24 Out, 2017

Diogo Domingos, “Sinto que a minha primeira casa é o pavilhão Acácio Rosa. E a segunda ? O Estádio do Restelo!”

Francisco CabritaDezembro 16, 201621min0

Diogo Domingos, “Sinto que a minha primeira casa é o pavilhão Acácio Rosa. E a segunda ? O Estádio do Restelo!”

Francisco CabritaDezembro 16, 201621min0

Diogo Domingos, um dos jogadores nucleares e com maior amor à camisola da equipa de andebol do Clube de Futebol “Os Belenenses” contou-nos as suas experiências , ideias e opiniões em relação ao Andebol em Portugal. Entre galões e pastéis, no frenesim habitual de entrada e saída de turistas, encontrámos-nos com o Diogo, num dos sítios emblemáticos da cidade de Lisboa, nos “Pasteis de Belém” – onde mais poderia ser? Uma entrevista do Fair Play.

fp: Diogo Domingos, como começou este teu percurso no Andebol? Quando percebeste que querias ser profissional da modalidade?

DD: O meu percurso no Andebol começou aos sete anos de idade, através do pai de um amigo meu que me incentivou a experimentar a modalidade. 
Na altura, entrei para a equipa de minis e comecei assim a minha formação no Clube de Futebol “Os Belenenses”.
Até chegar ao último ano de Juvenis não tinha a expectativa de me poder tornar profissional de Andebol, embora sonhasse, claro, com isso.
O que me fez mudar de opinião e perceber que, de facto, tinha qualidade e capacidade para poder chegar ao Andebol sénior foi o meu treinador nos juvenis, João Florêncio Junior, que curiosamente, é agora o nosso treinador nos seniores, que me fez evoluir muito, inclusive, nesse ano fui treinar com a equipa principal do Clube de Futebol “Os Belenenses”.
Nesse momento percebi que os horizontes se podiam alargar e poderia tornar-me profissional da modalidade.

fp: Ao mesmo tempo estudaste na área de hotelaria?

DD: Sim, ao mesmo tempo, estudei. Após o ensino secundário tirei um curso, na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, que funcionou basicamente, como o ano zero da faculdade e que me deu a carteira profissional de Director de Restauração e Bebidas.
Após esse curso andei um ano e meio na faculdade, sempre na área da hotelaria, faltando-me poucas cadeiras para terminar a licenciatura, que congelei entretanto, pois comecei há pouco tempo um projecto de restauração e conciliá-lo com o andebol e faculdade tornou-se insustentável. Mas tenho como objectivo acabar essa licenciatura.

fp: É fácil ser-se jogador de Andebol, num país em que o futebol é rei ? Consegue-se viver só do Andebol?

DD: Não é fácil. É muito complicado, porque o Andebol não tem a mesma visibilidade do Futebol. Por exemplo, o Andebol já foi a 2ª modalidade do país e agora está a ser ultrapassado pelo Hóquei em patins, pelo Basquetebol, pelo Futsal.
Actualmente, o Andebol não tem pujança nenhuma a nível televisivo, o que faz com que a modalidade fique cada vez mais retrógrada.
No Andebol, em Portugal, consegue-se viver da modalidade se se jogar nas três principais equipas do campeonato. Caso contrário é impossível.

Diogo Domingos sentado no banco onde foi fundado o Clube de Futebol “Os Belenenses”

fp: Tu sais da formação do Clube de Futebol “Os Belenenses” e vais para os juniores do Sporting Clube de Portugal e já em sénior jogas na equipa principal dos verde e brancos durante um ano e meio, a seguir és emprestado ao Boa Hora em Janeiro de 2016, e em Julho de 2016 és emprestado ao Clube de Futebol “Os Belenenses”. É difícil para um jogador andar sucessivamente de empréstimos em empréstimos?

DD: Para mim é fácil. Depende da perspectiva de cada um. Para mim é muito bom ser emprestado, quando sabemos que não há outra solução, porque consigo jogar e evoluir mais. Na minha opinião, é melhor estar emprestado do que ficar estagnado num clube em que, à partida , sabes que vais ter poucos minutos de jogo.
Os dirigentes, incluindo o treinador,  do Sporting Clube de Portugal foram sempre muito frontais e sinceros comigo e chegámos à conclusão que o melhor para mim, para evoluir como atleta, seria ser emprestado para ter mais minutos de jogo.
O meu primeiro empréstimo foi ao Boa-Hora, em Janeiro de 2016, onde fui muito feliz, pois conseguimos a subida de divisão e fomos também campeões nacionais da segunda divisão.
Actualmente, estou emprestado ao Clube de Futebol “Os Belenenses”, que para mim é duplamente bom: se por um lado é bom porque tenho a possibilidade de ter mais tempo de jogo, por outro é óptimo regressar a uma casa que conheço bem e ao clube do meu coração, como nunca escondi de ninguém.

fp: Todos sabemos como é a rivalidade entre S.L. Benfica, Sporting Clube de Portugal e Futebol Clube do Porto.
Quando jogavas no Sporting, como era o ambiente no pavilhão e dentro da cabine, antes desses clássicos?

DD: Esses jogos têm, claro, uma mística especial. Primeiro são jogos que toda a gente gosta e anseia jogar e à volta deles há uma magia tremenda, há mais pessoas no pavilhão, é bastante diferente, só quem lá está é que percebe o que realmente digo. Há uma ansiedade enorme por parte dos jogadores, sabemos que são sempre jogos mais difíceis e que toda a gente quer ganhar.

fp: Fala-se muito do Pavilhão João Rocha, tendo sido uma das bandeiras eleitorais da presidência de Bruno de Carvalho, que está a ser construído para ser o forte das modalidades. Sentiste, em algum momento, quando jogavas no Sporting Clube de Portugal, que vos fazia falta um pavilhão do clube?

DD: Faz muita falta ao Sporting Clube de Portugal um pavilhão. Não é indiferente competir num pavilhão nosso ou competir num pavilhão arrendado. Penso que o Pavilhão João Rocha pode ser o impulsionador para encher a sala de troféus do Sporting Clube de Portugal, porque nós, no meu primeiro ano de seniores, fomos jogar ao Dragão Caixa, na final do campeonato nacional, e sentíamos um ambiente fervoroso, uma pressão enorme sobre a arbitragem e sobre os jogadores das equipas adversárias, coisa que não acontecia no Pavilhão de Odivelas onde, inclusivamente, chegámos a ter jogos , a meio da semana, em que só estavam cerca de 20 a 30 pessoas no pavilhão. Ir jogar a um pavilhão arrendado, longe de Alvalade, é descaracterizar completamente o clube.

fp: Com o Sporting Clube de Portugal vieste jogar ao Pavilhão Acácio Rosa, frente ao Clube em que passaste 13 anos da tua vida. Foi especial?

DD: Eu joguei contra o Clube de Futebol “Os Belenenses”, cerca de 5 a 6 vezes. Foi muito difícil, senti um ambiente diferente, senti que as pessoas do Clube de Futebol “Os Belenenses”, apesar de me falarem, não me olhavam da mesma maneira. De certa forma é compreensível. Mas quando há uma maneira profissional de fazer as coisas, não se pode olhar a clubismos, o que não invalida que me tenha custado imenso marcar um golo ao Clube de Futebol “Os Belenenses”.

Diogo Domingos , na sua primeira época como sénior, ao serviço do Sporting Clube de Portugal (arquivo pessoal)

fpFoi fácil sair de um clube, Sporting Clube de Portugal , que luta para ser campeão nacional de andebol para outro que , embora a sua rica história no Andebol Português, lutava , na altura , para subir de divisão?

DD: É uma redefinição de objetivos completamente diferente. O Boa-Hora foi uma oportunidade que apareceu, que desde o princípio que começámos as conversações eles demonstraram sempre grande interesse por mim e fizeram-me crer que eu podia ser uma peça importante naquele projeto.
Foi uma época inesquecível, em que fomos campeões. Para o campeonato tivemos apenas uma derrota e na taça caímos nos quartos de final frente ao Futebol Clube do Porto no Dragão Caixa. Foi espetacular a minha passagem pelo Boa-hora.

fpSabemos que quando eras Júnior do Sporting Clube de Portugal, jogavas também os jogos da taça pelos seniores. Ganhaste uma taça pelo Andebol Sénior do Sporting Clube de Portugal. Para ti, qual foi o troféu mais importante? Essa taça ao serviço do Sporting Clube de Portugal ou o título de campeão da segunda divisão, com o Boa-Hora?

DD: Para mim, o título mais importante foi o título de campeão da segunda divisão pelo Boa-Hora. Nessa época em que o Sporting Clube de Portugal ganhou a taça de Portugal, eu ainda era Júnior, sendo convocado somente para os jogos da taça da equipa sénior. Acontece que quando chega à final da taça de Andebol sénior, eu estava a disputar a final do campeonato pelos juniores, não tendo sido convocado para os seniores. Daí dizer que esta conquista pelo Boa-Hora foi mais especial: vi, de certa forma, o meu trabalho e o meu esforço a serem recompensados.

A festejar o titulo de campeão da segunda divisão pelo Boa-hora (arquivo pessoal)

fp: Depois, no teu percurso profissional, segue o Clube de Futebol “Os Belenenses”, como foi regressar ao teu clube do coração, onde passaste tanto tempo da tua vida?

DD: Foi fácil regressar ao Clube de Futebol “Os Belenenses”, é uma casa que conheço muito bem, onde já estou muito habituado às pessoas, foi muito mais difícil a minha saída que este meu regresso.
Tive uma adaptação muito rápida justamente por já ter uma grande cultura de clube e, mais que isso, uma grande cultura de sócio.

fp: Sentes que o pavilhão Acácio Rosa é a tua segunda casa?

DD: Não, sinto que a minha primeira casa é o pavilhão Acácio Rosa. E a segunda? o Estádio do Restelo!
O pavilhão Acácio Rosa é um lugar mítico, tive colegas meus tanto no Sporting Clube de Portugal como no Boa-Hora, que me diziam que é sempre uma grande dificuldade vir jogar ao Restelo, pelo ambiente dentro do pavilhão e pela pressão que os adeptos fazem sobre a equipa visitante.
Uma das maiores desilusões que tenho é saber que o pavilhão brevemente será destruído e reconstruído no novo projecto de requalificação do Restelo. Perder-se-á uma parte da história do Clube de Futebol “Os Belenenses”.

fp: Como vês o estado do Andebol em Portugal?

DD: O Andebol está um bocado apagado no panorama desportivo português o que reflecte o estado da nossa selecção nacional, que não consegue, anos após anos, qualificar-se para os Mundiais e Europeus da modalidade .
Este “apagão” do andebol dá-se também por haver poucas transmissões televisivas, não há uma televisão pública que transmita os jogos e os patrocinadores são cada vez menos. Tudo isso faz muita falta para a divulgação da modalidade, da marca Andebol e, em última instância, dos próprios clubes.

fpEm termos desportivos, quais têm sido as tuas metas traçadas? 

DD: A minha primeira grande ambição, o meu maior objectivo, foi chegar a sénior. Posteriormente, era e é ser campeão nacional, que me escapou na “negra” no Dragão Caixa, frente ao Futebol Clube do Porto, no meu primeiro ano de seniores no Sporting Clube de Portugal, um dos dias mais tristes da minha vida.

fp: Objectivos do andebol do Belenenses para a presente época desportiva?

DD: Este ano, os objectivos do Andebol do Clube de Futebol “Os Belenenses “, são a permanência na primeira divisão, visto termos uma equipa bastante jovem, com pouca experiência de grandes competições e uma média de idades entre os 21 e os 22 anos. Temos um dos orçamentos mais baixos da primeira liga de Andebol, que vale o que vale, mas vale sempre alguma coisa.
A verdade é que a maior parte de nós estuda e tem os seus empregos. Seria bom chegar aos 6 primeiros, para ter acesso ao playoff, mas está cada vez mais difícil, mas vamos, mesmo assim, lutar por isso.

fp: Nunca pensaste em ir jogar para o estrangeiro?

DD: Já, já pensei ir jogar para o estrangeiro, nomeadamente para Espanha. Mas neste momento, estou muito bem aqui em Portugal, até porque além do Andebol, tenho aqui alguns negócios, nomeadamente um restaurante em Belém, “Sabores de Belém “.

fp: Como vês o atual estado do CF “Os Belenenses”, nomeadamente a questão do diferendo SAD – Clube?

DD: Sinto uma grande mágoa . Eu acima de tudo sou do Clube de Futebol “Os Belenenses” . E é uma grande tristeza, porque nós, há três ou quatro anos, tivemos uma direção incompetente que não conseguiu aguentar a gestão do futebol profissional do Clube de Futebol “Os Belenenses” e tivemos de vender a nossa maioria na SAD do Clube de Futebol ” Os Belenenses”. O que é certo é que as pessoas responsáveis pela SAD, particularmente Rui Pedro Soares, têm feito um trabalho a nível financeiro de estruturação e recuperação que se tem de dar o devido valor, porque eu vi um Clube de Futebol ” Os Belenenses” no passado , com dificuldades em se manter na primeira divisão, com dificuldades em pagar aos seus atletas e credores e o que é facto é que hoje em dia, eu vejo um Clube de Futebol “Os Belenenses” diferente e que apesar de tudo, conseguimos voltar a ter uma equipa estável . E o próprio Clube , sem ter o peso do futebol profissional às costas, também se conseguiu reestruturar com esta nova direção, tem as modalidades mais equilibradas , pagando a  horas a credores e atletas . Na minha opinião, é pena não haver uma boa relação entre o clube e a SAD, perdemos todos.

fp: Acompanhas com regularidade o Futebol do Clube de Futebol ” Os Belenenses “?

DD: Claro que sim, infelizmente não consigo ir a mais jogos fora, porque também tenho os jogos do andebol, mas tento não perder nenhum jogo e sei sempre o que se passa a nível de resultados. Sempre que posso, vou ao estádio. Ainda agora há pouco tempo fui ao Estoril , com um grupo de amigos, ver o jogo . Estou sempre atento a tudo o que se passa no Clube de Futebol “Os Belenenses”.

fp: Como analisas a prestação do Belenenses na presente época , em Futebol ?

DD: O Clube de Futebol “Os Belenenses ” está a fazer uma época tranquila, apesar da mudança de treinador. O treinador adaptou-se bastante bem, a equipa está a praticar um futebol tranquilo e seguro. Defensivamente , está a léguas , para a positiva , da prestação do ano passado. Estão a dignificar o emblema da Cruz de Cristo .

Em Julho de 2016 volta , por empréstimo, ao clube do seu coração, o Clube de Futebol “Os Belenenses”,(arquivo pessoal)

fp: Sei que também enveredaste pelo ramo da hotelaria, tens um restaurante em Belém, “Sabores de Belém”. Fala-me desse projeto.

DD: O” Sabores de Belém” começou há cerca de dois anos, é um espaço em Belém , que nasceu com uma ideia minha, depois de ter constatado uma falha de mercado na zona e então decidi apostar e tem corrido muito bem.

fp: Após terminares a tua carreira no Andebol, vês-te mais a trabalhar como dirigente ou treinador de andebol ou como gerente de hotelaria?

DD: Eu acho que, como ainda frisei há um bocado, o Andebol está cada vez menos para ser profissional. É só olhar para a nossa equipa este ano e constatamos que mesmo os treinadores e dirigentes têm empregos além do Andebol e olham para a modalidade em certa medida como um hobbies. 
Embora ainda falte muito tempo, para acabar a carreira, eu penso que quando chegar esse momento, eu estarei sempre ligado tanto ao andebol como à hotelaria, conciliando as duas áreas, como, basicamente, faço agora.

fp: Que melhor memória tens do Clube de Futebol “Os Belenenses “, como adepto?

DD: Tenho várias. Vem-me logo à memória, a final da taça de Portugal, em 2007, contra o Sporting Clube de Portugal , pois apesar de termos perdido esse jogo esse ano fizemos uma grande época. Lembro-me também das meias-finais da taça contra o Sporting de Braga , nesse ano, em que foi uma loucura , no Restelo, os festejos de ida ao Jamor. Lembro-me das competições europeias no ano seguinte, o jogo em que o Bayern de Munique veio jogar ao nosso estádio. Lembro-me do Andebol do Clube de Futebol “Os Belenenses” ganhar uma taça presidente da República. Mais recentemente, recordo com muita alegria, a ida  à Liga Europa em futebol, em que fizemos uma grande prestação , indo para o último jogo dos grupos, frente à Fiorentina, a discutir olhos nos olhos a passagem à fase a eliminar.

fp: O teu maior sonho?

DD: Tenho um sonho muito grande de ser Presidente do Clube de Futebol “Os Belenenses”.

fp: Objetivos para 2017?

DD: O nosso grande objetivo  para 2017 , e aqui estou a falar pela equipa, pelo Clube de Futebol “Os Belenenses “, é voltarmos das férias, depois das festas, e termos um campeonato mais tranquilo, mais seguro e meter o Clube de Futebol “Os Belenenses ” num lugar mais confortável, sem o sufoco de uma possível descida de divisão.

FP: Muito obrigado Diogo, pela disponibilidade demonstrada e boa sorte para os desafios, tanto no Andebol como na hotelaria,  que tens pela frente. Boas festas!

O Clube de Futebol “Os Belenenses”, obteve, na passada quarta-feira, dia 14 de Dezembro , a sua quinta vitória, frente ao Maia-ISMAI. O clube da cruz de Cristo encontra-se na nona posição do Andebol 1 e está a 6 pontos do Avanca, atual 6o classificado, primeiro lugar de acesso ao playoff de apuramento de campeão. Segue-se o jogo fora de portas, importantíssimo, frente ao Avanca.

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