17 Dez, 2017

Arquivo de Futebol de Praia - Fair Play

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André CoroadoNovembro 9, 20174min0

A Copa Intercontinental coroou o Brasil bicampeão, dando seguimento ao percurso invicto da Canarinha desde que Gilberto Costa assumiu o comando da equipa. Portugal, vice-campeão europeu, enfrentou algumas adversidades, mas soube superá-las graças e uma sólida organização defensiva colectiva e ao carácter desequilibrador de Jordan (melhor marcador) para chegar à final. O que terá faltado para vencer o Brasil desta vez?

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André CoroadoOutubro 7, 201711min0

No passado dia 17 de Setembro, a Rússia reconquistou a Liga Europeia de Futebol de Praia, após vitória por 3-1 diante da selecção portuguesa na final em Terracina. Numa época que começou de forma algo conturbada, em face do prolongamento de uma crise já iniciada em 2016, as hostes de Likhatchev renasceram das cinzas e arrebataram mesmo o ceptro de campeões do velho continente.

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André CoroadoSetembro 13, 201712min0

Começa já amanhã o maior evento de selecções do futebol de praia europeu do ano: a Superfinal! Pelo segundo ano consecutivo, a prova viaja até Itália, cabendo desta vez às areias de Terracina a honra de acolher a prova que irá coroar os novos campeões europeus da modalidade. Em campo, as 8 melhores selecções do continente irão disputar o título, que será atribuído ao vencedor da grande final de Domingo. A via rumo à partida decisiva é turtuosa e repleta de obstáculos, com pouca ou nenhuma margem para erros.

Os 8 candidatos foram divididos em 2 grupos de 4 equipas cada, com base na sua classificação nas etapas da fase regular. Dentro de cada grupo, as equipas jogam todas umas contra as outras entre 5ª feira e Sábado, sendo que apenas o vencedor de cada grupo avança para a grande final de Domingo. Eis a composição dos agrupamentos (entre parênteses está indicada a classificação registada na fase regular):

Grupo 1

PORTUGAL (1º)

ESPANHA (4º)

SUÍÇA (6º)

POLÓNIA (8º)

Grupo 2

UCRÂNIA (2º)

RÚSSIA (3º)

BIELORRÚSSIA (5º)

ITÁLIA (7º)

Em face dos promissores embates que se avizinham, o Fair Play lança um olhar sobre cada um dos participantes, perspectivando aquela que se espera vir a ser a Superfinal mais equilibrada de sempre.

PORTUGAL

A selecção das quinas parte para a Superfinal da Liga Europeia como principal favorita à conquista do troféu, após se ter classificado no 1º lugar da fase regular, fruto de 6 vitórias em outros tantos encontros que lhe valeram 15 pontos (as vitórias contra Suíça e Polónia foram obtidas em prolongamento e grandes penalidades, respectivamente). Na verdade, Portugal ainda não perdeu qualquer jogo contra uma selecção europeia no ano de 2017, em que averbou apenas 3 derrotas, todas diante de selecções sul-americanas (Brasil e Paraguai). Tratam-se de motivos mais do que suficientes para poder apontar os comandados de Mário Narciso como o principal candidato à vitória em Terracina, onde o conjunto porutuguês irá procurar repetir o feito de 2015, quando se sagrou campeão europeu em Parnu (Estónia). Para tal, as cores nacionais contam com um plantel recheado de qualidade, que combina 10 elementos da temporada áurea de 2015 com 2 jovens talentos que têm vindo a integrar as convocatórias da selecção nos dois últimos anos: Pedro Vasconcelos Silva e Ricardo Baptista, este último já com 5 golos apontados nesta Liga Europeia. Numa equipa cuja versatilidade táctica é imagem de marca e que tem vindo a aprimorar rigorosamente ao longo da época os mecanismos defensivos, os desequilíbrios podem brotar de qualquer parte, desde as rápidas combinações de Jordan (melhor jogador da etapa de Siófok) com os irmãos Bê e Léo Martins até à superioridade numérica gerada pelo sistema 2:2, no qual o guardião Elinton Andrade assume um papel fundamental, passando pelos remates indefensáveis do lendário Madjer, melhor jogador da etapa da Nazaré.

UCRÂNIA

Se reconhecemos o favoritismo de Portugal no plano teórico, não podemos deixar de considerar as hostes ucranianas igualmente merecedoras desse estatuto. Campeões europeus em título, os pupilos de Varenytsia chegam a Itália enquanto cabeça de série, mercê do 2º lugar obtido na fase regular, que incluiu a conquista da etapa de Warnemunde (Alemanha). Os soldados do Mar Negro raramente deslumbraram no seu périplo rumo a Terracina, mas deram provas de grande consistência defensiva e a habitual frieza táctica que os levou à final nos dois anos anteriores, perdendo apenas um encontro, pela margem mínima, diante da Espanha. Desta vez, nomes sonantes como os irmãos Borsuk e o incontornável Medvid (fundamental na conquista do ceptro no ano transacto) não estarão presentes, à semelhança do que se verificou na fase regular, cabendo a tarefa da revalidação do título a um plantel algo renovado. A experiência dos guarda-redes Sydorenko e Hladchenki, pelos quais passa grande parte do jogo ucraniano, revela-se um ponto chave no sucesso da equipa, que conta ainda com a liderança de Pachev, a eficácia matadora do temível Zborowski e a evolução meteórica de talentos como Voitok ou Glutskyi. Todas as razões se conjugam, portanto, para que a Ucrânia seja efectivamente respeitada como uma das grandes candidatas a chegar novamente à final de Domingo.

RÚSSIA

Mesmo atravessando um momento de reestruturação profunda, a Rússia constitui sempre um obstáculo temível para qualquer selecção do velho continente, apresentando-se como crónico candidato à conquista de qualquer competição. Após ter falhado o apuramento para o mundial deste ano, a armada de Mikhail Likhatchev procurou retomar o caminho do sucesso por via de uma estratégia focada no presente e no futuro. Assistiu-se, de facto, a uma renovação da selecção russa sem precedentes, com novos rostos a surgir nas fileiras tricolores na etapa de Belgrado da fase regular e no Mundialito (caso dos irmãos Kryshanov, que deixaram boas indicações). Todavia, seria apenas na etapa de Moscovo, em solo caseiro, que a Rússia finalmente daria provas de um regresso aos índices competitivos de outrora, conquistando os 9 pontos em disputa e carimbando o apuramento para a Superfinal. A caminhada que incluiu vitórias sobre Suíça e Bielorrússia e contou com Makarov em grande plano. Em Terracina, os czares não poderão contar com o seu emblemático número 4, mas jogadores de renome como Shkarin, Romanov e Nikonorov estarão presentes numa equipa que, introduzindo pequenos ajustes tácticos, mantém o seu ADN que tantas vitórias lhe valeu no passado. O objectivo não será outro que não a conquista de um título que lhes foge desde 2014.

SUÍÇA

Campeã europeia em 2012, a Suíça é outra das formações que se apresenta em Terracina com legítimas aspirações à conquista do troféu, tendo mantido um nível exibicional muito elevado nos últimos anos. Todavia, a caminhada helvética rumo à Superfinal foi pouco brilhante, pautando-se por um modesto 6º lugar com 9 pontos. Os comandados de Schirinzi até começaram bem, com um triunfo por 4-0 diante da Itália, mas após uma derrota contra Portugal por 7-6 no prolongamento, naquele que foi o jogo mais espectacular da época até ao momento, a Suíça perdeu a consistência competitiva e começou a cometer demasiados erros defensivos que se reflectiram na conquista de apenas duas vitórias frente às mais modestas formações da França e da Grécia, ambas fora da Superfinal. O problema dos helvéticos prende-se, efectivamente, com as grandes flutuações de intensidade ao longo da época e de cada torneio, muitas vezes sem explicação aparente, bem como pelo experimentalismo excessivo em que por vezes incorre (recorde-se a derrota por 8-4 frente à Bielorrússia em que Ott jogou como guarda-redes praticamente toda a partida). Todavia, não haverá provavelmente neste momento nenhuma equipa europeia tão perigosa no sistema 2:2 como a Suíça, que conta com a técnica fenomenal de jogadores como Ott, Misev, Spacca na construção e o poder finalizador dos acrobatas Stankovic e Hodel, este último regressado após lesão.

ESPANHA

A selecção espanhola apresenta-se em Terracina no âmbito de um período de renovação que tem vindo a desenvolver nos últimos anos, buscando agora a oportunidade para voltar a conqusitar um grande título europeu (algo que não consegue desde 2012, aquando da qualificação para o campeonato do mundo do Taiti). Numa temporada que começou com a ausência no mundial de futebol de praia, a Espanha surgiu muito motivada na Liga Europeia e conseguiu empreender um percurso consistente, averbando 12 pontos e erguendo mesmo o troféu de campeão na etapa de Belgrado. O trajecto do elenco dirigido por Joaquín Alonso contou com triunfos sobre grandes nomes do futebol de praia europeu, incluindo uma vitória por 4-3 diante da Ucrânia (4 pontapés de bicicleta por parte dos atletas de La Roja) e um triunfo sólido por 3-1 frente à Rússia. Ao mesmo tempo, Alemanha e Polónia, adversários teoricamente mais acessíveis, constituíram um obstáculo intransponível para a equipa espanhola. Caracteriada pela aposta no sistema 3:1 e em modelos clássicos, a abordagem desta selecção passa pela consistência defensiva e pelo talento de jogadores de classe mundial como Llorenç Gomez, Eduard Suarez e Antonio Mayor para fazer a diferença. Integrada no grupo 1, a Espanha tem claramente uma palavra a dizer na luta pelo apuramento, que deverá ser discutido com Portugal e Suíça.

BIELORRÚSSIA

Não seria coerente considerar a Bielorrússia uma possível surpresa nesta Superfinal, atendendo às provas de qualidade dadas por esta formação ao longo dos últimos anos. A inserção gradual de mais uma potência do leste europeu na elite do futebol de praia continental incluiu vitórias contra todos os outros emblemas que agora tomam parte nesta Superfinal, num processo de crescimento que contou com o trabalho de técnicos como Gilberto Costa (actual seleccionador brasileiro), Marco Octávio e Nico Alvarado, antiga lenda do futebol de praia espanhol que já começa a deixar a sua marca. Para já, os bielorrussos atingiram a Superfinal com 12 pontos obtidos nas etapas de Moscovo e Siófok, dos quais sobressaem os triunfos expressivos por 8-4 diante da Suíça e 6-0 frente à Polónia. Ainda assim, Portugal e Rússia mostraram ter aprendido as lições do passado e neutralizaram a equipa bielorrussa em jogos nos quais o rigor defensivo foi nota dominante. A grande questão será saber se a selecção de Nico conseguirá começar a vencer as suas partidas em vez de dificultar a tarefa dos adversários ao ponto de os poder vir a surpreender. Para já, o poder físico, a consistência defensiva e o jogo directo no pivô e na subida dos alas são pontos estruturantes do jogo bielorrusso, que encontra no guardião Makarevich e no pivô Bryshtel os seus crónicos principais intérpretes. Será interessante ver como a Bielorrússia reage perante as vizinhas (e mais experientes) Rússia e Ucrânia no grupo 2.

POLÓNIA

Grande sensação do Verão passado ao vencer o torneio de apuramento para o mundial, a Polónia desiludiu já em Abril deste ano, ao abandonar a competição global nas Bahamas sem uma única vitória. No entanto, e já sem a sua grande referência (o acrobático Saganowski), as hostes do comandante Marcin Stanislawski deram provas de resiliência ao conquistarem os 7 pontos que lhes deram o acesso à última vaga na Superfinal da Liga Europeia. Incapaz de manter um caudal de jogo ofensivo tão expressivo como os principais candidatos ao título, a Polónia conta no entanto com o poderio físico da sua linha defensiva para manter a equipa adversária longe da sua baliza e revela-se profundamente letal nas transições ofensivas, criando muito perigo com base na exploração das alas e das bolas paradas. Foi assim que os polacos conseguiram levar os jogos da fase regular contra Espanha e Portugal a grandes penalidades, tendo inclusivamente alcançado 1 ponto fruto do triunfo frente aos espanhóis. As vitórias diante de gregos e azeris providenciaram à Polónia os pontos que ainda lhe faltavam para garantir a presença em Terracina, onde irá tornar a encontrar precisamente as duas selecções ibéricas. O historial polaco não deixa margem para dúvidas: jogadores como Ziober e Frizkemut devem ser vigiados de perto, da mesma forma que será preciso trabalhar colectivamente para encontrar espaços numa muralha defensiva erguida por Jesionowki, Gac, entre outros. Muito dificilmente a Polónia repetiria o feito de Jesolo há 12 meses, mas é evidente que o conjunto polaco pode roubar pontos a qualquer equipa.

ITÁLIA

O grupo 2, por seu turno, fica completo com a Squadra Azurra, equipa que, na nossa opinião, conta com menos hipóteses de chegar à almejada final de Domingo, pese embora o facto de jogar em casa. Tendo o apuramento já garantido como anfitriã de acordo com as regras da BSWW, a Itália mostrou uma pálida imagem na fase regular, conquistando 9 pontos que são lisonjeiros para uma equipa sem ideias e débil tacticamente. Os homens de Massimo Agostini lograram apenas superar (sempre pela margem mínima) as selecções da França, da Alemanha e do Azerbeijão, todas elas arredadas da Superfinal. Suíça, Portugal e Ucrânia não deram tréguas aos transalpinos, que ainda assim contarão com um elenco de luxo para tentar recuperar a sua melhor forma. De facto, o plantel italiano conta com nomes como Ramacciotti, Palmacci e Gori, melhor marcador do último mundial (em que a Itália foi a equipa europeia que obteve melhor classificação, no 4º lugar), passíveis de fazer a diferença em quaisquer circunstâncias. No entanto, será necessário uma evolução do nível de jogo colectivo apresentado nas etapas da fase regular para a Itália poder superar equipas mais organizadas e tão ou mais talentosas como são as formações de leste que irá degladiar.

CALENDARIO (horas PT)

5ª feira (14 de Setembro)

12:30 – Espanha X Suíça

13:45 – Bielorrússia X Rússia

15:00 – Polónia X Portugal

16:15 – Itália X Ucrânia

6ª feira (15 de Setembro)

12:30 – Espanha X Polónia

13:45 – Ucrânia X Rússia

15:00 – Portugal X Suíça

16:15 – Bielorrússia X Itália

Sábado (16 de Setembro)

12:30 – Suíça X Polónia

13:45 – Ucrânia X Bielorrússia

15:00 – Portugal X Espanha

16:15 – Rússia X Itália

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André CoroadoJulho 14, 20178min0

Em 1997, João Victor Saraiva iniciava uma longa jornada no futebol de praia que o consagraria como um dos melhores de sempre na modalidade. Detentor de diversos recordes e uma infindável colecção de prémios individuais, foi considerado o melhor do mundo pela segunda vez consecutiva em 2016. Após um Mundial adverso às aspirações lusas, em que Portugal não conseguiu revalidar o título, a equipa das quinas regressou às vitórias com Madjer em grande plano. O Fair Play foi conversar com Madjer e revela os pontos de vista da lenda dos areais.

Antes do Campeonato do Mundo FIFA Bahamas 2017, a revalidação do título era o objectivo assumido pela equipa. Não tendo sido possível, que balanço faz da participação de Portugal no mundial?

M: Sem dúvida que o grande objectivo era revalidar o título, no entanto sabíamos que éramos o principal alvo abater. De qualquer forma fizemos de tudo para conquistar o título e acabámos por cair perante o actual Campeão Mundial no melhor jogo do mundial, dito pela crítica e adversários. O balanço acaba por ser menos positivo pela saída precoce da competição, mas positivo pela forma como sempre nos entregámos.

No seu ponto de vista, o que poderia ter sido feito de forma diferente para que Portugal tivesse alcançado um melhor resultado?

M: Penso que tudo foi feito, colocaria talvez mais jogos internacionais de forma a preparar melhor a competição… Mas não foi possível. 

Foto: BSWW

Apesar da eliminação precoce nos quartos, Portugal foi a única equipa que efectivamente fez frente ao eventual campeão Brasil, perdendo apenas nos instantes finais da partida. Como vê a ascensão da selecção brasileira de volta ao topo? O que podem Portugal e as outras selecções fazer para derrotar este Brasil cuja invencibilidade já dura 2 anos? 

M: Penso que voltaram a jogar como equipa e unidos e isso faz toda a diferença. Anteriormente oscilavam entre o grupo e a individualidade e isso por vezes funcionava, mas outras vezes ficavam à espera de desequilíbrios individuais. Actualmente estão totalmente focados enquanto equipa e objectivos. As selecções têm um trabalho árduo pela frente mas não impossível, como já ficou provado. 

A conquista da Copa do Sal, duas semanas após o encerramento do mundial, apaziguou o sabor amargo da eliminação do mundial? Que ilações podemos retirar do torneio?

M: Não apaziguou nada, apenas temos de evoluir e apreender com os erros e tentar melhorar logo em seguida e foi o que sucedeu.

 

Que objectivos movem ainda o Madjer enquanto capitão da selecção nacional?

M: Os mesmo objectivos todos os anos são iguais tendo em conta que sou exigente, por isso tudo passa pela motivação e estou motivado para continuar a trabalhar como se fosse o primeiro dia da minha carreira.

Madjer marcou 3 golos na recente vitória diante da Suíça na Liga Europeia, na Nazaré [Foto: Nazaré Beach Events]

O Sporting estreou-se recentemente na Euro Winners Cup ao alcançar o 7º lugar na competição realizada na Nazaré. Que balanço faz deste evento no geral e da prestação do Sporting em particular?

M: Penso que estivemos muito bem dentro das nossas limitações e que crescemos enquanto equipa, nunca nos esquecendo que para muitos foi a primeira vez que competiram na EWC e até mesmo internacionalmente. 

No campeonato nacional que agora se inicia, o Sporting procura a revalidação do título nacional. Que balanço faz da prestação da equipa até agora e como se gere a impossibilidade de ajudar o clube do coração em grande parte das jornadas?

M: Mantemo-nos fiéis aos nossos princípios que passam por crescer passo a passo para alcançar o nosso objectivo e na fase regular ficarmos entre os 4 primeiros para atingir os playoffs.

Olhando para o plantel do Sporting que tem disputado estas competições encontramos diversos jogadores de classe mundial, mas também jovens que têm dado provas de qualidade, como Ricardinho e Pedro Eustáquio. Passa também pelos objectivos do clube ajudar a formar jogadores para salvaguardar o futuro da modalidade em Portugal?

M: Sempre foi o nosso objectivo e será sempre a nossa bandeira ajudar no desenvolvimento da modalidade, assim como acompanhamento e surgimento de novos talentos.

[Foto: http://sportingcp.superfanatics.eu]

Recentemente iniciou uma nova aventura em Itália, alinhando ao serviço do Pisa Beach Soccer e tendo rapidamente conseguido bons resultados (presença no Top 4 da Taça de Itália e arranque favorável na liga). Como descreve este regresso ao futebol de praia italiano?

M: É fantástico regressar ao primeiro campeonato onde joguei internacionalmente e onde vejo que existe um grande respeito e crescimento da modalidade.

Tendo jogado em tantos países e ligas diferentes, que comparação faz entre a liga portuguesa e outras onde tem actuado recentemente? Que características das ligas estrangeiras podemos importar para desenvolver os quadros competitivos em Portugal?

M: Existe um caminho longo a percorrer em Portugal em comparação com outros países, e estamos sem dúvida a estagnar e a ser ultrapassados por outros. Cabe-nos a nós não permitir e tentar passar à FPF o máximo de informação possível, para mantermos o futebol de praia “vivo” e crescente.  

Completou recentemente 20 anos de carreira no futebol de praia, um registo que inclui mais de 500 internacionalizações e mais de 1000 golos pela equipa das quinas. Depois de tantos anos e tantas partidas disputadas, a sensação de entrar em campo para representar Portugal continua a ser a mesma?

M: Entro sempre como se do primeiro jogo se tratasse e com a mesma vontade de representar ao melhor nível a Seleção. 

Tendo representado dezenas de emblemas onde jogou ao lado de centenas de jogadores diferentes, quais foram os colegas de equipa com quem mais gostou de partilhar os areais?

M: Com todos, tenho a felicidade de ter jogado e apreendido sempre com todos. E por isso agradeço todas as oportunidades que tive e continuo a ter.

 

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André CoroadoAbril 27, 201711min0

A poucos momentos do início do Mundial de Futebol de Praia FIFA Bahamas 2017, o Fair Play finaliza a revisão do percurso das selecções apuradas até Nassau, iniciada aqui. Desta vez, a selecção anfitriã e os restantes representantes da CONCACAF são passados em revista, bem como as selecções da Ásia e da Oceânia que vão dar espectáculo na beach arena do Malcolm Park.

Anfitrião: Bahamas

As Bahamas, enquanto país-sede do mundial, gozam de apuramento directo para o torneio. Tratar-se-á da primeira presença do país na competição, o que por si só torna, na nossa opinião, controversa a atribuição da organização da prova à nação das Caraíbas.

CONCACAF

Equipas apuradas: Panamá, México

Campeão: Panamá

Surpresa: Panamá

Decepção: El Salvador

Visando empreender um ensaio geral para a grande competição global, a capital das Bahamas apressou-se a assegurar a organização do torneio de qualificação da CONCACAF para o mundial. A iniciativa da federação anfitriã da prova constituiu também uma manobra estratégica inteligente na medida em que implicava a participação da formação da casa, que assim poderia integrar um torneio de elevada competitividade na sua preparação para o torneio onde se iria estrear (as Bahamas nunca haviam participado no mundial e tentavam a todo o custo atingir um nível condizente com o dos 15 adversários que iriam receber nas areias de Nassau). Orientados por Alexandre Soares, os locais procuravam contrariar o favoritismo dos históricos da região: El Salvador, México, EUA e Costa Rica. De facto, as previsões que colocavam estas 4 equipas nos lugares cimeiros da prova acabaram por se revelar redondamente enganadas; todavia, não seriam as Bahamas os tomba-gigantes da prova.

Antes da competição, poucos teriam imaginado que o estatuto de campeão da CONCACAF seria ostentado 2 meses mais tarde naquela mesma arena do Malcolm Park por uma nação que nunca passara a fase de grupos do torneio de qualificação. No entanto, assim foi a história escrita pela selecção do Panamá na competição continental: uma selecção que fez das fraquezas forças para se transfigurar jogo após jogo e acabar por derrotar um após outro cada um dos 4 colossos da América do Norte e Central. Com um estilo de jogo muito físico, baseado na condução de bola pelo chão, aqui e ali abrilhantada por um toque de criatividade por parte dos seus jogadores mais dotados tecnicamente (atente-se em Alfonso Maquensi, Pascual Galvez ou Gilberto Rangel), o Panamá demonstrou organização, união e crença na forma imponente como foi assegurou uma qualificação tão merecida quanto inesperada.

A derradeira (e porventura mais injustiçada) vítima dos panamenhos foi a selecção de El Salvador, que caiu aos pés da surpresa do torneio na sequência de uma derrota nas grandes penalidades, numa partida muito fechada em que o Panamá teve o mérito de anular as temíveis armas de Los Cuscatlecos. A eliminação trata-se de um golpe terrível para as aspirações de Agustín Ruiz e demais companheiros, arredados do mundial pela segunda vez consecutiva, mesmo tendo vencido todos os outros jogos da prova (incluindo um triunfo sobre o mesmo Panamá na fase de grupos, também por via do desempate na marcação de grandes penalidades). Para chegar ao jogo decisivo das meias-finais, o Panamá escavou um canal através da CONCACAF, deitando por terra as ambições de EUA (derrotados por 6-4 nos quartos de final e mais uma vez afastados do mundial após uma prestação sem brio) e Costa Rica (Los Ticos caíram precocemente na fase de grupos mercê das derrotas diante de El Salvador e Panamá).

Mais sorte teve a selecção do México, que contou com um calendário mais apetecível na caminhada rumo ao mundial. Apesar de as exibições dos Aztecas não terem sido especialmente convincentes, a turma de Ramón Raya não apresentou dificuldades perante as formações menos experientes do Canadá, de Trindade e Tobago e de Guadeloupe, capitalizando da melhor forma a sua experiência. Ramón Maldonado foi o herói da qualificação mexicana ao apontar 12 golos que lhe valeram o estatuto de melhor marcador da competição, numa equipa que mantém como vozes da experiência Angel Rodríguez e Benjamim Mosco, agora complementados por muitas caras novas. Contudo, também esta nova geração mexicana se submeteu de forma mais ou menos passiva ao jugo totalitário do Panamá, numa final em que a maior consistência dos homens do Canal foi evidenciada (4-2). Restam, por isso, muitas dúvidas sobre as reais chances do México neste campeonato do mundo.

No campo das surpresas pela positiva destaca-se ainda a prestação notável de Guadaloupe, uma selecção que nunca poderia estar presente no mundial por não ser membro FIFA, mas deu provas de grande crescimento ao atingir as meias-finais da prova, num percurso que incluiu a eliminação das Bahamas, após um sólido triunfo por 5-3. Em sentido inverso, a prestação tímida da selecção da casa reforça as dúvidas sobre o que poderá ser alcançado por St. Fleur e demais companheiros nas suas areias natais e levanta sérias questões relativamente à legitimidade da escolha de um país com escassa tradição na modalidade como sede do mundial.

AFC

Equipas apuradas: Irão, EAU, Japão

Campeão: Irão

Surpresa: EAU

Decepção: Omã

Um grande jogo de Ozu Moreira não evitou o triunfo do Irão [Foto: JFA]
 

Já depois de o sorteio do mundial ter sido efectuado (numa cerimónia que teve lugar em Nassau a 28 de Fevereiro, após a conclusão do torneio de apuramento da CONCACAF), chegou finalmente a vez de as selecções asiáticas entrarem em campo por forma a determinar as vagas em falta nos grupos B, C e D. Desta vez, as praias malaias de Kuala Terengganu substituíram o Qatar como anfitriãs da prova, numa edição marcada pela escassez de participantes (apenas 12, um número que contrasta com as 16 equipas de edições passadas).

No meio de tantas mudanças, a imutabilidade da qualidade exibicional do Irão sobressai, principalmente se atendermos ao registo avassalador dos comandados de Mohammad Mirshamsi: 6 vitórias em outras tantas partidas, todas por pelo menos 2 golos de diferença (a maioria dos quais por resultados bem mais dilatados) e a reconquista do estatuto de reis asiáticos de forma contundente. Apenas a partida decisiva das meias finais frente ao arqui-rival Japão se investiu de maiores dificuldades para os persas, mas a maior intensidade de jogo e consistência táctica do Irão acabaria por estabelecer uma diferença entre as duas selecções traduzida no 8-6 final. A final frente aos Emirados Árabes Unidos constituiu um momento de celebração e júbilo para Ahmadzadeh e companhia, coroando a conquista do ceptro asiático com nova goleada por 7-2. Acima de tudo, o Irão prima pela maturidade técnico-táctica que foi adquirindo ao longo da última década, demonstrando uma coesão defensiva assinalável e sistemas de jogo muito bem trabalhados, que oscilam inteligentemente entre o 3:1 e o 2:2 clássicos e resultam num estilo particularmente rápido e directo. Num plantel equilibrado e coeso, Mohammadali Mokhtari foi, desta vez, o maior destaque, assenhoreando-se dos prémios de melhor marcador e melhor jogador do torneio com 12 golos.

O segundo destaque pela positiva vai para a selecção dos Emirados Árabes Unidos, que se sagrou vice-campeã asiática contra todas as expectativas. É certo que a equipa do golfo apresenta pergaminhos na modalidade, contando com 4 mundiais no currículo, e já com este plantel havia dado provas de qualidade, ao derrotar Rússia e Portugal na Copa Intercontinental de 2015. Todavia, o 8º lugar alcançado na última Copa Intercontinental, na qual o conjunto então comandado por Guga Zlockowick revelara efectiva falta de competitividade, permitiam entrever dificuldades para a formação dos emirados, tornando mais verosímil o apuramento de equipas como Omã ou Líbano. Foi, por isso, uma agradável surpresa verificar que a inépcia táctica evidenciada 4 meses antes no Dubai pelos homens do golfo não deixou vestígios numa equipa que começou a deixar uma excelente imagem desde o primeiro instante, vencendo veementemente o Iraque (6-0) e o Qatar (8-1) nas rondas inaugurais. Sendo necessário vencer o Japão para assegurar a presença nas meias finais, os pupilos de Mohamed Bashir confirmaram o excelente momento de forma que atravessam ao surpreender os nipónicos com um triunfo por 5-4. A qualificação para o mundial ficaria selada com uma vitória nas semi-finais arrancada a ferros sobre o sempre combativo Líbano, após grandes penalidades (empate 4-4 em tempo regulamentar), carimbando o regresso dos Emirados Árabes Unidos aos grandes palcos mundiais.

A lista de apurados asiáticos fica completa com a referência ao Japão – a única equipa a par do Brasil que consegue assim marcar presença em todas as 9 edições da prova. Porém, os discípulos de Marcelo Mendes não contaram com facilidades, atendendo à inesperada derrota com os Emirados Árabes Unidos (que haviam sido treinados por Mendes durante largos anos). O país do sol nascente teve de aguardar os resultados dos outros agrupamentos para no final do dia ser repescada para as meias finais enquanto melhor 2º classificado dos 3 grupos, cabendo-lhe a difícil tarefa de defrontar o Irão nas meias finais. Sendo notória a qualidade técnica do plantel nipónico, tal como a organização táctica rigorosa que actualmente enverga, o Japão parece permanecer neste momento um degrau abaixo do estatuto de superpotência mundial ostentado pelos iranianos, o que acabou por condizer com a derrota nas meias finais. Ainda assim, foi sem margem para dúvidas que o Japão venceu o Líbano (6-3) na partida de apuramento do 3º lugar, assegurando o passaporte para as Bahamas.

Em sentido inverso vale a pena destacar o desempenho desapontante da selecção omanesa, presente no mundial de Espinho. Yahya Al Araimi, Ghaith e Khaled Al Oraimi não foram além da fase de grupos do torneio asiático nesta ocasião, mercê da derrota por 4-3 diante do Líbano na partida decisiva. Os libaneses, por sua vez, repetiram o 4º lugar de 2015, uma vez que o bom momento iniciado com a vitória perante Omã não encontrou eco numa meia final teoricamente acessível frente aos Emirados Árabes Unidos, acabando depois goleado pelo mais experiente Japão. Ainda não foi desta que Haitham, Merhi e restantes companheiros reservam um lugar no mundial, mas vale a pena sublinhar o bom trabalho efectuado, que mais tarde ou mais cedo deverá ser premiado (veja-se o caso do Equador, que após 3 torneios no 4º lugar da CONMEBOL carimbou a presença no mundial das Bahamas).

Por seu turno, outra selecção que deixou uma boa imagem em Kuala Terengganu foi o Bahrain, liderado pelo português João Almeida, que terminou a sua participação na fase de grupos apenas com uma derrota frente ao Irão, mas 3 vitórias meritórias nas outras partidas. Como nota final, cabe-nos destacar a prestação do Afeganistão, também integrante do grupo A, uma selecção oriunda de um país em guerra que mesmo assim demonstrou bons indícios de qualidade desportiva, vencendo as formações da Malásia e da China.

OFC

Equipa nomeada: Taiti

Lamentavelmente, o último torneio de qualificação disputado na Oceânia tendo em vista o mundial de futebol de praia remonta a 2011, quando o Taiti se apurou pela primeira vez para a prova. Desde então, a confederação tem-se limitado a nomear um representante para participar no campeonato do mundo, que inevitavelmente acaba por ser o Taiti, mercê das duas presenças consecutivas no Top 4 do mundial. O actual vice-campeão do mundo irá assim disputar o seu 4º mundial consecutivo, mas poderá ressentir-se da falta de competitividade que enfrenta nos longínquos confins da Polinésia.

As dúvidas sobre o estatuto de favorito do Taiti começam a dissipar-se dentro em breve, após o pontapé de saída da competição no Malcolm Park, em Nassau, cabendo a Irão e México a honra de dar início à competição. Um duelo que promete, aliás como tantos outros a que irmos assistir ao longo de uma semana e meia.

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André CoroadoAbril 14, 20179min0

O momento pelo qual milhares de fãs em todo o mundo esperavam aproxima-se a passos largos! O mundial de futebol de praia está à porta, aguardando a chegada do dia 27 de Abril para o pontapé de saída. A arena já está montada em Nassau, capital das Bahamas, que desta feita acolhem a prova num cenário de festa e compromisso com o desenvolvimento e expansão do futebol de praia ao redor do globo… e o Fair Play também entra em estágio com uma série de antevisões da prova!

Primeiramente, é nosso objectivo revelar a rota que as 16 equipas participantes seguiram rumo a Nassau, contando um pouco da História dos torneios de qualificação disputados nos cinco continentes. Hoje recordamos um pouco da qualificação europeia, desvendado o que aconteceu em África e na América do Sul antes de nos serem dados a conhecer os seus representantes no grande evento à escala global. Na segunda parte prosseguimos o nosso périplo ao redor do planeta lançando um olhar à América do Norte, Central e Caraíbas, à Ásia e à Oceania. Uma vez apresentadas as selecções em prova, passaremos a uma antevisão dos grupos e da competição como um todo, naquela que será a 9ª edição da prova organizada pela FIFA.

UEFA

Equipas Apuradas: Polónia, Suíça, Portugal, Itália

Campeão: Polónia

Surpresa: Polónia

Decepção: Rússia

É um facto aceite pela comunidade do futebol de praia mundial a crescente preponderância da Europa na conjuntura internacional da modalidade, conforme o atestam os bons resultados das equipas provenientes desta confederação nos campeonatos do mundo da FIFA (inclusivamente, as últimas 3 edições foram conquistadas por selecções do velho continente). Todavia, em 2017 o mundial voltará a contar com apenas 4 representantes europeias, o que se reflectiu num ciclo de batalhas duríssimas em Setembro do ano passado tendo em vista a selecção dos apurados.

Não podemos deixar de criticar o sistema vigente, denunciando a tremenda injustiça patente na limitação deste número, que resulta inevitavelmente na exclusão de grandes gigantes do futebol de praia mundial. Ainda assim, vale a pena sublinhar a dimensão do sucesso das 4 equipas qualificadas, entre as quais se encontra a selecção portuguesa. Os lusos estarão acompanhados pela Itália, que apesar de disputar o apuramento em casa não foi além da 4ª posição, da Suíça, vice-campeã do torneio que contou com os 25 golos de Dejan Stankovic, e da Polónia, a grande revelação da prova, que não só logrou ultrapassar o favoritismo de Ucrânia e Rússia na segunda fase de grupos como também se auto-superou ao ponto de conquistar o troféu final. Em sentido inverso, a todo-poderosa Rússia, campeã do mundo em 2011 e 2013, não marcará presença nas Bahamas, tal como a Ucrânia, actual campeã europeia, ou a Espanha, selecção de grande importância histórica que já falhara o mundial de 2011.

A análise detalhada da qualificação europeia para o mundial e o estado da modalidade no continente pode ser encontrada na Parte I e na Parte II do artigo especialmente dedicado ao tópico.

CAF

Equipas Apuradas: Senegal, Nigéria

Campeão: Senegal

Surpresa: Nigéria

Decepção: Madagáscar

A fase final da qualificação africana foi disputada ainda em Dezembro de 2016, na cidade de Lagos, que desde 2011 tem vindo a acolher anualmente uma grande competição de futebol de praia.

Desta vez, a Copa Lagos deu lugar a uma prova ainda mais importante, reflectindo o esforço da federação nigeriana rumo ao desenvolvimento da modalidade no país e ao apuramento da selecção da casa para o mundial das Bahamas. Apesar de ser considerada uma das selecções mais fortes do continente, mercê da sua História na modalidade desde 2006, a Nigéria falhara os dois últimos mundiais, pelo que desta vez a aposta foi grande por forma a conseguir superar todos os obstáculos numa África cada vez mais competitiva. Apesar de uma derrota diante da Costa do Marfim no segundo jogo, os triunfos sobre Egipto e Gana levaram os homens da casa às meias finais, onde uma vitória contundente sobre a selecção marroquina (6-1) levaria os milhares de adeptos presentes no estádio ao rubro com a qualificação das Sand Eagles, que contaram com o melhor jogador da competição na pessoa do número 10 Emeka. Quando muitos poderiam pensar o contrário, a Nigéria deu um claro sinal de que está de regresso à elite mundial e levará muita velocidade e fluidez ofensiva na bagagem para as Bahamas.

Por seu turno, o Senegal conseguiu confirmar o seu favoritismo ao apurar-se para o seu sexto campeonato do mundo (o quarto consecutivo), numa caminhada irrepreensível em que somou 5 vitórias em tempo regulamentar, denotando grande progressão ao longo da prova. Colocando em prática modelos de jogo muito simples, mas pautados por uma organização táctica notável, a equipa mais jovem do mundial manteve a base do grupo que esteve em Espinho em 2015, adicionando-lhe mais alguns jovens talentosos. Fall, melhor goleador da prova com 12 golos, e o mítico guardião Ndiaye, melhor guarda-redes do torneio, continuam a ser peças chave da equipa, que se sagrou campeã africana após derrotar a Nigéria na final por esclarecedores 7-4. O Egipto fora a outra grande vítima dos Leões de Teranga, numa meia final que também terminara com um desnível de 3 golos. A frescura física e facilidade de remate dos guerreiros de Dakar irá portanto marcar presença em Nassau, impondo respeito a toda a concorrência.

De fora das contas do apuramento ficou a selecção de Madagáscar, precocemente eliminada  na fase de grupos, mercê das derrotas diante de Senegal e Marrocos. Os anteriores campeões africanos foram assim drasticamente destronados do seu anterior posto, fruto de uma sucessão de erros defensivos em momentos cruciais de ambas as partidas. Egipto e Marrocos foram as outras decepções da prova: as duas nações do Norte de África continuam sem contabilizar qualquer presença em mundiais, não obstante o crescimento que têm vindo a evidenciar em torneios como a Copa Intercontinental. No final, a objectividade e força física da Nigéria e do Senegal ditou a diferença, carimbando o passaporte dos dois históricos para o Mundial da FIFA.

CONMEBOL

Equipas Apuradas: Brasil, Paraguai, Equador

Campeão: Brasil

Surpresa: Equador

Decepção: Argentina

Se neste artigo tínhamos conferido todo o destaque ao desempenho irrepreensível do Brasil, rei e senhor da América do Sul, não podemos deixar de acentuar igualmente as qualificações de Paraguai e Equador, por motivos diferentes.

[Foto: BSWW]
 

Os guaranis, movidos pelo apoio do povo que acorreu às bancadas da arena de Assunção, denotaram um crescimento notável no decorrer do evento, evidenciando claramente uma assimilação positiva das ideias do seu novo treinador, o Guga Zloccovick. A vitória difícil frente à tímida Bolívia na partida inaugural poderia deixar algumas dúvidas acerca das reais capacidades da equipa paraguaia, mas as exibições consistentes que se lhe seguiram fizeram dissipar todas as dúvidas, enquanto Chile, Uruguai e Argentina se deparavam com pesadas derrotas. Na partida decisiva das meias finais um jogo aparentemente bem encaminhado para o Paraguai poderia ter-se transformado num pesadelo, dada a recuperação heroica dos equatorianos, mas os homens da casa acabariam por prevalecer nas grandes penalidades e garantir o apuramento para as Bahamas. Na final frente ao Brasil, apesar do resultado adverso, os jogadores guaranis deram nova prova da qualidade do seu jogo, denotando uma interessante versatilidade táctica, consistência defensiva assinalável e técnica fora do comum por parte de jogadores como Pedro Morán, o suspeito do costume, mas também o estreante Carballo, que acabaria por ser eleito melhor jogador da prova.

Por seu turno, o Equador acabaria por concretizar o sonho antigo de conseguir uma qualificação para um mundial, depois de ter alcançado o ingrato 4º lugar por 3 vezes nas últimas 4 edições do torneio de apuramento. Trazendo um estilo de jogo vibrante e rápido, que conjuga a velocidade na condução de bola pela areia com algumas jogadas pelo ar, a comitiva formada por Bailón, Gallegos, Moreira e companhia mostrou maior maturidade e solidez defensiva comparativamente com edições anteriores, vencendo os vizinhos do Perú, da Colômbia e da Venezuela na fase de grupos para alcançar a fase decisiva. O sabor amargo de uma recuperação inconsequente frente ao Paraguai na meia final não demoveu a nação do Pacífico do seu propósito firmemente delineado e foi também nas grandes penalidades que o Equador eliminou a Argentina, no jogo de decisão do 3º lugar na prova. De salientar a grande entreajuda dos jogadores equatorianos, que lhes permitiu fazer um uso inteligente das suas armas para empatar uma partida na qual chegaram a acusar 3 golos de desvantagem.

Em sentido oposto, a selecção Albiceleste acabou por ficar fora do mundial pela primeira vez desde que a FIFA assumiu a organização da competição. Trata-se de um desfecho previsível para uma selecção que, durante 2 anos, atravessou uma crise de resultados estrondosa, mercê das constantes e insustentáveis remodelações de plantel e equipa técnica de que foi alvo. Sendo notória a estabilidade que os regressos do guardião Marcelo Salgueiro e o fixo Lucas Medro trouxeram à equipa, o futebol de praia argentino precisa urgentemente de uma lufada de ar fresco que, simultaneamente, o organize e modernize. O mau nível de jogo praticado pelos argentinos é, no entanto, sintomático do clima que se vive na CONMEBOL, onde equipas com pergaminhos como Uruguai, Chile e Venezuela tardam em encontrar-se e parecem inclusivamente regredir, em face das prestações pobres e falta de ideias evidenciadas pelas equipas em prova, exceptuando as 3 equipas apuradas.

Paraguai e Equador acompanham assim o Brasil no mundial das Bahamas, onde a selecção Canarinha parte como campeã sul-americana sem contestação, pese embora a boa réplica dos paraguaios na final. Resta saber que resposta irão dar as selecções das outras confederações (nomeadamente UEFA, AFC e OFC) ao poderio brasileiro.

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André CoroadoFevereiro 14, 20176min0

Um Brasil demolidor, Paraguai finalista e mundialista e uma nova coqueluche para o Mundial com o apuramento do Equador. Assim se processou o Torneio de Qualificação da CONMEBOL 2017 no Paraguai.

Terminou recentemente o torneio de qualificação da CONMEBOL para o Campeonato do Mundo de Futebol de Praia FIFA 2017, evento que ditou o apuramento das selecções do Brasil, do Paraguai e do Equador para a competição mais importante da modalidade a nível global após uma maratona de 8 dias consecutivos de competição. Foi nas areias do Yacth and Golf Club de Assunção, a capital do Paraguai, que as dez formações da confederação sul-americana se digladiaram na luta pelas almejadas vagas no Mundial das Bahamas.

A prova proporcionou aos adeptos de futebol de praia a oportunidade para observar jogos intensos, nem sempre bem jogados, mas que acabaram por premiar justamente a maior qualidade apresentada dentro do terreno de jogo pelas três equipas que lograram alcançar o pódio. Todavia, acima de tudo, a competição ficou marcada pela manifestação de força da selecção brasileira, que revalidou o título de campeã da América do Sul.

Invencibilidade brasileira

A selecção Canarinha continua sem perder desde que Gilberto Costa assumiu o comando técnico da equipa, em Janeiro de 2016. Numa prestação avassaladora, a armada brasileira não sentiu quaisquer dificuldades na caminhada para o Mundial 2017 e tornou-se, até ao momento, a única selecção do planeta a conseguir o apuramento para todas as edições do campeonato do mundo (um feito que poderá vir a ser igualado pelo Japão, que disputará dentro de semanas a qualificação asiática).

Inserido num grupo relativamente acessível, o Brasil iniciou a competição com vitórias confortáveis sobre as congéneres venezuelana (6-2) e colombiana (9-5), em partidas onde o desnível abismal entre as equipas foi sempre muito evidente.

Ainda assim, as exibições brasileiras nem sempre foram completamente convincentes, fosse pelo excessivo abrandamento de ritmo em alguns momentos fosse pela maior displicência defensiva que acabou por permitir um reaproximar da Colômbia no marcador, com 3 golos no 3º período.

Não obstante, chegando aos jogos contra as equipas teoricamente mais difíceis, o Brasil revelar-se-ia absolutamente implacável, carimbando a qualificação em 3 jogos quase perfeitos diante de Perú, Equador e Argentina: 29 tentos apontados, apenas 2 golos sofridos e uma demonstração clara de força que confirma uma verdade há muito anunciada: à excepção do Paraguai, não existe actualmente nenhuma formação na América do Sul com capacidade para questionar a hegemonia do Brasil.

Gilberto Costa e a receita para o êxito

O segredo para o sucesso Canarinho passa em grande medida pela acção do novo seleccionador nacional, que manteve a base do grupo na era de Júnior Negão, mas provou-se exímio na arte de extrair desse conjunto de jogadores de topo mundial o melhor que eles tinham para oferecer.

Gilberto Costa trouxe de volta a segurança defensiva que constituía uma das imagens de marca do Brasil de outros tempos (recorde-se a geração dos tetra-campeões mundiais de Alexandre Soares), tendo instituído uma autêntica filosofia de solidariedade no processo defensivo e logrando tirar partido das características individuais mais valiosas de cada jogador por forma a fortalecer o ataque.

Efectivamente, o Brasil tem revelado uma organização defensiva colectiva irrepreensível, que começa na pressão alta que exerce sobre os adversários na primeira fase de construção e se intensifica à medida em que a bola se aproxima da sua baliza, sufocando completamente o portador da bola. Por este motivo, torna-se muito complicado criar oportunidades de golo contra o Brasil caso não se verifiquei o envolvimento de pelo menos 3 jogadores no processo ofensivo e se estes não revelarem rapidez e eficácia na tomada de decisões.

Também a nível de bolas paradas foi notório o trabalho de qualidade levado a cabo pela nova equipa técnica, ainda que esporadicamente possam surgir algumas falhas defensivas individuais.

O regresso de Mão, o icónico guarda-redes da Canarinha, à sua melhor forma desempenhou igualmente um papel decisivo na solidez defensiva do conjunto brasileiro, assim como o fortalecimento da figura da posição 2 por via da constância exibicional de Catarino, um dos mais completos jogadores da sua posição a nível mundial, e do experiente Daniel, sobrevivente da selecção da década passada.

Ofensivamente, vale a pena sublinhar a grande versatilidade da formação lusófona, que implementa em campo toda uma panóplia de movimentações e trocas de posição por forma a arrastar as defesas adversárias e criar espaços livres por forma a promover a criação de oportunidades de golo, em que a técnica dos seus jogadores acaba por sobressair.

Tal traduz-se numa alternância constante de sistemas de saída para o ataque, sendo reconhecíveis situações de 1:2:1, 3:1 e 2:2, incluindo por vezes a participação do guarda-redes Mão em cenários de 5×4. As equipas montadas por Gilberto Costa revelam um notável equilíbrio: a primeira, composta por Catarino, Bruno Xavier, Datinha e o pivô Mauricinho, mostra-se exímia na arte de baralhar as defesas adversárias num carrossel de rotações onde todos os jogadores passam pelas diversas posições, podendo surgir em zona de finalização; a segunda consiste numa aposta ganha por Gilberto, que fez descer Rodrigo para a ala (deixando o lugar de pivô que habitualmente desempenhava), aliando a sua velocidade e técnica alucinantes ao faro de golo do pivô Lucão, secundados pela criatividade de Bokinha e tranquilizados pelo pilar defensivo Daniel.

Reacção Guaraní ameaça, mas revela-se insuficiente

Apenas o Paraguai se mostrou capaz de competir com o Brasil, impondo uma resistência heroica aos intentos da selecção Canarinha no jogo da final, já com ambas as equipas apuradas.

Ainda assim, apesar do equilíbrio notório ao longo da partida, que eventualmente poderia ter conhecido um desfecho diferente, ficou também patente a superioridade brasileira durante grande parte do jogo, mostrando-se sempre mais consistente a vários níveis e mais equilibrada colectivamente.

Associado a tudo isto, a maior maturidade emocional da equipa constituiu um factor determinante no sucesso Canarinho, uma vez que os seus jogadores souberam lidar da melhor forma com as adversidades e o nervosismo sentido em fases decisivas do jogo, sabendo gerir da melhor forma os ânimos para retomar o controlo do jogo momentaneamente perdido.

Em face da actual conjuntura, depois de um ano de 2016 invicto e uma qualificação obtida em grande estilo, a questão impõe-se: conseguirá alguém parar este super-Brasil?

Uma coisa é certa: os pupilos de Gilberto Costa viajarão em Abril para as Bahamas com uma ambição renovada no assalto ao ceptro mundial que lhes foge desde 2009. O espectáculo está garantido, numa competição onde Portugal estará presente para defender o título conquistado nas areias de Espinho em 2015.

Brasil demolidor a caminho do título? (Foto: Globo)


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