16 Ago, 2017

AJ Abreu. “Os jogadores portugueses gostam de treinar e demonstram paixão”

Francisco IsaacAbril 21, 201718min0

AJ Abreu. “Os jogadores portugueses gostam de treinar e demonstram paixão”

Francisco IsaacAbril 21, 201718min0

Na senda de ir em busca do “exótico” no rugby português, entrevistámos o treinador dos “Cavaleiros” do RC Santarém, AJ Abreu. Sul-africano, mas com “coração” português, abandonou o Free State para apostar no rugby Nacional. Uma entrevista exclusiva do Fair Play

fp. AJ o teu sobrenome é Abreu Carvalho, tens raízes portuguesas? Conta-nos um pouco sobre ti.

AJA. António João De Carvalho Abreu, pai português e mãe sul africana.Nascido em Bloemfontein em 1982. Acabei o secundário em 2000 no Paarl Gymnasium, Cidade do Cabo.

fp. Praticaste rugby quando eras mais jovem? O que aconteceu para vires para Portugal treinar o RC Santarém?

AJA. Sim, comecei a jogar aos 7 anos. Uma lesão no joelho em 2011 acabou com a minha carreira como jogador O meu mundo desabou, não tinha qualquer formação superior ou especialidade para servir de alternativa. Foi sempre só o rugby. Fiz um curso de arbitragem e decidi ser árbitro para me manter envolvido no rugby, mas não era para mim.

Dei uma volta de 180 graus e decidi tornar-me treinador, que é a maneira que encontrei para contribuir com o meu conhecimento do desporto. Treinar e ensinar jogadores a técnica mais segura para prevenir lesões futuras. Treinei todos os níveis na África do Sul, desde sub7 a seniores.

Depois de ver a interferência política no desporto na África do Sul eu decidi vir para a Europa. Estava referenciado para uma posição na lista de uma universidade escocesa. Havia também algumas posições em Itália, mas o meu coração esteve sempre em Portugal.  

Assim que tive oportunidade para treinar o RC Santarém aceitei imediatamente.

fp. Por falar no Santarém, como tem sido a tua experiência por lá?

AJA. Santarém é a cidade perfeita para chamar casa, é pacífica. As pessoas são simpáticas. É uma cidade espectacular.

fp. O choque foi grande em termos de qualidade de jogadores? Estavas à espera de melhor ou pior?

AJA. Para ser honesto esperava pior. Temos jogadores com grande qualidade no Santarém e em Portugal e o melhor ainda está para vir.

fp. Quais são as melhores qualidades dos jogadores portugueses?

AJA. Os jogadores portugueses gostam de treinar e demonstram paixão pelo desporto, o que é muito importante.

fp. Só treinas a equipa sénior? Qual é o teu lugar no clube? Quais os teus objectivos futuros?

AJA. Estou envolvido com todos os grupos etários no clube desde os sub-8 até aos seniores. Sou o treinador principal dos sub-18 e seniores. O meu papel principal é o de ajudar a desenvolver capacidades nas equipas jovens. Eu tinha estabelecido alguns objectivos antes de vir para Portugal. Passo a passo estou a conseguir realizá-los. O objectivo de curto prazo é levar o RCS até à Divisão de Honra. Também queria fazer parte do desenvolvimento das equipas juniores da região

O objectivo de médio termo é treinar as equipas nacionais portuguesas de sub-18 ou sub- 20.

O objectivo de longo termo é treinar uma equipa francesa.

Com a equipa (Foto: Arquivo Pessoal)

fp. Viveste na Cidade do Cabo, és um fã dos Stormers ou gostas mais de outro Super Rugby  franchise?

AJA. Sim, sou da Cidade do Cabo, joguei pelos sub-20 do Free State agora conhecidos como Cheetahs, mas sou um fã dos Bulls frustrado (risos).

fp. Na tua opinião o que aconteceu aos Springboks? Haverá alguma solução para voltarem ao seu melhor?  

AJA. Esta é uma questão muito difícil e sou capaz de pisar nalguns calos. Mas vou tentar esclarecer. Em primeiro lugar deram aos jogadores os planos nutricionais errados. O treinador dos atacantes não tinha experiência suficiente aos 33 anos. Alister Coetzee não ganhou uma única taça no Super rugby. Só para mencionar alguns. Sei que posso arranjar chatices mas é a verdade.

África do Sul tem grandes jogadores. Escolas como Paarl Boys High têm dominado o rugby escolar na África do Sul e no mundo por já alguns anos. Em 2016 Paul Roos Gymnasium foram os campeões do mundo de escolas. A África do Sul tem grandes estruturas para as camadas jovens. Os sub13 Craven Week não precisam de introduções, os sub16 Grant Khomo Week são muito competitivos e os sub18 Craven Week têm dos melhores jogadores sul-africanos. Existem scouts de todo o mundo a assinarem contractos com rapazes durante essa semana. Na África do Sul há jogadores com contractos desde os 13 anos, quando são colocados num LTDP (plano de desenvolvimento de longa duração).

Temos grandes treinadores. Não vou nomeá-los porque com certeza vou esquecer-me de alguns grandes nomes, mas nada se faz para mantê-los no país. Os treinadores de topo sul-africanos não gostam de partilhar informação, como fazem os neozelandeses. Recentemente convocou-se uma inbada (reunião) para discutir os problemas da equipa nacional. Na minha opinião com 10 anos de atraso. A interferência política também tem impacto, os jogadores deveriam ser escolhidos pela sua capacidade não pela cor. A África do Sul tem capacidades para competir com os melhores do mundo. Acredito que o plano de jogo e estrutura deveria adequar-se aos jogadores seleccionados.

Springboks estão a jogar um tipo de rugby que não faz parte da sua cultura, sim todo o mundo gosta de bola na mão, mas os jogadores sul africanos são mais ao estilo  bash bash. Não se pode esperar que   Lood De Jager ou Eben Etzebeth com mais de 2m e  100kg sejam um elemento de ligação entre os backs e  forwards, eles só sabem uma coisa que é ir em frente. Se queres bola na mão, então vai buscar jogadores como Jaco Kriel e Warren Whitely etc.

Sim, os Springboks podem recuperar com o Brendan Venter como treinador da defesa, Franco Smith como treinador de ataque, mas continuo a achar que o  Alister não é a pessoa correta para a posição. Precisam de alguém como Jake White ou Rassie Erasmus.

fp. Voltando as tuas memórias, qual é/era o teu jogador modelo?  

AJA. O meu modelo foi e sempre será Joost Van Der Westhuizen, um tipo porreiro dentro e for a do campo.. Um brincalhão fora do campo e um trabalhador exímio no campo. O caracter e vontade para melhorar é o que mais se destaca.

Uma citação do Joost quando foi diagnosticado com doença do neurónio motor foi algo do género: as pessoas perguntam-se ,porquê eu? Ele perguntou-se, porque não eu?

fp. Depois de quase 6 meses em Portugal, como te sentes? Gostas da vida portuguesa?

AJA. Sim, adoro a vida em Portugal. Sinto saudades de vez em quando por causa do meu filho e da minha família, mas Portugal é a minha casa agora.

Na África do Sul (Foto: Arquivo Pessoal)

fp. Portugal não é um pais de cultura de rugby. Como achas que podemos mudar isso?

AJA. Portugal voltará ao mundial. Os treinadores estão a fazer grande trabalho. Mais jogadores e mais jogadores estrangeiros para aumentar os números e o nível de competição ajudará com certeza O ponto central é dinheiro. Também teremos um aumento nos números porque mais pessoas tentaram fazer do desporto trabalho. The biggest thing is money. We will also have an increase in numbers as more people want to make a living from sport. Depois de termos dinheiro no desporto os jogadores poder-se-ão focar no rugby, treinar mais e melhor.

fp. Qual a tua opinião aobre a segunda divisão…boa, má?

AJA. Acho que tem um bom nível, algumas boas equipas, jogadores e treinadores. Há intensidade e fisicalidade, mas pode haver melhorias.

fp. O RC Santarém tem os meios para chegar à divisão de topo? Quais são os desafios a superar? 

AJA. Sim, com certeza que o RC Santarém tem meios para jogar na divisão de topo dentro das próximas duas épocas. Temos uma excelente infra-estrutura, estão todos investidos no clube, a direcção tem feito um grande trabalho. Tenho uma grande equipa técnica de momento (Miguel, Jose e Luiza). Mentalmente acho que a equipa está bem, tecnicamente continuamos a trabalhar muito, mas tem corrido bem durante a época. Estamos a começar a desenvolver jovens jogadores para o futuro. O nosso principal problema é a área geográfica, os jogadores nem sempre podem vir al treino por varias razões, mas especialmente por causa do trabalho ou estudos.

fp. Vais ficar por cá por muito tempo? Que esperas conseguir fazer em Portugal?

AJA. Gostaria de ficar em Portugal por mais uns anos. Ajudar no desenvolvimento do rugby em Santarém e Portugal. Ganhar uma ou duas taças com o RCS e treinar os sub-18 ou sub-20 de Portugal.

No meio do rebuliço (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

ENGLISH VERSION | VERSÃO INGLESA

fp. AJ your surname is Abreu Carvalho, so you have Portuguese roots? Can you tell us a bit about yourself?

AJA. Antonio João De Carvalho Abreu, Portuguese father and South African mother. Born in Bloemfontein in 1982. Finished high school in 2000 at Paarl Gymnasium, Cape Town.

fp. Did you play rugby as youngster? What did you see in rugby that got you to the point to come to Portugal and coach RC Santarém?

AJA. Yes, I started playing rugby at the age of 7. A injury in 2011 ended a long playing career. My world was crushed, I had no further education to fall back on. It was always just rugby. I took a referee course decided to become a referee to stay involved in the game but it wasn´t for me.

I made a 180 degree turn and decided to become a coach, the best way put my knowledge back into the sport. Coaching or teaching players the saver technique or skills to prevent players from serious injuries. I´ve coached all level in SA from sub7 to senior club rugby.

Having seen the political interference in sport in SA, I decided to start coaching Europe. I was on the short list as head coach for a position at a University in Scotland. Some positions in Italy but my heart have always been in Portugal.

Once the opportunity came to coach RC Santarém, I accepted immediately without any hesitation.

fp. Speaking on Santarém, how has been your time here?

AJA. Santarém is the perfect city to call home, peaceful. People are friendly and helpful. Great city overall

fp. There was a big shock in terms of player quality? Were you expecting better or worse?

AJA. To be honest, I expected worse. We have some great quality players in Santarem and  Portugal and the best is yet to come.

fp. What are for you the best qualities in the Portuguese players?

AJA. The Portuguese players are COACHABLE and show a lot of PASSION in the sport, which is very important to excel in it.

fp. You just coach the senior team? So what’s your role in the club? And your goals for the future?  

AJA. I´m involved in all age groups of the club from sub8 to seniors. Head coach of the sub18 & senior team. My biggest role is to help develop the skills of the youth teams. I have set aside a few goals before coming to Portugal. Step by step I am ticking the right boxes. Short term goal is to take RCS to compete in the Honor Division. I also wanted to be part of the development of the regional youth teams.

Medium term goal is to coach the Portuguese u/20 or u/18 National Team

Long term goal is to coach a National Team in Europe.   

fp. You lived in Cape Town for a while, so it makes you a Stormers fan or you like another Super Rugby franchise?

AJA. Yes, I am from Cape Town, I played for the u/20 Free State now known as Cheetahs back in the day but I´m a frustrated Bulls supporter haha.

In your opinion, what happened to the Springboks? And is there a solution (or solutions) to bring their best again?

AJA. This is a very difficult question and I might step on some people´s toes now. I will share some light on this. The wrong nutrician plans were given to the players to start off. The attacking coach didn´t have enough experience at 33 years old. Alister Coetzee has not won a cup in Super rugby. This is to name a few and I know I might get trouble but it´s facts.

SA has incredible talented players. School like Paarl Boys High has dominated school boy rugby in SA and around the world for a few years now. In 2016 Paul Roos Gymnasium was crowned the World Schools Champions. SA has great structures for the youth coming through. The u13 Craven Week speaks for itself, the u16 Grant Khomo Week is a tough competition and the u18 Craven Week where some of the best players in SA are seen. There are scouts from around the world signing boys during that week. In SA, players get offered contracts from as young as u13 and then placed on LTDP (long term development plans).

We have great coaches in and out of SA. I am not going to name them because I will miss some great names however nothing gets done to keep the knowledge in the country. Top SA coaches also don´t like to share information as they do in New Zealand. They have recently held coaching indaba (meeting) to sort out issues with in the national set up. In my opinion 10 years too late. The political interference also plays a role, players should be selected on merit not colour. SA have enough skills to compete against the best of the world. I believe your game plan or structure should suite the players selected.

Springboks are playing a brand of rugby that is not part of their culture, yes everyone loves ball in hand approach but SA players are more of bash bash style. You can´t expect Lood De Jager or Eben Etzebeth over 2m tall and weigh more than a 100kg to be link between backs and forwards the know one way and that is forward. If you want to have ball in hand approach then select players that offers that. Jaco Kriel and Warren Whitely ect.

Yes, the Springboks can bounce back with Brendan Venter as defence coach now, Franco Smith attacking coach, but I still feel Alister is not the right man for the job. They need a man like Jake White or Rassie Erasmus.

fp. Going back to your memories, how was/is your role model player?

AJA. My role model was will always be Joost Van Der Westhuizen, great guy on and off the field. A joker of the field but serious hard worker on the pitch. He´s character and willingness to always improve is that stand out for me the most.

Famous quote of Joost when he was diagnosed with motor neuron disease. ´´People would say why me he said why not me´´

fp. After almost 6 months in Portugal, how’s it feel? Do you like Portuguese life?

AJA. Yes, I love the life in Portugal. I do miss home now and then because of my son and family but Portugal is my home for me.

fp. Portugal isn’t a rugby culture kind of country as you noticed. How do you think we can change it?

AJA. Portugal will bounce back into the World Cup. The National coaches are doing a great job so far. More players and foreign players to increase the numbers and the level of competition will surely help. The biggest thing is money. We will also have an increase in numbers as more people want to make a living from sport. Once we have money in the sport players will be able to focus on rugby, attend training sessions more often and be more committed.

fp. Your opinion about the 2nd division… good, bad, what you feel about the competition?

AJA. I think it´s at a good level, some great teams, players and coaches. Intensity and physicality is there but it can improve if players commit more to training sessions.

fp. Has RC Santarém the means to get in the top division? What are at the moment the issues (technical, mental or development)?

AJA. Yes surely, RC Santarém has the means to play in top division if not this season surely within the next two seasons. We have great infrastructure, everyone is always busy improving the club, the club management has done a great job and is still working hard to achieve certain goals. I have a great technical team helping me at the moment (Miguel, Jose and Luiza). Mentally I think the team is in mindset, technically we working hard but we´ve been ticking the right boxes during the season. We are starting to develop younger players for the future. The biggest issue currently is because of our geographical area, players can´t always commit to practice because of various reasons but mainly studies and work.

fp. Are you going to stay here for a while? What do you hope to achieve in Portugal?

AJA. I would like to stay in Portugal for a few more years, that´s surely the plan. Help with rugby development in Santarem and Portugal. Win a cup or two with RCS and coach the national u18 or u20 team that is what I hope to achieve in Portugal.


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