20 Set, 2017

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Romário IvoJulho 7, 201716min0

É quase impensável ou poderia ser fictício, dizer que um dia um treinador português faria história na Terra do Gelo. Falamos de Diogo Nobre que deixou os relvados cedo, só que com persistência e estudos, formou-se e iniciou a sua carreira de treinador com 19 anos no Almada Atlético Clube. Diogo Nobre viajou cerca de 4.000 km de sua cidade natal, e há 6 anos que comanda o Peimari United da Finlândia, hoje em busca do 5° acesso consecutivo. Confira abaixo entrevista exclusiva do Fair Play com Diogo Nobre.


Perfil

Nome: Diogo André Folgado Vaz e Monteiro Nobre
Idade: 30 anos                                                                                                                                   Naturalidade: Corroios – Portugal
Currículo: Almada Atlético Clube, Clube Desportivo dos Olivais e Moscavide, Clube Desportivo da Cova da Piedade, Fabril Barreiro, Peimari United (2012- até o presente)


fp. Como surgiu a oportunidade para trabalhar no futebol finlandês?

DN. O meu presidente fez um estágio com os jogadores em Portugal, ainda eles eram juvenis e juniores. Visitou a academia de Benfica e Sporting, e gostou tanto dos métodos portugueses que quis contratar imediatamente um treinador português. O meu amigo e ex-colega André Lourenço recomendou o meu nome pois eu enquadrava-me no que o presidente queria (jovem treinador ambicioso que falasse bem inglês e já tivesse experiência no escalão sénior).

Diogo Nobre (Foto: Peimari United)

fpO que motivou a aceitar o convite, mesmo sabendo das dificuldades que teria?

DN. Na altura Portugal estava a atravessar uma grave crise financeira, e embora não me pudesse queixar tanto, sempre pensei que não tinha futuro em Portugal e estava à espera duma oportunidade para sair. Para além disso já há muito sabia que queria iniciar a minha carreira como treinador principal no escalão sénior e aqui estava a oportunidade. Infelizmente também surgiu um problema pessoal naquela altura, e portanto foram vários factores que juntos empurraram-me para um novo desafio, e quando o telefone tocou, aceitei a proposta em 1 minuto.

fp. Qual foi a sua primeira impressão na chegada e quais foram os maiores desafios naquele início?

DN. Assim que cheguei percebi logo que o clube era uma total anarquia de vários grupos de pessoas que não tinham qualquer ligação entre eles, e vestiam a mesma t-shirt ao fim de semana, e representavam o mesmo emblema, mas não havia qualquer noção de clube, plano de formação, cultura etc. Depois os maiores desafios para mudar isso tudo foram a falta de paixão e compromisso com o futebol que os finlandeses não têm, para além disso, as relações humanas, que foram muito difíceis de estabelecer no inicio porque é um povo muito fechado que não mostra emoções e fala muito pouco, com dificuldade para exprimir os sentimentos.

fp. Como foi o início da sua carreira no futebol?

DN. Eu comecei como jogador no CDR Vale Milhaços já como adolescente porque alguns amigos meus que jogavam comigo a bola na rua e na escola, me convenceram a ir com eles aos treinos de captação do clube. Na altura era fácil para um jovem, adaptar-se ao futebol, porque todos jogamos a bola na rua desde os 3-4 anos, portanto mesmo só começando tarde aos 14, logo no primeiro treino, o treinador pediu-me os dados e mandou-me logo assinar. Depois de alguns anos no VM, tive uma pequena experiência no Estrela de Amadora que não correu bem devido à instabilidade que o clube sofria na altura, e na última época júnior acabei no Clube Oriental de Lisboa. Ainda fiz a pré época de 2005-06 no Seixal, que também acabou esse ano com a equipa sénior, por isso decidi desistir da ideia de jogador e iniciei imediatamente na mesma época a carreira de treinador, no Clube Atlético de Almada, como adjunto dos juvenis.

Diogo Nobre (Foto: Peimari United)

fp. Como foi a adaptação e como é a vida hoje na Finlândia?

DN. A adaptação foi muito difícil. Muito frio e escuridão no Inverno, pessoas que não falam, amizades difíceis, muita desconfiança do único estrangeiro na aldeia, etc. Mas hoje em dia pelo menos as pessoas respeitam muito o nosso trabalho, e tentam ser prestáveis. A comida também não é má, e como já conheço bem o sul da Finlândia, dá para dar uns passeios e desanuviar de vez em quando. Mas continuo a não aceitar bem algumas coisas da cultura Finlandesa, e não me parece que vá algum dia adaptar-me totalmente.

fp. Além de você existe outros integrantes estrangeiros em sua comissão técnica e na equipe, e a qual ponto é importante a presença deles?

DN. Sim temos 3 jogadores portugueses (JU, Adimar e Gerson) que vieram para trazer qualidade e dar o exemplo, e tenho 2 treinadores adjuntos (Hugo Henriques e André Miranda) e um estagiário (Tiago Santos) de Portugal também. Para além de serem adjuntos, cada um deles tem á sua guarda uma equipa de cada escalão de formação, e seguem o projecto do clube, trazendo qualidade não só aos seniores mas também as camadas jovens. O Hugo por exemplo acabou de se sagrar campeão regional com os iniciados.

Diogo Nobre (Foto: Peimari United)

fp. Como é a sua rotina de trabalho no clube?

DN. Não tenho um verdadeiro horário estabelecido. O patrão confia totalmente em mim para resolver todos os problemas, e estou o dia todo a resolver os problemas do clube e dos jogadores/treinos. Normalmente de manhã, damos treinos individuais aos portugueses e a quem quiser mais, ou fazemos programas de ginásio. Fazemos também programação os ciclos semanais, análises de adversários para estabelecer estratégia, e para alem disso envolvo-me com patrocínios, acordos, cooperações de todo o tipo. Nas tardes/noites treino a tempo inteiro seniores e Juniores.

fp. Qual foi o acesso mais difícil com o Peimari? E como é apoio da cidade nos jogos na equipe?

DN. Penso que foi em 2015, quando subimos da 4ª para a 3ª divisão. Tivemos em certa altura a meio da época a 7 pontos de distância do primeiro, e eles com 1 jogo a menos! O capitão e toda a geração de 95 estava na altura obrigado a ir ao serviço militar, e foi um ano muito complicado, em que tivemos de renovar a equipa e não correu bem. Seja como for, o capitão e outros colegas acabaram o exército ainda a tempo de fazer uma recuperação magistral, acabando 5 pontos a frente dessa equipa que liderava a meio.
O apoio da comunidade começou a ser mais forte o ano passado quando se começou a acreditar que podíamos fazer história e ganhar também a 3ª divisão. Esse apoio cresceu até hoje, e o número de pessoas no estádio elevou-se de uma média de 50 fans, para uma média de 350 por jogo este ano! Esperamos agora com o estádio novo, aumentar ainda mais no futuro.

fp. Porque a sua filosofia tem dado certo com o Peimari United ao longo desses anos?

DN. Provavelmente porque a filosofia foi bem definida no início e passada a todas as equipas da formação de igual modo por todos os treinadores portugueses que trouxe, mas principalmente porque houve uma constante evolução dessa mesma filosofia. Por exemplo: o Peimari United jogou diferente todos os anos que fomos campeões (4 anos) com 2 modelos de jogo totalmente diferentes, e com as suas respectivas evoluções que nunca pararam. Junto com uma grande dedicação e horas perdidas em scouting, quando fomos campeão da 4ª divisão por exemplo, já sabíamos como íamos jogar na 3ª (totalmente diferente) e que jogadores precisávamos para melhorar a equipa. Mais do que uma filosofia foi o evoluir e adaptar essa filosofia a cada patamar para continuarmos a ter sucesso, Isto falando do aspecto táctico.
Sobre os valores do clube, esses nunca mudaram ou adaptaram. Somos super exigentes no que respeita a regras e compromisso com o clube, os pequeninos começam logo a fazer o grito que é transversal a todo o clube e que traduzido em português seria “perseverança, atitude, equipa – Peimari”. Depois é a ligação a comunidade que temos. Passamos sempre a mensagem no balneário, que estamos a conseguir meter as nossas pequenas vilas no mapa da Finlândia, e todos sabem que se tornaram nas estrelas locais, e que devem respeitar e honrar Sauvo e Paimio, e isso tem um efeito muito grande nos jogos em casa. Por exemplo no campo de Paimio nunca perdemos um jogo em nenhum campeonato em 5 anos.

Jogadores comemoram vitória. (Foto: Peimari United)

fp. Qual é o objectivo da equipe na Kakkonen?

DN. O objectivo da direcção é assegurar a manutenção, porque é o mais “realista” tendo em conta que temos quase o mesmo plantel do ano passado. Mas eu como “optimista” que sou, apontei para o top-5, vai ser muito difícil, mas sonhar é de graça e na minha óptica devemos sempre apontar sempre o mais alto possível.

fp. O que tem acontecido de errado, para o mau momento e desempenho da equipe até aqui na competição?

DN. Começámos bem a época, mas tal como disse, o objectivo realista é a manutenção, portanto não concordo que estejamos mal classificados, estamos acima da linha de água é o que importa. No entanto, obviamente que gostava de ganhar mais jogos, mas a falta de experiência nesta divisão paga-se caro, e temos perdido alguns pela margem mínima. Em certos momentos nota-se claramente que somos a equipa mais jovem e inexperiente da liga (alguns adversários também são jovens, mas têm experiência de 2ª divisão e selecções jovens). Estamos esta semana a mudar o modelo de jogo, para jogar como o ano passado e tentar ser mais compactos no meio campo, seguros no processo defensivo, para além de aumentar a velocidade e agressividade da transição defensiva, que tinha bastante sucesso nas divisões abaixo, mas na 2ª este ano não tem tido.

fp. Por quanto tempo você espera permanecer na Finlândia?

DN. Neste momento estou à procura de sair para um clube maior. Se alguém da 1ª liga Finlandesa apostar em mim, espero ficar alguns anos. Senão houver propostas concretas no final da época, possivelmente sairei. Para onde não sei, mas Reino Unido talvez é uma hipótese.

Diogo Nobre (Foto: Arquivo)

fp. Na sua opinião como seria uma experiência de José Mourinho na terra do gelo?

Se o Mourinho viesse para a Finlândia, desistiria na primeira semana. Devido a falta do espirito de sacrifício dos jogadores, da cultura individualista Finlandesa, da falta de profissionalismo de todos os intervenientes do Desporto (jogadores, árbitros, dirigentes, federação), da ineficácia dos postos médicos q tratam jogadores como civis e não como atletas de alto rendimento, etc…eu diria que tanto como ele, como qualquer treinador de topo não aguentaria aqui uma semana, em que divisão fosse

fp. Quais são as situações mais inusitadas que você viveu na Finlândia?

DN. Temos mesmo muitas. Mas posso contar 3: nos iniciados há bastante tempo, um rapaz só chegou a meio de um jogo oficial, a razão foi porque a mãe já tinha marcado a hora no cabeleireiro antes de nós mudarmos o horário desse jogo, de maneira que não queria perder a vaga (porque aqui só havia um cabeleireiro na aldeia e só por marcação) … Então faltou à primeira parte, e veio a correr para a 2ª. Outra história com juvenis: antes de termos a arena indoor, treinávamos e jogávamos futsal no inverno para manter a forma. Um dia tivemos um jogo e um rapaz disse que não podia vir, porque ia caçar alces com a família, o que é uma grande tradição antiga, aqui em Sauvo em que família inteira participa junta. Nos seniores temos um jogador que é realmente a mascote da equipa… é defesa, mas como profissão gere uma quinta com gado e agricultura. Uma vez íamos treinar processo defensivo e ele ia ser titular no jogo, mas nunca mais chegava para o treino…achei muito estranho, prolonguei o aquecimento, fiz tempo, mas no fim perdi a cabeça fui buscar o telemóvel e liguei a perguntar onde estava? Ele respondeu muito ofegante que não podia vir ao treino, porque um bezerro fugiu do estábulo e desapareceu na floresta, e ele andava a correr atrás dele, porque tinha de o encontrar depressa e traze-lo antes que fizesse noite, pediu me muita desculpa, e não veio, linha defensiva arruinada.

fpPensa num retorno ao futebol português? E o maior desejo na carreira?

DN. Não, pelo menos como primeira opção. Gostava de ficar mais uns anos a treinar no estrangeiro, a conhecer novas realidades, aprender, estudar o jogo, evoluir e depois um dia mais tarde voltar para um bom clube português. Mas nunca se deve dizer completamente não, e quem sabe, se houvesse neste momento uma boa proposta de um clube de 2ª liga por exemplo, talvez valesse a pena. Para mim é até mais uma questão de projecto do que de dinheiro, se houvesse um clube que me interessasse pelo projecto desportivo, e que me assegurasse que não me despedia depois de duas derrotas, ou depois de um atrito com alguém da direcção, provavelmente voltava sim. Treinar um dia um clube na Premier League.

Diogo Nobre (Foto: Peimari United)

fp. O que a equipe precisa fazer para alcançar o quinto acesso?

DN. Precisamos de aumentar o orçamento para conseguir garantir a contratação de 2 reforços de peso, especialmente para a defesa. Depois disso precisamos de começar a pagar a todos os jogadores, para se comprometerem mais com o clube e deixar de faltar a treinos por estarem a trabalhar ou a estudar. Fora isso não é preciso mais nada, temos boas instalações e estrutura, é mesmo só um problema do foro económico.

fp. Quais são os seus planos para o futuro no futebol?

DN. Tal como disse gostaria um dia de treinar na Premier League. Mas por agora ficaria contente se conseguisse entrar numa das divisões mais baixas em Inglaterra ou mesmo na Escócia. Se ficar na Finlândia espero subir para um clube da 1ª liga, e espero ter comigo a mesma equipa técnica no futuro, porque têm sido fantásticos.

fp.Tem alguma mensagem final para os nossos leitores?

DN. Acreditem nos vossos sonhos sempre, mesmo que sejam um jovem licenciado sem contrato de emprego, e a trabalhar a recibos verdes, a acumular empregos da treta de que não gosta, mas ao mesmo tempo nunca parem de estudar, de aprender, de evoluir, mesmo que vos custe muitas horas com amigos, família, vídeo jogos, etc. Leiam, investiguem e sobretudo pensem o futebol (que é diferente de estudar futebol) e no fim, mais cedo ou mais tarde, alguém há-de reparar em vocês e irão ter a vossa oportunidade. Quando isso acontecer, e vai acontecer se tiverem perseverança suficiente, é bom que estejam preparados para ela, por isso é que disse – não parem de evoluir. A faculdade e os cursos UEFA são só os princípios básicos para a partida. Sonhem alto, não tenham medo de arriscar nunca, sejam ambiciosos com os vossos objectivos e como alguém disse sobre isso: “apontem sempre para a lua, que assim se falharem ao menos acertam nas estrelas”.

Diogo Nobre – A caminho do sucesso. (Foto: Arquivo pessoal)

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Filipe CoelhoNovembro 3, 201610min0

Aos 33 anos, é um dos jogadores mais emblemáticos da Liga NOS. Construiu uma carreira a pulso até se tornar líder em campo de uma das equipas que mais cresceu no contexto português nos últimos anos. O seu exemplo vale, porém, por outros aspetos. Acaba de concluir o Mestrado em Ciências do Desporto e tem-se dedicado àquela que define como a sua causa: a da gestão das carreiras desportivas. Eis Ricardo Monteiro – ou melhor, Tarantini.

fpComo é que o Ricardo José Vaz Alves Monteiro se transformou em ‘Tarantini’?

T. O culpado foi o futebol. É uma alcunha do tempo em que jogava no Sporting da Covilhã, dada por Virgílio Martins (adjunto de João Cavaleiro). Hoje, com exceção de pais e irmãs, toda a gente me chama e conhece-me por Tarantini.

fp. Passou pelo Sporting da Covilhã e pelo Gondomar antes de atingir a divisão maior. O que lhe ficou desses tempos? O que oferecem os escalões inferiores do futebol nacional a um jovem futebolista sénior?

T. Além desses também o Portimonense. O tempo no Sporting da Covilhã foi diferente, pois além de ter tido uma carreira profissional conciliei uma carreira académica. Naquela altura, o Sporting da Covilhã estava a tentar relançar-se outra vez nos campeonatos profissionais e foi uma luta a todos os níveis. Senti as dificuldades que são pertencer a um clube que quer voltar a crescer, sair dos problemas financeiros e ainda por cima num clube que vive no interior.
A ida para o Gondomar e Portimonense foram passos importantes, para um jogador que tinha como objetivo chegar ao escalão principal. Os escalões inferiores devem ser olhados como mais uma etapa e oportunidade de quem pretende chegar mais acima. Os escalões inferiores dotam os jogadores de comportamentos que jamais serão conhecidos por outros. O futebol é como uma pirâmide, em que só chegam, permanecem e continuam os mais fortes. A 1ª Liga é apenas metade do caminho.

fp. Chegou ao Rio Ave em 2008/09, época que marcou o regresso do clube ao principal escalão do futebol português. Que avaliação faz relativamente à evolução do emblema vila-condense desde esse momento?

T. Uma evolução brutal. Só quem conhece o Rio Ave por dentro percebe o que foi feito e o que está a ser para tornar este clube um dos melhores de Portugal. Sé é o melhor, não é; se há coisas por fazer, certamente que sim; mas as poucas pessoas que cá trabalham têm isso em mente, tornar o Rio Ave mais competitivo. As recentes campanhas da equipa ajudaram a dar força na mudança. Para o Rio Ave continuar a crescer falta o aumento da massa associativa, falta mais gente nos estádios, faltam mais rioavistas. Acredito que há uma nova geração a aparecer, aquela que viu o Rio Ave a ganhar mais vezes.

fp. Alguma vez sentiu que a mentalidade de um treinador poderia prejudicar a equipa? Ou seja, alguma vez percepcionou que a forma como o treinador queria que a equipa jogasse ficava aquém do potencial da mesma e não permitia a evolução dos jogadores?

T. Obviamente que todos os jogadores sabem quando tiveram ou estão a ter um melhor rendimento, e aí sim é quando o treinador e a equipa estão a tirar o melhor desse jogador. Mas são inúmeros os fatores que condicionam isso.  Não existe uma só forma de ganhar. Enquanto jogador tenho de ter a capacidade de perceber e conseguir adaptar-me às ideias do treinador. Depois posso conseguir ou não. Caso não consiga estou mais perto de não jogar ou até de ter uma performance mais fraca. Podemos é sentir (no jogo) que as ideias são boas ou más, mas aí cabe ao treinador conseguir compreender o que é melhor para a equipa e para cada jogador. Porque no final só pode haver uma voz de comando e o comandante é sempre o treinador.

fp. O que diria ou como avaliaria o seu trajecto enquanto futebolista se ele terminasse hoje?

T. Eu fui sempre um homem de objetivos. E ao analisar pelos objetivos intermédios posso dizer que apenas ainda não consegui jogar na seleção nacional. Pois quando era miúdo queria ser profissional, quando me tornei profissional queria jogar na 1ª Liga. E quando aqui cheguei pensei em permanecer e depois chegar à seleção nacional. Se calhar foi aqui o meu erro, deveria ter percebido mais cedo que podia chegar ainda mais acima. Depois vieram os timings do futebol: nas minhas melhores épocas tinha contrato ainda com o Rio Ave e aí não tive o que outrora tive, alguém que acreditasse que podia jogar a outro nível. Não fico a lamentar, fico a pensar que não sou suficientemente bom para lá chegar, pois se pensasse o contrário estava a pensar como muitos outros, a lamentar.

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fp. O regresso à Universidade foi como que um regresso ao passado – à Covilhã e à Universidade da Beira Interior – ou uma projecção do futuro?

T. Sem dúvida uma visão para o futuro. Capacitar-me para o que ai vem, e acredito que serão coisas boas, ainda melhores.

fp. Qual o maior desafio e/ou dificuldade que teve de enfrentar na conciliação entre o estatuto de estudante e atleta?

T. Não tenho nada que possa dizer que foi impossível. Foi fácil? Não foi. Mas prescindindo de muitas coisas e tendo um compromisso forte com aquilo que pretendemos, é sem dúvida o primeiro passo para se conseguir. Temos de estar completamente focados com os nossos objetivos – eu quis e fui atrás.

fp. Considerando a sua experiência, julga que deveria haver outra atenção para com os atletas que pretendem não abdicar de uma carreira escolar/académica? Caberá aos clubes, nas suas academias, facilitar e fomentar essa formação?

T. Pela minha experiência, é preciso primeiro que os desportistas queiram mesmo uma carreira escolar/académica. O problema de hoje em dia é o facilitismo. Todos querem alcançar o que quer que seja o mais facilmente possível. É preciso ir atrás, pois se não fosse difícil toda a gente conseguia. Se não fosse difícil jogar ao lado de Cristiano Ronaldo, toda a gente jogava.
E depois sim, vêm as condições e a mentalidade de quem tem o poder de decisão, que têm de estar alinhadas com essa vontade.

fp. No seu site pessoal aborda uma causa que o move. Que causa é esta e de onde é originária? E como julga que pode intervir a este nível?

T. É uma causa, uma atitude que sempre esteve presente em toda a minha vida. Sempre tive uma preocupação com o que iria fazer na vida. Quando me tornei profissional comecei a perceber que o problema era e continua a ser mesmo real.

Neste momento tenho três objetivos com este projeto:
– dar continuidade, com mais qualidade e informação a palestras educativas em clubes, universidades e instituições interessadas na temática;
– conseguir quantificar o problema em Portugal, através da realização de diversos estudos;
– e encontrar parceiros que possibilitem a criação e divulgação de testemunhos inspiradores nas diferentes modalidades.

Acredito que se as instituições não pegarem nisto a sério, esta ideia vai morrer. Vou intervir dentro das minhas possibilidades, dos meus recursos, até quando achar que sou útil para esta causa.

fp. Sente que há sensibilidade por parte dos seus colegas de profissão relativamente a estas questões?

T. Uma coisa é achar que eles são sensíveis à questão, outra coisa é se eles fazem algo para mudar. De um modo geral, se a resposta à primeira é sim, à segunda é não.

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fp. A dado momento, na sua tese de mestrado, refere que “um dos grandes objetivos deste trabalho foi fornecer ao treinador dados quantificáveis e aplicáveis, identificando e caraterizando quais as relações mais estáveis que caraterizam o sucesso defensivo em situações de ‘passe entre linhas’ no futebol”. O Mestrado foi o primeiro passo no seu futuro pós-futebol? Equaciona a possibilidade de vir a ser treinador?

T. Sim, o mestrado foi o primeiro passo a pensar no futuro, outros já dei e continuo a dar. Ser treinador é uma grande possibilidade, no entanto não sei se algum dia vai acontecer ou quando. Tal como os jogadores, também os treinadores têm uma profissão em que são avaliados semanalmente. É uma carreira muito difícil, está sempre a ser posta à prova. Para quem tem essa vontade têm de se preparar o melhor possível, para quando a oportunidade aparecer.

fp. Que sonho ainda lhe falta cumprir, pessoal e futebolisticamente falando?

T. Tirando a seleção nacional, ganhar um título por um clube dito mais pequeno, como por exemplo o Rio Ave.

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O Fair Play agradece a pronta disponibilidade do Tarantini para a realização da entrevista, desejando-lhe as maiores felicidades a nível profissional e pessoal.

(Todas as fotos inseridas no corpo do texto foram gentilmente disponibilizadas pelo Tarantini)


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