23 Out, 2017

Arquivo de Taekwondo - Fair Play

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João BastosSetembro 16, 201616min0

O Fair Play esteve à conversa com o olímpico Rui Bragança. O bi-campeão europeu e vice-campeão mundial de Taekwondo teve a sua primeira participação olímpica no Rio de Janeiro e contou-nos como tem sido a sua carreira. Aos 24 anos, Rui Bragança tem já um extenso palmarés mas vê o seu futuro na alta competição ameaçado pela falta de condições para a prática da modalidade em Portugal.

fp. Como surgiu o taekwondo na tua vida?

RB. Surgiu por acaso. Aos 6 anos quis começar a praticar um desporto e experimentei o karaté. O kickboxing já tinha uma turma muito avançada e não tinha idade para fazer musculação e então comecei a fazer taekwondo sem saber muito bem o que era.
As primeiras aulas não foram muito divertidas, mas como tinha o mês pago continuei a ir e fiz bem, porque logo se tornou mais divertido quando comecei a entrar em combates e foi assim que o taekwondo me cativou…até hoje.

fp. Em termos de desporto escolar não houve nenhum contacto com o taekwondo?

RB. Não. No desporto escolar não tive nenhuma experiência de taekwondo ou outra arte marcial. Jogava à bola no desporto escolar. Efectivamente, as artes marciais não são muito incluídas no desporto escolar ou no programa de educação física, pelo menos eu não tive contacto nem com taekwondo, nem com karaté, nem com judo.

fp. O público em geral contactou mais com o taekwondo através dos teus feitos, mas não tem noção que apesar de ser uma modalidade pouco praticada em Portugal, tem tido óptimos resultados, nomeadamente a nível europeu. Como explicas esse sucesso?

RB. Considerando a expressão que o taekwondo tem em Portugal, os resultados têm sido excelentes.
Posso apontar o sucesso essencialmente ao grupo de atletas que se criou, à ambição dos treinadores, particularmente no meu caso a colegas de treino que também partilhavam dessa ambição, a pessoas que já tinham mais experiência na modalidade e que nos ajudaram a crescer e depois as oportunidades foram surgindo ao mesmo tempo que também as procurámos. Surgiram os estágios, surgiram as competições e fizemos muitos sacrifícios, mas esses sacrifícios foram valendo a pena.

fp. Apesar de ser uma modalidade individual, o colectivo é uma parte fundamental do sucesso?

RB. Eu falo sempre em “nós”, porque só no combate é que estamos sozinhos. É impossível treinar sozinho, teria de treinar para o ar. E por isso é um desporto que depende muito do colectivo. E desse colectivo também faz parte o meu treinador, os meus pais que me apoiam e me motivam, os meus colegas de faculdade que me ajudam quando tenho de faltar às aulas. Nenhuma das minhas conquistas foi individual, foram sempre conquistas de um colectivo.
Atribuo até maior importância à equipa numa modalidade individual que numa modalidade colectiva. Não é por acaso que num desporto colectivo, muitos atletas trocam de equipa e continuam a ter sucesso. Num desporto individual, e no caso das artes marciais, não é fácil trocar de equipa porque isso significa trocar-se toda a base de treino. No meu caso particular, tenho o mesmo treinador há 11 anos.

Foto: Facebook Rui Bragança
Foto: Facebook Rui Bragança

fp. Como é o teu dia-a-dia?

RB. O dia começa cedo, dependendo do tipo de treino que executo nesse dia. Treino de manhã, vou para as aulas, almoço e aproveito para estudar, vou para o estágio (do curso de medicina) e volto a treinar à tarde e vou dormir cedo porque no dia seguinte há mais.

fp. Tens de ter uma disciplina alimentar rígida para manteres o peso e te manteres na tua categoria (menos 58 kg)?

RB. Eu já compito nesta categoria desde a época 2008/2009. É preciso ser regrado e não cometer excessos, mantendo o equilíbrio entre massa muscular e massa gorda, e é preciso muito controlo e alguns sacrifícios, sobretudo quando vou comer a casa dos avós e eles me metem à frente mais aquele pratinho (risos), ou quando vamos jantar com os amigos é sempre preciso ter cuidado com o que se come.

fp. Consegues tirar benefícios entre a prática do taekwondo e a formação em Medicina?

RB. Independentemente do curso, penso que quanto melhor atleta eu for, melhor estudante eu vou ser porque a concentração que me exige a medicina, também me exige o taekwondo, e da forma como eu estudo para o meu curso, também estudo os meus adversários. Como animais que somos, sempre que nos vimos em aflição recorremos ao nosso instinto e procuramos fazer o que sempre fizemos, mas se conseguirmos decorar e antecipar esses instintos dos nossos adversários, o combate torna-se num jogo de sueca: se decorarmos as cartas que já saíram, nós sabemos as cartas que vão sair a seguir. No taekwondo isso também se aplica. Se eu me lembrar de toda a táctica, eu consigo ter 100 soluções para um problema e também posso aplicar esta estratégia à medicina, ou seja, também posso associar 10 doenças a um sintoma.
Na medicina convencional não me ensinam nenhum segredo que eu possa aplicar para ser melhor no taekwondo, mas sou igualmente exigente comigo próprio em ambas as áreas, até porque sei que quando acabar a carreira, o meu futuro não passará pelo taekwondo, uma vez que não é possível viver da modalidade em Portugal.

fp. Foste duas vezes campeão europeu, vice-campeão mundial, ganhaste outras provas de relevo e este ano foi a tua primeira participação em Jogos Olímpicos. Qual foi a prova que mais te marcou?

RB. Isso é muito difícil de dizer porque todas as provas têm a sua história, todas as medalhas têm uma história e todas as derrotas têm uma história. Fui aos Jogos e perdi, mas não deixa de ser marcante porque é uma super competição que ficará para sempre na minha memória.
Mas, por exemplo, duas semanas antes de ter sido campeão da Europa em 2014 andava de muletas; quando fui vice-campeão do mundo tinha 19 anos, o meu objectivo era ganhar um combate e ver como era um campeonato do mundo. Acabei por sair de lá com a medalha de prata. Cada prova tem a sua história que a torna única e incomparável com outras.

Medalha de Ouro nos Campeonatos da Europa 2016, em Montreux | Foto: Facebook Rui Bragança
Medalha de Ouro nos Campeonatos da Europa 2016, em Montreux | Foto: Facebook Rui Bragança

fp. Só os 16 melhores do mundo chegam aos JO. É uma prova com uma exigência competitiva superior?

RB. Sim, qualquer momento de desconcentração é fatal. E os combates são de tal forma equilibrados que pode pender para um lado ou para o outro. Se tivermos o Messi de um lado e o Ronaldo do outro, eles são os dois melhores do mundo e podem jogar os dois bem, por vezes o que distingue os dois é uma “pontinha” de sorte que faz com que o remate de um dê golo e o do outro vá à trave. 
No meu combate nos JO aconteceu isso. Eu tive de arriscar, estávamos os dois muito defensivos quando o combate estava a chegar ao fim e começamos os dois a arriscar. O meu risco traduziu-se em passar muito perto da cabeça dele, o risco dele deu para me tocar. A partir desse momento ele já tinha a vantagem e eu tive de correr atrás do prejuízo.
O taekwondo é muito ingrato porque noutro desporto um atleta pode fazer um registo de 14 segundos e não é expectável que faça 10 ou que faça 18. No taekwondo não existem marcas, existe a vitória ou a derrota. Na minha categoria, o número 1 e número 2 do mundo caíram logo na primeira ronda (no torneio olímpico). Em 8 categorias olímpicas, masculinas e femininas, apenas em uma o líder do ranking ganhou. Na minha categoria ganhou o número 11 do ranking. Na categoria menos de 80 kg, o campeão decidiu-se com um golpe no último segundo.
O que quero transmitir é que no taekwondo não basta estar bem, é preciso estar melhor que o adversário. Eu posso chegar a uma competição na minha melhor forma mas se apanho no primeiro combate alguém que ainda está melhor que eu, acabou aí a competição. Quando os combates são desnivelados, podemos recuperar de uma falha, mas nos JO o nível é igual entre todos e conhecêmo-nos muito bem.

fp. Certamente que os Jogos Olímpicos foi a competição onde tiveste maior exposição mediática. Essa exposição fez-te sentir mais apoiado ou mais pressionado?

RB. Tentei não me afectar com isso. Inclusivamente, aquando dos Jogos de 2012, por ter sido vice-campeão do mundo no ano antes, saiu uma notícia que me apontava como um dos atletas portugueses com maiores possibilidades de conquistar uma medalha. Eu nem fui aos Jogos (risos).
Mas sabendo o que é o taekwondo, não me deixei afectar pelas expectativas que podiam depositar em mim. Sabia que não bastava estar bem, tinha de chegar ao dia e estar bem nesse dia. Ter um dia como tive em Baku (Europeus 2014) em que tudo correu bem e que antecipei tudo o que o adversário fez.
Em relação ao ambiente vivido nos JO, senti os nervos normais de uma prova antes de começar a competir. Antes de passar a cortina, senti uma ansiedade que me atravessou o corpo todo e um aperto no peito, mas depois de passar a cortina e ver a minha namorada, os meus pais, os meus amigos e o resto da comitiva portuguesa todos a gritarem por mim. Anunciarem-me ao microfone e nem se ouvir nada com o barulho…eu senti-me no topo do mundo, senti que podia fazer qualquer coisa!

fp. No final dos JO disseste que se a falta de apoios se mantivesse no próximo ciclo olímpico, que ponderarias abandonar a alta competição. Já tiveste alguma indicação no sentido de alguma coisa se alterar nesse aspecto na preparação para Tóquio?

RB. Infelizmente, a Federação continua na mesma situação. Espero agora manter o apoio do Comité Olímpico e isso já ajuda. Quanto à minha continuidade, vamos ver. Eu adoro o taekwondo, quero continuar a minha carreira e quero chegar a Tóquio e fazer igual ou melhor, mas pelo menos chegar lá nas melhores condições, e vou tentar arranjar formas para que isso aconteça. Mas ainda passou pouco tempo desde os Jogos para alguma coisa ter mudado.
Os Jogos são muito grandes e mudam muita coisa, mas na verdade só mudam para quem alcança medalhas. Os atletas olímpicos existem 4 meses antes dos Jogos e depois existem para serem criticados por terem falhado. Veja-se o exemplo da Telma Monteiro: agora é uma atleta espectacular, mas durante três Jogos ela foi apelidada de “eterna promessa”, mas a atitude dela sempre foi a mesma, sempre esteve lá para ganhar e sempre esteve para dar tudo em nome do país. Fiquei felicíssimo com a medalha dela e com os fantasmas que desapareceram. Ela não merecia as críticas que lhe fizeram porque é uma atleta incrível. Mesmo que não tivesse uma medalha olímpica, quantos atletas podem dizer que em 11 europeus têm 11 medalhas?!

Foto: Comité Olímpico de Portugal
Foto: Comité Olímpico de Portugal

fp. Essa é outra parte que vos exige muita preparação? Para além de toda a preparação física, técnica e táctica, é preciso ter muita resiliência para ser atleta de alta competição em Portugal?

RB. Eu acho que essa é uma visão distorcida da realidade. A Telma não treinou durante anos exclusivamente para os Jogos Olímpicos. É claro que é uma competição com outro peso. Para a opinião pública, a Telma ter conquistado uma medalha nos Jogos é fantástico, mas como ela “só” tinha 11 medalhas em Europeus já não lhe atribuíram o devido valor.
A verdade é que nenhum atleta pode orientar a sua vida para os Jogos porque arrisca-se a trabalhar quatro anos, chegar lá e correr mal. No meu caso, se saísse agora do taekwondo não podia dizer que não valeu a pena. Mesmo sem uma medalha olímpica, foi uma caminhada extraordinária que só eu e quem me rodeia sabe. A viagem até agora tem sido incrível e tem-me ensinado coisas extraordinárias. Nos Jogos há 10 000 atletas para 900 medalhas. As 9 100 pessoas que não ganharam medalha não podem ser considerados maus atletas…e sem contar com atletas extraordinários que não conseguem sequer apuramento para os JO.

fp. Qual é o teu próximo grande desafio?

RB. Para já? Acabar a tese (risos). Quanto a desafios desportivos, não os posso traçar sem saber que condições tenho para os atingir. Espero ter as condições necessárias – e estou a fazer por isso – para preparar os Jogos Olímpicos de 2020, até porque têm lugar no Japão que é o país das artes marciais. Para o taekwondo é fantástico, mas ao mesmo tempo coloca a modalidade em risco, pela entrada do karaté, o que constitui um desafio ao taekwondo para se tornar mais atractivo.
O Comité Olímpico Internacional pretende manter o número de atletas com acesso aos JO por uma questão de sustentabilidade dos próprios Jogos, pelo que para algumas modalidades entrarem, é possível que outras tenham de sair. Espero que quer o taekwondo, quer o karaté cresçam como modalidades olímpicas e se mantenham. Há modalidades, como o futebol, cuja presença nos JO não interessam nem às federações, nem aos clubes nem ao próprio público. Se não interessa aos intervenientes, talvez devesse ser repensada a sua existência no calendário olímpico.

fp. Estamos a chegar ao final da nossa conversa. Pedimos-te que deixes uma mensagem aos leitores do Fair Play e particularmente aos jovens que estão a pensar iniciar a prática do taekwondo.

RB. Para os jovens que estão a pensar iniciar-se no taekwondo, só posso dizer que esta é uma modalidade super completa, que é fisicamente exigente. Exige-nos que sejamos rápidos e fortes, mas também é mentalmente exigente, o que a mim me fascina pela componente táctica. Os 6 minutos de um combate têm por trás muita dedicação, muito sacrifício e muita preparação mental mas no final desses 6 minutos tudo isso valeu pena. Quem quiser entrar de cabeça e com cabeça, que o faça!
Espero que os leitores tenham gostado da minha entrevista e que eu possa dar motivos para que acompanhem a minha carreira.

Acompanhe a carreira de Rui Bragança através do seu site: http://www.ruibraganca.com/ ou do seu facebook: https://www.facebook.com/ruibraganca58

Foto: ruibraganca.com
Foto: ruibraganca.com


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