22 Out, 2017

Arquivo de Futebol de Praia - Fair Play

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André CoroadoOutubro 7, 201711min0

No passado dia 17 de Setembro, a Rússia reconquistou a Liga Europeia de Futebol de Praia, após vitória por 3-1 diante da selecção portuguesa na final em Terracina. Numa época que começou de forma algo conturbada, em face do prolongamento de uma crise já iniciada em 2016, as hostes de Likhatchev renasceram das cinzas e arrebataram mesmo o ceptro de campeões do velho continente.

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André CoroadoSetembro 13, 201712min0

Começa já amanhã o maior evento de selecções do futebol de praia europeu do ano: a Superfinal! Pelo segundo ano consecutivo, a prova viaja até Itália, cabendo desta vez às areias de Terracina a honra de acolher a prova que irá coroar os novos campeões europeus da modalidade. Em campo, as 8 melhores selecções do continente irão disputar o título, que será atribuído ao vencedor da grande final de Domingo. A via rumo à partida decisiva é turtuosa e repleta de obstáculos, com pouca ou nenhuma margem para erros.

Os 8 candidatos foram divididos em 2 grupos de 4 equipas cada, com base na sua classificação nas etapas da fase regular. Dentro de cada grupo, as equipas jogam todas umas contra as outras entre 5ª feira e Sábado, sendo que apenas o vencedor de cada grupo avança para a grande final de Domingo. Eis a composição dos agrupamentos (entre parênteses está indicada a classificação registada na fase regular):

Grupo 1

PORTUGAL (1º)

ESPANHA (4º)

SUÍÇA (6º)

POLÓNIA (8º)

Grupo 2

UCRÂNIA (2º)

RÚSSIA (3º)

BIELORRÚSSIA (5º)

ITÁLIA (7º)

Em face dos promissores embates que se avizinham, o Fair Play lança um olhar sobre cada um dos participantes, perspectivando aquela que se espera vir a ser a Superfinal mais equilibrada de sempre.

PORTUGAL

A selecção das quinas parte para a Superfinal da Liga Europeia como principal favorita à conquista do troféu, após se ter classificado no 1º lugar da fase regular, fruto de 6 vitórias em outros tantos encontros que lhe valeram 15 pontos (as vitórias contra Suíça e Polónia foram obtidas em prolongamento e grandes penalidades, respectivamente). Na verdade, Portugal ainda não perdeu qualquer jogo contra uma selecção europeia no ano de 2017, em que averbou apenas 3 derrotas, todas diante de selecções sul-americanas (Brasil e Paraguai). Tratam-se de motivos mais do que suficientes para poder apontar os comandados de Mário Narciso como o principal candidato à vitória em Terracina, onde o conjunto porutuguês irá procurar repetir o feito de 2015, quando se sagrou campeão europeu em Parnu (Estónia). Para tal, as cores nacionais contam com um plantel recheado de qualidade, que combina 10 elementos da temporada áurea de 2015 com 2 jovens talentos que têm vindo a integrar as convocatórias da selecção nos dois últimos anos: Pedro Vasconcelos Silva e Ricardo Baptista, este último já com 5 golos apontados nesta Liga Europeia. Numa equipa cuja versatilidade táctica é imagem de marca e que tem vindo a aprimorar rigorosamente ao longo da época os mecanismos defensivos, os desequilíbrios podem brotar de qualquer parte, desde as rápidas combinações de Jordan (melhor jogador da etapa de Siófok) com os irmãos Bê e Léo Martins até à superioridade numérica gerada pelo sistema 2:2, no qual o guardião Elinton Andrade assume um papel fundamental, passando pelos remates indefensáveis do lendário Madjer, melhor jogador da etapa da Nazaré.

UCRÂNIA

Se reconhecemos o favoritismo de Portugal no plano teórico, não podemos deixar de considerar as hostes ucranianas igualmente merecedoras desse estatuto. Campeões europeus em título, os pupilos de Varenytsia chegam a Itália enquanto cabeça de série, mercê do 2º lugar obtido na fase regular, que incluiu a conquista da etapa de Warnemunde (Alemanha). Os soldados do Mar Negro raramente deslumbraram no seu périplo rumo a Terracina, mas deram provas de grande consistência defensiva e a habitual frieza táctica que os levou à final nos dois anos anteriores, perdendo apenas um encontro, pela margem mínima, diante da Espanha. Desta vez, nomes sonantes como os irmãos Borsuk e o incontornável Medvid (fundamental na conquista do ceptro no ano transacto) não estarão presentes, à semelhança do que se verificou na fase regular, cabendo a tarefa da revalidação do título a um plantel algo renovado. A experiência dos guarda-redes Sydorenko e Hladchenki, pelos quais passa grande parte do jogo ucraniano, revela-se um ponto chave no sucesso da equipa, que conta ainda com a liderança de Pachev, a eficácia matadora do temível Zborowski e a evolução meteórica de talentos como Voitok ou Glutskyi. Todas as razões se conjugam, portanto, para que a Ucrânia seja efectivamente respeitada como uma das grandes candidatas a chegar novamente à final de Domingo.

RÚSSIA

Mesmo atravessando um momento de reestruturação profunda, a Rússia constitui sempre um obstáculo temível para qualquer selecção do velho continente, apresentando-se como crónico candidato à conquista de qualquer competição. Após ter falhado o apuramento para o mundial deste ano, a armada de Mikhail Likhatchev procurou retomar o caminho do sucesso por via de uma estratégia focada no presente e no futuro. Assistiu-se, de facto, a uma renovação da selecção russa sem precedentes, com novos rostos a surgir nas fileiras tricolores na etapa de Belgrado da fase regular e no Mundialito (caso dos irmãos Kryshanov, que deixaram boas indicações). Todavia, seria apenas na etapa de Moscovo, em solo caseiro, que a Rússia finalmente daria provas de um regresso aos índices competitivos de outrora, conquistando os 9 pontos em disputa e carimbando o apuramento para a Superfinal. A caminhada que incluiu vitórias sobre Suíça e Bielorrússia e contou com Makarov em grande plano. Em Terracina, os czares não poderão contar com o seu emblemático número 4, mas jogadores de renome como Shkarin, Romanov e Nikonorov estarão presentes numa equipa que, introduzindo pequenos ajustes tácticos, mantém o seu ADN que tantas vitórias lhe valeu no passado. O objectivo não será outro que não a conquista de um título que lhes foge desde 2014.

SUÍÇA

Campeã europeia em 2012, a Suíça é outra das formações que se apresenta em Terracina com legítimas aspirações à conquista do troféu, tendo mantido um nível exibicional muito elevado nos últimos anos. Todavia, a caminhada helvética rumo à Superfinal foi pouco brilhante, pautando-se por um modesto 6º lugar com 9 pontos. Os comandados de Schirinzi até começaram bem, com um triunfo por 4-0 diante da Itália, mas após uma derrota contra Portugal por 7-6 no prolongamento, naquele que foi o jogo mais espectacular da época até ao momento, a Suíça perdeu a consistência competitiva e começou a cometer demasiados erros defensivos que se reflectiram na conquista de apenas duas vitórias frente às mais modestas formações da França e da Grécia, ambas fora da Superfinal. O problema dos helvéticos prende-se, efectivamente, com as grandes flutuações de intensidade ao longo da época e de cada torneio, muitas vezes sem explicação aparente, bem como pelo experimentalismo excessivo em que por vezes incorre (recorde-se a derrota por 8-4 frente à Bielorrússia em que Ott jogou como guarda-redes praticamente toda a partida). Todavia, não haverá provavelmente neste momento nenhuma equipa europeia tão perigosa no sistema 2:2 como a Suíça, que conta com a técnica fenomenal de jogadores como Ott, Misev, Spacca na construção e o poder finalizador dos acrobatas Stankovic e Hodel, este último regressado após lesão.

ESPANHA

A selecção espanhola apresenta-se em Terracina no âmbito de um período de renovação que tem vindo a desenvolver nos últimos anos, buscando agora a oportunidade para voltar a conqusitar um grande título europeu (algo que não consegue desde 2012, aquando da qualificação para o campeonato do mundo do Taiti). Numa temporada que começou com a ausência no mundial de futebol de praia, a Espanha surgiu muito motivada na Liga Europeia e conseguiu empreender um percurso consistente, averbando 12 pontos e erguendo mesmo o troféu de campeão na etapa de Belgrado. O trajecto do elenco dirigido por Joaquín Alonso contou com triunfos sobre grandes nomes do futebol de praia europeu, incluindo uma vitória por 4-3 diante da Ucrânia (4 pontapés de bicicleta por parte dos atletas de La Roja) e um triunfo sólido por 3-1 frente à Rússia. Ao mesmo tempo, Alemanha e Polónia, adversários teoricamente mais acessíveis, constituíram um obstáculo intransponível para a equipa espanhola. Caracteriada pela aposta no sistema 3:1 e em modelos clássicos, a abordagem desta selecção passa pela consistência defensiva e pelo talento de jogadores de classe mundial como Llorenç Gomez, Eduard Suarez e Antonio Mayor para fazer a diferença. Integrada no grupo 1, a Espanha tem claramente uma palavra a dizer na luta pelo apuramento, que deverá ser discutido com Portugal e Suíça.

BIELORRÚSSIA

Não seria coerente considerar a Bielorrússia uma possível surpresa nesta Superfinal, atendendo às provas de qualidade dadas por esta formação ao longo dos últimos anos. A inserção gradual de mais uma potência do leste europeu na elite do futebol de praia continental incluiu vitórias contra todos os outros emblemas que agora tomam parte nesta Superfinal, num processo de crescimento que contou com o trabalho de técnicos como Gilberto Costa (actual seleccionador brasileiro), Marco Octávio e Nico Alvarado, antiga lenda do futebol de praia espanhol que já começa a deixar a sua marca. Para já, os bielorrussos atingiram a Superfinal com 12 pontos obtidos nas etapas de Moscovo e Siófok, dos quais sobressaem os triunfos expressivos por 8-4 diante da Suíça e 6-0 frente à Polónia. Ainda assim, Portugal e Rússia mostraram ter aprendido as lições do passado e neutralizaram a equipa bielorrussa em jogos nos quais o rigor defensivo foi nota dominante. A grande questão será saber se a selecção de Nico conseguirá começar a vencer as suas partidas em vez de dificultar a tarefa dos adversários ao ponto de os poder vir a surpreender. Para já, o poder físico, a consistência defensiva e o jogo directo no pivô e na subida dos alas são pontos estruturantes do jogo bielorrusso, que encontra no guardião Makarevich e no pivô Bryshtel os seus crónicos principais intérpretes. Será interessante ver como a Bielorrússia reage perante as vizinhas (e mais experientes) Rússia e Ucrânia no grupo 2.

POLÓNIA

Grande sensação do Verão passado ao vencer o torneio de apuramento para o mundial, a Polónia desiludiu já em Abril deste ano, ao abandonar a competição global nas Bahamas sem uma única vitória. No entanto, e já sem a sua grande referência (o acrobático Saganowski), as hostes do comandante Marcin Stanislawski deram provas de resiliência ao conquistarem os 7 pontos que lhes deram o acesso à última vaga na Superfinal da Liga Europeia. Incapaz de manter um caudal de jogo ofensivo tão expressivo como os principais candidatos ao título, a Polónia conta no entanto com o poderio físico da sua linha defensiva para manter a equipa adversária longe da sua baliza e revela-se profundamente letal nas transições ofensivas, criando muito perigo com base na exploração das alas e das bolas paradas. Foi assim que os polacos conseguiram levar os jogos da fase regular contra Espanha e Portugal a grandes penalidades, tendo inclusivamente alcançado 1 ponto fruto do triunfo frente aos espanhóis. As vitórias diante de gregos e azeris providenciaram à Polónia os pontos que ainda lhe faltavam para garantir a presença em Terracina, onde irá tornar a encontrar precisamente as duas selecções ibéricas. O historial polaco não deixa margem para dúvidas: jogadores como Ziober e Frizkemut devem ser vigiados de perto, da mesma forma que será preciso trabalhar colectivamente para encontrar espaços numa muralha defensiva erguida por Jesionowki, Gac, entre outros. Muito dificilmente a Polónia repetiria o feito de Jesolo há 12 meses, mas é evidente que o conjunto polaco pode roubar pontos a qualquer equipa.

ITÁLIA

O grupo 2, por seu turno, fica completo com a Squadra Azurra, equipa que, na nossa opinião, conta com menos hipóteses de chegar à almejada final de Domingo, pese embora o facto de jogar em casa. Tendo o apuramento já garantido como anfitriã de acordo com as regras da BSWW, a Itália mostrou uma pálida imagem na fase regular, conquistando 9 pontos que são lisonjeiros para uma equipa sem ideias e débil tacticamente. Os homens de Massimo Agostini lograram apenas superar (sempre pela margem mínima) as selecções da França, da Alemanha e do Azerbeijão, todas elas arredadas da Superfinal. Suíça, Portugal e Ucrânia não deram tréguas aos transalpinos, que ainda assim contarão com um elenco de luxo para tentar recuperar a sua melhor forma. De facto, o plantel italiano conta com nomes como Ramacciotti, Palmacci e Gori, melhor marcador do último mundial (em que a Itália foi a equipa europeia que obteve melhor classificação, no 4º lugar), passíveis de fazer a diferença em quaisquer circunstâncias. No entanto, será necessário uma evolução do nível de jogo colectivo apresentado nas etapas da fase regular para a Itália poder superar equipas mais organizadas e tão ou mais talentosas como são as formações de leste que irá degladiar.

CALENDARIO (horas PT)

5ª feira (14 de Setembro)

12:30 – Espanha X Suíça

13:45 – Bielorrússia X Rússia

15:00 – Polónia X Portugal

16:15 – Itália X Ucrânia

6ª feira (15 de Setembro)

12:30 – Espanha X Polónia

13:45 – Ucrânia X Rússia

15:00 – Portugal X Suíça

16:15 – Bielorrússia X Itália

Sábado (16 de Setembro)

12:30 – Suíça X Polónia

13:45 – Ucrânia X Bielorrússia

15:00 – Portugal X Espanha

16:15 – Rússia X Itália

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André CoroadoJulho 14, 20178min0

Em 1997, João Victor Saraiva iniciava uma longa jornada no futebol de praia que o consagraria como um dos melhores de sempre na modalidade. Detentor de diversos recordes e uma infindável colecção de prémios individuais, foi considerado o melhor do mundo pela segunda vez consecutiva em 2016. Após um Mundial adverso às aspirações lusas, em que Portugal não conseguiu revalidar o título, a equipa das quinas regressou às vitórias com Madjer em grande plano. O Fair Play foi conversar com Madjer e revela os pontos de vista da lenda dos areais.

Antes do Campeonato do Mundo FIFA Bahamas 2017, a revalidação do título era o objectivo assumido pela equipa. Não tendo sido possível, que balanço faz da participação de Portugal no mundial?

M: Sem dúvida que o grande objectivo era revalidar o título, no entanto sabíamos que éramos o principal alvo abater. De qualquer forma fizemos de tudo para conquistar o título e acabámos por cair perante o actual Campeão Mundial no melhor jogo do mundial, dito pela crítica e adversários. O balanço acaba por ser menos positivo pela saída precoce da competição, mas positivo pela forma como sempre nos entregámos.

No seu ponto de vista, o que poderia ter sido feito de forma diferente para que Portugal tivesse alcançado um melhor resultado?

M: Penso que tudo foi feito, colocaria talvez mais jogos internacionais de forma a preparar melhor a competição… Mas não foi possível. 

Foto: BSWW

Apesar da eliminação precoce nos quartos, Portugal foi a única equipa que efectivamente fez frente ao eventual campeão Brasil, perdendo apenas nos instantes finais da partida. Como vê a ascensão da selecção brasileira de volta ao topo? O que podem Portugal e as outras selecções fazer para derrotar este Brasil cuja invencibilidade já dura 2 anos? 

M: Penso que voltaram a jogar como equipa e unidos e isso faz toda a diferença. Anteriormente oscilavam entre o grupo e a individualidade e isso por vezes funcionava, mas outras vezes ficavam à espera de desequilíbrios individuais. Actualmente estão totalmente focados enquanto equipa e objectivos. As selecções têm um trabalho árduo pela frente mas não impossível, como já ficou provado. 

A conquista da Copa do Sal, duas semanas após o encerramento do mundial, apaziguou o sabor amargo da eliminação do mundial? Que ilações podemos retirar do torneio?

M: Não apaziguou nada, apenas temos de evoluir e apreender com os erros e tentar melhorar logo em seguida e foi o que sucedeu.

 

Que objectivos movem ainda o Madjer enquanto capitão da selecção nacional?

M: Os mesmo objectivos todos os anos são iguais tendo em conta que sou exigente, por isso tudo passa pela motivação e estou motivado para continuar a trabalhar como se fosse o primeiro dia da minha carreira.

Madjer marcou 3 golos na recente vitória diante da Suíça na Liga Europeia, na Nazaré [Foto: Nazaré Beach Events]

O Sporting estreou-se recentemente na Euro Winners Cup ao alcançar o 7º lugar na competição realizada na Nazaré. Que balanço faz deste evento no geral e da prestação do Sporting em particular?

M: Penso que estivemos muito bem dentro das nossas limitações e que crescemos enquanto equipa, nunca nos esquecendo que para muitos foi a primeira vez que competiram na EWC e até mesmo internacionalmente. 

No campeonato nacional que agora se inicia, o Sporting procura a revalidação do título nacional. Que balanço faz da prestação da equipa até agora e como se gere a impossibilidade de ajudar o clube do coração em grande parte das jornadas?

M: Mantemo-nos fiéis aos nossos princípios que passam por crescer passo a passo para alcançar o nosso objectivo e na fase regular ficarmos entre os 4 primeiros para atingir os playoffs.

Olhando para o plantel do Sporting que tem disputado estas competições encontramos diversos jogadores de classe mundial, mas também jovens que têm dado provas de qualidade, como Ricardinho e Pedro Eustáquio. Passa também pelos objectivos do clube ajudar a formar jogadores para salvaguardar o futuro da modalidade em Portugal?

M: Sempre foi o nosso objectivo e será sempre a nossa bandeira ajudar no desenvolvimento da modalidade, assim como acompanhamento e surgimento de novos talentos.

[Foto: http://sportingcp.superfanatics.eu]

Recentemente iniciou uma nova aventura em Itália, alinhando ao serviço do Pisa Beach Soccer e tendo rapidamente conseguido bons resultados (presença no Top 4 da Taça de Itália e arranque favorável na liga). Como descreve este regresso ao futebol de praia italiano?

M: É fantástico regressar ao primeiro campeonato onde joguei internacionalmente e onde vejo que existe um grande respeito e crescimento da modalidade.

Tendo jogado em tantos países e ligas diferentes, que comparação faz entre a liga portuguesa e outras onde tem actuado recentemente? Que características das ligas estrangeiras podemos importar para desenvolver os quadros competitivos em Portugal?

M: Existe um caminho longo a percorrer em Portugal em comparação com outros países, e estamos sem dúvida a estagnar e a ser ultrapassados por outros. Cabe-nos a nós não permitir e tentar passar à FPF o máximo de informação possível, para mantermos o futebol de praia “vivo” e crescente.  

Completou recentemente 20 anos de carreira no futebol de praia, um registo que inclui mais de 500 internacionalizações e mais de 1000 golos pela equipa das quinas. Depois de tantos anos e tantas partidas disputadas, a sensação de entrar em campo para representar Portugal continua a ser a mesma?

M: Entro sempre como se do primeiro jogo se tratasse e com a mesma vontade de representar ao melhor nível a Seleção. 

Tendo representado dezenas de emblemas onde jogou ao lado de centenas de jogadores diferentes, quais foram os colegas de equipa com quem mais gostou de partilhar os areais?

M: Com todos, tenho a felicidade de ter jogado e apreendido sempre com todos. E por isso agradeço todas as oportunidades que tive e continuo a ter.

 

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André CoroadoAbril 27, 201711min0

A poucos momentos do início do Mundial de Futebol de Praia FIFA Bahamas 2017, o Fair Play finaliza a revisão do percurso das selecções apuradas até Nassau, iniciada aqui. Desta vez, a selecção anfitriã e os restantes representantes da CONCACAF são passados em revista, bem como as selecções da Ásia e da Oceânia que vão dar espectáculo na beach arena do Malcolm Park.

Anfitrião: Bahamas

As Bahamas, enquanto país-sede do mundial, gozam de apuramento directo para o torneio. Tratar-se-á da primeira presença do país na competição, o que por si só torna, na nossa opinião, controversa a atribuição da organização da prova à nação das Caraíbas.

CONCACAF

Equipas apuradas: Panamá, México

Campeão: Panamá

Surpresa: Panamá

Decepção: El Salvador

Visando empreender um ensaio geral para a grande competição global, a capital das Bahamas apressou-se a assegurar a organização do torneio de qualificação da CONCACAF para o mundial. A iniciativa da federação anfitriã da prova constituiu também uma manobra estratégica inteligente na medida em que implicava a participação da formação da casa, que assim poderia integrar um torneio de elevada competitividade na sua preparação para o torneio onde se iria estrear (as Bahamas nunca haviam participado no mundial e tentavam a todo o custo atingir um nível condizente com o dos 15 adversários que iriam receber nas areias de Nassau). Orientados por Alexandre Soares, os locais procuravam contrariar o favoritismo dos históricos da região: El Salvador, México, EUA e Costa Rica. De facto, as previsões que colocavam estas 4 equipas nos lugares cimeiros da prova acabaram por se revelar redondamente enganadas; todavia, não seriam as Bahamas os tomba-gigantes da prova.

Antes da competição, poucos teriam imaginado que o estatuto de campeão da CONCACAF seria ostentado 2 meses mais tarde naquela mesma arena do Malcolm Park por uma nação que nunca passara a fase de grupos do torneio de qualificação. No entanto, assim foi a história escrita pela selecção do Panamá na competição continental: uma selecção que fez das fraquezas forças para se transfigurar jogo após jogo e acabar por derrotar um após outro cada um dos 4 colossos da América do Norte e Central. Com um estilo de jogo muito físico, baseado na condução de bola pelo chão, aqui e ali abrilhantada por um toque de criatividade por parte dos seus jogadores mais dotados tecnicamente (atente-se em Alfonso Maquensi, Pascual Galvez ou Gilberto Rangel), o Panamá demonstrou organização, união e crença na forma imponente como foi assegurou uma qualificação tão merecida quanto inesperada.

A derradeira (e porventura mais injustiçada) vítima dos panamenhos foi a selecção de El Salvador, que caiu aos pés da surpresa do torneio na sequência de uma derrota nas grandes penalidades, numa partida muito fechada em que o Panamá teve o mérito de anular as temíveis armas de Los Cuscatlecos. A eliminação trata-se de um golpe terrível para as aspirações de Agustín Ruiz e demais companheiros, arredados do mundial pela segunda vez consecutiva, mesmo tendo vencido todos os outros jogos da prova (incluindo um triunfo sobre o mesmo Panamá na fase de grupos, também por via do desempate na marcação de grandes penalidades). Para chegar ao jogo decisivo das meias-finais, o Panamá escavou um canal através da CONCACAF, deitando por terra as ambições de EUA (derrotados por 6-4 nos quartos de final e mais uma vez afastados do mundial após uma prestação sem brio) e Costa Rica (Los Ticos caíram precocemente na fase de grupos mercê das derrotas diante de El Salvador e Panamá).

Mais sorte teve a selecção do México, que contou com um calendário mais apetecível na caminhada rumo ao mundial. Apesar de as exibições dos Aztecas não terem sido especialmente convincentes, a turma de Ramón Raya não apresentou dificuldades perante as formações menos experientes do Canadá, de Trindade e Tobago e de Guadeloupe, capitalizando da melhor forma a sua experiência. Ramón Maldonado foi o herói da qualificação mexicana ao apontar 12 golos que lhe valeram o estatuto de melhor marcador da competição, numa equipa que mantém como vozes da experiência Angel Rodríguez e Benjamim Mosco, agora complementados por muitas caras novas. Contudo, também esta nova geração mexicana se submeteu de forma mais ou menos passiva ao jugo totalitário do Panamá, numa final em que a maior consistência dos homens do Canal foi evidenciada (4-2). Restam, por isso, muitas dúvidas sobre as reais chances do México neste campeonato do mundo.

No campo das surpresas pela positiva destaca-se ainda a prestação notável de Guadaloupe, uma selecção que nunca poderia estar presente no mundial por não ser membro FIFA, mas deu provas de grande crescimento ao atingir as meias-finais da prova, num percurso que incluiu a eliminação das Bahamas, após um sólido triunfo por 5-3. Em sentido inverso, a prestação tímida da selecção da casa reforça as dúvidas sobre o que poderá ser alcançado por St. Fleur e demais companheiros nas suas areias natais e levanta sérias questões relativamente à legitimidade da escolha de um país com escassa tradição na modalidade como sede do mundial.

AFC

Equipas apuradas: Irão, EAU, Japão

Campeão: Irão

Surpresa: EAU

Decepção: Omã

Um grande jogo de Ozu Moreira não evitou o triunfo do Irão [Foto: JFA]
 

Já depois de o sorteio do mundial ter sido efectuado (numa cerimónia que teve lugar em Nassau a 28 de Fevereiro, após a conclusão do torneio de apuramento da CONCACAF), chegou finalmente a vez de as selecções asiáticas entrarem em campo por forma a determinar as vagas em falta nos grupos B, C e D. Desta vez, as praias malaias de Kuala Terengganu substituíram o Qatar como anfitriãs da prova, numa edição marcada pela escassez de participantes (apenas 12, um número que contrasta com as 16 equipas de edições passadas).

No meio de tantas mudanças, a imutabilidade da qualidade exibicional do Irão sobressai, principalmente se atendermos ao registo avassalador dos comandados de Mohammad Mirshamsi: 6 vitórias em outras tantas partidas, todas por pelo menos 2 golos de diferença (a maioria dos quais por resultados bem mais dilatados) e a reconquista do estatuto de reis asiáticos de forma contundente. Apenas a partida decisiva das meias finais frente ao arqui-rival Japão se investiu de maiores dificuldades para os persas, mas a maior intensidade de jogo e consistência táctica do Irão acabaria por estabelecer uma diferença entre as duas selecções traduzida no 8-6 final. A final frente aos Emirados Árabes Unidos constituiu um momento de celebração e júbilo para Ahmadzadeh e companhia, coroando a conquista do ceptro asiático com nova goleada por 7-2. Acima de tudo, o Irão prima pela maturidade técnico-táctica que foi adquirindo ao longo da última década, demonstrando uma coesão defensiva assinalável e sistemas de jogo muito bem trabalhados, que oscilam inteligentemente entre o 3:1 e o 2:2 clássicos e resultam num estilo particularmente rápido e directo. Num plantel equilibrado e coeso, Mohammadali Mokhtari foi, desta vez, o maior destaque, assenhoreando-se dos prémios de melhor marcador e melhor jogador do torneio com 12 golos.

O segundo destaque pela positiva vai para a selecção dos Emirados Árabes Unidos, que se sagrou vice-campeã asiática contra todas as expectativas. É certo que a equipa do golfo apresenta pergaminhos na modalidade, contando com 4 mundiais no currículo, e já com este plantel havia dado provas de qualidade, ao derrotar Rússia e Portugal na Copa Intercontinental de 2015. Todavia, o 8º lugar alcançado na última Copa Intercontinental, na qual o conjunto então comandado por Guga Zlockowick revelara efectiva falta de competitividade, permitiam entrever dificuldades para a formação dos emirados, tornando mais verosímil o apuramento de equipas como Omã ou Líbano. Foi, por isso, uma agradável surpresa verificar que a inépcia táctica evidenciada 4 meses antes no Dubai pelos homens do golfo não deixou vestígios numa equipa que começou a deixar uma excelente imagem desde o primeiro instante, vencendo veementemente o Iraque (6-0) e o Qatar (8-1) nas rondas inaugurais. Sendo necessário vencer o Japão para assegurar a presença nas meias finais, os pupilos de Mohamed Bashir confirmaram o excelente momento de forma que atravessam ao surpreender os nipónicos com um triunfo por 5-4. A qualificação para o mundial ficaria selada com uma vitória nas semi-finais arrancada a ferros sobre o sempre combativo Líbano, após grandes penalidades (empate 4-4 em tempo regulamentar), carimbando o regresso dos Emirados Árabes Unidos aos grandes palcos mundiais.

A lista de apurados asiáticos fica completa com a referência ao Japão – a única equipa a par do Brasil que consegue assim marcar presença em todas as 9 edições da prova. Porém, os discípulos de Marcelo Mendes não contaram com facilidades, atendendo à inesperada derrota com os Emirados Árabes Unidos (que haviam sido treinados por Mendes durante largos anos). O país do sol nascente teve de aguardar os resultados dos outros agrupamentos para no final do dia ser repescada para as meias finais enquanto melhor 2º classificado dos 3 grupos, cabendo-lhe a difícil tarefa de defrontar o Irão nas meias finais. Sendo notória a qualidade técnica do plantel nipónico, tal como a organização táctica rigorosa que actualmente enverga, o Japão parece permanecer neste momento um degrau abaixo do estatuto de superpotência mundial ostentado pelos iranianos, o que acabou por condizer com a derrota nas meias finais. Ainda assim, foi sem margem para dúvidas que o Japão venceu o Líbano (6-3) na partida de apuramento do 3º lugar, assegurando o passaporte para as Bahamas.

Em sentido inverso vale a pena destacar o desempenho desapontante da selecção omanesa, presente no mundial de Espinho. Yahya Al Araimi, Ghaith e Khaled Al Oraimi não foram além da fase de grupos do torneio asiático nesta ocasião, mercê da derrota por 4-3 diante do Líbano na partida decisiva. Os libaneses, por sua vez, repetiram o 4º lugar de 2015, uma vez que o bom momento iniciado com a vitória perante Omã não encontrou eco numa meia final teoricamente acessível frente aos Emirados Árabes Unidos, acabando depois goleado pelo mais experiente Japão. Ainda não foi desta que Haitham, Merhi e restantes companheiros reservam um lugar no mundial, mas vale a pena sublinhar o bom trabalho efectuado, que mais tarde ou mais cedo deverá ser premiado (veja-se o caso do Equador, que após 3 torneios no 4º lugar da CONMEBOL carimbou a presença no mundial das Bahamas).

Por seu turno, outra selecção que deixou uma boa imagem em Kuala Terengganu foi o Bahrain, liderado pelo português João Almeida, que terminou a sua participação na fase de grupos apenas com uma derrota frente ao Irão, mas 3 vitórias meritórias nas outras partidas. Como nota final, cabe-nos destacar a prestação do Afeganistão, também integrante do grupo A, uma selecção oriunda de um país em guerra que mesmo assim demonstrou bons indícios de qualidade desportiva, vencendo as formações da Malásia e da China.

OFC

Equipa nomeada: Taiti

Lamentavelmente, o último torneio de qualificação disputado na Oceânia tendo em vista o mundial de futebol de praia remonta a 2011, quando o Taiti se apurou pela primeira vez para a prova. Desde então, a confederação tem-se limitado a nomear um representante para participar no campeonato do mundo, que inevitavelmente acaba por ser o Taiti, mercê das duas presenças consecutivas no Top 4 do mundial. O actual vice-campeão do mundo irá assim disputar o seu 4º mundial consecutivo, mas poderá ressentir-se da falta de competitividade que enfrenta nos longínquos confins da Polinésia.

As dúvidas sobre o estatuto de favorito do Taiti começam a dissipar-se dentro em breve, após o pontapé de saída da competição no Malcolm Park, em Nassau, cabendo a Irão e México a honra de dar início à competição. Um duelo que promete, aliás como tantos outros a que irmos assistir ao longo de uma semana e meia.

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André CoroadoAbril 14, 20179min0

O momento pelo qual milhares de fãs em todo o mundo esperavam aproxima-se a passos largos! O mundial de futebol de praia está à porta, aguardando a chegada do dia 27 de Abril para o pontapé de saída. A arena já está montada em Nassau, capital das Bahamas, que desta feita acolhem a prova num cenário de festa e compromisso com o desenvolvimento e expansão do futebol de praia ao redor do globo… e o Fair Play também entra em estágio com uma série de antevisões da prova!

Primeiramente, é nosso objectivo revelar a rota que as 16 equipas participantes seguiram rumo a Nassau, contando um pouco da História dos torneios de qualificação disputados nos cinco continentes. Hoje recordamos um pouco da qualificação europeia, desvendado o que aconteceu em África e na América do Sul antes de nos serem dados a conhecer os seus representantes no grande evento à escala global. Na segunda parte prosseguimos o nosso périplo ao redor do planeta lançando um olhar à América do Norte, Central e Caraíbas, à Ásia e à Oceania. Uma vez apresentadas as selecções em prova, passaremos a uma antevisão dos grupos e da competição como um todo, naquela que será a 9ª edição da prova organizada pela FIFA.

UEFA

Equipas Apuradas: Polónia, Suíça, Portugal, Itália

Campeão: Polónia

Surpresa: Polónia

Decepção: Rússia

É um facto aceite pela comunidade do futebol de praia mundial a crescente preponderância da Europa na conjuntura internacional da modalidade, conforme o atestam os bons resultados das equipas provenientes desta confederação nos campeonatos do mundo da FIFA (inclusivamente, as últimas 3 edições foram conquistadas por selecções do velho continente). Todavia, em 2017 o mundial voltará a contar com apenas 4 representantes europeias, o que se reflectiu num ciclo de batalhas duríssimas em Setembro do ano passado tendo em vista a selecção dos apurados.

Não podemos deixar de criticar o sistema vigente, denunciando a tremenda injustiça patente na limitação deste número, que resulta inevitavelmente na exclusão de grandes gigantes do futebol de praia mundial. Ainda assim, vale a pena sublinhar a dimensão do sucesso das 4 equipas qualificadas, entre as quais se encontra a selecção portuguesa. Os lusos estarão acompanhados pela Itália, que apesar de disputar o apuramento em casa não foi além da 4ª posição, da Suíça, vice-campeã do torneio que contou com os 25 golos de Dejan Stankovic, e da Polónia, a grande revelação da prova, que não só logrou ultrapassar o favoritismo de Ucrânia e Rússia na segunda fase de grupos como também se auto-superou ao ponto de conquistar o troféu final. Em sentido inverso, a todo-poderosa Rússia, campeã do mundo em 2011 e 2013, não marcará presença nas Bahamas, tal como a Ucrânia, actual campeã europeia, ou a Espanha, selecção de grande importância histórica que já falhara o mundial de 2011.

A análise detalhada da qualificação europeia para o mundial e o estado da modalidade no continente pode ser encontrada na Parte I e na Parte II do artigo especialmente dedicado ao tópico.

CAF

Equipas Apuradas: Senegal, Nigéria

Campeão: Senegal

Surpresa: Nigéria

Decepção: Madagáscar

A fase final da qualificação africana foi disputada ainda em Dezembro de 2016, na cidade de Lagos, que desde 2011 tem vindo a acolher anualmente uma grande competição de futebol de praia.

Desta vez, a Copa Lagos deu lugar a uma prova ainda mais importante, reflectindo o esforço da federação nigeriana rumo ao desenvolvimento da modalidade no país e ao apuramento da selecção da casa para o mundial das Bahamas. Apesar de ser considerada uma das selecções mais fortes do continente, mercê da sua História na modalidade desde 2006, a Nigéria falhara os dois últimos mundiais, pelo que desta vez a aposta foi grande por forma a conseguir superar todos os obstáculos numa África cada vez mais competitiva. Apesar de uma derrota diante da Costa do Marfim no segundo jogo, os triunfos sobre Egipto e Gana levaram os homens da casa às meias finais, onde uma vitória contundente sobre a selecção marroquina (6-1) levaria os milhares de adeptos presentes no estádio ao rubro com a qualificação das Sand Eagles, que contaram com o melhor jogador da competição na pessoa do número 10 Emeka. Quando muitos poderiam pensar o contrário, a Nigéria deu um claro sinal de que está de regresso à elite mundial e levará muita velocidade e fluidez ofensiva na bagagem para as Bahamas.

Por seu turno, o Senegal conseguiu confirmar o seu favoritismo ao apurar-se para o seu sexto campeonato do mundo (o quarto consecutivo), numa caminhada irrepreensível em que somou 5 vitórias em tempo regulamentar, denotando grande progressão ao longo da prova. Colocando em prática modelos de jogo muito simples, mas pautados por uma organização táctica notável, a equipa mais jovem do mundial manteve a base do grupo que esteve em Espinho em 2015, adicionando-lhe mais alguns jovens talentosos. Fall, melhor goleador da prova com 12 golos, e o mítico guardião Ndiaye, melhor guarda-redes do torneio, continuam a ser peças chave da equipa, que se sagrou campeã africana após derrotar a Nigéria na final por esclarecedores 7-4. O Egipto fora a outra grande vítima dos Leões de Teranga, numa meia final que também terminara com um desnível de 3 golos. A frescura física e facilidade de remate dos guerreiros de Dakar irá portanto marcar presença em Nassau, impondo respeito a toda a concorrência.

De fora das contas do apuramento ficou a selecção de Madagáscar, precocemente eliminada  na fase de grupos, mercê das derrotas diante de Senegal e Marrocos. Os anteriores campeões africanos foram assim drasticamente destronados do seu anterior posto, fruto de uma sucessão de erros defensivos em momentos cruciais de ambas as partidas. Egipto e Marrocos foram as outras decepções da prova: as duas nações do Norte de África continuam sem contabilizar qualquer presença em mundiais, não obstante o crescimento que têm vindo a evidenciar em torneios como a Copa Intercontinental. No final, a objectividade e força física da Nigéria e do Senegal ditou a diferença, carimbando o passaporte dos dois históricos para o Mundial da FIFA.

CONMEBOL

Equipas Apuradas: Brasil, Paraguai, Equador

Campeão: Brasil

Surpresa: Equador

Decepção: Argentina

Se neste artigo tínhamos conferido todo o destaque ao desempenho irrepreensível do Brasil, rei e senhor da América do Sul, não podemos deixar de acentuar igualmente as qualificações de Paraguai e Equador, por motivos diferentes.

[Foto: BSWW]
 

Os guaranis, movidos pelo apoio do povo que acorreu às bancadas da arena de Assunção, denotaram um crescimento notável no decorrer do evento, evidenciando claramente uma assimilação positiva das ideias do seu novo treinador, o Guga Zloccovick. A vitória difícil frente à tímida Bolívia na partida inaugural poderia deixar algumas dúvidas acerca das reais capacidades da equipa paraguaia, mas as exibições consistentes que se lhe seguiram fizeram dissipar todas as dúvidas, enquanto Chile, Uruguai e Argentina se deparavam com pesadas derrotas. Na partida decisiva das meias finais um jogo aparentemente bem encaminhado para o Paraguai poderia ter-se transformado num pesadelo, dada a recuperação heroica dos equatorianos, mas os homens da casa acabariam por prevalecer nas grandes penalidades e garantir o apuramento para as Bahamas. Na final frente ao Brasil, apesar do resultado adverso, os jogadores guaranis deram nova prova da qualidade do seu jogo, denotando uma interessante versatilidade táctica, consistência defensiva assinalável e técnica fora do comum por parte de jogadores como Pedro Morán, o suspeito do costume, mas também o estreante Carballo, que acabaria por ser eleito melhor jogador da prova.

Por seu turno, o Equador acabaria por concretizar o sonho antigo de conseguir uma qualificação para um mundial, depois de ter alcançado o ingrato 4º lugar por 3 vezes nas últimas 4 edições do torneio de apuramento. Trazendo um estilo de jogo vibrante e rápido, que conjuga a velocidade na condução de bola pela areia com algumas jogadas pelo ar, a comitiva formada por Bailón, Gallegos, Moreira e companhia mostrou maior maturidade e solidez defensiva comparativamente com edições anteriores, vencendo os vizinhos do Perú, da Colômbia e da Venezuela na fase de grupos para alcançar a fase decisiva. O sabor amargo de uma recuperação inconsequente frente ao Paraguai na meia final não demoveu a nação do Pacífico do seu propósito firmemente delineado e foi também nas grandes penalidades que o Equador eliminou a Argentina, no jogo de decisão do 3º lugar na prova. De salientar a grande entreajuda dos jogadores equatorianos, que lhes permitiu fazer um uso inteligente das suas armas para empatar uma partida na qual chegaram a acusar 3 golos de desvantagem.

Em sentido oposto, a selecção Albiceleste acabou por ficar fora do mundial pela primeira vez desde que a FIFA assumiu a organização da competição. Trata-se de um desfecho previsível para uma selecção que, durante 2 anos, atravessou uma crise de resultados estrondosa, mercê das constantes e insustentáveis remodelações de plantel e equipa técnica de que foi alvo. Sendo notória a estabilidade que os regressos do guardião Marcelo Salgueiro e o fixo Lucas Medro trouxeram à equipa, o futebol de praia argentino precisa urgentemente de uma lufada de ar fresco que, simultaneamente, o organize e modernize. O mau nível de jogo praticado pelos argentinos é, no entanto, sintomático do clima que se vive na CONMEBOL, onde equipas com pergaminhos como Uruguai, Chile e Venezuela tardam em encontrar-se e parecem inclusivamente regredir, em face das prestações pobres e falta de ideias evidenciadas pelas equipas em prova, exceptuando as 3 equipas apuradas.

Paraguai e Equador acompanham assim o Brasil no mundial das Bahamas, onde a selecção Canarinha parte como campeã sul-americana sem contestação, pese embora a boa réplica dos paraguaios na final. Resta saber que resposta irão dar as selecções das outras confederações (nomeadamente UEFA, AFC e OFC) ao poderio brasileiro.

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André CoroadoFevereiro 14, 20176min0

Um Brasil demolidor, Paraguai finalista e mundialista e uma nova coqueluche para o Mundial com o apuramento do Equador. Assim se processou o Torneio de Qualificação da CONMEBOL 2017 no Paraguai.

Terminou recentemente o torneio de qualificação da CONMEBOL para o Campeonato do Mundo de Futebol de Praia FIFA 2017, evento que ditou o apuramento das selecções do Brasil, do Paraguai e do Equador para a competição mais importante da modalidade a nível global após uma maratona de 8 dias consecutivos de competição. Foi nas areias do Yacth and Golf Club de Assunção, a capital do Paraguai, que as dez formações da confederação sul-americana se digladiaram na luta pelas almejadas vagas no Mundial das Bahamas.

A prova proporcionou aos adeptos de futebol de praia a oportunidade para observar jogos intensos, nem sempre bem jogados, mas que acabaram por premiar justamente a maior qualidade apresentada dentro do terreno de jogo pelas três equipas que lograram alcançar o pódio. Todavia, acima de tudo, a competição ficou marcada pela manifestação de força da selecção brasileira, que revalidou o título de campeã da América do Sul.

Invencibilidade brasileira

A selecção Canarinha continua sem perder desde que Gilberto Costa assumiu o comando técnico da equipa, em Janeiro de 2016. Numa prestação avassaladora, a armada brasileira não sentiu quaisquer dificuldades na caminhada para o Mundial 2017 e tornou-se, até ao momento, a única selecção do planeta a conseguir o apuramento para todas as edições do campeonato do mundo (um feito que poderá vir a ser igualado pelo Japão, que disputará dentro de semanas a qualificação asiática).

Inserido num grupo relativamente acessível, o Brasil iniciou a competição com vitórias confortáveis sobre as congéneres venezuelana (6-2) e colombiana (9-5), em partidas onde o desnível abismal entre as equipas foi sempre muito evidente.

Ainda assim, as exibições brasileiras nem sempre foram completamente convincentes, fosse pelo excessivo abrandamento de ritmo em alguns momentos fosse pela maior displicência defensiva que acabou por permitir um reaproximar da Colômbia no marcador, com 3 golos no 3º período.

Não obstante, chegando aos jogos contra as equipas teoricamente mais difíceis, o Brasil revelar-se-ia absolutamente implacável, carimbando a qualificação em 3 jogos quase perfeitos diante de Perú, Equador e Argentina: 29 tentos apontados, apenas 2 golos sofridos e uma demonstração clara de força que confirma uma verdade há muito anunciada: à excepção do Paraguai, não existe actualmente nenhuma formação na América do Sul com capacidade para questionar a hegemonia do Brasil.

Gilberto Costa e a receita para o êxito

O segredo para o sucesso Canarinho passa em grande medida pela acção do novo seleccionador nacional, que manteve a base do grupo na era de Júnior Negão, mas provou-se exímio na arte de extrair desse conjunto de jogadores de topo mundial o melhor que eles tinham para oferecer.

Gilberto Costa trouxe de volta a segurança defensiva que constituía uma das imagens de marca do Brasil de outros tempos (recorde-se a geração dos tetra-campeões mundiais de Alexandre Soares), tendo instituído uma autêntica filosofia de solidariedade no processo defensivo e logrando tirar partido das características individuais mais valiosas de cada jogador por forma a fortalecer o ataque.

Efectivamente, o Brasil tem revelado uma organização defensiva colectiva irrepreensível, que começa na pressão alta que exerce sobre os adversários na primeira fase de construção e se intensifica à medida em que a bola se aproxima da sua baliza, sufocando completamente o portador da bola. Por este motivo, torna-se muito complicado criar oportunidades de golo contra o Brasil caso não se verifiquei o envolvimento de pelo menos 3 jogadores no processo ofensivo e se estes não revelarem rapidez e eficácia na tomada de decisões.

Também a nível de bolas paradas foi notório o trabalho de qualidade levado a cabo pela nova equipa técnica, ainda que esporadicamente possam surgir algumas falhas defensivas individuais.

O regresso de Mão, o icónico guarda-redes da Canarinha, à sua melhor forma desempenhou igualmente um papel decisivo na solidez defensiva do conjunto brasileiro, assim como o fortalecimento da figura da posição 2 por via da constância exibicional de Catarino, um dos mais completos jogadores da sua posição a nível mundial, e do experiente Daniel, sobrevivente da selecção da década passada.

Ofensivamente, vale a pena sublinhar a grande versatilidade da formação lusófona, que implementa em campo toda uma panóplia de movimentações e trocas de posição por forma a arrastar as defesas adversárias e criar espaços livres por forma a promover a criação de oportunidades de golo, em que a técnica dos seus jogadores acaba por sobressair.

Tal traduz-se numa alternância constante de sistemas de saída para o ataque, sendo reconhecíveis situações de 1:2:1, 3:1 e 2:2, incluindo por vezes a participação do guarda-redes Mão em cenários de 5×4. As equipas montadas por Gilberto Costa revelam um notável equilíbrio: a primeira, composta por Catarino, Bruno Xavier, Datinha e o pivô Mauricinho, mostra-se exímia na arte de baralhar as defesas adversárias num carrossel de rotações onde todos os jogadores passam pelas diversas posições, podendo surgir em zona de finalização; a segunda consiste numa aposta ganha por Gilberto, que fez descer Rodrigo para a ala (deixando o lugar de pivô que habitualmente desempenhava), aliando a sua velocidade e técnica alucinantes ao faro de golo do pivô Lucão, secundados pela criatividade de Bokinha e tranquilizados pelo pilar defensivo Daniel.

Reacção Guaraní ameaça, mas revela-se insuficiente

Apenas o Paraguai se mostrou capaz de competir com o Brasil, impondo uma resistência heroica aos intentos da selecção Canarinha no jogo da final, já com ambas as equipas apuradas.

Ainda assim, apesar do equilíbrio notório ao longo da partida, que eventualmente poderia ter conhecido um desfecho diferente, ficou também patente a superioridade brasileira durante grande parte do jogo, mostrando-se sempre mais consistente a vários níveis e mais equilibrada colectivamente.

Associado a tudo isto, a maior maturidade emocional da equipa constituiu um factor determinante no sucesso Canarinho, uma vez que os seus jogadores souberam lidar da melhor forma com as adversidades e o nervosismo sentido em fases decisivas do jogo, sabendo gerir da melhor forma os ânimos para retomar o controlo do jogo momentaneamente perdido.

Em face da actual conjuntura, depois de um ano de 2016 invicto e uma qualificação obtida em grande estilo, a questão impõe-se: conseguirá alguém parar este super-Brasil?

Uma coisa é certa: os pupilos de Gilberto Costa viajarão em Abril para as Bahamas com uma ambição renovada no assalto ao ceptro mundial que lhes foge desde 2009. O espectáculo está garantido, numa competição onde Portugal estará presente para defender o título conquistado nas areias de Espinho em 2015.

Brasil demolidor a caminho do título? (Foto: Globo)

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André CoroadoDezembro 1, 201617min0

Na Parte I sublinhámos o crescente equilíbrio registado na elite do futebol de praia europeu. Realçámos, ainda assim, que Portugal e Rússia, acompanhados cada vez mais pela Suíça, persistem enquanto principais superpotências. Desta vez, lançamos um olhar às equipas que se têm intrometido regularmente entre os maiores colossos europeus e aos resultados de excelência que têm auferido.

Os grandes vencedores do ano

Nenhuma das 3 selecções que destacámos até agora se sagrou campeã das duas provas que encerraram a época de futebol de praia. Tal honra coube a Ucrânia e Polónia, duas selecções com percursos distintos mas que em 2016 conquistaram títulos inéditos ao vencer, respectivamente, a Liga Europeia e o torneio de qualificação para o mundial.

A ligação da Ucrânia ao futebol de praia é histórica, apesar de alguns períodos obscuros que não mancham em nada a imagem da Ucrânia como potência europeia. Os soldados do leste europeu haviam protagonizado uma temporada de grande nível em 2015, ano em que foram finalistas da Liga Europeia – uma final de má memória para as hostes ucranianas, derrotadas por um golo de Zé Maria no último segundo do encontro.

Todavia, dispostos a reescrever a história, os pupilos de Yevhen Varenytsia tornaram a cruzar-se com Portugal na final continental e desta vez prevaleceram sobre a língua de Camões, num duelo táctico em que a frieza e eficácia ucranianas levaram a melhor.

A selecção ucraniana de futebol de praia sagrou-se campeã europeia pela primeira vez na História em 2016. [Foto: BSWW]
A selecção ucraniana de futebol de praia sagrou-se campeã europeia pela primeira vez na História em 2016. [Foto: BSWW]
 

Pelo caminho, Espanha, Bielorrússia e Alemanha provaram o sabor amargo do 2:2 ucraniano, montado pelos guardiões Sydorenko e Hladchenko, sob a batuta do genial Kornichuk. O número 11 ucraniano assumiu-se, aliás, como principal figura da sua selecção na ausência de Igor Borsuk, tendo o acrobático Zborowski e os irreverentes Medvid e Voitok desempenhado papéis igualmente importantes.

Porém, menos de duas semanas decorridas sobre a conquista do ceptro continental, uma tragédia abater-se-ia sobre os novos campeões europeus: a falha no acesso ao campeonato do mundo, pela segunda vez consecutiva (a Ucrânia também já não viajara para Espinho em 2015). E o carrasco da Ucrânia foi precisamente a mesma selecção que eliminou a Rússia: a subitamente imponente Polónia.

Depois de uma fase de grupos cumpridora, mas discreta, em que foram derrotados pela Espanha, os homens orientados por Marcin Stanislawski enfrentavam uma tarefa hercúlea no grupo 3, que integravam juntamente com Ucrânia, Rússia e Moldávia. Estando a qualificação reservada apenas para o vencedor do grupo, foi com surpresa geral que os intrépidos polacos garantiram o apuramento antecipadamente na 2ª jornada, após triunfos sobre a campeã europeia Ucrânia e a poderosa Rússia. Insatisfeitos, venceram os 3 jogos restantes na competição, desbaratando a concorrência para erguer o troféu de campeões – a primeira conquista de sempre do futebol de praia polaco num grande palco europeu.

Num plano mais alargado, a temporada polaca esteve longe de ser brilhante, incluindo a falha no apuramento para a Superfinal da Liga Europeia, com apenas 4 pontos conquistados em 6 jogos e uma inesperada derrota diante da Alemanha no encontro decisivo disputado em solo húngaro. Todavia, a solidez colectiva dos homens do Báltico começava a dar sinais dentro das quatro linhas, impulsionada pelo regresso do mítico Boguslaw Saganowski. O pivô polaco, contando já quatro décadas de vida, apresentou-se em excelente forma, possibilitando o sucesso da fórmula concebida pelo técnico Marcin Stanislawski: ataque num sistema 3:1 convencional, com uma forte aposta no jogo directo no pivô, tirando partido das acrobacias fenomenais de Saganowski. A velocidade e técnica de Witold Ziober nas alas, outra das imagens de marca da Polónia nos últimos 10 anos, foi outra aposta da nação de leste, que contou ainda com a afirmação em pleno de jovens talentosos como Jesionowski, Gac, Madani ou o guarda-redes Gasinski, eleito melhor guardião do torneio de qualificação para o mundial.

Todavia, com um sistema de jogo bastante simples e sem segredos, a Polónia não foi além do 5º lugar na Copa Intercontinental do Dubai no início de Novembro, pelo que terá de evoluir ainda mais para se poder apresentar no Mundial das Bahamas com aspirações a uma boa classificação.

Por onde andam os suspeitos do costume?

Entretanto, o que se passa com as tradicionais potências mediterrâneas, Itália e Espanha? A primeira conclusão que somos forçados a reconhecer centra-se na distanciação destas duas selecções dos lugares de topo que seria expectável ocuparem. Decerto continuam a integrar a elite europeia, tendo providenciado ao mundo do futebol de praia provas bastantes veementes da sua regularidade competitiva. No entanto, italianos e espanhóis dificilmente são encarados como candidatos à vitória nas competições em que participam, como se, mais cedo ou mais tarde, fosse expectável a sua queda diante de um adversário mais preparado.

A turma transalpina guardará, ainda assim, boas recordações de 2016. A temporada começou de forma bastante favorável, com a conquista do segundo lugar no pódio na Taça da Europa de Belgrado em Junho, um título perdido para Portugal de forma clara, mas após duas vitórias consistentes sobre Suíça e Hungria. No entanto, tal como se tem vindo a tornar um hábito no seio da Squadra Azzurra, as hostes italianas acabariam por não cumprir as expectativas de sucesso que um início auspicioso augurava, empreendendo uma prestação tímida, ainda que razoavelmente consistente, na fase regular, que culminou com um constrangedor 6º lugar na Superfinal realizada em casa, nas areias sicilianas de Catania. Sem a estrela Gabriele Gori, o técnico Massimo Agostini (ano de estreia no cargo) viu a sua equipa contabilizar apenas uma vitória diante da Suíça em 4 jogos disputados, mostrando-se permeável defensivamente e demasiado dependente da mestria de Palmacci no sector ofensivo.

Fonte: VivoAzzurro
Gori foi um dos destaques da temporada europeia com os seus golos e acrobacias. [Foto: VivoAzzurro]
 

Felizmente para os Azzurri, a qualificação para o campeonato do mundo também teve lugar dentro do seu próprio país (desta vez em Jesolo, Veneza), tendo a Itália gozado dos privilégios inerentes ao estatuto de anfitriã, além do regresso de Gori. Evitando sempre os principais candidatos ao apuramento, os italianos embalaram para 6 vitórias consecutivas que lhes valeram a qualificação, mas não sem um valente calafrio no último minuto da partida frente à Alemanha.

Ainda assim, a inépcia italiana não permaneceria disfarçada durante muito tempo, graças aos triunfos de Polónia e Portugal que arremessaram os anfitriões para fora do pódio. Contas feitas, os 19 golos de Gori revelaram-se fundamentais para que a Itália atingisse o principal objectivo da época sem brio, numa equipa que conta ainda com jogadores da qualidade de Palmacci e Ramacciotti, mas parece não tirar partido das suas verdadeiras potencialidades. A dependência no talento individual de Gori foi mais uma vez evidenciada na participação desastrosa da Itália na Copa das Nações no final de Outubro, quando foi derrotada de forma clara pelo Japão (3-1) e pelo Brasil (8-2), num evento que atestou as debilidades de uma equipa que ocupa a 4ª posição do ranking mundial.

A Espanha, por seu turno, protagonizou uma temporada ainda mais apagada no que concerne à concretização de objectivos, marcada pela falha no apuramento para o mundial pela 2ª vez na sua história (após a ausência de 2011). Bafejada pela má sorte desde a Copa do Sal em Abril, da qual resultaram lesões de gravidade assinalável de Juanma e Llorenç, a selecção espanhola foi desde cedo forçada a adaptar-se a uma nova realidade, buscando opções alternativas.

A resposta começou por revelar-se ténue, exprimindo-se através de um inócuo 6º lugar alcançado na Taça da Europa de Belgrado, mas rapidamente assumiu contornos bem distintos à medida que a fase regular da Liga Europeia se ia desenrolando: jogo após jogo, os pupilos de Joaquín Alonso foram cumprindo a sua missão, chegando ao fim como líderes isolados da classificação com 18 pontos amealhados em 18 possíveis. Mesmo sem colocar uma grande intensidade nos jogos e sem diversificar muito as suas opções, a solidez defensiva e a simplicidade dos processos postos em prática por jogadores como Cintas, Antonio, Mérida e Pablo dava frutos. Igualmente digno de registo foi o contributo do astro galego Kuman, que após uma longa ausência se juntou à selecção espanhola na etapa de Sanxenxo, em casa, para ganhar o prémio de melhor jogador da etapa.

No entanto, as taças conquistadas em Moscovo e Sanxenxo foram os únicos louvores que agraciaram os nossos vizinhos ibéricos em 2016. Com uma grande expectativa em torno dos regressos de Llorenç e Juanma, esperava-se que os líderes da fase regular da Liga Europeia e desbaratassem a concorrência na Superfinal, carimbando o acesso à final. Desta feita, a selecção ucraniana afigurou-se-lhes um obstáculo intransponível, tendo o sector defensivo espanhol manifestado permeabilidades perante a máquina bem oleada dos futuros campeões europeus (7-5). Na luta pelo pódio, em mais um grande jogo de futebol de praia, os espanhóis acabaram derrotados pela armada russa (8-7).

Já em plena qualificação para o mundial, a Espanha parecia bem lançada na sequência de três triunfos na primeira fase de grupos, incluindo a vitória diante da Polónia, mas acabaria por não conseguir reagir positivamente no âmbito de um grupo muito difícil que compreendia Suíça, Azerbeijão e Turquia. Uma derrota inaugural contra os azeris acabaria por deitar tudo a perder e, após uma vitória frente à congénere turca, foi já com a certeza da eliminação que a Espanha entrou em campo diante da Suíça, sendo goleada por esclarecedores 8-4.

Mais uma vez, as debilidades defensivas acabaram por se provar fatais para as aspirações espanholas, que também se ressentiu da falta de coesão do grupo decorrente das constantes alterações de plantel ao longo da temporada, forçadas pela indisponibilidade de alguns jogadores chave. Todavia, tal não serve de desculpa para uma equipa que conta com grandes talentos individuais, alguns dos quais verificaram um crescimento assinalável em 2016, como Ezequiel Carrera. Será interessante verificar como reagirá a Espanha nos próximos tempos a esta campanha desfavorável.

Um novo membro na elite?

A análise à elite europeia não ficaria completa sem uma referência condigna à Bielorrússia, equipa que deu seguimento ao seu crescimento, agora materializado com a obtenção de um troféu, na etapa húngara da Liga Europeia, graças aos sucessos alcançados diante de Rússia (2-0) e Portugal (4-2). Ihar Bryshtsel consagrou-se melhor marcador do torneio e Makarevich arrecadou a distinção de melhor guarda-redes, acentuando os seus papéis enquanto principais figuras da sua selecção. Os bielorrussos totalizaram de resto 12 pontos em 18 possíveis na fase regular da Liga Europeia, o que lhe permitiu alcançar o 4º posto. Já na Superfinal, derrotas tangenciais para Ucrânia e Espanha obstaram a que pudesse repetir o feito na classificação final da época, mas ainda assim foi com grande personalidade que a nação do leste europeu se impôs perante a anfitriã Itália (5-2) para conquistar um inédito 5º lugar na prova.

A técnica e rapidez de execução de Bryshtsel colocam-no entre os melhores pivôs da Europa na actualidade. [Foto: Manuel Queimadelos]
A técnica e rapidez de execução de Bryshtsel colocam-no entre os melhores pivôs da Europa na actualidade. [Foto: Manuel Queimadelos]
 

A caminhada bielorrussa em 2016 não pode ser vista senão como um sucesso, coroando o ano de estreia do seleccionador Marco Octávio, que deu o melhor seguimento ao trabalho do anterior seleccionador Gilberto Costa, apostando no jogo directo a partir da saída em 3:1, mas acrescentou-lhe alguns ingredientes muito próprios do seu estilo (os lançamentos rasantes de Makarevich para a cabeça de Bryshtsel fazem lembrar o mesmo movimento que estávamos habituados a ver na selecção iraniana de Marco Óctávio, protagonizado por Hosseini e Ahmadzadeh).

O crescimento dos bielorrussos permitia que fossem considerados como um candidato legítimo à qualificação para o mundial, algo que até poderia ter acontecido, num percurso sinuoso da equipa em Jesolo: habituada a neutralizar o jogo de selecções teoricamente mais fortes, a Bielorrússia acabou por perder frente à Turquia – uma equipa com um estilo de jogo algo semelhante ao seu – e foi de forma atribulada que chegou à segunda fase de grupos. Nessa fase, novo desaire, desta vez frente à surpreendente França. Ainda assim, uma contundente vitória sobre a Grécia deixava a Bielorrússia com esperanças de se apurar caso vencesse Portugal em tempo regulamentar, num jogo de grande tensão emotiva e intensidade física em que o sistema defensivo bielorrusso acabaria por ceder perante a maior qualidade colectiva lusa. Terminada a época, os bielorrussos estão mais fortes à entrada para 2017 do que estavam à entrada para 2016, mas terão de reforçar as suas opções de jogo para continuarem a ascender no panorama europeu.

Potenciais surpresas para 2017

Destacámos, até agora, as equipas que consideramos compor, neste momento, a fina flor do futebol de praia europeu. Mas isso não significa que se encontrem num patamar inalcançável para as demais selecções do velho continente, muitas das quais continuaram a demonstrar em 2016 provas de grande valor. Neste universo de equipas de segunda linha, vale a pena destacar 3 nações que, no nosso ponto de vista, atingiram um patamar qualitativo sem precedentes na temporada que agora termina: Azerbeijão, França e Alemanha.

A nação germânica deu continuidade a um processo de crescimento bem estruturado iniciado há cerca de 5 anos, tendo em 2016 obtido marcas importantes, como a boa prestação na qualificação para o mundial ou o apuramento para a segunda Superfinal da Liga Europeia desde que o novo formato entrou em vigor (curiosamente, os alemães foram campeões da edição inaugural da prova em 1998). A selecção que tem no emblemático Olli Romrig a sua principal figura, juntamente com o irreverente Biermann e o habilidoso Weirauch, iniciou a temporada exibindo duas faces distintas: a de uma equipa débil e permeável contra as equipas de primeira linha, incapaz de discutir um resultado, e a de uma equipa personalizada e dominadora, implacável para com as equipas do seu campeonato. Foi assim que os triunfos claros diante de Grécia (3-1) e Polónia (6-2) levaram a Alemanha à Superfinal de Catania, onde 4 goleadas estrondosas remeteriam os comandados de Nils Borignschulte para o odiado 8º lugar.

Todavia, as hostes alemãs ressurgiram em excelente forma na qualificação para o mundial, onde a boa réplica manifestada diante da Rússia na primeira fase de grupos seria um prenúncio do duelo titânico que oporia italianos a alemães numa das partidas decisivas do evento. O espectacular golo do empate de Olli a 30 segundos do fim pode ter sido cancelado pela última investida de Gori, mas a trajectória ascendente da Alemanha ficou bem patente.

Na mesma linha, a França foi talvez a selecção que mais cresceu ao longo da temporada europeia. Efectivamente, a equipa tímida, de constrangedora incapacidade ofensiva e propensa a goleadas trágicas da etapa de Moscovo da Liga Europeia, acabaria por evoluir o estritamente necessário para garantir em Sanxenxo a manutenção na divisão A da Liga Europeia, com um triunfo ténue sobre a frágil Roménia (cortesia de 4 golos de Barbotti), aproveitando as semanas seguintes para se regenerar completamente e surgir em grande plano no torneio de qualificação para o mundial. Conjugando a experiência dos veteranos Samoun, Basquaise e Barbotti com uma nova fornada de jovens talentos como Belhomme ou Bizot, os gauleses reconquistaram uma intensidade competitiva e uma alegria a jogar futebol de praia que não se lhes reconhecia desde os tempos áureos de 2005-2007.

Foi um percurso imaculado de vitórias sucessivas aquele que levou a França a disputar o apuramento para o mundial das Bahamas com Portugal, num duelo em que os primeiros campeões do mundo FIFA (2005) se defrontaram olhos nos olhos com os actuais detentores do troféu. O maior desenvolvimento de jogo dos lusitanos deitaria por terra as esperanças gaulesas, que no entanto se podem manter risonhas no que concerne à próxima temporada, a manter-se tal atitude perante o jogo.

Fonte: azertag.az
Sabir Allahgulyiev foi um dos jogadores que mais cresceu sob o comando de José Miguel Mateus e é hoje uma das principais figuras do Azerbeijão. [Foto: azertag.az]
 

Por seu turno, o Azerbeijão termina 2016 com um doce sabor a vitória que há muito buscava, mercê da sua recente promoção à divisão principal do futebol de praia europeu. A turma azeri capitalizou da melhor forma os ensinamentos recolhidos após dois anos de trabalho com José Miguel Mateus, dando continuidade ao processo de crescimento impulsionado pelo técnico português. Foi com um plantel singularmente equilibrado e experiente que o Azerbeijão se apresentou na divisão B da Liga Europeia, desbaratando a concorência na etapa húngara (incluindo um sólido triunfo por 3-0 diante da Hungria), carimbando o acesso à final promocional. Em Catania, a consistência defensiva irrepreensível e os processos ofensivos bem trabalhados resultaram em 4 novas vitórias, incluindo um triunfo na final sobre a mesma Hungria arrancado a ferros nas grandes penalidades.

O grande objectivo da época estava alcançado, mas o brilhantismo da nação do Cáucaso seria ainda reforçado pela prestação notável da equipa de Allahguliyev, Aliyev e demais companheiros na qualificação para o mundial. Apesar de uma derrota na partida inaugural diante da França os ter arremessado para o grupo dos tubarões Espanha e Suíça, os azeris protagonizariam uma das grandes surpresas da prova ao derrotar os pupilos de Joaquín Alonso (4-2). As expectativas de apuramento sairiam goradas do embate diante da formação helvética, em que uma corajosa reacção do Azerbeijão não evitou o triunfo suíço pela margem mínima, mas o mérito desta equipa do leste europeu permanece intocável. Fica o aviso para as equipas da divisão A da Liga Europeia, que em 2017 contarão com novo rival de peso na senda para o título europeu.

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André CoroadoOutubro 19, 20169min0

Uma vez chegado o Outono no continente europeu, vale a pena parar para reflectir um pouco acerca do estado actual do futebol de praia no Velho Mundo, à luz da prestação das suas selecções nos sucessivos eventos que marcaram a época estival. Portugal, Rússia e Suíça serão os nossos primeiros “convidados”. Na Parte II debruçamo-nos sobre as restantes selecções europeias de topo.

Poderia afigurar-se-nos, como um bom ponto de partida, a tentativa de eleger a equipa mais forte da temporada europeia, ou pelo menos um par de selecções que pudessem merecer tal distinção. Todavia, se existe uma certeza que possamos recolher dos últimos 4 meses de competição, será o acentuado equilíbrio entre equipas de elite que pautou a disputa dos torneios, que culminou na completa imprevisibilidade do seu desfecho. Efectivamente, a hegemonia do continente encontra-se neste momento repartida, como nunca, entre um grupo cada vez menos restrito de selecções de elite, sendo o desnível entre elas muito escasso e altamente dependente de flutuações de forma ao longo do Verão.

Tal deve-se, em grande medida, à inexistência de uma selecção dominadora, que se destaque das demais ao ponto de afirmar sistematicamente a sua superioridade dentro de campo, traduzindo-a em vitórias e troféus. Desta vez, as duas grandes superpotências europeias da última década não conseguiram subjugar os rivais à sua lei. Refiro-me inequivocamente a Rússia e Portugal, que venceram os 3 últimos campeonatos do mundo. O domínio do futebol de praia europeu por estas nações entre 2007 e 2015 torna-se evidente ao constatar-se que, das 9 edições da Liga Europeia disputadas nesse período, 8 foram conquistadas por lusos ou russos, pendendo 4 taças de campeão europeu para cada lado.

Portugal

A selecção das quinas até iniciou da melhor forma a sua caminhada em 2016, mostrando-se resoluta a renovar o seu estatuto de líder da modalidade no velho continente quando, em meados de Junho, ergueu a Taça da Europa. Três vitórias sobre Espanha, Rússia e Itália constituíram uma manifestação clara de força dos campeões europeus e mundiais que, no entanto, não conseguiriam confirmar o novo ano de sucesso que o êxito inaugural augurava. Após uma prestação tímida na fase regular da Liga Europeia (7º lugar na classificação geral), uma nova dinâmica renasceria nos comandados de Mário Narciso na ponta decisiva da época, revelando consistência e qualidade exibicional notáveis na Superfinal Europeia e na qualificação para o campeonato do mundo. No final, o principal objectivo da época foi alcançado: sobrevivendo às batalhas dramáticas testemunhadas pelas areias venezianas de Jesolo, Portugal carimbou o passaporte para o mundial das Bahamas, onde terá a oportunidade de defender o ceptro global alcançado em Espinho no ano passado. Para o sucesso na recta final da temporada contribuiu em grande medida o regresso de Jordan, ausente a meio da época por lesão, a fenomenal dupla fraterna formada por Bê e Léo Martins, um momento fantástico de forma de Coimbra e a veia goleadora que permitiu a Madjer ultrapassar os 1000 golos com a camisola das quinas.

Madjer assinou o golo 1000 diante da Inglaterra. [Foto: BSWW]
Madjer assinou o golo 1000 diante da Inglaterra. [Foto: BSWW]
 

Ainda assim, os heróis das praias de Portugal não lograram a glória continental em nenhuma das competições. Os cinco escudos azuis acabaram por falhar a revalidação do título na Liga Europeia ao perder na final diante da Ucrânia e caíram aos pés da Suíça nas meias finais do torneio de apuramento para o mundial. Um dado estatístico relevante: em cada uma dessas partidas, Portugal marcou apenas 1 golo. De facto, não obstante a elevadíssima qualidade de jogo apresentada, patente na diversidade de soluções e na variabilidade táctica, a equipa lusa tem por vezes esbarrado na soberba organização defensiva dos adversários europeus. O conhecimento profundo da equipa portuguesa por parte destas equipas resulta num bloqueio eficaz das suas armas do ataque luso, que sente então dificuldades para contrariar tais estratégias defensivas.

Contas feitas, o balanço da prestação portuguesa é claramente positivo, constituindo-se como a selecção mais regular da Europa: a única que se manteve nos três primeiros lugares nas três competições europeias mais importantes, tendo nelas experimentado todos os patamares do pódio.

Rússia

A Rússia, por seu turno, viveu no Verão de 2016 a pior época da sua história, principalmente por ter falhado a qualificação para o campeonato do mundo – algo que não acontecia desde a estreia dos czares em mundiais, que remonta a Copacabana 2007. A eliminação do mundial veio coroar uma época de insucessos da selecção russa, apenas terceira classificada na Taça da Europa e na Liga Europeia. Não são maus resultados por si só, dir-se-ia mesmo que constituem uma prova da regularidade da selecção russa, arredada das finais por deslizes pontuais em duas partidas decisivas. No entanto, a última vez que os russos haviam falhado a conquista de todas as provas europeias fora em 2008, ainda sob o comando do antigo seleccionador Nikolay Pisarev, pelo que este triplo falhanço não pode deixar de causar alguma estranheza. Na qualificação para o mundial, os russos venceram todos os jogos excepto um: o embate diante da surpreendente Polónia. Os homens do Báltico têm causado muitos problemas aos homens de Mikhail Likhatchev nos últimos anos e desta vez cumpriram mesmo a ameaça, travando de forma enfática as aspirações imperiais dos soldados russos. Perante este contexto, poderiam colocar-se duas questões: Que causas motivaram este atípico desaire russo em todas as frentes de combate? Poder-se-á extrair daqui ilações sobre uma eventual quebra do futebol de praia russo?

A Rússia foi menos implacável em 2016 do que em anos anteriores. [Foto: InfoOggi.it]
A Rússia foi menos implacável em 2016 do que em anos anteriores. [Foto: InfoOggi.it]
 

Em relação à primeira, relembremos os antecedentes. Após a ascensão dourada do futebol de praia russo em 2011, ano em que o planeta se curvou perante a equipa capitaneada por Ilya Leonov, a equipa russa perdeu gradualmente o ímpeto quasi-invencível que a tinha propulsionado rumo ao trono mundial. Quando se poderia pensar que a hegemonia estaria em risco, a Rússia provou o contrário, vencendo sucessivamente novos troféus e revalidando o título mundial no Taiti 2013, para ser destronada enquanto superpotência por Portugal em 2015. O segredo russo para a manutenção da hegemonia baseou-se na disciplina e frieza patentes na abordagem ao jogo, possibilitando que uma equipa de processos simples e conhecidos por todos os adversários estivesse sempre mais perto da vitória, mercê da quase perfeita solidez defensiva, inteligência emocional exemplar e dinâmica colectiva sem precedentes.

Em 2016, a receita parece ter funcionado apenas pela metade, uma vez que, em jogos decisivos, a máquina não funcionou como se esperaria. Uma possível explicação poderá basear-se em alguma falta de ligação entre jogadores mais antigos e os jovens talentos que surgiram, uns e outros de qualidade técnica excepcional, mas sem que os níveis colectivos tenham mantido os padrões de outrora. Também a ausência de Bukhlistkiy, o mítico guardião russo, terá contribuído para uma maior vulnerabilidade dos russos. Apesar disso, desenganemo-nos: a nação do leste europeu mantém um papel preponderante no futebol de praia europeu, como se compreende analisando a regularidade das exibições e dos resultados ao longo da época. Os czares mantêm-se numa primeira linha de superpotências europeias juntamente com Portugal e, cada vez mais, a Suíça.

Suíça

Decerto surpreenderei muitos leitores ao destacar pela positiva uma equipa de classe mundial que se classificou em 6ª lugar na Taça da Europa e não ultrapassou a 7ª posição na Liga Europeia. No entanto, em termos de qualidade de jogo, evolução táctica, e maturidade competitiva, a Suíça constitui um excelente exemplo das boas práticas de trabalho do futebol de praia a nível europeu. Guiados pelo icónico Angelo Schrinzi, que nos tempos livres ainda consegue ser seleccionador do Taiti e dar um apoio especial às Bahamas, os helvéticos apresentaram-se em 2016 dispostos a fazer esquecer os maus resultados de 2015 e as saídas de jogadores como Leu ou Borer.

Misev, Ott, Spacca e Stankovic celebram um golo helvético. [Foto: Schweizerischer Fussballverband]
Misev, Ott, Spacca e Stankovic celebram um golo helvético. [Foto: Schweizerischer Fussballverband]
 

Capitalizando inteligentemente os seus recursos, a selecção suíça apostou fortemente no 2:2 enquanto seu principal sistema de jogo, do qual Stankovic emergiu novamente como goleador por excelência, secundado pela jovem revelação Glenn Hodel. Noel Ott, outro dos nomes sonantes da formação alpina, manteve um papel preponderante e cada vez mais polivalente, deixando o papel de pivô para desempenhar funções nas carenciadas alas e chegando até a experimentar – com sucesso – a posição de guarda-redes. A confirmação do ala Mickael Misev enquanto atleta de primeira linha completou a lista de ingredientes necessários ao sucesso da estratégia de Schirinzi, que viu a sua equipa crescer muito ao longo da época. Após um mau início de época na Taça da Europa (situação típica na equipa suíça), os helvéticos alcançaram a 2ª posição no ranking da fase regular da liga europeia. Na Superfinal em Catania (Itália), já em finais de Agosto, os suíços foram surpreendidos pela entrada fulgurante da selecção de Mário Narciso e por uma Itália muito combativa. No entanto, reergueram-se depois para derrotar a Rússia, iniciando um ciclo de 9 vitórias consecutivas que lhes valeria a concretização do sumo objectivo: o apuramento para o mundial, como vice-campeã da zona europeia.

Em conclusão, devemos reconhecer muito os méritos de uma equipa que, numa época, vence a Rússia, a Espanha e Portugal por duas vezes, crescendo ao longo da época e classificando-se em 2º lugar no maior evento do futebol de praia europeu.

Poderá encontrar a continuação deste artigo aqui.

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André CoroadoAgosto 4, 201625min0

O Mundialito animou a Praia de Carcavelos com a festa do futebol de praia. China, EUA e Brasil juntaram-se a Portugal no quadrangular realizado no fim-de-semana. Chineses sem ritmo e norte-americanos em crescimento ficaram longe das contas do título. Já o Brasil venceu Portugal num duelo épico, fazendo lembrar outros tempos.

Em pleno Verão no hemisfério norte, a época europeia de futebol de praia atinge o seu auge um pouco por todo o continente, multiplicando-se as competições domésticas e internacionais num número sempre crescente de países! Todavia, como em qualquer desporto, existem tradições que devem ser cultivadas pela preponderância histórica que apresentam enquanto agentes da projecção da modalidade. É o caso do Mundialito de Futebol de Praia, competição emblemática do panorama internacional que desde 1997 tem vindo a animar as praias lusitanas, gerando uma onda de entusiasmo por todo o país que esteve na génese da paixão pela modalidade em Portugal. Após um interregno de um ano devido à realização do Campeonato do Mundo FIFA 2015 em Espinho, a Federação Portuguesa de Futebol tornou a assumir a organização do evento, concretizando a 20ª edição do Mundialito entre 29 e 31 de Julho num local inédito: a mítica Praia de Carcavelos, que apesar de nunca ter recebido a prova representa o berço da modalidade em Portugal, tendo albergado durante mais de uma década os trabalhos da selecção nacional.

O Mundialito de Futebol de Praia 2016 afirmou-se, portanto, como uma grandiosa celebração da modalidade em Portugal, pautada por uma enorme emotividade no seio da família do futebol de praia luso e vivida de forma especialmente intensa pelos seus membros. Foi também um evento marcado por regressos, não apenas pelo retorno das competições internacionais a Carcavelos, mas também pela participação do Brasil, selecção com mais títulos na prova que estivera ausente nas 3 edições anteriores. Além dos dois rivais lusófonos, o lote de quatro equipas ficou completo pelas formações norte-americana e chinesa, que assim repetiram as presenças em edições anteriores. Paralelamente, foi disputada a primeira edição da Taça da Europa Feminina de Futebol de Praia, com a participação de 6 selecções europeias: Portugal, Espanha, Suíça, Inglaterra, Holanda e Grécia. Estavam reunidos todos os ingredientes para um espectáculo de proporções épicas na arena montada na Praia de Carcavelos!

Estádio do Mundialito na Praia de Carcavelos durante o Portugal vs Brasil [Foto: cascais.pt]
Estádio do Mundialito na Praia de Carcavelos durante o Portugal vs Brasil [Foto: cascais.pt]

Resultados

1ª JORNADA

Brasil 8-1 EUA

China 0-14 Portugal

2ª JORNADA

Brasil 16-0 China

Portugal 6-5 EUA

3ª JORNADA 

EUA 8-2 China

Portugal 4-6 Brasil

Portugal e Brasil confirmam favoritismo perante China e EUA

Os dois primeiros dias de competição viram as selecções de Portugal e Brasil, com maior ou menor dificuldade, suplantar a resistência chinesa e norte-americana. Lusos e canarinhos alcançaram, desta forma, os 6 pontos possíveis nas duas primeiras jornadas, transformando assim o duelo de Domingo numa verdadeira final do Mundialito. Neste ponto, se os jogos evidenciaram o desnível entre as equipas lusófonas e os adversários menos cotados, é igualmente pertinente situar as prestações de EUA e China em níveis diferentes, cabendo o lugar de destaque à turma americana.

De facto, os comandados de Eddie Soto demonstraram uma evolução táctica muito significativa em relação a eventos anteriores e apresentaram-se em boa forma física em Carcavelos, manifestando sinais de evolução rumo a um aproveitamento mais eficaz do potencial norte-americano. Por oposição, a China desiludiu desde o primeiro dia de prova, mostrando debilidades físicas que condicionaram muito o seu jogo, além de uma notória inépcia ofensiva. A nação oriental tentaria equilibrar as partidas com base no assinalável rigor táctico defensivo, que se provou manifestamente insuficiente para uma prova da natureza do Mundialito. Analisando os resultados e a história das partidas nos jogos frente a Portugal e Brasil, estas conclusões emergem de forma natural.

China esforçada sem estofo físico para o calor

A China mostrou-se claramente sem argumentos para responder ao poderio dos colossos Portugal e Brasil. Incapazes de resistir ao calor intenso que se fazia sentir na Praia de Carcavelos, os jogadores chineses até entravam razoavelmente nas partidas, demonstrando uma notável disciplina defensiva no 1º período, mas rapidamente se tornavam muito permeáveis defensivamente, sendo a goleada uma realidade inevitável. No caso de Portugal, a resistência chinesa foi quebrada por intermédio da marcação de dois pontapés de canto, em que as movimentações lusas desorientaram completamente a defensiva oriental. Portugal ainda chegaria ao 3-0 no decorrer do 1º período, sem impor um ritmo muito alto na partida, e continuaria a dominar o encontro a seu bel-prazer, deixando o resultado dilatar-se com naturalidade até ao 14-0 final. A classe dos jogadores portugueses tornou-se evidente, construindo jogadas de belo efeito, numa partida em que o maior destaque coube ao colectivo – só os guardiões Elinton Andrade e Tiago Petrony ficaram em branco.

Madjer bisou na partida frente à China [Foto: José Sena Goulão/EPA]
Madjer bisou na partida frente à China [Foto: José Sena Goulão/EPA]
 

Diante do Brasil, a China pareceu demonstrar uma evolução significativa, protagonizando uma exibição personalizada no 1º período, em que aliou a consistência defensiva a uma admirável força de vontade de construir algo. De facto, o resultado de 2-0 verificado no final dos primeiros 12 minutos e a escassez de oportunidades de golo para o Brasil denotava a qualidade do trabalho chinês, mas uma sucessão de erros defensivos crassos e a quebra física dos asiáticos no 2º período abriria caminho à goleada, perante um Brasil impiedoso. A expulsão de Liu no minuto 22, já com 7-0 no marcador, agravaria as dificuldades para a China, vergada por uns esmagadores 16-0 após 36 minutos de jogo. Lucão foi a estrela de serviço, revelando-se completamente implacável no aproveitamento das chances de golo de que dispôs, assinando 6 tentos. Do lado chinês, mais do que as falhas defensivas motivadas pelo cansaço, vale a pena realçar que os chineses não apontaram qualquer golo em dois jogos disputados. Ainda que tenham tido algumas oportunidades para tal em cada jogo, este registo não é coincidência, relacionando-se antes com a falta de opções de ataque. Incapazes de segurar a bola e baixar o ritmo de jogo, reféns de um sistema 3:1 muito rudimentar e sempre dependentes da reposição de bola por parte do seu guarda-redes, os chineses limitavam-se praticamente a tentar fazer a bola chegar ao seu pivô, que tentava encontrar um espaço para rematar à baliza.

Revolução táctica dos EUA pressiona Portugal

Os EUA, por seu turno, iniciaram a competição com uma prova de fogo diante do Brasil, num jogo em que nunca conseguiram verdadeiramente discutir o resultado e acabariam goleados. Todavia, os Beach Boys entraram bem em campo, equilibrando a partida durante o 1º período graças a uma consistência defensiva assinalável, fechando eficazmente os espaços para a sua baliza e anulando a velocidade dos alas brasileiros com base na entreajuda e na força física. Não obstante, a timidez dos americanos no plano ofensivo impedia-os de discutir o jogo de igual para igual, tendo o Brasil construído uma vantagem de 2 golos fruto da qualidade individual dos seus jogadores, sem qualquer resposta norte-americana. A machadada final chegaria no 2º período, quando a resistência das Stars and Stripes foi quebrada pela acção desequilibradora de Datinha: o número 10 brasileiro demonstrou porque é considerado um dos melhores do mundo da actualidade ao assinar 3 golos no espaço de 1 minuto, sentenciando a partida. Foi notória a desorganização defensiva dos EUA nesta fase do encontro, reflexo de uma queda anímica em face do avolumar do resultado, que por sua vez conduziu a novos erros defensivos, o último dos quais resultaria no 6-0 registado no final do período. Ainda assim, há que reconhecer o mérito dos norte-americanos, que não se desmembraram nos derradeiros 12 minutos, mantendo recuperando os índices de concentração no processo defensivo e tornando-se um pouco mais atrevidos no ataque, sendo o resultado final de 8-1 uma punição pelo terrível desempenho no 2º período e pela improdutividade ofensiva.

A partida contra Portugal trouxe uma equipa norte-americana com uma atitude muito distinta perante o jogo. Mantendo a coesão defensiva da partida anterior, os homens de Eddie Soto assumiram desde o primeiro minuto o objectivo de discutir a partida, mostrando-se ousados no ataque e visando constantemente a baliza de Andrade. Atacando geralmente em 3:1, o que constitui uma novidade recente na formação americana, mas recorrendo por vezes ao 5×4, os EUA demonstraram uma evolução táctica e uma postura pragmática na forma de encarar o ataque. Ao mesmo tempo, fizeram acompanhar o seu poderio físico de uma dose avultada de agressividade, por vezes excessiva, que utilizaram para travar a todo o custo as investidas dos atletas lusos, suscitando algumas situações indesejáveis que nem sempre foram geridas da forma mais conveniente pela equipa de arbitragem. Em todo o caso, a estratégia norte-americana produziu resultados, uma vez que a equipa dos EUA esteve na frente do marcador por 3 ocasiões, graças a uma assinalável rapidez de processos no ataque, acompanhada por uma eficácia notável. O capitão Nick Perera assumiu-se como o jogador chave da sua selecção, desequilibrando individualmente e distribuindo jogo no ataque, numa partida em que Santos também deixou boas indicações. O ciclo de vantagens americanas durou até ao 2º período, quando a eficácia se aliou à qualidade dos jogadores portugueses, possibilitando a inversão de um desfavorável 2-3 para um 5-3 mais condizente com a realidade da partida, tendo Belchior e Bê Martins desempenhado um papel fundamental. Seria expectável que a equipa das quinas aproveitasse esta boa fase no jogo para se impor na partida e assegurar imediatamente a vitória, deitando por terra as esperanças de uma meritória selecção americana.

Bruno Novo numa tentativa de remate acrobático frente aos EUA [Foto: Nuno Fox/Lusa]
Bruno Novo numa tentativa de remate acrobático frente aos EUA [Foto: Nuno Fox/Lusa]
 

No entanto, Portugal nunca conseguiu espelhar plenamente a supremacia do seu jogo, parecendo que a estratégia de desestabilização empreendida pelos jogadores norte-americanos prejudicara de alguma maneira a clareza de ideias da equipa portuguesa. Deste modo, os campeões do mundo acabariam por desperdiçar algumas oportunidades e nunca alcançaram uma vantagem mais confortável no marcador, mantendo vivas as aspirações dos EUA. A convergência destes factores, associada às carências supracitadas da arbitragem, levou a que o 3º período se revelasse mais equilibrado do que o esperado, tendo as hostes americanas forçado os pupilos de Mário Narciso a trabalhar arduamente para segurar uma vitória magra por 6-5. Ainda assim, os jogadores lusitanos, conscientes de que não estavam a conseguir colocar em campo a habitual fluidez do ataque e os níveis de acerto ofensivo desejados, souberam manter a concentração e definir as prioridades adequadas, mantendo a solidez defensiva graças à qual Portugal nunca perdeu o controlo do jogo.

Brasil vitorioso recupera Mundialito

Domingo, 31 de Julho de 2016. Chegava o dia da grande final Portugal vs Brasil, o jogo pelo qual jogadores, técnicos, organização e adeptos mais aguardavam, o clássico do futebol de praia mundial que decidiria o campeão do XX Mundialito de Futebol de Praia! Antes disso, tempo ainda para os EUA confirmarem a boa fase de crescimento na modalidade, protagonizando um triunfo consistente sobre a China por 8-2. Nick Perera foi o homem do jogo, ao apontar 5 golos (incluindo um chapéu perfeito na conversão de um livre), afirmando-se cada vez mais como a referência desta formação americana que finalmente parece ter encontrado o caminho certo rumo aos palcos mais altos do futebol de praia internacional. Acima de tudo, vale a pena destacar o rigor defensivo e a inteligência táctica que começam a marcar presença na equipa de Eddie Soto, ficando a expectativa para observar se darão seguimento à evolução apresentada. Os EUA seriam ainda premiados com a atribuição do prémio de melhor guarda-redes a Chris Toth. Do outro lado, a China tornou a protagonizar uma exibição decrescente, contendo o ímpeto americano nas etapas iniciais da partida e discutindo o resultado até ao início do 2º período (2-2, golos de Wan e Cai), mas acabando massacrada no 2º período de jogo, fisicamente impotente perante a intensidade imprimida pelos EUA na partida.

Já o embate entre Portugal e Brasil ofereceu um verdadeiro espectáculo de futebol de praia aos cerca de 2000 espectadores presentes nas bancadas da praia de Carcavelos, não sem antes o público brindar a selecção nacional com uma portentosa demonstração de apoio na cerimónia dos hinos, entoando o refrão d’ A Portuguesa num coro a capella, quando a música cessou prematuramente. Dentro de campo, as equipas corresponderam, protagonizando desde o primeiro instante um combate equilibrado, onde a qualidade do futebol de praia praticado foi nota dominante e o vencedor foi decidido nos detalhes. Nesse sentido, o Brasil alcançou com justiça a vitória e o título no mundialito, tendo sido a equipa que, no 2º e no 3º períodos, não cometeu erros defensivos, foi mais eficaz na concretização das oportunidades de que dispôs e, consequentemente, logrou traduzir em golos a superioridade que granjeou em determinadas fases do jogo.

Jogadores brasileiros festejam um golo na final contra Portugal [Foto: Lusa]
Jogadores brasileiros festejam um golo na final contra Portugal [Foto: Lusa]

Os momentos que definiram o jogo

Antes de mais, será pertinente lançar um olhar ao 1º período do encontro: jogadas de belo efeito de parte a parte, média de 1 golo a cada 2 minutos num verdadeiro jogo de parada e resposta, imprevisibilidade do marcador e toda a emotividade de um Portugal vs Brasil que deixara saudades entre os adeptos do mundialito. Conforme seria expectável atendendo às diferenças entre as duas selecções, o Brasil entrou mais pressionante, com mais posse de bola e procurando espaços que pudessem ser aproveitados pela velocidade das suas unidades mais desequilibradoras. Portugal implementou uma estratégia defensiva bem-sucedida, mantendo um bloco compacto e conferindo especial atenção às dobras por forma a encurtar o raio de acção da Canarinha. As iniciativas de ataque dos sul-americanos eram correspondidas de forma eficaz pelas rápidas saídas para o ataque da selecção lusa, que respondia à pressão alta dos homens de Gilberto Costa com um jogo mais directo do que o habitual: utilizando frequentemente os lançamentos de Andrade e procurando visar a baliza de Mão por via de um pequeno número de acções. Do outro lado estava uma equipa que sofrera apenas 1 golo na competição até ao momento e dava sinais de ter recuperado a disciplina defensiva do Brasil de outros tempos, mas nem isso impediu Portugal de chegar à liderança do marcador por 3 vezes ao longo do 1º período.

Vale a pena destacar o papel de Bê Martins, autor os 2 primeiros tentos lusos, que com a sua rapidez fulgurante furou a defensiva brasileira, correspondendo da melhor forma às assistências de Belchior, primeiro numa jogada de ataque rápido e depois na sequência de um pontapé de saída. Bruno Novo seria o autor do outro golo, obtido na sequência de uma pressão intensa na primeira fase de construção do Brasil. Por seu turno, os golos do Escrete chegavam sempre como uma rápida resposta à vantagem lusa. Não obstante o evidente mérito associado, surgiram quase sempre associados a erros portugueses que mancharam a prestação defensiva dos pupilos de Mário Narciso. Foi o caso do golo de Datinha, que surgiu livre de marcação em frente a Elinton Andrade; do pontapé de saída concretizado por Catarino, com a bola a embater na barreira e a entrar na zona central da baliza; e ainda do desvio de Bruno Xavier ao remate extraordinário de Mão no último segundo do período, punindo a ausência da pressão ao guardião brasileiro. Estas pequenas falhas justificavam o empate num jogo em que Portugal poderia ter chegado ao intervalo em vantagem, mas acima de tudo demonstravam a diferença entre as duas selecções que acabaria por ditar os sul-americanos como vencedores: o Brasil, cometendo menos erros e aproveitando melhor os do adversário, precisava de trabalhar menos para marcar o mesmo número de golos que Portugal.

Bê Martins e Belchior celebram um golo frente ao Brasil [Foto: Nuno Fox/Lusa]
Bê Martins e Belchior celebram um golo frente ao Brasil [Foto: Nuno Fox/Lusa]
 

A entrada no 2º período acabaria por se constituir como um dos momentos-chave do jogo, concedendo ao Brasil uma vantagem que nunca seria anulada por Portugal. A selecção Canarinha entrou bastante pressionante, enquanto Portugal corria mais riscos na saída de bola, o que acabou por culminar no lance do golo de Lucão. Tratou-se de um lance dúbio, em que deveria ter sido assinalada a infracção de “bola presa” ao ataque brasileiro, de acordo com o critério da arbitragem no 1º período. Porém, o golo foi um reflexo de uma reentrada algo intranquila de Portugal na partida e confirmou Lucão como melhor marcador do Mundialito, com 8 golos. E se é verdade que Portugal não perdeu a coesão defensiva após o quarto golo brasileiro, é justo reconhecer que a selecção das quinas sentiu algumas dificuldades na tentativa de desbravar caminho rumo à baliza de Mão, perante uma defensiva brasileira bem organizada que teve o mérito de segurar a vantagem.

Portugal procurava insistir nas combinações rápidas de Belchior e Bê Martins, que já haviam produzido resultados anteriormente, mas carecia do elemento de surpresa; já a outra equipa tentava tirar partido da visão de Alan e Bruno Novo, buscando muitas vezes Zé Maria, mas sem sucesso. Também o guardião Andrade se mostrou particularmente desinspirado, não só ao nível do lançamento mas principalmente na hora de montar o 5×4, através do qual Portugal foi sempre inofensivo. O Brasil, sem impor um ritmo muito elevado, ia tentando apanhar a defensiva lusa em contrapé. Ainda assim, num 2º período morno, foram algumas as oportunidades de parte a parte, sem qualquer influência no marcador.

Num 3º período jogado ao mesmo ritmo, com o Brasil em vantagem por 4-3, parecia que apenas um novo golo para um dos lados poderia voltar a animar a partida. Foi assim que, após Coimbra ter ficado muito perto do empate na conversão de um livre, Filipe assinou o quinto golo do Brasil, numa jogada em que a velocidade do número 5 canarinho levou a melhor sobre a defensiva lusa. Como seria de esperar, o golo reavivou a partida, acabando por despertar a equipa portuguesa para aquele que seria o seu melhor período no jogo em termos de produtividade ofensiva. Recorrendo novamente a um estilo de jogo mais directo, Portugal chegaria rapidamente ao 5-4, num imponente pontapé de bicicleta de Zé Maria. Sucederam-se então várias oportunidades para Portugal chegar ao empate, das quais se destacam novas acrobacias de Zé Maria e Madjer e os livres de Bê Martins e Belchior, cuja magia lhe valeu o prémio de melhor jogador do torneio.

Todavia, do outro lado o Brasil resistia heroicamente, defendendo de forma quase perfeita e mantendo-se à espreita, aguardando o deslize português para recuperar a vantagem de 2 golos. Esse momento acabaria por chegar, tendo Bruno Xavier apontado o 6º golo brasileiro num remate de muito longe após perda de bola lusa. Portugal era assim punido pela falta de eficácia e pelos riscos que corria num momento em que estava por cima do jogo. Até final, o Brasil soube gerir a vantagem de 2 golos, ameaçada apenas esporadicamente por Coimbra na sequência da marcação de pontapés de canto, sem qualquer efeito ao nível do 6-4 final.

Brasil e Portugal: Conclusões

Terminado o jogo, há que reconhecer com Fair Play o mérito da vitória do Brasil, pela forma como soube gerir os momentos do jogo e ser mais forte nos detalhes defensivos/ofensivos que definiram o jogo. A prestação defensiva do Brasil não só neste jogo, mas também em todo o mundialito, é digna de menção, com apenas 5 golos sofridos em 3 jogos, registo que constitui a face mais visível de um progresso notório em relação ao ano passado. Sob o comando técnico de Gilberto Costa, o Escrete revela disciplina ao nível dos posicionamentos defensivos, tanto em jogo corrido como em bola parada, sendo notórios o trabalho dos mecanismos de entreajuda entre os jogadores. A prioridade de pensar o jogo a partir da defesa esteve, portanto, bem evidente, assim como a tentativa de extrair o melhor de cada jogador com base em processos simples executados na perfeição. No comando técnico da selecção desde janeiro, o objectivo de Gilberto Costa (e da estrutura sólida que finalmente parece ter sido montada para o futebol de praia brasileiro) é claro: recuperar o Brasil dominador do passado para tentar o assalto ao título mundial nas Bahamas no próximo ano.

5 anos depois, o Brasil regressou ao Mundialito e venceu a prova [Foto: BSWW]
5 anos depois, o Brasil regressou ao Mundialito e venceu a prova [Foto: BSWW]
 

Por seu turno, Portugal perdeu em Carcavelos o segundo jogo e o segundo torneio consecutivo durante o ano de 2016, na sequência da derrota por 2-1 diante da Suíça na etapa espanhola da Liga Europeia disputada em Sanxenxo. Tratam-se de derrotas frente a duas das melhores selecções mundiais, que em nada envergonham os actuais campeões da Europa e do Mundo. Particularmente acerca do jogo do Mundialito diante do Brasil, existem muitos dados positivos a reter, mas também vários aspectos que estiveram na génese da derrota e que deverão ser rectificados futuramente para que Portugal cumpra os seus próximos objectivos.

Jordan lesionado: que soluções?

Aliado a todos os factores já referidos ao longo da análise do jogo, existe um dado pertinente que se relaciona com todos os outros: a ausência de Jordan. De facto, o jovem jogador nazareno, ausente por lesão, tem-se constituído cada vez mais como uma peça fundamental na manobra da equipa portuguesa, não só pelo seu contributo enquanto desequilibrador nato e portador de uma técnica fenomenal, mas também pelo seu papel na dinâmica defensiva da equipa, enquanto agente fundamental nas compensações e coberturas que assume no apoio aos colegas.

A ausência de Jordan foi colmatada por Mário Narciso de uma forma eficaz dentro do universo de possibilidades existentes, deslocando Bê Martins para o lugar de Jordan no cinco inicial a par de Torres, Madjer e Belchior e juntando os visionários Bruno Novo e Alan no apoio ao pivô Zé Maria na segunda equipa, que contava ainda com Coimbra. Se é verdade que Bê Martins cumpriu eximiamente as tarefas ofensivas de que ficara incumbido, apontando 5 golos naquela que foi provavelmente a sua melhor competição da época, deve também ser reconhecido que a primeira equipa não alcançou os níveis de segurança defensiva apresentados quando Jordan está presente. Com efeito, 4 dos 6 golos do Brasil foram apontados enquanto o cinco inicial estava em campo, estando praticamente todos associados a erros defensivos evitáveis. A segunda equipa, por seu turno, mostrou-se de um modo geral mais coesa do ponto de vista defensivo, salvo excepções pontuais, mas perdeu alguma capacidade de explosão no ataque, mercê da saída de Bê Martins. Decerto a capacidade de leitura de Bruno Novo e Alan, conjugada com a pujança física de Coimbra e o talento acrobático de Zé Maria, trouxe alguma imprevisibilidade ao jogo de Portugal, mas que a meu ver se provou insuficiente, por lhe faltar um elemento surpresa.

Jordan Santos falhou o Mundialito 2016 por lesão [Foto: Diogo Pinto/FPF]
Jordan Santos falhou o Mundialito 2016 por lesão [Foto: Diogo Pinto/FPF]
 

Com esta discussão não pretendo desculpar a derrota lusa exclusivamente com base na ausência de um membro da equipa, mas antes demonstrar que a indisponibilidade de um jogador por lesão prejudicou de um modo muito evidente o equilíbrio da equipa de Portugal, algo impensável para uma selecção campeã europeia e mundial. A qualidade dos 10 jogadores escolhidos para representar o país no Mundialito permanece inquestionável, inclusivamente pelas provas dadas nesta prova, sendo até mesmo difícil imaginar uma convocatória diferente. Esta representa uma parte importante do problema: a crónica falta de opções de jogadores selecionáveis para torneios internacionais de topo.

Quem são os outros seleccionáveis?

De facto, exceptuando Léo Martins, que integrou a comitiva dos 12 campeões mundiais e europeus, parece improvável neste momento a convocatória de outros jogadores. Note-se que as opções seguintes correspondem a Pedro Silva e Ricardo Baptista, que se estrearam recentemente ao serviço da selecção na Sal Beach Soccer Cup, onde contabilizaram alguns minutos, insuficientes, no entanto, para que possam ser vistos como potenciais seleccionáveis. A lista continua com Tiago Batalha, integrante da selecção que conquistou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos Europeus, o guardião Bruno Henriques, presente na Copa Intercontinental 2014, e finalmente os experientes internacionais Lúcio Carmo e Duarte Vivo, que ultimamente não têm constado nas escolhas do seleccionador. A lista continuaria com outros jogadores presentes em estágios ao longo dos últimos anos que ainda não tiveram a sua oportunidade. Porém, mesmo aqueles que já vestiram a camisola de Portugal em campo parecem não constituir uma opção válida para as escolhas de Mário Narciso, não por falta de qualidade, mas por falta de experiência internacional e/ou competição ao serviço da selecção.

Esta realidade conduz à antecipação de problemas como a temática da renovação da selecção aquando das saídas de jogadores nucleares na equipa ou as carências provenientes da indisponibilidade de um jogador por lesão, como foi o caso. A solução não pode ser encontrada no imediato e tem de ser trabalhada ao longo do tempo, numa perspectiva de longo prazo, privilegiando a criação de condições para que os novos valores nacionais possam ser chamados mais frequentemente aos trabalhos da selecção e integrados num contexto competitivo. Só desta forma se prepara eficazmente o futuro e se antecipam soluções para imprevistos no presente.

Em todo o caso, a derrota perante o Brasil não é preocupante, uma vez que Portugal se bateu de igual para igual com o campeão sul-americano, perdendo a partida em detalhes que podem perfeitamente ser corrigidos durante as próximas semanas. Urge, isso sim, extrair as devidas ilações relativamente aos pontos débeis da prestação lusa para que a revalidação do título europeu e, principalmente, a qualificação para o campeonato do mundo do próximo ano sejam uma realidade.


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