos mundiais e nos europeus. Não apareceu o Usain Bolt, se aparecesse eu ficava mais preocupado, não fosse ele a correr por cima da água [risos].

As pessoas eram as mesmas e quando se entra na piscina, esquece-se que são os Jogos Olímpicos e procura-se fazer o que se faz em todas as provas que é dar o melhor.

fp: Sendo no Brasil, a delegação portuguesa sentiu-se mais em casa?

AS. Isso foi uma grande ajuda. O povo brasileiro foi impecável, sempre que percebiam que éramos portugueses incentivavam-nos e disponibilizavam-se para nos ajudar em qualquer coisa que precisássemos.

fp: Para este ano, quais são as expectativas para o Mundial?

AS. O objectivo é continuar a melhorar as minhas marcas. Não vale a pena estar a definir finais ou meias finais como objectivos porque se eu chegar lá, fizer a minha melhor marca, mas ficar de fora da final, fico contente na mesma.

O objectivo é sempre estar no meu melhor, mas esse também é o objectivo dos adversários. Não posso avaliar o meu desempenho pela melhoria deles, mas sim pela minha. 

E mesmo fazendo as minhas melhores marcas nos mundiais, na competição seguinte o objectivo vai ser melhorar essas marcas, pois assim aumento as minhas hipóteses de ser presença assídua em finais de grandes competições.

Não quero ser irrealista e dizer que o objectivo para o mundial é estar na final, mas sei que se lá chegar e fizer o meu record pessoal, a probabilidade de isso acontecer é muito grande.

Após bater o record nacional dos 200 estilos nos nacionais de Coimbra | Foto: Luís Filipe Nunes

fp: Sendo assim já sei a resposta à próxima pergunta, mas tenho de a fazer: já tens os teus objectivos traçados para Tóquio?

AS. Obviamente que os meus planos para estes 4 anos passam por fazer tudo para estar em Tóquio. Uma vez lá, o objectivo é sempre fazer melhor que a última prestação.

Mas tenho de pensar ano a ano, prova a prova. Agora estou focado nos nacionais, depois terei um período de descanso e focar-me-ei nos mundiais, depois pensarei nos europeus de piscina curta, e assim sucessivamente.

Se pensar que ainda faltam 4 anos para os Jogos, não treino. É fundamental ter objectivos altos para todas as competições e chegar a cada competição e fazer melhor que na anterior. Esse é o meu objectivo.

fp: E também a nível interno, os teus adversários obrigam-te a estar sempre no teu melhor. Tens protagonizado grandes duelos com o Diogo Carvalho e agora também têm o Gabriel Lopes a discutir os 200 estilos convosco. Qual é a importância deste nível de competitividade interna?

AS. Acho muito importante. Se só houvesse um de nós, de certeza que não estaria ao nível a que está actualmente. O Diogo tem-me feito evoluir bastante, eu tenho feito o Diogo evoluir, nós queremos sempre ganhar um ao outro e qualquer um de nós quer ser o melhor de Portugal.

Agora com o Gabriel ainda há mais competitividade. O ideal é todos baixarmos os nossos tempos. Seria excelente nadarmos os três em 1’57. Aos mundiais só podem ir dois, mas se tivéssemos três nadadores a nadar em 1’57 era garantia que os dois que lá estariam iam trazer grandes resultados para Portugal.

Eu fico contente quando batem os meus recordes, porque é sinal que a natação portuguesa está a evoluir e isso é mais importante do que eu estar a evoluir. Obviamente que eu quero fazer o meu papel e só me posso preocupar com o meu desempenho, mas deixa-me muito contente ver a natação portuguesa evoluir como um todo.

Pódio dos 200 estilos em Coimbra | Foto: Luís Filipe Nunes

fp: Até porque estás cá para voltares a restabelecer os teus recordes que venham a ser superados.

AS. Exacto! Se baterem os meus recordes, eu vou querer batê-los depois! [risos] E de certeza que vou trabalhar mais para superar essa marca.

fp: Durante este ciclo olímpico tiveste um ano a treinar em Espanha. Como é que foi esta experiência?

AS. Foi uma experiência muito positiva. Claro que teve os seus aspectos positivos e os seus aspectos negativos, mas no balanço geral foi uma experiência importante para o meu crescimento.

Saí de lá com uma mazela no ombro, mas tirando isso foram vários as coisas boas que trouxe desse ano. Não só o meu nível de treino que aumentou bastante, mas também os amigos que fiz lá. Fiquei a conhecer a natação espanhola por dentro e abriu-me outros horizontes.

Eu treinava com a Mireia [Belmonte] e, apesar de ela treinar muito e treinar bem, é uma rapariga absolutamente normal, como eu vejo no Sporting ou como vejo nos outros clubes portugueses. Ela é pequenina, tem as mãos pequeninas, não “dás nada por ela”, mas é campeã olímpica. Conseguiu porque trabalhou muitíssimo para lá chegar e isso faz-nos pensar que se para ela foi possível, para nós, portugueses, também é. Desde que trabalhemos para alcançar os nossos objectivos.

Antes de ir para lá o meu pensamento era que para os portugueses nunca seria possível chegar ao mais alto nível mundial, mas lá percebi que não é assim. E são poucos os quilómetros que separam as duas realidades.

fp: Disseste, em entrevista ao “Publico”, que se fosses espanhol terias mais condições de treino. Podes dar-nos três exemplos práticos das diferenças de realidades entre Portugal e Espanha?

AS. Em primeiro lugar, e a maior diferença de todas, é a nível financeiro. O nível de financiamento da natação espanhola é muito superior ao da natação portuguesa.

Depois as condições logísticas de treino são muito diferentes. Eu treinava no Centro de Alto Rendimento, onde só entrava quem era mesmo do alto rendimento. Tínhamos 5 piscinas à nossa disposição para treinar e só eram usadas efectivamente por nadadores integrados no plano de alto rendimento. Cá brincamos ao alto rendimento e brincamos à natação. Nadar no Jamor é nas horas a que a piscina está disponível e nas pistas disponíveis. É verdade que hoje o Jamor está melhor que há uns anos, mas continua a anos-luz da realidade que encontrei em Espanha.

Também nas condições dos clubes, a diferença é enorme. Estive há pouco tempo a fazer um estágio no Clube de Natação de Sant Andreu e só gostava que o meu clube tivesse as condições que aquele clube tem.

O ano passado foi de sonho, mas se calhar se tivesse a piscina do Jamor disponível para treinar com a minha equipa, se calhar seria ainda melhor.

É que o nível da natação masculina portuguesa não abaixo do nível da natação masculina espanhola. Não falo em termos de quantidade de nadadores, obviamente, mas o nível dos nadadores espanhóis de topo é o mesmo que o nosso. Faz-nos pensar onde poderíamos estar se as nossas condições de treino fossem idênticas.

Até que isso aconteça, eu vou continuar a fazer a minha parte de pedir melhores condições. Não estou satisfeito com as que tenho actualmente.

fp: E estás falar da realidade de um clube hexacampeão nacional, não é de um clube qualquer.

AS. Exacto. E eu sou da opinião que os clubes não devem ser tratados da mesma maneira. Os clubes que trabalham melhor devem ser mais apoiados.

fp: Começaste a nadar pelo Benfica e aos 10 anos mudaste para o Sporting. Razões clubísticas ou de melhores condições de treino?

AS. Foi mesmo por questões de condições de treino. Foi na altura em que demoliram o Estádio da Luz e também a piscina e aí ficamos sem sítio para treinar. Alternávamos entre a piscina do Casal Ventoso e a do Campo Grande.

Na altura o meu primo mais velho, que fazia natação, decidiu mudar-se para o Sporting. Ele já fazia natação de competição há muitos anos e nessa altura orientou-me e ajudou-me a chegar ao Sporting.

As condições eram melhores, os treinadores que tinha no Benfica foram-se quase todos embora e os meus pais decidiram que o melhor seria seguir para o Sporting.

A obtenção do hexacampeonato pela equipa masculina do SCP na Póvoa de Varzim | Foto: FPN

fp: Hoje tens noção que tomaste uma das decisões mais importantes da tua carreira aos 10 anos?

AS. No caso, não fui eu que a tomei, mas que foi muito importante para a minha carreira, foi.

O facto de ter encontrado a equipa que encontrei, o treinador que me acompanha desde os 14 anos e a forte formação que o Sporting tem desde sempre leva-me a concluir que foi, sem dúvida, uma decisão muito acertada.

fp: Em várias entrevistas que te fizeram, a última pergunta era sempre quem era o teu ídolo. A minha é se tens noção que tu próprio já te tornaste num ídolo para as gerações mais jovens e se isso te acresce a responsabilidade?

AS. Tenho noção que há miúdos que olham para mim como eu olhava para o Tino [Nuno Laurentino], para o José Couto, ou mesmo para o Diogo Carvalho.

É importante ter essas referências e pensar um dia chegar lá. Quando era miúdo olhava para o Tino e pensava “ele nada tão rápido”, e logo a seguir pensava “um dia eu quero lá chegar”. Desde muito novo que tinha esses objectivos na cabeça: chegar ao nível desses nadadores. 

É fundamental para quem está agora a começar a nadar, ter essas referências e esses objectivos para que a natação seja mais do que olhar para o fundo da piscina e contar azulejos.

fp: Apontaste o Nuno Laurentino como um ídolo teu. Nesse sentido, teve um grande simbolismo o facto do primeiro record nacional absoluto que bateste ter sido o record dos 50 metros costas, que lhe pertencia?

AS. Foi muito especial, até porque na altura comparavam-me muito ao Tino, pela fisionomia que era parecida.

fp: Há Fair Play na natação?

AS. Sem dúvida! Somos uma família. Basta ver que ontem [dia 31 de Março, o Sporting competiu com a estafeta 4×200 metros livres em extra-prova para tentativa de record nacional, depois do programa oficial dos Campeonatos Nacionais de Juvenis, Juniores e Absolutos] ninguém arredou pé e estava a piscina toda a puxar por nós. Não havia clubes e no final toda a gente ficou feliz pela nossa conquista e pela minha conquista [a equipa estabeleceu novo record nacional e Alexis abriu a estafeta, batendo o record individual] e recebemos os parabéns de toda a gente.

Eu sei que na maior parte dos desportos há Fair Play, mas na natação é especial. Somos mesmo uma grande família!

Muito obrigado, Alexis e sucesso para o futuro!

Siga o Alexis Santos no facebook


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter