16 Dez, 2017

Miguel Macedo,“Não queremos parar, há muito caminho por percorrer.”

Francisco IsaacJaneiro 3, 201715min0

Miguel Macedo,“Não queremos parar, há muito caminho por percorrer.”

Francisco IsaacJaneiro 3, 201715min0

Para norte de Portugal, “reina” um dos clubes mais emblemáticos de Portugal: o Centro de Desporto da Universidade do Porto, ou mais conhecido como o CDUP. Escola de grandes jogadores, a equipa do Porto é “liderada” por Miguel Macedo, 3ª linha de categoria, onde a placagem, a “raça” e o espírito de lutar estão presentes nesta entrevista em exclusivo do Fair Play

fp:  Miguel, como é ser uma das “pedras basilares” do CDUP do Século XXI, quando o teu pai foi uma das lendas da Académica de Coimbra?

MM: Se formos a considerar tantas outras pedras basilares do CDUP deste século (desde os três mundialistas, os irmãos Fragateiro, o Pedro Campos Costa, o Kiko Fontes, o Abreu Lima, o Very Nice, o Lelo, entre muitos outros…), acho que ainda tenho muito que pedalar para lá chegar! Mas espero poder jogar por muitos anos e marcar a história do CDUP, assim como o meu pai faz com a Académica. E, mesmo deixando de jogar, espero continuar ligado e retribuir tudo o que o clube e o rugby me deram.

fpTens representado a selecção nos últimos anos e como vês a recente evolução de resultados?

MM: No ano passado os resultados não foram positivos. A despromoção foi um golpe duro, mas não nos fez parar. Temos um caminho à nossa frente e a cada passo que damos tornamo-nos mais fortes. Houve uma evolução de resultados e do nosso rugby, mas, como disse, não queremos parar, pois ainda há muito caminho por percorrer.

fpA convergência destas gerações jovens (incluindo a tua) pode ser o futuro de Portugal? Vamos voltar a marcar o Mundo do rugby?

MM: Aliada aos jogadores mais experientes, estas gerações jovens serão certamente o futuro de Portugal. Mas, para isso, é preciso desenvolver-se o trabalho que tem vindo a ser feito todos os dias, não a pensar no fim do ano, ou no ano a seguir, mas com objetivos traçados para daqui a 6, 8 anos. Que esses objetivos sejam o combustível de todos os jogadores que querem representar Portugal e aí marcaremos o mundo do rugby!

fpÉs um jogador que se denota responsabilidade, sacrifício pelo colectivo e um trabalho intenso. Sempre foste assim? Qual é a tua motivação?

MM: São alguns dos valores do rugby e eu tento reger-me por eles, dentro e fora de campo, desde que comecei a jogar. Aliás, são estes princípios que me fascinam neste desporto- a ideia de um coletivo acima do indivíduo, do sacrifício e trabalho das pequenas partes em prol do sucesso de um todo. Não só em campo, mas nos treinos, coletivos e individuais, e nas acções que temos no nosso quotidiano.

O espírito do Norte (Foto: Luís Bandeira Fotografia)

fpQuando é que começou a paixão pelo rugby? Foi desde que começaste a treinar, antes em casa ou mais tardiamente?

MM: O rugby sempre esteve muito presente na minha vida. A casa está cheia de fotografias e troféus do meu pai como jogador e a minha mãe diz que, quando nasci, me puseram imediatamente uma bola no berço; por isso, acho que era inevitável. No entanto, nem foi o meu pai que me meteu no rugby. Tinha 7 anos e uma tia minha apareceu-me à porta de casa com os filhos e levou-me a mim e ao meu irmão mais velho. Apaixonei-me logo, pelo jogo em si, pela camaradagem, e, sem me aperceber, pelos seus valores.

fpAinda jogas com algum amigo/colega teu dos teus primeiros anos? E adversários, há algum que te lembras desde sempre?

MM: Tenho a sorte de ter amigos com quem jogo há anos. Acho que fomos uma geração onde foi feito um bom trabalho e que se manteve em grande parte ligada ao rugby. Por exemplo, o Luís Cerquinho ou o João Bello, desde os 7 anos que jogamos juntos, e ter representado o CDUP sénior e a selecçãoo lado deles foi muito especial! Como adversário, desde sempre que me lembro de jogar com o João Freudenthal, do Belenenses. Era mais pequeno que os outros, achávamos sempre que podíamos passar por cima dele, mas, num instante, tirava-nos a arrogância toda com uma grande placagem e com duas fintas que davam ensaio. Hoje em dia, é um grande jogador que, com um bocado mais de sorte nas lesões, poderá marcar o rugby português. É um prazer ter crescido com ele, como adversário dentro do campo e amigo fora!

fpTens algum episódio dos teus anos de formação que te recordes? Alguma vez ficaste “amuado”/chateado com um treinador?

MM: Um dos episódios que mais me marcou foi o jogo Portugal-Fiji em 2005. Tinha 9 anos e, após um convívio nacional com várias equipas, fomos encher o estádio nacional para ver o jogo. E que grande jogo! Nunca me hei de esquecer do António Aguilar correr o campo todo para marcar ensaio ou da placagem do Vasco Uva ao “pilarão” fijiano. Desde sempre quis chegar à seleção nacional, mas, com aquele jogo, percebi o que eram verdadeiros lobos e só me deu mais desejo e força para lá chegar!

fpEstiveste no Campeonato do Mundo “B” de sub-20 e marcaste presença em outros torneios. Sentiste uma grande diferença entre equipas como as Fiji ou Geórgia para Portugal?

MM: Não acho que estejamos muito distantes de equipas como as Fiji ou Geórgia. Há muito talento em Portugal, temos tido um bom trabalho de desenvolvimento, e conseguimos equiparar-nos às equipas de topo- é só lembrarmo-nos da vitória de Portugal sub-18 com a Escócia, no ano passado. Precisamos de ter mais jogos e mais competitivos, que coloquem questões, problemas e ritmo aos jogadores que o campeonato nacional não coloca. Assim, quando jogarmos contra uma Geórgia ou uma Roménia, a equipa terá uma maior capacidade de reacção e adaptação às diferentes adversidades que se apresentem. Isto num contexto da selecção e não só! Os jogos feitos, mais recentemente, pelo Direito e CDUL, com a disputa da taça ibérica e de competições europeias, também confrontaram as equipas com outros tipos de rugby e foi uma grande experiência para todos os jogadores.

Macedo versus Nuestros Hermanos (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

fpPreferes uma boa placagem ou bela quebra de linha? Argumentos para a tua escolha!

MM: Uma boa placagem! Eleva-nos a moral, já só paramos quando fizermos a próxima! Acredito que tem muito significado, é como gritar “Tu por aqui não passas!” e uma série delas pode unir uma equipa e quebrar outra.

fpHá algum jogador internacional (de agora ou do passado) que gostes de ter como exemplo?

MM: Acho que o maior exemplo que gosto de ter é o Richie Mccaw, pelo jogador que foi e pelo homem que é. Tem uma ética de trabalho, espírito de sacrifício e uma humildade fora de comum. Nunca foi um fora de série, não era o mais rápido, o mais forte, nem o mais talentoso, mas não o impediu de ser melhor jogador do mundo três vezes.

fpGostavas de tentar uma saída para França ou Inglaterra? Ou outro país?

 MM: Nova Zelândia! Viver, comer, respirar rugby! Gostaria de passar lá uns tempos. Veem o rugby 10 anos à frente de todas as outras nações. Poder treinar e jogar lá deve ser uma experiência! Mas não só. É um país tão pequeno, mas que está no topo há tanto tempo que a receita deles não pode estar só no campo. Gostaria de conviver e interagir com eles no dia-a-dia, perceber a cultura, e absorver as pequenas coisas que fazem deles grandes jogadores e pessoas.

Também adoraria ter uma experiência profissional, dedicar-me a 100% ao rugby. Talvez por ser aqui mais perto, França ou Inglaterra seriam os destinos mais óbvios.

fpConta-nos do que se trata o espírito de equipa do CDUP? Há limites para vocês?

MM: Um grande jogador do CDUP, Luís Bleck, uma vez escreveu que o campo que não temos, as viagens que fazemos, os jantares frios já fora de horas que comemos, a chuva e o vento de inverno que não nos larga, “Tudo isso é mau, mas é bom, porque isso faz de nós CDUP!”. Por mais kms que faça, por mais jogos em “casa” que tenha que fazer na Bairrada, um jogador à CDUP não se deixa demover, luta incessantemente pelo que quer, porque, citando o Martim Bettencourt, outro grande, “O nosso tanque é maior”. E, em campo, quando uma equipa se compõe de jogadores assim, é uma equipa a temer.

fpQuais são os teus objectivos para esta época? E do CDUP?

MM: No CDUP, somos uma equipa muito jovem, com muito talento, cheia de títulos nos escalões de desenvolvimento, uma equipa que “promete”. Queremos deixar de ser “promessa” e passar à “confirmação”. Construir o nosso ADN em campo, fortalecer as nossas bases e o rugby que queremos trazer para todos os jogos. Queremos, também, recuperar o bocado da identidade do jogador à CDUP que perdemos nos últimos anos. Se caminharmos em direção a estes objetivos, os resultados virão como consequência.

Para mim, representar sempre e o melhor que puder o CDUP e a seleção e ser, todos os dias, melhor do que no dia anterior.

fpSentes uma grande distância entre o Porto e Lisboa, em termos de desenvolvimento e apoio à modalidade? Em caso positivo, como poderíamos alterar esse “rumo”?

MM: Claro que sim! Basta vermos a diferença do número de clubes entre as duas cidades. É um problema, o Porto é uma cidade grande, com gosto pelo desporto, o potencial é enorme! Devemos aproveitar este potencial com um trabalho em conjunto da Federação e dos clubes do Porto. É preciso fortalecer a cultura do rugby na cidade, ter um papel mais interveniente e ativo na comunidade portuense. Ações nas escolas, no centro do Porto, em vários pontos da cidade que apresentem o rugby e os seus valores a todas as pessoas. A falta de campos que não sejam somente para o futebol é um problema, mas a realização de jogos de maior nível competitivo, da seleção por exemplo, despertaria a curiosidade e impulsionaria o crescimento de rugby no Porto e no Norte.

Campeão Sub-23 pelo CDUP (Foto: CB Fotos)

fpEm termos de parcerias, achas que há uma ausência de ligação entre o Mundo Universitário, e dos estudos, com o rugby de alto rendimento?

MM: Há sim, uma grande ausência de ligação entre o mundo universitário e o desporto de alto rendimento em geral. Não digo que os atletas precisem de ser beneficiados, mas ter algum tipo de apoio que os permita estar em pé de igualdade com os outros alunos. Muitas vezes um atleta vê-se obrigado a tomar uma decisão, desporto ou estudos. Assim, estamos a despromover o desporto nas nossas vidas! Ele não é só benéfico para a educação física da pessoa, também constrói carácter, ética de trabalho, cooperação, sacrifício… Qualidades importantíssimas no mundo laboral! Vejamos os exemplos de outros países: Estados Unidos, Alemanha, Austrália… São países que promovem e apoiam, não só o desporto, mas a instrução académica do atleta. E, por acaso, são das maiores potências mundiais económicas e no desporto

fpTu tens lidado bem com esse facto? O que estudas/estudaste? E em caso que já trabalhes, como consegues conciliar com os treinos e jogos?

MM: Estudo Bioengenharia na Faculdade de Engenharia do Porto. Para ser honesto, se tivermos ambições de representar Portugal, não é fácil. Não conseguimos focar-nos 100% no rugby sem prejudicar os estudos e vice-versa. Mas dá para conciliar e ser bem-sucedido nas duas! Obriga-nos a uma gestão cuidada e eficaz do nosso tempo entre tudo o que temos: estudos, treinos, jogos, aulas e amigos e família, importantes também na nossa vida e para limparmos a cabeça de vez em quando. Um simples treino de 1h30/2h ao final da tarde em Lisboa compromete-nos a nós, jogadores fora de Lisboa, logo nove horas, entre viagens, refeições e tudo. Por isso, às vezes, podemos só ter duas horas para estudar, no entanto essas duas horas vão ter que me render a 100%. Tenho a sorte de ter uns pais que me ajudam e apoiam em todas as decisões que tomo, procurando sempre o melhor para mim.

fpAchas que Portugal vai voltar a estar num Mundial?

MM: Acredito que sim! Estamos a fundar uma base sólida de jogadores apoiada nos alicerces que são os nossos valores e, quando fundada, construiremos grandes coisas que nos deixarão cada vez mais próximos do Mundial. Temos uma boa formação nos escalões de desenvolvimento, recheada de jogadores que acrescentarão valor à seleção e se integrarão rapidamente nessa base. Se trabalharmos nessa direcção, todos os intervenientes do rugby português, cantaremos outra vez “A portuguesa” no epicentro do rugby mundial.

fpO CDUP conseguirá a ser campeão Nacional?

MM: Tivemos lá perto há uns anos, mas escapou-nos. Tenho a certeza que sim, se traçarmos e cumprirmos os nossos objetivos época a época, iremos construir uma grande equipa e seremos campeões!

fpDeixa uma mensagem para os apoiantes, colegas e amigos do CDUP e do rugby português.

MM: Que continuem a apoiar a modalidade, não só como adeptos. Há várias formas de contribuirmos. Podemos arrumar as chuteiras, ou nunca as ter usado, mas não devemos abandonar o desporto que tanto nos uniu e une.

Aproveito para agradecer a todos os intervenientes do CDUP, presente e passado, por possibilitarem a sucessivas gerações jogar rugby, todos os dias, com os nossos melhores amigos e companheiros.

Agradeço também à minha família, por todo o apoio e força em tudo o que faço.

A escola do Porto e do CDUP é uma das poucas que reúne uma paixão profunda pelo jogo, com uma forma muito especial de sentir o Porto. Miguel Macedo, como tal, tem evidenciado uma paixão total pela sua equipa e pela selecção. Desejamos ao Miguel a maior das sortes para o futuro, no qual se espera recheado de grandes momentos.

Uma boa placagem (Foto: Luís Cabelo Fotografia)


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