25 Set, 2017

Arquivo de Itália - Fair Play

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Pedro CouñagoAgosto 19, 201717min0

Que seria do futebol sem a emoção que o mercado dá todos os anos? As novas contratações fazem os adeptos sonhar, as principais saídas das equipas fazem os adeptos soluçar e desesperar. Em Itália, como em qualquer outro país, destacam-se determinadas transferências das restantes, e não são necessariamente as mais sonantes ou com maior notoriedade, pois as equipas ditas mais pequenas podem também conseguir excelentes pechinchas ou jogadores de excelente nível a baixo custo. O FairPlay deixa aqui a visão sobre aqueles que considera, até agora que o campeonato começa, os quinze melhores negócios deste Verão. 

15 – Jordan Veretout – 7 milhões de euros, Aston Villa – Fiorentina

Começamos esta nossa viagem pelo mercado de Itália referindo o caso de um jogador que já falhou e já sucedeu, mas que, em Itália, tem tudo para se dar muito bem. A equipa viola teve uma primeira metade de defeso bastante atribulada, com a perda de jogadores fulcrais como Bernardeschi, Borja Valero, Matias Vecino e Josip Ilicic, alguns inclusivamente nesta lista. O francês é um médio de transição de bastante qualidade que pode dar sangue novo à equipa de Florença, fazendo esquecer principalmente Borja Valero. Não se deu bem em Inglaterra, mas estava num Aston Villa em declínio e que chegou a um buraco, fazendo uma péssima época em 2015/2016 e descendo de divisão. Assim, o centrocampista fez uma boa escolha e voltou à sua liga natal, relançando a sua carreira num estável Saint Étienne e numa liga onde já anteriormente se havia destacado. Pelo preço que custou, parece ser um bom negócio para os viola, sendo que se falou que, em Portugal, houvesse também quem estivesse interessado, nomeadamente o Futebol Clube do Porto. O que interessa é que a Fiore garante um jogador que ainda promete ter o melhor para vir mediante a sua relativa juventude (24 anos). Se se destacar, o francês pode no futuro gerar um lucro considerável ao clube, pois ele tem as qualidades necessárias para ter sucesso ao mais alto nível, precisa é de fortalecer mentalmente.

14 – Salvatore Sirigu – custo zero, PSG – Torino

É pena o rumo que Sirigu conheceu enquanto jogador do PSG, poderia ter acabado de uma melhor forma, ainda para mais quando o italiano discutia a titularidade com jogadores de um nível questionável, como Trapp e Areola. Jogou emprestado a uma equipa condenada como o Osasuna na segunda metade da passada temporada, sendo que a única vantagem foi a de ter tempo de jogo e não ficar parado durante 6 meses. No Torino, Sirigu pode regressar à sua melhor forma quando figurava no Palermo e nos primeiros tempos no Parque dos Príncipes. É um excelente substituto para Joe Hart, guarda redes principal na passada temporada, e para Padelli, principal guarda redes do Torino nos últimos anos. Não nos parece que tenha perdido as suas melhores qualidades, pelo que, a custo zero, representa um bom investimento e de baixíssimo risco para a equipa de Turim. Esta mudança poderá também fazer com que o guarda-redes possa ainda sonhar com um regresso à seleção, ainda que sempre como terceira opção (Buffon e Donnarumma à sua frente).

13 – Timothy Castagne – 6 milhões de euros, Genk – Atalanta

O lateral belga é o substituto ideal de Andrea Conti, transferido para o AC Milan, para os pupilos de Gasperini. Por apenas 6 milhões de euros, a Atalanta garante um lateral direito de larga margem de progressão, que já tem 59 jogos de futebol sénior na competitiva liga belga e também nas principais competições europeias, além de que vem subindo a pulso nas seleções jovens belgas. Aos 21 anos, será certamente um elemento de destaque em Bérgamo nos próximos tempos. Será mais um jovem que certamente Gasperini conseguirá moldar à sua maneira, de forma a potenciá-lo e retirar o seu melhor rendimento. A qualidade do jovem é inegável, pelo que, no futuro, poderá gerar um lucro bastante significativo à Atalanta. Assim, os 6 milhões de euros pagos pelo clube são inteiramente justos.

O jovem proveniente do Genk será um jogador a observar nas próximas edições da Série A (Foto: Goal.com)

12 – Marco Benassi – 10 milhões de euros, Torino – Fiorentina

Para substituir Matias Vecino, era preciso alguém que estivesse bem por dentro da realidade do campeonato italiano e que conseguisse acrescentar a mesma qualidade que o uruguaio acrescentava. A verdade é que dificilmente se poderia arranjar melhor substituto do que Benassi dentro do preço pago, sendo que a Fiorentina já havia também garantido o francês Veretout, procedendo assim a uma grande mudança no centro do terreno. Marco Benassi tem sido o capitão sub-21 da seleção italiana e é um médio muito completo, com uma qualidade inegável e ainda grande margem de progressão, além de ter já bastante experiência competitiva de Série A, o que faz com que seja uma adição de grande nível e que pode fazer esquecer Vecino de forma bastante satisfatória. No longo prazo, poderá ser uma das principais figuras do clube. 

11 – Lucas Biglia – 17 milhões de euros, Lazio – Milan

O experiente médio argentino de 31 anos representa uma excelente contratação da parte do AC Milan, uma das mais importantes face às muitas feitas pelo clube milanês. É um médio com alguma capacidade de marcar golos, mas que se destaca essencialmente pelo seu forte posicionamento à frente da defesa, pela sua capacidade de passe e pela sua classe dentro de campo, um pouco na linha do que Pirlo fazia nos seus tempos áureos na equipa milanesa, com as devidas diferenças. Aos 31 anos, parece que o médio está no seu auge da carreira, pelo que a mudança para Milão é natural, dando-lhe oportunidade de explanar o seu melhor futebol por algumas épocas. Não caminhando para novo, o argentino conseguirá, no entanto, ter algumas épocas de grande nível restantes em si, pelo que os 17 milhões são justos pela sua qualidade.

10 – Borja Valero – 5.5 milhões de euros, Fiorentina – Inter Milão

Como já mencionado, a equipa da Fiorentina tem tido um Verão bastante atribulado, com bastantes mudanças na coluna vertebral da equipa. Um dos jogadores mais importantes que saiu foi o espanhol Borja Valero, por valores bastante baixos e para uma equipa que poderia ser um adversário direto, mas que não o será esta época, a equipa muito mudou. A verdade é que quem ganha são os nerazurri, excelente negócio. Até se poderia desculpar esta venda pelo facto do espanhol ter 32 anos, mas não se o poderá fazer quando se analisa a sua importância no meio campo da Fiore nos últimos anos. O criativo vem trazer novas ideias ao meio campo da equipa de Milão, sendo mais uma alternativa extremamente válida, garantindo qualidade e inteligência dentro de campo. Pelo valor pago, o Inter bem se pode dar por contente, ganhando mais um alternativa de muito bom nível. Gagliardini, Brozovic e o português João Mário que estejam atentos, sendo que Kondogbia parece já nem contar para as contas.

9 – Andrea Poli – custo zero, Milan – Bolonha

O internacional italiano de 27 anos foi um jogador bastante utilizado nas últimas temporadas no clube milanês, mas perdeu importância na última temporada com o aparecimento de Locatelli e o desabrochar definitivo de Bonaventura. Além do Milan, o italiano jogou também na Sampdoria e no Inter de Milão, tendo assim uma carreira bastante razoável, sendo sempre um elemento bastante útil. No seguimento da reformulação de plantel imposta para a presente temporada, o médio não tinha lugar no plantel de 2017/2018, pelo que o clube não renovou com o jogador e deixou-o sair a custo zero. Assim, o Bolonha aproveitou para ir buscar o futebolista sem qualquer custo base, uma excelente contratação para a sua realidade de clube de meio de tabela e que se revelará uma excelente jogada na próxima temporada. Vai acrescentar grande nível de experiência competitiva e certamente vai ser um upgrade na nova equipa. 

8 – Alessio Cerci – custo zero, Atlético Madrid – Hellas Verona

É seguro que o extremo tem estado em baixa de rendimento nas últimas temporadas, muito devido à falta de tempo de jogo, mas não se pode deixar de considerar esta contratação como sendo de peso para o recém-promovido à Série A e uma das melhores contratações do campeonato em termos de impacto imediato que o jogador pode ter no clube. Foi um jogador que formou uma dupla temível com Immobile no Torino em 2013/2014, tendo descido o seu rendimento a partir daí, com passagem falhada pelo Atlético de Madrid e AC MIlan. Ainda assim, pode ser uma excelente oportunidade para o italiano de 30 anos relançar a sua carreira para os restantes anos da sua carreira. Com bom toque de bola, um bom remate, bem como a excelente capacidade nas bolas paradas, o Hellas Verona fica a ganhar bastante em termos ofensivos. A custo zero, é uma tremenda adição ao ataque da equipa, dando um fiel escudeiro ao ponta de lança Giampaolo Pazzini. A dupla Pazzini-Cerci promete dar problemas às defensivas contrárias, principalmente dos clubes ditos mais pequenos e do nível do Hellas.

7 – Douglas Costa – empréstimo (opção de compra de 40 milhões de euros), Bayern Munique – Juventus

É sempre discutível se os empréstimos podem ser considerados como alguns dos melhores negócios, pois o jogador não está ligado definitivamente ao clube que o recebe. Mas a verdade é que o empréstimo de Douglas Costa à Juventus por parte do Bayern Munique é uma autêntica bomba neste mercado de Verão e dá uma capacidade de explosão ainda maior ao ataque bianconeri. A ida para Turim dá a oportunidade ao brasileiro de voltar a “partir a loiça toda”, um pouco como o fez em 2015/2016. O empréstimo, neste caso, servirá para aferir se o brasileiro realmente consegue voltar à melhor forma e, se o conseguir, facilmente a Juventus pagará os 40 milhões de euros da cláusula de compra, um preço até irrisório face à qualidade do brasileiro nos seus melhores dias. Quando tal acontece, o originário de Rio Grande do Sul é quase imparável, uma autêntica locomotiva de grande capacidade técnica e de alta rotação. 

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Douglas Costa irá certamente fazer bem melhor esta temporada, com mais oportunidades (Foto: Globoesporte)

6Blaise Matuidi – 20 milhões de euros, PSG – Juventus

Uma super contratação por parte dos campeões italianos. Ficam com um meio campo de luxo, complementado pelo francês que possui uma qualidade enorme e que foi vendido por tostões num mercado inflacionado, talvez devido à necessidade de seguir o FairPlay Financeiro por parte do PSG depois da contratação de Neymar. A verdade é que quem aproveita é a Juve, que recebe exatamente o tipo de médio de que precisavam, um box-to-box de enorme classe, com uma capacidade física fora do normal, além de uma excelente capacidade de passe. Com jogadores como Khedira, Marchisio e, principalmente, Pjanic, o francês pode fazer maravilhas, parecendo encaixar muito bem para algumas épocas a grande nível. Apesar dos 30 anos, o jogador tem totalmente a capacidade de manter o seu desempenho a nível alto. 

5Josip Ilicic – 5.5 milhões de euros, Fiorentina – Atalanta

Mais uma das muitas mudanças em Florença. Já se sabia que o craque esloveno estava de saída da Fiorentina, mas nunca se pensou que pudesse ser por valores tão baixos, os 10 milhões pareciam ser um razoável preço mínimo a alcançar, pelo menos. No entanto, o jogador de 29 anos transferiu-se mesmo pelo valor mencionado, e vem trazer um tremendo aumento de qualidade ao meio campo ofensivo da equipa de Bérgamo, além da equipa garantir um exímio jogador nas bolas paradas. Promete ser um jogador com os holofotes em si na Atalanta e que poderá guiar o clube a mais uma época de grande rendimento. Encaixa que nem uma luva nas ideias que Gasperini pretende consolidar na sua equipa, veremos magia do esloveno certamente.

4Maxime Gonalons – 5 milhões de euros, Lyon – Roma

É um dos melhores “negócios pechincha” deste Verão, em toda a Europa. Como um jogador capitão de equipa como Gonalons saiu do Lyon por apenas 5 milhões de euros permanece um mistério, ainda para mais quando se pensa no quanto o mercado está inflacionado.  A verdade é que a Roma ganhou um jogador que colmata a saída de Leandro Paredes, e de que maneira, ficando inclusivamente a ganhar no que toca a retenção de bola, qualidade de passe e inteligência dentro de campo. Veremos como encaixará no centro do meio campo com De Rossi e Nainggolan. Certo é que será um jogador que passará despercebido dentro de campo, mas poderá ser uma das principais figuras do conjunto romano nos anos para vir. 

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5 milhões de euros é quase um valor para sorrir por parte da estrutura romana, que bela contratação (Foto: AS Roma)

3Federico Bernardeschi – 40 milhões de euros, Fiorentina – Juventus

O craque italiano protagonizou uma das transferências do defeso em Itália. É um craque que vinha brilhando nas últimas épocas na Fiorentina, tendo uma capacidade goleadora bastante interessante, grande técnica e a finesse necessária para ser a estrela de uma equipa grande e da seleção italiana. Neste caso, Bernardeschi terá de partilhar o foco com jogadores como Dybala, Higuain, Cuadrado ou Douglas Costa, sendo mais um elemento do temível ataque bianconeri a aterrorizar as defensivas do campeonato italiano. Os 40 milhões gastos, valor da cláusula de rescisão, terão de ser justificados, mas não existe nenhuma razão para que tal não aconteça, e a Juve garante um jogador que se poderá tornar uma grande figura do clube, mostrando o seu poderio face às restantes equipas italianas e que não se pretende deixar ficar para trás.

2Ricardo Rodriguez – 18 milhões de euros, Wolfsburgo – Milan

Nunca se pensou ser possível o lateral suíço sair por estes valores do clube alemão, mas a verdade é que aconteceu. É fácil de perceber o motivo, que se relaciona com a baixa de rendimento do jogador, bem como de toda a anterior equipa, na passada temporada, em que o Wolfsburgo, sendo uma equipa que luta pelas competições europeias, lutou para não descer. Tal não quer dizer que esta contratação não seja bastante barata e que, na realidade, está um pouco abaixo do real valor do jogador, ainda por cima quando este era muito pretendido pelos principais tubarões europeus, a sua qualidade não engana. Um lateral moderno, com grande estampa física, capacidade ofensiva e exímio marcador de bolas paradas. Em resumo, tudo o que o Milan mais podia desejar para a sua lateral esquerda, e por um preço muito acessível. Desta forma, uma das grandes necessidades e pontos fracos da equipa ficou colmatado.

1Leonardo Bonucci42 milhões de euros, Juventus – Milan

Chegamos ao número 1, e só poderia haver uma hipótese por nós considerada. Como não destacar a contratação de Bonucci? Não só é a melhor contratação deste defeso, como também a mais importante, por tudo aquilo que representa e pela onda de choque que originou por esse mundo do futebol fora. Jamais se pensou que o internacional italiano pudesse trocar a Juventus por um rival, mas a verdade é que tal aconteceu, de forma absolutamente bombástica. É uma adição de peso à defesa do Milan, e 42 milhões de euros é um preço mais que justo para a qualidade que o jogador de trinta anos oferece à equipa milanesa. Sem dúvida, o melhor negócio do mercado em Itália, a contratação mais cara na lista mas também a que merece mais destaque. Se resultar, pode levar o Milan a ter uma capacidade defensiva superior e a Juventus a ficar inferiorizada de forma importante. 

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Bonucci representa a contratação mais mediática, mais cara e mais inesperada deste mercado (Foto: Squawka)

É bem sabido que poderiam estar aqui outros nomes, alguns mais conhecidos e outros menos, passando pela contratação de João Schmidt pela Atalanta, de Gianluca Gaudino pelo Chievo Verona, de Adam Marusic pela Lazio ou de Martin Cáceres, a custo zero, para o Hellas Verona. Com outra notoriedade, podemos referir a ida a custo zero de Rodrigo Palacio para o Bolonha, de Tomás Rincón e de N´Koulou pelo Torino, a contratação de João Cancelo e de Milan Skriniar por parte do Inter, de Kessié pelo Milan (aqui haviam muitas hipóteses), de Hector Moreno e de Kolarov pela Roma, de Mattia de Sciglio por parte da Juve ou de Pezzella e Valentin Eysseric por parte da Fiorentina. Consideremos estes casos como menções honrosas, dentro dos melhores negócios feitos ao longo deste Verão, no que diz respeito à entrada de jogadores nos clubes italianos.

De qualquer forma, apenas 15 nomes poderiam figurar neste top, e assim o FairPlay deixa a sua perspetiva sobre quais as transferências mais importantes monetariamente, qualitativamente e em termos de impacto na nova equipa do jogador em questão.

 

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Tomás da CunhaAgosto 18, 20179min0

O paradigma do futebol italiano tem vindo a mudar nos últimos anos. O calcio já não é aquele futebol ultra-defensivo, sem espaço para magia, e o facto de ter sido a liga das top-5 com maior número de golos marcados é prova disso mesmo. A renovação está em curso e o elevado número de jovens talentosos que vão ganhando espaço nas diversas equipas é também um sinal das diferenças em relação ao passado. Muitas dessas promessas são aqui apresentadas, para que não se percam de vista.

Alex Meret (SPAL) – Já é conhecido o potencial formador da Itália no que diz respeito aos guarda-redes. Nos últimos anos, a qualidade não parou de surgir e a concorrência promete ser apertada nos próximos tempos. Alex Meret é um dos nomes mais talentosos da nova geração e um candidato firme a assumir a baliza da Squadra Azurra. Formado na Udinese mas sem espaço no Friuli, o jovem de 20 anos foi cedido ao SPAL e brilhou na subida de divisão da equipa de Ferrara. Um guarda-redes sereno e maduro, evoluído no posicionamento e com uma agilidade impressionante entre os postes, parecendo voar para cada bola com relativa facilidade. Este ano terá a oportunidade de jogar na Serie A, campeonato mais desafiante e que exponenciará as suas qualidades. No SPAL, será posto à prova com bastante frequência, o que até lhe permite mostrar-se aos responsáveis dos zebrette, onde acabará por regressar em breve. Aí, terá a concorrência de Simone Scuffet, outro futuro monstro das balizas. Só podendo jogar um, veremos quem vencerá a corrida.

Andrija Balic (Udinese) – Numa liga que tem saudades de Pirlo, um regista de classe mundial, o pé direito de Balic, um predestinado, pode servir de recordação. Pela visão de jogo invulgar, pela precisão no passe longo e até pela cabeleira, o diamante formado no Hajduk Split não vai passar despercebido cada vez que estiver em campo. Aos 20 anos (sim, são apenas 20 anos, apesar de parecer que anda cá há muito tempo), o médio ignorou vários convites de emblemas de topo e escolheu a Serie A para prosseguir a carreira. Terminou a temporada como titular, e este ano tem tudo para ser de afirmação definitiva. Podendo actuar em qualquer posição do meio campo, é um jogador que gosta de ter a bola e que transborda confiança sempre que a tem sob controlo. Alto mas com muita habilidade, constrói a partir de zonas recuadas com imenso critério. É um “lançador” de excelência e um exímio marcador de bolas paradas. Se for bem protegido (isto é, se não for sobrecarregado com tarefas defensivas), vai fazer a diferença no meio campo da Udinese.

Rolando Mandragora (Crotone) – A abundância de médios no plantel da Juve dificulta bastante a afirmação dos mais jovens. Mandragora, tal como Bentancur, pode vir a impor-se no futuro mas, por enquanto, terão de dar provas de valor noutras paragens. Em Crotone, o jovem italiano será provavelmente uma das figuras da equipa e uma das principais esperanças para conseguir o objectivo da manutenção. Pode jogar à frente da defesa, mantendo a posição, ou um pouco mais adiantado, ligando-se aos homens do ataque com facilidade. Com um pé esquerdo excepcional, resiste bem à pressão e constrói com critério, de cabeça levantada. Tem várias soluções no seu jogo, mas a qualidade no passe longo – notória no último Mundial sub-20 – promete fazer estragos na Serie A.

 

Sem espaço na Juve, Mandragora terá mais tempo de jogo em Crotone [Foto: Signoria Mia Calcio News]
 

Filippo Romagna (Cagliari) – Para um jogador jovem é altamente complicado ganhar espaço num dos melhores plantéis do mundo. Romagna, apesar do enorme potencial, deixou a Juventus em definitivo, passo que lhe valerá mais tempo de jogo. O Cagliari está longe de ser uma equipa consistente do ponto de vista defensivo, mas vai certamente beneficiar da presença do jovem de 20 anos. Com todas as características de um central moderno, o italiano poderá ser o líder do quarteto defensivo rossoblu, ocupando a vaga do português Bruno Alves. Não é um jogador tão agressivo nos duelos, mas compensa com um posicionamento inteligente e uma velocidade acima da média. Depois, apresenta um nível técnico muito razoável, que lhe permite assumir a saída de bola com relativa facilidade. Sente-se confortável nesse papel e consegue desequilibrar através do passe. Vale a pena seguir a sua evolução.

Riccardo Orsolini (Atalanta) – Nos últimos anos, a Juventus tem adoptado a “política do eucalipto”, garantindo grande parte das jovens promessas que actuam no país. Se resultarem, o clube terá proveitos desportivos e financeiros. Se não evoluírem como se perspectivava, pelo menos não foram parar aos rivais. Tendo de apostar, não hesitaria em colocar as fichas em Riccardo Orsolini. Depois de brilhar na Serie B, ao serviço do Ascoli, e no último Mundial sub-20, o extremo esquerdino terá a oportunidade de demonstrar o seu talento numa das melhores equipas da temporada anterior. Partindo da direita, de forma a explorar as diagonais para o espaço interior, cria desequilíbrios com facilidade e tem um perfil de decisão bastante evoluído para a idade e, sobretudo, para o estilo que apresenta. Um jogador que gosta de ter a bola, sem problemas em assumir o 1×1 ou mesmo a finalização (marcou 8 golos na última época). Candidato indiscutível a revelação da Serie A.

Pol Lirola (Sassuolo) – O espanhol já foi uma das revelações da última época mas, por ainda ser algo desconhecido, tem lugar nesta lista. Emprestado pela Juventus ao Sassuolo pelo segundo ano consecutivo, é um dos laterais-direitos mais interessantes do campeonato italiano e ainda tem imensa margem de progressão. Destaca-se essencialmente pela facilidade com que se integra no ataque, fazendo um vaivém constante durante os 90 minutos. Ainda assim, está longe de ser um jogador que sobressaia pela capacidade física; é muito evoluído tecnicamente e aproveita para criar desequilíbrios em zonas interiores. Caso Berardi não seja colocado na zona central, a sociedade entre o espanhol e o italiano no flanco direito vai ser bem interessante de seguir.

Pol Lirola é um dos laterais-direitos mais interessantes da Serie A [Foto: goal.com]
Nicolò Barella (Cagliari) – Não faltam médios talentosos nesta Serie A e o jovem do Cagliari é mais um com potencial elevado. Os 28 jogos que realizou no último campeonato levaram-no ao Mundial sub-20, de onde uma lesão inesperada o afastou prematuramente. Ainda assim, mostrou valor no tempo que esteve em campo e esta época deverá fazer com que a sua cotação dispare. Terá lugar garantido no meio campo rossoblu, seja como 6 ou como 8, e a sua qualidade com bola dificilmente vai passar despercebida. Sempre com um papel activo na construção, é um jogador bastante resistente à pressão e procura entregar com critério, de preferência verticalizando. Quando joga como segundo médio arrisca mais no transporte, queimando linhas adversárias com facilidade. Apesar de ser mais forte nas tarefas ofensivas, não só pelo nível técnico mas também pela capacidade de decisão, é igualmente disponível no processo defensivo. Um médio completo.

Daniele Verde (Hellas Verona) – O potencial ofensivo do Hellas Verona é deveras assustador para um clube recém-promovido. Ao lado dos experientes Pazzini e Cerci estará Daniele Verde, um jovem irreverente e com um estilo de futebol bastante atractivo, que faz lembrar Ezequiel Lavezzi. A facilidade que tem em jogar com os dois pés, apesar de ser canhoto, coloca-o como uma opção válida para ambos os flancos, embora beneficie quando parte da direita. Atrevido e imprevisível, desequilibra no 1×1 e aparece bem nas zonas de finalização. Depois de se destacar no Avellino, marcando 8 golos, terá uma oportunidade de se mostrar de forma consistente num escalão mais competitivo. Em Roma, onde já se estreou, esperam por ele.

Dawid Kownacki (Sampdoria) – No último Europeu sub-21 foi um dos poucos destaques positivos da Polónia, selecção da casa, confirmando as credenciais que já tinha apresentado ao serviço do Lech Poznan, onde marcou 11 golos na temporada anterior. A Sampdoria tem descoberto talentos em diversas paragens, e a contratação do jovem avançado de 20 anos enquadra-se na política recente do clube genovês. Kownacki, que não deu um passo maior do que a perna, pode valer benefícios desportivos e financeiros, caso a adaptação corra como é expectável. Não sendo talhado para jogar como única referência do ataque, pode actuar em qualquer posição da frente e será sempre garantia de alguns golos. Melhorando os índices de eficácia terá números ainda melhores, já que aparece com facilidade em zonas de finalização e não lhe falta poder de remate com ambos os pés. Móvel mas com uma presença forte nas imediações da área adversária, dá-se bastante ao jogo e cria condições vantajosas para si e para os colegas. Ainda com enorme margem de progressão, vai acabar por ganhar o seu espaço na Sampdoria e pode tornar-se – ainda mais – um valor seguro do futebol polaco.

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Tomás da CunhaAgosto 16, 201718min0

Não é um dado adquirido que todas estas equipas terminem na segunda metade da tabela (a Fiorentina, por exemplo, ganhou vida nos últimos dias), mas é garantido que muitas delas vão lutar pela manutenção. Na diversidade que a Serie A possui, há espaço para surpresas e autênticos milagres por parte de equipas com poucos argumentos. 

Fiorentina

O mercado não foi fácil em Florença, e a certa altura chegou a pensar-se que a época se preparava para ser um descalabro. Borja Valero, Vecino e Bernardeschi estavam de saída e Kalinic forçava a transferência, deixando o projecto da Fiore a abanar por todos os lados. As contratações sucediam-se, mas a maioria apresentava qualidade duvidosa. Entretanto, os dirigentes do clube ganharam consciência e decidiram dar algum ânimo aos adeptos viola. Benassi, um dos jovens médios com mais potencial do calcio, foi adquirido ao Torino, e Jordan Veretout, que errou ao transferir-se para o Aston Villa, chegou para colmatar a saída de Vecino. Dois reforços que deverão ter lugar garantido no onze base de Stefano Pioli, ficando a outra vaga em aberto. Cristóforo, Badelj e Sánchez são mais disponíveis para tarefas defensivas, mas Matias Fernández e Riccardo Saponara poderão dar um toque de criatividade. Mais à frente, o português Gil Dias foi o escolhido para assumir funções semelhantes às de Bernardeschi, partindo do flanco direito para zonas interiores. Uma decisão de carreira bastante interessante por parte do esquerdino, ainda que a titularidade não esteja garantida. Eysseric, contratado ao Nice, e Federico Chiesa (enorme expectativa para perceber a evolução do italiano) são outras opções de grande nível para os corredores, além do explosivo Rebic e dos irreverentes Zekhnini e Hagi. O eixo do ataque é que não tem tanta abundância, faltando claramente um substituto à altura de Kalinic. Se quiser lutar pelos lugares europeus, a Fiorentina terá de encontrar um goleador até final do mercado e, se possível, aumentar a qualidade do sector mais recuado, onde o português Bruno Gaspar figurará.

Gil Dias escolheu a Fiorentina para evoluir
[Foto: Facebook de Gil Dias]

Bolonha

O desafio de um clube como o Bolonha passa por manter a motivação até final, já que, depois de conseguida a manutenção, não há qualquer objectivo pelo qual lutar. Começou mal a temporada, com a eliminação da Coppa Italia na recepção ao Citadella, mas a equipa de Donadoni tem condições para realizar um campeonato tranquilo, embora não deva haver potencial para mais do que isso. Apesar de a última época não ter sido famosa, o plantel rossoblu – que é uma verdadeira sociedade das nações, contando com 15 nacionalidades diferentes – tem boas armas, sobretudo do meio campo para a frente. As opções para o sector intermédio já davam garantias, e a chegada de Andrea Poli, o reforço mais sonante, acrescenta valor e experiência a essa zona do campo. Mais jovem mas não menos talentoso, o húngaro Ádám Nagy deverá assumir um papel muito relevante na manobra do Bolonha, podendo dar o salto para um emblema com outras ambições. Tem muito futebol no corpo. Pulgar, Verdi, Taider e Crisetig, outro médio com bastante qualidade, também entrarão na rotação, dando dores de cabeça positivas a Donadoni. No ataque, Destro deverá manter-se como a principal referência no eixo, bem acompanhado pelo esquerdino Krejci (para seguir com atenção) e pelos jovens Petkovic e Di Francesco.

Sassuolo

Será um ano de mudança para os neroverdi. Depois da saída de Eusebio di Francesco, sobrou um vazio no clube, pois foi o técnico que fez a equipa subir a pulso nos últimos anos, tendo jogado a Liga Europa na passada temporada. Para Roma, o técnico levou consigo dois dos principais jogadores do plantel: Lorenzo Pellegrini e Grégoire Defrel, baixas de vulto e que deixam uma sensação de que este pode ser um ano zero para a equipa. É certo que a estrela do conjunto, Domenico Berardi, se vai mantendo (estranhamente, dada a qualidade) no clube, para bem da equipa, mas é certo que esta temporada não teremos um plantel tão forte. O Sassuolo apostou em jogadores jovens para esta temporada, com destaque para a contratação do médio centro Francesco Cassata à Juventus e a manutenção em definitivo de Federico Ricci, dois jovens craques que podem a vir dar muito que falar. De resto, ainda no que toca a reforços, destaque para a contratação do central Goldaniga ao despromovido Palermo e para o regresso do ponta de lança Diego Falcinelli, que, depois de um empréstimo produtivo ao Crotone, pode ocupar a vaga deixada por Defrel. O técnico Cristian Bucchi, que terá o desafio de manter o clube estável, deverá construir a equipa em torno de jogadores como Consigli, Francesco Acerbi, Alfred Duncan, Matteo Politano e a estrela Berardi, que, neste ano de transição, poderá ter ainda maiores responsabilidades. Um lugar a meio da tabela parece o destino mais provável para os neroverdi.

Génova

As últimas épocas não têm sido fáceis para o conjunto rossoblu. A equipa tem potencial para fazer mais do que tem feito nas últimas temporadas, sendo obrigatório garantir a manutenção com maior margem – no último ano, o emblema que joga no Luigi Ferraris ficou no 16º posto, com apenas 4 pontos de vantagem para os lugares de despromoção. O mercado de Verão trouxe algumas mexidas importantes no plantel, com a chegada de Lapadula e os regressos de Bertolacci (figura importante no passado) e de Ricardo Centurión, polémico mas talentoso argentino. Ivan Juric conta com um elenco bem apetrechado, diga-se, contribuindo para isso a manutenção em definitivo de Oscar Hiljemark e a entrada dos experientes centrais Spolli, do Chievo, e Zukanovic, por empréstimo da Roma. Estes reforços dão um maior grau de profundidade e obrigam o Génova a fazer muito mais, visto que, do plantel principal, apenas saíram Lucas Órban e Ezequiel Muñoz, além dos emprestados Ocampos, Cataldi, Pinilla e Ntcham. A baliza está assegurada por Mattia Perin, um dos melhores guarda-redes do calcio, que há vários anos é apontado a outras paragens. O meio campo, com Miguel Veloso, Hiljemark, Cofie e agora Bertolacci, também apresenta uma qualidade bastante razoável. Diego Laxalt, explosivo uruguaio, é um nome a ter em conta nas alas, bem como Darko Lazovic, Centurión e o regressado Gakpé. À partida, Lapadula será o líder do ataque, já que Giovanni Simeone deverá deixar Génova, podendo abrir espaço para a evolução do teenager Pellegri, de apenas 16 anos. Resumindo, Ivan Juric precisa de provar o porquê da sua contratação em Abril e está obrigado a superar o modesto 16º lugar da última temporada.

Pellegri, aos 16 anos, estreou-se a marcar na Serie A [Foto: Corriere della Sera]

Chievo

Ano após ano, o Chievo Verona tem partido com um dos plantéis menos apetrechados da Serie A. No entanto, está desde 08/09 na elite do futebol italiano e não parece com vontade de a abandonar. O segredo dos gialloblu parece estar na estabilidade: Rolando Maran vai para a quarta temporada no comando técnico da equipa e nunca esteve em apuros na fuga à despromoção (em 15/16 conseguiu, inclusive, um belíssimo nono lugar). O plantel também não costuma sofrer muitas mudanças, sendo, por esse motivo, um dos mais envelhecidos do Calcio. No sector defensivo, por exemplo, Cesar já leva 35 anos, tal como Gamberini, Frey tem 33 e Dainelli carrega 38 anos no corpo. É precisamente essa a idade de Sergio Pellissier, mais um caso que comprova que a experiência é mesmo um posto – pelo menos em Itália. Vai para a 17ª (!) época ao serviço do Chievo, é uma lenda para os adeptos do clube e ainda consegue manter intactas as qualidades de goleador. Com a idade avançada do capitão, Roberto Inglese, que apontou 10 golos no último ano, e Riccardo Meggiorini poderão ter de assumir mais vezes as despesas do ataque. No apoio estará Valter Birsa, médio criativo que tem sido um dos jogadores mais destacados do conjunto de Maran. Marcou 7 golos e fez 9 assistências, números extremamente relevantes num clube como o Chievo. Mais responsáveis pelas tarefas defensivas estarão Ivan Radovanovic e o argentino Lucas Castro, dando liberdade ao esloveno.

Udinese

Há uns anos, a Udinese era um dos melhores exemplos de prospecção no futebol europeu. Foi ali que despontaram nomes como Alexis Sánchez, Juan Cuadrado ou Allan, antes de rumarem aos grandes palcos do futebol europeu. Entretanto, o clube do Friuli travou o seu crescimento e não conseguiu cimentar a sua posição entre os melhores do Calcio. Aliás, não é exagerado catalogar os zebrette (zebras, em português) como uma das principais desilusões dos últimos anos. Para esta temporada, a expectativa passa apenas e só por conseguir a manutenção de forma tranquila, se possível valorizando alguns jogadores do plantel. Luigi Del Neri conta, desde logo, com uma das maiores promessas das balizas italianas. Simone Scuffet deverá aproveitar a previsível saída de Karnezis para finalmente conquistar o seu espaço. Meret, também ele com um talento enorme, vai rodar novamente no SPAL. Outra das posições mais interessantes é a lateral-esquerda, onde Ali Adnan terá a concorrência de Pezzella, que se destacou no último Mundial sub-20. Samir, central de origem, também poderá desempenhar este papel. O meio campo ganhou um reforço de peso com a chegada de Valon Behrami, que parece destinado a ocupar a posição 6, mas o principal motivo de interesse será o maestro Andrija Balic. Dono de um talento extraordinário, o jovem médio croata apareceu bem no final da última temporada e é expectável que conquiste o seu espaço na equipa. Seko Fofana, mais agressivo no transporte de bola, oferece outras características a um sector particularmente entusiasmante. Quem não deve ter ficado entusiasmado com a saída de Duván Zapata são os adeptos da Udinese, que viram uma das referências do ataque regressar a Nápoles. Para o seu lugar chegou Lasagna, mas Théréau deve manter-se como o principal goleador do conjunto bianconero. De Paul e Jankto serão os desequilibradores a partir das alas.

Sampdoria

Não sendo candidata a altos voos, a Sampdoria é uma das equipas que pode surpreender. O plantel sofreu uma espécie de revolução, com a saída de várias figuras fundamentais, mas o clube genovês tem demonstrado bastante astúcia na abordagem ao mercado. Ainda assim, não será fácil colmatar as baixas de Skriniar, central eslovaco que rumou ao Inter, de Bruno Fernandes ou de Luis Muriel, que saltou para Sevilha. Além destes, espera-se que a transferência de Patrik Schick se confirme (o negócio com a Juve falhou, mas não faltam interessados), o que significaria a perda da maior revelação do último campeonato. Um avançado que combina qualidade técnica, inteligência nas movimentações e uma capacidade extraordinária de utilizar o corpo. Talvez por isso o comparem com Zlatan. Marco Giampaolo deverá ter uma réstia de esperança na permanência do checo, mas a Samp precaveu-se e garantiu a contratação de Gianluca Caprari, que deu nas vistas ao serviço do Pescara, e do promissor David Kownacki, um dos mais talentosos da nova geração polaca. Não sendo talhado para jogar como referência, pode actuar nos flancos ou no apoio a um jogador que procure constantemente as zonas de finalização. O meio campo, indiscutivelmente o sector mais forte do emblema de Génova, conta com opções de luxo, entre as quais os promissores Lucas Torreira (junta a fibra uruguaia a uma qualidade no passe notável), Dennis Praet e Karol Linetty, ambos com potencial para mais do que o que demonstraram na última temporada. Gastón Ramírez foi contratado ao Boro e volta à Serie A, campeonato mais adequado às suas características, como uma das estrelas cintilantes dos bluecerchiati. Tem um pé esquerdo fantástico. Valerio Verre, embora possa ter dificuldades para jogar regularmente, é outro nome a ter em conta, bem como o experiente paraguaio Barreto. Djuricic e Ricky Álvarez, cuja explosão definitiva parece eternamente adiada, são duas incógnitas e nem sequer é possível afirmar que vão fazer parte do plantel. O excesso de opções para o sector intermediário vai certamente condicionar as escolhas de Marco Giampaolo, que não estará tão satisfeito com as alternativas para a linha defensiva. Murru, contratado ao Cagliari, é um lateral-esquerdo com potencial, mas parece faltar um líder que faça esquecer Milan Skriniar.

Ainda não há certezas sobre a permanência de Schick na Samp [Foto: around-j.com]

Cagliari

Em ano de regresso à Serie A, o emblema da Sardenha construiu um plantel com algumas individualidades de excelente nível e terminou no 11º lugar. O Cagliari foi uma das defesas mais batidas do campeonato, mas também conseguiu um registo assinalável de golos marcados. Esta temporada não deverá ser diferente, e o Comunale Sant’Elia poderá assistir a espectáculos bastante interessantes. As mudanças no plantel foram significativas, nomeadamente no sector mais recuado, que perdeu Bruno Alves, Isla e Murru. Apesar das chegadas de Andreolli e Romagna, promissor central italiano que deixou a Juve em definitivo, restam dúvidas sobre a capacidade de Massimo Rastelli formar uma defesa consistente. Como 6, embora possa jogar mais à frente, Nicolò Barella deverá assumir-se como o pensador e o principal construtor de jogo dos rossoblu. É um médio com uma qualidade técnica superior, distinguindo-se de Padoin e Dessena. João Pedro, criativo brasileiro, está encarregue de fazer a ligação com os dois avançados, que se complementam bastante bem. Sau, mais móvel, procura abrir espaços para o letal Borriello, que, aos 35 anos, ainda é uma ameaça constante para os adversários (16 golos no último campeonato). Duje Cop, caso não volte a ser emprestado, terá certamente uma palavra a dizer.

Crotone  

Parecia impossível, mas o estreante Crotone, depois de uma recuperação simplesmente notável, conseguiu a manutenção na última jornada. Esta época ninguém quererá sofrer tanto, por certo, mas o clube da Calábria dificilmente se livra de ter a corda ao pescoço. À excepção do talentoso médio Rolando Mandragora, cedido pela Juventus para ocupar a vaga deixada em aberto por Crisetig, o plantel não teve adições de valor significativo e Davide Nicola precisa de mais uma volta a Itália em bicicleta. Confuso? A explicação é simples: o técnico do Crotone, ciente de quão improvável era segurar o clube na primeira divisão, prometeu percorrer o país de bicicleta caso houvesse um milagre. E lá pedalou 1300 quilómetros. Diego Falcinelli, com 13 golos marcados, foi um dos principais responsáveis pela proeza, mas o Sassuolo, casa de origem, não prescindiu dos seus serviços para a nova temporada. Sem o seu goleador, os squali terão ainda mais problemas num ataque que anseia a chegada de reforços.

SPAL

Foi preciso esperar 49 anos para ver o SPAL 2013 (data da última refundação) de novo na elite do futebol italiano. O clube da cidade de Ferrara regressa como vencedor da Serie B, depois de uma campanha quase imaculada sob o comando do técnico Leonardo Semplici. A segurança defensiva foi uma das imagens de marca dos spallini, muito por culpa da serenidade transmitida pelo guarda-redes Alex Meret. O eixo defensivo também parece estar assegurado: a Gasparetto e Cremonesi juntam-se Felipe, proveniente da Udinese, e Oikonomou, cedido pelo Bolonha. O plantel do SPAL conta com vários emprestados, mas a grande maioria tem condições para dar uma contribuição importante. Alberto Grassi, que pertence aos quadros do Nápoles, é um dos médios com mais potencial da nova geração e tem no SPAL um óptimo espaço de afirmação. A seu lado deverão estar Federico Viviani e Luca Rizzo, emprestados pelo Hellas Verona e pelo Bolonha, respectivamente. No ataque, ao contrário do Crotone, rival na luta pela manutenção, o conjunto recém-promovido possui muitas e boas opções. Mirco Antenucci foi decisivo na subida, encontrando as redes contrárias em 18 ocasiões, e ainda há Alberto Paloschi (flop na Premier League, mas tem muita qualidade) e o experiente Sergio Floccari. Há razões para sonhar com a permanência.

Benevento

A estreia na Serie A é, por si só, um prémio simpático para o Benevento, clube que no ano passado disputou pela primeira vez a Serie B. Ainda assim, os stregoni não quererão desperdiçar a oportunidade de garantir o seu lugar no escalão máximo. A viver um autêntico conto de fadas, com duas promoções consecutivas, o elenco de Marco Baroni recebeu um upgrade significativo para tentar a manutenção. A Lazio cedeu Danilo Cataldi, médio com qualidade para se impor no meio campo da equipa, e poderá libertar também o talentoso (mas inconstante) Ricardo Kishna. Por empréstimo do Inter continua George Puscas, avançado romeno com nome de craque, decisivo na “finalíssima” frente ao Carpi. Venuti, lateral-direito que pertence aos quadros da Fiorentina, continuará a evoluir no Stadio Ciro Vigorito, onde o ganês Chibsah, fundamental na temporada anterior, permanecerá em definitivo depois de ter sido adquirido ao Sassuolo. Para acrescentar experiência ao plantel, o emblema recém-promovido “pescou” Panagiotis Kone na Udinese e Memushaj no despromovido Pescara. Percebe-se, portanto, que houve um esforço para compor um plantel de primeira divisão. Veremos se será suficiente para escrever mais uma página de glória em Benevento.

Hellas Verona

Ao colo de Pazzini. Foi assim na última temporada e será assim na época que se avizinha. O experiente goleador italiano marcou nada mais, nada menos do que 23 golos na Serie B e contribuiu de forma decisiva para o regresso do Hellas Verona à primeira divisão. Este ano terá a companhia de Alessio Cerci, que, depois de uma má experiência no Atlético e de sucessivos empréstimos, tem a ambição de recuperar o nível que demonstrou em Turim. O trio de ataque fica fechado com o promissor Daniele Verde, avançado rápido, desequilibrador e com golo. Está cedido pela Roma e tem potencial para eventualmente voltar ao Olímpico. As principais figuras do conjunto de Fabio Pecchia, jovem treinador de 43 anos, estarão na frente, mas haverá alguma qualidade à disposição nos restantes sectores. Bruno Zuculini, ainda à procura de atingir um patamar superior na carreira, é o nome mais sonante de um meio campo que conta com Daniel Bessa, Büchel, Marco Fossati e Mattia Valoti. O uruguaio Martin Cáceres foi contratado para ser o patrão do sector defensivo, mas a contratação de Heurtaux à Udinese também acrescenta valor a uma zona algo carente de qualidade. Em suma, teremos uma equipa bastante dependente dos seus avançados.

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Pedro CouñagoAgosto 15, 201724min0

Em Itália, mora um dos campeonatos mais notáveis em toda a Europa, com grandes equipas a comporem-no. Nos últimos anos, no que toca à luta pelo título, a equipa da Juventus tem tido sempre vantagem sobre os adversários, não lhes dando a mínima hipótese, partindo, portanto, como favorita para a época 17/18. No entanto, existem duas ou três equipas que pretendem subir o seu nível. Ao mesmo tempo, a luta pelas competições será longa e dura, não havendo espaço para muitos erros, existindo algumas hipóteses plausíveis sobre quem poderá ocupar essas posições. Como poderá ser a próxima época?

Juventus

Não existe maior candidato a liderar a Série A e a conquistar o campeonato de Itália do que a Vecchia Signora. Nos últimos seis anos, foram seis campeonatos ganhos pela Juventus, sem qualquer tipo de oposição minimamente tangível. Clubes como Roma e Nápoles ainda têm tentado ombrear com a Juventus, mas simplesmente não conseguem porque não têm os mesmos argumentos, principalmente financeiros.

Os adeptos da Juve estão mais que habituados a festejar, já vão no hexacampeonato (Foto: Jornal de Noticias)

A época de 2017/2018 será, ainda assim, certamente bastante interessante de seguir para os lados do clube de Turim, principalmente depois da saída de um dos ídolos do clube, como era Bonucci. A sua saída para o rival Milan foi uma surpresa para todos os tiffosi da Juve, resta ver se tem algum impacto dentro de campo na mística que a equipa apresentará. Deste lado, tal não se espera, pois a restante espinha dorsal do clube (Buffon, Chiellini, Marchisio, Barzagli) continua aí para as curvas. No entanto, tal não durará muito mais tempo, começando por Buffon, que fará o último ano da carreira de jogador esta temporada, e em 2018/2019 será, em princípio, substituído na titularidade por Sczeszny, chegado neste defeso ao clube.

Dani Alves saiu também do clube após uma época realizada, mas uma em que foi uma das estrelas da equipa e uma das melhores da sua carreira. Certamente fará falta, e será uma das poucas posições para as quais faria falta uma solução. Fala-se no português João Cancelo, que poderia ser uma boa solução para a equipa, mas já chegou De Sciglio, que certamente é também uma boa solução.

Pelo restante poderio individual (Higuain, Dybala, Mandzukic, Pjanic, Cuadrado, por exemplo), a Juventus acaba por se sobrepor às restantes equipas da Série A, ainda por cima quando tão bem estes jogadores jogam juntos. A estes cinco principais juntaram-se agora Douglas Costa e Federico Bernardeschi, duas “bombas” de mercado que prometem dar uma vasta panóplia de soluções ao ataque bianconeri. Só estes talentos já chegam para continuar a levar a Juventus aos títulos, não existe nenhuma equipa em Itália com esta profundidade no seu ataque.

A Juventus pode chegar a um histórico heptacampeonato, mas deve ter cuidado para não se desleixar com as restantes conquistas. Na passada época, chegou à final da Liga dos Campeões catorze anos depois da última, mas acabou por perder por 4-1 para o Real Madrid. Veremos se esse não poderá ter sido um momento de viragem para aquilo que será o futuro. A época não começou da melhor forma, depois de uma derrota por 3-2 diante da Lazio, que deixa algumas reticências sobre aquilo que pode ser o início da campanha, ainda por cima depois de uma má exibição da equipa, em que realmente se notaram as falhas defensivas. No entanto, foi o primeiro jogo da época, e a Juventus certamente consolidará melhor os seus processos e conseguirá recuperar.

O campeonato vem ficando cada vez mais competitivo, não só devido a Roma e Nápoles, já destacados, mas também graças ao possível renascimento dos clubes de Milão, que têm investido muito forte para a próxima temporada. Como tal, a Juventus deve-se precaver, dar sempre tudo dentro de campo e utilizar a sua mestria e inteligência a si associadas. Se tal acontecer, muito dificilmente não chegará ao sétimo campeonato consecutivo.

Possíveis candidatos a lutar com a Juventus

O Nápoles será, em teoria, a equipa mais capaz de poder lutar abertamente com a Juventus, ainda que a tarefa seja bem difícil. A nível individual, a equipa do Sul de Itália será, talvez, aquela que mais se aproxima dos valores individuais da Vecchia Signora (o Milan parece querer reduzir a distância). Com jogadores como Insigne, Hamsik, Callejón e, principalmente, Mertens, o espetáculo a nível técnico é garantido, tanto que a equipa napolitana tem sido recorrentemente considerada como aquela que melhor joga em Itália. Nos últimos anos, tem conseguido crescer de forma sustentável, com bons resultados todos os anos, mas não tem conseguido chegar ao nível da Juve.

É uma equipa muitíssimo bem orientada por Maurizio Sarri, técnico elogiado principalmente por causa do futebol rendilhado e bonito que as suas equipas praticam, algo que se reflete no estilo de jogo implementado no San Paolo. A equipa pouco mudou em relação ao ano passado, destacando-se a chegada de Adam Ounas, mais uma excelente opção para os corredores, jovem e com grande margem de progressão. Também o lateral esquerdo português Mário Rui chegou ao clube, que é uma excelente alternativa a Ghoulam, que é muito pretendido mas que parece que irá ficar no San Paolo. Além disso, a equipa manteve Nikola Maksimovic e Marko Rog, dois jogadores que estavam emprestados ao clube na temporada passada e que ficam agora em definitivo.

Nenhum jogador relevante do plantel principal saiu do clube, algo que abona a favor da equipa, que assim ganha estabilidade e, com os novos reforços, ganha uma maior profundidade no plantel. Por aqui se verifica o maior poder poder que o clube tem nos dias de hoje. Veremos se Arek Milik consegue justificar a sua contratação feita no passado Verão e se faz esquecer Higuain, visto que esteve meia época lesionado na passada temporada. Talvez o que possa faltar ao clube seja um guarda-redes de maior valia, visto que Reina já não vai para novo.

De resto, se a equipa, até ao final de Agosto, resistir ao assédio que vem sido feito aos seus principais jogadores, como Insigne, Koulibaly e Ghoulam, parece-nos que o Nápoles tem tudo para não só se qualificar para a Liga dos Campeões, como também dar mais luta à Juventus na corrida pelo título. A segundo classificado, pelo menos, o Nápoles é forte candidato.

Quem também tem esperanças de poder subir um pouco mais é a Roma. O clube romano vem crescendo de rendimento nos últimos anos, mas nunca o suficiente para realmente perturbar a Juventus na corrida pelo título. Aliás, o seu último Scudetto chegou há já longínquos dezasseis anos, em 2000/2001. O clube romano tem poucos campeonatos para a sua real valia: apenas três.

Há muito tempo que o clube pretende dar o próximo passo, chegar finalmente ao cume da montanha, mas tem sido sistematicamente relegada, nos últimos anos, para uma luta com o Nápoles pelo segundo lugar. Face à descida de rendimento dos clubes de Milão, esta tarefa tem estado mais facilitada, e tem feito com que o clube esteja presente com frequência na Liga dos Campeões. O clube tem-se cimentado no pódio das equipas mais poderosas da Série A, mas tal não será tão fácil este ano, o campeonato está cada vez mais competitivo.

Vamos por partes. Esta época será a primeira da era Pós-Totti. O craque italiano representa um legado de vinte e cinco anos de uma das histórias mais bonitas de real amor a uma camisola. É certo que o jogador foi perdendo importância nas últimas temporadas, a idade não perdoa, mas continuava a ser o grande comandante no balneário romano. Será que a equipa conseguirá reagir à perda do seu comandante? Parece-nos que sim, principalmente através de Daniele De Rossi, outro dos jogadores mais carismáticos do clube.

O clube ficou ainda órfão de quatro dos seus principais pilares da passada temporada: Szczesny, Rudiger, Paredes e Salah. O último, principalmente, representa uma enorme perda para o conjunto romano, pois o egípcio era o principal motor do ataque da equipa, era sinónimo de golo ou assistência em quase qualquer jogo. Para o seu lugar, tem-se falado com frequência em Riyad Mahrez, que seria certamente uma boa alternativa, ainda que com menos capacidade de aceleração que Salah. Essa era uma das principais características do jogo da Roma, também muito por culpa de Luciano Spalletti, que é conhecido por privilegiar o ataque rápido.

No entanto, Spalletti saiu para o Inter, chegando para o seu lugar Eusebio di Francesco. Este será mais um dos motivos que gera curiosidade para a próxima época. Será interessante perceber se o jovem treinador consegue ter o mesmo sucesso que teve no Sassuolo e que estilo de jogo implementa na equipa. Tem todo o potencial para o conseguir, e, no que toca a reforços, até não se pode queixar. Do seu anterior clube, trouxe dois: Lorenzo Pellegrini e Grégoire Defrel. Além destes, alguns outros chegaram, muito por culpa de um homem.

Monchi, o emblemático diretor desportivo espanhol, chegou ao clube para esta nova época, e consigo chegaram os negócios “pechincha”. Assim, o clube contratou jogadores como Hector Moreno, Gonalons, Fazio (após empréstimo ao clube) e Kolarov por cerca de 19 milhões de euros. São quatro elementos que garantem qualidade e experiência à equipa. Monchi é ainda conhecido pela sua capacidade de scouting e de encontrar jogadores apetecíveis em territórios menos esperados. É nesse sentido que chegam Rick Karsdorp, Cengiz Under e também Rezan Corlu, provenientes de Feyenoord, Istambul Basaksehir e Brondby, respetivamente, sendo estes elementos mais wildcards face àquilo que podem oferecer à equipa, mas, se vêm com o selo de Monchi, só podem ter qualidade assegurada.

Monchi pode vir a ser o melhor reforço da Roma para as próximas temporadas, garantindo os melhores negócios (Foto: asroma.com)

De resto, todos os jogadores destacados, na companhia das estrelas como Manolas, Strootman, Nainggolan, Florenzi e Dzeko, podem dar cartas. O plantel é bastante completo, com excelentes soluções, estando preparado para, mais uma vez, chegar à Liga dos Campeões de forma direta. Será, no entanto, que o clube conseguirá alcançar o próximo nível e realmente lutar até ao fim pelo Scudetto? Sem Totti nem Salah e com Di Francesco, veremos o que nos reserva a próxima temporada.

Candidatos ao quarto lugar, se possível algo mais

Como quarto maior candidato, surge o Milan. O clube milanês será o grande wild-card da próxima edição da Série A. Tanto pode tudo correr tudo muito bem como muito mal, mas uma coisa é certa: há muito tempo que não se esperava tanto dos rossoneri e agora a equipa está sob real pressão de alcançar resultados no imediato.

Tem sido uma chuva de contratações por parte do clube, algo que se deve à compra do clube por Lin Yonghong em abril deste ano. O poderio financeiro da equipa subiu drasticamente, e com ele foi possível contratar os defesas Bonucci, Musacchio, Ricardo Rodriguez e Andrea Conti, os médios Biglia, Késsie e Çalhanoglu e os avançados André Silva e Fabio Borini. De todas as contratações, é obrigatório destacar a aquisição de Leonardo Bonucci à rival Juve, algo que se pensava impensável e que apenas foi possível não só devido ao maior poderio financeiro mas também ao projeto ambicioso que o clube tem para implementar no imediato. Outro dos “reforços” é Gianluigi Donnarumma, que pareceu com um pé fora do clube mas que viu a sua situação devidamente resolvida. Além disso, poderá estar ainda para chegar um ponta de lança, que ocupará a vaga de Carlos Bacca, que parece de saída.

É estranho ver Bonucci com a camisola dos rossoneri. Que impacto poderá ter o central no Milan? (Foto: Goal.com)

Todas estas contratações têm de levar o clube a resultados, não só na Série A como a nível europeu. O clube está de volta às competições europeias, participando na Liga Europa. Sendo apenas a segunda competição mais importante de clubes, a equipa tem obrigação de chegar longe na competição. Certamente menos que os quartos de final, no mínimo, será um fracasso.

Mais que isso, o clube tem de lutar pela qualificação para a Liga dos Campeões. Será algo ilusório poder afirmar que o clube lutará pelo título, existem muitos mecanismos táticos em fase de implementação, e o clube não pode ter ambições desmedidas depois das más épocas que tem feito. Demorará o seu tempo até tudo carburar a cem por cento, portanto a luta pela qualificação para a Liga dos Campeões parece um objetivo realista. Um quarto lugar, no mínimo, é a obrigação do Milan depois das contratações efetuadas. 

Foram dadas as melhores condições possíveis a Vincenzo Montella, que, se tudo correr bem, pode levar o clube a um nível que não alcançou nos últimos cinco anos. Tem feito um razoável trabalho, pode fazer bem melhor agora. Com as contratações efetuadas, mais a base de jogadores italianos como Donnarumma, Bonaventura, Abate, Calabria, Locatelli ou Montolivo e a permanência de jogadores decisivos como Suso, tudo parece poder correr bem para os pupilos do antigo avançado.

Quem não quer que tal aconteça é o rival do Milan, o Internazionale. A equipa nerazzurri, bem como o seu rival de Milão, tem feito investimentos significativos com vista a melhorar a performance da época 16/17, em que tudo correu mal, desde a eliminação da Liga Europa logo na fase de grupos, a chegada apenas aos quartos de final da Taça de Itália e o mau sétimo lugar no campeonato.

Afinal de contas, o Inter não joga nenhuma competição europeia esta temporada, algo que se pode revelar uma vantagem, na medida em que os jogadores estarão exclusivamente focados no campeonato e, assim, podem lutar pelos lugares de Champions, pelo menos o quarto lugar, portanto. Com uma Roma que poderá ser imprevisível este ano, veremos se o Inter, juntamente com Milan também, não poderá dar mais trabalho na luta pelo terceiro lugar, inclusivamente.

O Verão foi marcado pela contratação de Vecino e Borja Valero, excelentes opções para o meio campo da equipa, além das aquisições de Milan Skriniar e Dalbert, o lateral que, no Verão passado, saía de Portugal para França por 2 milhões de euros e agora sai por um valor dez vezes mais alto. Foram contratações sonantes para lugares certamente necessitados, em que se aumenta a quantidade e qualidade das opções da equipa. A lateral esquerda tem estado debilitada nos últimos anos e o meio campo teve performances bem abaixo do esperado no ano passado, com Kondogbia, principalmente, a ser candidato à saída, sendo assim contratações bastante cirúrgicas as feitas pelo clube. Com a contratação dos dois médios mencionados, João Mário pode ganhar mais preponderância como médio mais avançado. Skriniar vem substituir Gary Medel, que foi vendido de forma duvidosa (apenas 3 milhões de euros) para a Turquia.

É mais importante mencionar a chegada de Luciano Spalletti ao comando técnico do clube. É um treinador com muita pedalada nestas andanças, que tem capacidade de liderança e um mestre tático, com bastante sucesso ao longo da carreira. Certamente será um upgrade àquilo que vinha sendo uma “dança das cadeiras” na liderança da turma nerazurri. Com Spalletti, os primeiros resultados foram animadores, tendo a equipa feito uma boa pré-época. Se conseguir iniciar bem a liga, fazendo um bom trajeto até dezembro, em que a taça, aí, se intrometerá, o Inter pode estar destinado a uma grande melhoria face à temporada passada.

Com a manutenção de jogadores como Perisic, Candreva e o próprio João Mário, acrescentando-se a segurança que Handanovic e Miranda dão à defensiva, em conjunto com a juventude de Skriniar, a mestria no meio campo de Vecino, Borja Valero e outros como Brozovic e o nosso português João Mário, acrescentando-se o faro de golo de Icardi, bem secundado por Éder, a equipa tem tudo para fazer um bom desempenho na próxima edição da Série A.

A luta pela Liga Europa

Num patamar mais abaixo, candidata a uma presença na Liga Europa, chega a Atalanta. Será muito curioso ver o que pode fazer a equipa de Bérgamo na ressaca de uma das suas melhores épocas de sempre. A equipa conseguiu um brilhante quarto lugar, catapultando-se para um tão aguardado regresso às competições quase 30 anos depois, mas esse mesmo quarto lugar parece difícil este ano.

Muito se pode agradecer a Gian Piero Gasperini, que fez um fantástico trabalho na época passada, lançando jogadores como Kessié, Mattia Caldara, Andrea Conti ou Gagliardini, todos vendidos por valores acima dos 15 milhões de euros, depois de uma primeira época num nível mais elevado na Série A.

Gasperini, o grande obreiro da Atalanta que agora conhecemos (Foto: Goal.com)

No caso de Caldara, o negócio foi especialmente apetecível porque contará com o jogador até ao final da próxima temporada, rumando depois à Juventus com uma outra bagagem e experiência competitiva. A equipa perdeu também um dos pontas de lança, Alberto Paloschi, este emprestado com cláusula de compra obrigatória à SPAL. A equipa perdeu alguns elementos de extrema importância, algo que se aceita tendo em conta a salvaguarda financeira do clube para os próximos anos.

No entanto, o clube tem uma academia reconhecida tanto a nível nacional como internacional que lhe permite sempre gerar novos craques de qualidade inegável que podem jogar futuramente na primeira equipa. Além disso, desengane-se se pensa que a equipa não tem estado ativa no mercado.

Com efeito, a equipa tem feito movimentos magníficos no presente defeso. Além de segurar em definitivo o guarda-redes Berisha, a equipa já foi buscar João Schmidt a custo zero, Timothy Castagne, um potencial grande lateral direito, por 6 milhões de euros, Andreas Cornelius por 3.5 milhões, garantiu a jovem estrela Riccardo Orsolini por empréstimo, conseguiu o regresso de Marten de Roon por 13 milhões e, por último, garantiu o craque esloveno Josip Ilicic pela modesta quantia de 5.5 milhões de euros. Não parece que a equipa fique a perder, bem pelo contrário. Não só consegue estabilidade financeira, como vai buscar elementos que não garantem imensa qualidade no imediato e no futuro. A contratação de Ilicic não vem nessa filosofia mas sim numa de oferecer magia ao meio campo ofensivo da equipa.

Não será fácil a equipa repetir o quarto lugar da passada temporada quando as principais equipas do campeonato estão a fazer uma forte aposta. Além disso, o clube jogará a Liga Europa, algo que gerará mais cansaço nos jogadores. Ainda assim, com a chegada dos reforços e a manutenção dos restantes esteios da equipa, como Alejandro Gómez, Andrea Petagna, Leonardo Spinnazola, Jasmin Kurtic e Rafael Tolói, pode-se esperar mais uma boa época dos pupilos de Gasperini, possivelmente a lutar novamente pelas competições europeias. Talvez um sexto, sétimo lugar esteja mais ao alcance do clube.

A Lazio entra com vontade de passar à frente da Atalanta em 2017/2018. A equipa romana fez uma boa época em 16/17, conseguindo chegar ao quinto lugar da Série A e garantindo a Liga Europa. Era difícil exigir mais ao clube depois de tamanha boa época da Atalanta e a diferença de qualidade para Nápoles, Roma e Juventus. Foi uma época estável, com a equipa a chegar também aos oitavos de final na Liga Europa e chegando à final da Taça de Itália, perdendo para a Juventus. No entanto, já conseguiu a sua vingança, começando muito bem a época e conquistando a Supertaça italiana, vencendo por 3-2 frente à Vecchia Signora.

O clube contratou alguns jogadores importantes para a próxima temporada, com principal destaque para Adam Marusic e Lucas Leiva, dois jogadores que parecem ter garantida a entrada direta no onze da equipa. Lucas Leiva vem compensar a grande perda do clube neste defeso: Lucas Biglia, que saiu para o AC Milan.

Começou bem esta nova etapa de Lucas Leiva, com a conquista da Supertaça de Itália. Veremos que pujança traz o brasileiro ao meio-campo dos romanos (Foto: 101 Great Goals)

De resto, entraram ainda Davide de Gennaro a custo zero e Filipe Caicedo, que vai servir de cobertura à estrela Ciro Immobile. Destaque ainda para o regresso de empréstimo de Ricardo Kishna, que pode ser o substituto de Keita Baldé caso o jogador saia, ou poderá ser inclusivamente contratado outro jogador, como Brahimi.

Assim, o plantel não mexeu muito, sendo garantidas alternativas que podem dar mais profundidade a um plantel de qualidade, em que existem ainda jogadores como Marco Parolo e Felipe Anderson que fazem a diferença. Prevê-se mais uma época a lutar, pelo menos, pelo sexto lugar para a equipa romana. Simone Inzaghi tem condições para continuar o seu bom trabalho ao leme do clube.

Por fim, surge uma equipa que poderá tentar fazer uma gracinha na próxima edição da Série A: o Torino. Tem vindo sempre a fazer campeonatos estáveis, figurando na primeira metade da tabela. É um clube que tem vindo a recuperar, aos poucos, um pouco da mística daquilo que era o grande Torino de há 5 décadas atrás, tendo disputado a Liga Europa na passada temporada. Com essa experiência adquirida e sem a ter de jogar este ano, parece-nos possível que o Torino melhore o seu nono lugar e possa andar a disputar lugares superiores, intrometendo-se numa possível luta pela Liga Europa, dependendo também da possível vaga aberta ao sétimo lugar, dependendo dos finalistas da taça.

É certo que não será fácil, tendo em conta a cada vez maior competitividade do campeonato. Da equipa que acabou a temporada, saíram quatro jogadores mais importantes: os guarda-redes Joe Hart e Daniele Padelli, o defesa Gastón Silva e o médio Marco Benassi. O médio será, certamente, a saída mais notável, devido à sua preponderância no meio campo. Para as saídas, a equipa encontrou soluções, e bastante boas até.

Os centrais Lyanco e N´Koulou, este principalmente, são excelentes contratações da parte do Torino, traduzindo-se num claro upgrade no centro da defesa com a experiência competitiva do camaronês e o “sangue na guelra” de Lyanco. Para a saída de Benassi, o clube foi buscar Tomás Rincón à Juventus, não ficando, neste aspeto, a perder muito no imediato, a não ser num potencial encaixe futuro, porque Benassi ainda não está num nível acima de Rincón. E, para a baliza, chegaram Vanja Milinkovic-Savic, uma aposta de futuro, e Salvatore Sirigu, um excelente guardião que andou nos últimos dois anos perdido e que chega agora a custo zero a Torino, podendo voltar à seleção italiana e tendo hipótese de relançar a carreira.

O clube foi ainda buscar Álex Berenguer ao Osasuna, que pode ser um excelente backup de Adem Ljajic. O esloveno, em conjunto com Iago Falqué e, principalmente, Andrea Belotti, formam uma tripla de ataque possivelmente mortífera, que, com o upgrade da linha defensiva, pode significar a melhoria da equipa. Se Belotti permanecer no clube, será também uma grande vitória para Sinisa Mihajlovic, que não sendo um fantástico técnico, tem muito conhecimento do futebol italiano enquanto jogador e parece estar a assentar bem no clube de Turim. Ainda que não seja o candidato mais forte aos lugares europeus, o Torino tem uma boa hipótese de se tentar intrometer na luta, ainda para mais com uma Fiorentina que não parece destinada a tais voos.

Assim, ficam os dados lançados no que toca às equipas mais poderosas da Série A. Veremos se as previsões quanto à luta pelo título, Champions e Liga Europa se confirmam. Está lançada a luta pelos lugares cimeiros do campeonato italiano. 

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Pedro CouñagoJulho 4, 201712min0

Sendo um dos clubes mais titulados e importantes em Itália, bem como em toda a Europa, o Milan parece querer sair da sua travessia no deserto e voltar a ser uma equipa de respeito, que honra tudo aquilo que foi o seu passado. Neste artigo, o FairPlay explora o possível renascimento do adormecido colosso italiano.

A descida de nível do colosso

De uma equipa que tem 18 Scudettos, a segunda com mais campeonatos em Itália, e que tem 7 Ligas dos Campeões, a segunda com mais títulos da principal competição europeia de clubes, seria de esperar uma luta constante pela manutenção e superação da honra a si associada. Seria de esperar mais do Milan nas últimas temporadas.

Sempre foi um clube que teve uma aura de acolher lendas futebolísticas, como Maldini, Baresi, Nesta, Gattuso, Ambrosini, Seedorf, Shevchenko, Kaká, Pirlo, Inzaghi, o nosso querido Rui Costa, entre outros. Todos estes foram elementos que corresponderam à grandeza do clube e tinham uma vontade constante de vencer, sempre foram essenciais para a manutenção da coesão da equipa milanesa ao longo dos anos. Eram autênticos líderes dentro de campo. A verdade é que, a partir de 2013, nenhum destes jogadores sobrou no plantel, todos se haviam reformado, brilhavam por rivais (Pirlo) ou já não eram os mesmos (Kaká).

Perdeu-se a aura de grande equipa, de colosso. O Milan passou a ser um gigante adormecido, tal passou a ser a mediocridade dos desempenhos da equipa, com um oitavo lugar em 2013/2014, um décimo (!) em 2014/2015, um sétimo em 2015/2016 e, de mal o menos, um sexto em 2016/2017. Esta última época permitiu, na próxima época, um ansiado regresso à Europa, ainda que seja à Liga Europa, a segunda liga mais importante, e não à principal competição de clubes, isso terá ainda de esperar. Para lá chegar, o clube ainda tem passos a dar.

A crise geral no clube

A mediocridade instalou-se no clube porque não houve uma capacidade de renovação da equipa, de acompanhar aquilo que são as novas tendências no futebol e de adaptação. Muita da culpa terá de ser colocada em Sílvio Berlusconi e Adriano Galliani, que se decidiram por um tremendo desinvestimento na manutenção de uma equipa base e pela manutenção de ideias que haviam sucedido nos anos noventa e na primeira década deste milénio, ideias essas que são obsoletas no futebol atual. Na verdade, foi um desinvestimento no clube em geral, que o deixou numa grave crise financeira que se manteve ao longo dos últimos anos e pôs até em causa a questão do FairPlay financeiro.

A verdade é que o futebol evoluiu, e ao contrário de um Milan que desinvestiu, surgiu uma panóplia de equipas que acabou por se sobrepor ao conjunto rossoneri. Nos últimos anos, clubes como a Roma e o Nápoles, essencialmente, vêm cimentando a sua posição nos primeiros lugares do campeonato italiano, com uma gestão positiva das suas filosofias e a capacidade de criar plantéis bastante competitivos, sendo que o único ponto menos positivo poderá ser considerado a sua participação nas competições europeias. Quanto à Juventus, a conversa é completamente diferente, com o diferencial para o Milan a ser absolutamente abismal, nem é preciso fazer comparações.

O clube passou a estar à deriva, com plantéis medíocres, com uma constante mudança de treinadores (cinco treinadores entre 2013/2014 e 2015/2016), algo que se traduziu em quatro épocas consecutivas sem pisar grandes palcos europeus, em prestações catastróficas no campeonato italiano, repletas de resultados humilhantes, no desinteresse por parte de jogadores de renome em ingressarem no conjunto milanês e no protesto por parte dos apaixonados tiffosi. Afinal de contas, estes adeptos não esperavam que o clube fosse cair a pique de forma tão resoluta, sem que ninguém tivesse qualquer ideia de como o evitar.

Muita falta faz o Milan e os seus mais fiéis adeptos à Europa do futebol (Foto: Lapresse)

Muitos dos jogos nas últimas épocas tiveram muito poucos adeptos, isto num estádio histórico como o San Siro, com lugar para 80000 espetadores. Foram raros os jogos em que a assistência foi superior a 40000 espetadores. O apoio nunca poderia permanecer igual visto que os desempenhos da equipa não traduzem a grandeza do clube. Destaque-se, ainda assim, que foram muitas vezes as claques a manter o clube vivo e a não descer ainda mais.

A luz ao fundo do túnel

Na última época, no entanto, viu-se uma certa evolução, em comparação com as 3 anteriores. A equipa possui uma base de jogadores italianos que começou a destacar-se e a guiar o clube a resultados mais condizentes com a grandeza do mesmo, promovendo um regresso à Europa em 2017/2018, que se espera traduzir-se numa boa prestação na Liga Europa e num possível regresso à Liga dos Campeões, mas cada passo a seu tempo.

Jogadores como Mattia de Sciglio, Giacomo Bonaventura, Alessio Romagnoli, Davide Calabria e Manuel Locatelli, em conjunto com os mais velhos Montolivo e Bertolacci, podem constituir a base daquilo que será a construção de uma nova mística de clube grande por parte do Milan, traduzindo-se ainda na construção de algumas possíveis lendas do conjunto milanês que se tentem aproximar daquilo que foi a importância dos seus antepassados, algo que não se revelará fácil.

O drama de nome Donnarumma

No entanto, o jogador de quem mais se fala é Gianluigi Donnarumma, devido a toda a sua polémica nas últimas semanas acerca da sua renovação. Tudo parecia perdido para o clube quando o jogador afirmou que não renovaria o seu contrato, com fim em 2018, algo que, se não se traduzisse numa saída neste defeso de Verão, se poderia transformar numa saída a custo zero em 2018, havendo quem especulasse que poderia ser para a Juventus, como possível sucessor de Gianluigi Buffon. A verdade é que Buffon não poderia ter melhor substituto a longo prazo.

O jovem guardião que é já uma jovem estrela (Foto: Getty Images)

Para o Milan, seria uma grande desilusão perder o jovem guarda-redes, talvez a maior promessa a sair das escolas do clube na última década. Durante o último campeonato europeu de Sub-21, foi divulgada uma notícia que garantia a renovação de Donnarumma, mas tudo não passou de um ato de pirataria, como confirmado pelo jogador. Nessa altura, parecia mesmo que não existia volta a dar.

No entanto, surgem agora novas notícias a confirmar a continuidade de Donnarumma no clube, tendo ele direito a um ordenado altíssimo para a sua idade (6 milhões de euros por época), algo que mostra o quanto o futebol mudou nos últimos anos. Será de questionar se a sua decisão teve por base a vontade de continuar no clube por ser aquele que tudo lhe tem dado ou apenas por causa do chorudo salário que lhe espera. Veremos como se desenrola toda esta questão e quando é que a notícia se torna oficial, mas, sem dúvida alguma, que a manutenção do jogador no clube seria uma excelente notícia para os rossoneri (em termos desportivos) e daria a garantia de segurança às redes milanesas.

A importância de Montella

A filosofia incutida por Vincenzo Montella veio criar uma espécie de sentimento de renascença no clube, não só através do lançamento de alguns jovens na equipa principal, como através de uma melhoria nos resultados da equipa. O regresso às competições europeias e a conquista da Supertaça de Itália, o primeiro título em cinco anos, atestam isso mesmo.  Verificou-se uma melhoria das ideias de jogo e uma maior união do grupo em torno dos objetivos do clube, algo que valeu a Montella a manutenção no comando técnico para a próxima temporada, contrariando aquilo que vinha sido a instabilidade nas anteriores épocas.

Ex-estrela da Roma, Vincenzo Montella está a tentar reerguer o Milan (Foto: Italian Football Daily)

A manutenção do técnico oferece-lhe um maior grau de credibilidade junto dos jogadores, demonstra a confiança no trabalho por si realizado por parte da direção e dá-lhe a possibilidade de criar um legado, de dar continuidade ao início do trabalho feito na passada época. As condições oferecidas serão superiores a 2016/2017, pelo que existe esperança para os lados milaneses.

O fator “dinheiro chinês”

Algo que contribuiu muito para este fator foi a compra do clube por parte de Lin Yonghong e do seu grupo de investimentos, em abril, por 740 milhões de euros, que veio trazer um sentimento de esperança cada vez maior aos adeptos rossoneros. Esta compra do clube acabou por introduzir uma nova era no clube e resolveu um dos grandes problemas do clube, em conjunto com a crise desportiva: a dramática crise financeira pela qual o Milan vinha passando, graças ao desinvestimento por parte de Silvio Berlusconi.

Destes 740 milhões de euros, 200 milhões serviram apenas para pagar dívidas a longo prazo que os rossoneri mantinham, o que revela o fundo buraco em que o clube se encontrava a nível financeiro. Com a recapitalização por parte do investidor chinês e do seu grupo, o Milan resolve estes problemas e pode, agora, atacar a época 2017/2018, com outros argumentos e sem o medo de falhar o FairPlay financeiro.

A entrada de Lin Yonghong no clube veio resolver alguns dos problemas do Milan, sobretudo a nível financeiro (Foto: Goal.com)

Cá estaremos para ver aquilo que Lin Yonghong poderá oferecer aos rossoneri, mas a verdade é que os primeiros passos e as primeiras decisões tomadas parecem acertadas. A nível financeiro, os problemas estão certamente resolvidos. 

A nova cara para 2017/2018

O Milan chega à próxima época com ambições redobradas. As ambições tornam-se tangíveis através das contratações feitas, prioritárias, de renome (dependendo dos casos) e que permitem adicionar qualidade à equipa. São os casos de Ricardo Rodríguez, Mateo Musacchio, Franck Kessié, Fabio Borini, Hakan Çalhanoglu, e, essencialmente, o nosso bem português André Silva. Estas contratações não vieram baratas, mas o dinheiro não é agora problema e, como tal, o clube está a reforçar-se, e bem, para que o clube tenha um grupo de jogadores capazes de lutar por títulos.

Veremos se o jovem português corresponde face às altas expetativas criadas sobre si (Foto: MaisFutebol)

Com estes novos jogadores, o Milan consegue um upgrade àquilo que era o passado plantel, consegue jogadores que podem realmente fazer a diferença e que oferecem um maior leque de opções, essencialmente na transição entre defesa e ataque e na hora de fazer o golo. Do plantel da passada época, a saída que se pode realmente lamentar é a de Gerard Deulofeu (regressou ao Barcelona), que poderia ser um elemento importante num Milan mais ambicioso como aquele que teremos na próxima temporada.

Convém, depois, que os reforços não sejam apenas isso, mas que se insiram na cultura do clube e sejam capazes de formar um conjunto forte com o grupo de jogadores italianos acima destacados. Além disso, a manutenção de alguns jogadores como Cristián Zapata, Juraj Kucka, Suso e Carlos Bacca (quanto ao avançado colombiano, depende da tática a ser usada, com um ou dois pontas de lança), entre outros, seria bastante positiva, de forma a manter a qualidade do grupo no seu geral e a possuir alguma cultura de clube.

Além disso, o Milan está ainda bem ativo no mercado, sendo-lhe reconhecido interesse em jogadores como Lucas Biglia, Emil Forsberg ou até James Rodríguez, pelo que, até setembro, muito pode ainda acontecer. Faltará aos rossoneri encontrar jogadores que permitam uma maior segurança a nível defensivo e, provavelmente, um extremo. O eixo do ataque e o meio campo já foram reforçados de forma significativa, de forma bastante satisfatória.

O projeto a ser implementado

A verdade é que se perspetiva uma subida do rendimento desportivo por parte da equipa rossoneri, uma recuperação já começada na época passada. Seria muito positivo, não só para o futebol italiano como também para o futebol europeu e mundial, contar com um Milan de respeito e a impor a sua força face aos seus adversários, algo que parece ser finalmente possível. Ainda assim, espera-se a implementação de um projeto a médio prazo, pois não será fácil a equipa retomar o seu estatuto de colosso de forma imediata.

Este deve ser um projeto construído de forma sustentada, começando por uma tentativa de qualificação para a Liga dos Campeões na próxima época, uma consolidação nos lugares do pódio do campeonato italiano e depois sim, se possível, uma tentativa de luta pelo Scudetto, algo tremendamente difícil face à máquina que é a Juventus, que tem um domínio incontestável nos últimos anos, para o qual também contribuiu o desaparecimento do Milan, entre outros fatores.

Veremos o que 2017/2018 reserva ao Milan. Nada tem a perder o clube, veremos se consegue retomar o hábito de ganhar.

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Tomás da CunhaJunho 26, 20177min0

Maus resultados, escassez de talento e, sobretudo, uma falta de identidade preocupante. As equipas de formação de Itália atravessaram um período bastante negativo na viragem da década e nos anos que se seguiram, o que fez surgir uma necessidade incontornável de reestruturação. Tão importante como o trabalho federativo é o contributo dado pelos clubes, que se começa a reflectir nas gerações que agora evoluem. Há talento espalhado por todos os emblemas da Serie A, campeonato do passado que ano após ano se coloca como um campeonato de futuro.

À selecção de sub-21, que já garantiu a presença nas meias-finais do Euro, ninguém fornece mais jogadores do que a Atalanta, que conseguiu um notável quarto lugar no Calcio. Com toda a naturalidade, o seleccionador Luigi Di Biagio convocou quatro jogadores dos nero blu (Grassi esteve emprestado pelo Nápoles), aos quais se pode juntar Roberto Gagliardini, transferido para o Inter em Janeiro mas com formação feita no clube. O sucesso desta Squadra Azurra deve-se, em boa parte, à aposta frutífera do emblema de Bérgamo.

Mattia Caldara, já contratado pela Juventus, foi um dos centrais em evidência no futebol europeu na última temporada e mantém o nível elevado ao serviço da selecção. Fazendo parelha com Rugani, possivelmente o seu futuro companheiro em Turim (e que dupla será!), o jovem da Atalanta tem sido praticamente intransponível, liderando o sector defensivo com enorme personalidade. Ficou no banco na segunda jornada e, por coincidência ou não, a Itália foi derrotada pela República Checa. Tem apenas 23 anos, mas reúne todas as características para vir a ser uma referência na posição. Muito concentrado sem bola, lendo e antecipando, destaca-se pelo que oferece ofensivamente, tanto no passe como em condução (ficou na retina o túnel a Dahoud). As bolas paradas são outro capítulo em que faz a diferença, tendo marcado uns incríveis 7 golos na Serie A.

Caldara em acção no Juventus Stadium
Foto: JN24.it

O entendimento eficaz de Caldara com Andrea Conti resulta das rotinas que foram criando ao longo da temporada. Tal como no clube, o lateral-direito da equipa projecta-se constantemente, sendo um dos principais receptores das bolas longas do central. Habituado a jogar como ala na Atalanta, devido ao sistema com três centrais, Conti é um autêntico cavalo de corrida no flanco, impressionando pela resistência com que executa o vaivém. Não sendo muito refinado, é um jogador com competências técnicas ao nível da recepção e do passe e explora o jogo interior com inteligência. Para o confirmar surge um registo assinalável de 8 golos apontados na Serie A, que o coloca como o segundo melhor marcador da equipa. Defensivamente, apesar de ter algumas lacunas ao nível do posicionamento, é forte a reagir à perda e muito agressivo em todos os duelos que disputa. Ao que tudo indica vai fazer parte do novo projecto do AC Milan, com a Atalanta a encaixar cerca de 25 milhões de euros.

Desta geração, Roberto Gagliardini foi o primeiro a cativar o interesse de um dos maiores clubes da Serie A. Emprestado pela Atalanta ao Inter, que tem opção de compra do passe, o médio conquistou rapidamente o seu espaço no Giuseppe Meazza e pode tornar-se um dos principais rostos do conjunto de Spalletti. Sempre de cabeça levantada, dá muita fluidez à saída de bola na construção, ora procurando o passe vertical a queimar linhas, ora variando o centro de jogo em busca do homem livre. Contra a Alemanha fê-lo de forma exímia, assinando uma exibição para mostrar como cartão de apresentação. Além do que ofereceu com bola, permitiu que a equipa pressionasse em zonas adiantadas, dando cobertura aos interiores Pellegrini e Benassi. Um ‘6’ bastante culto tacticamente.

Outro dos aspectos decisivos para o triunfo italiano sobre os alemães foi a presença de Bernardeschi como falso 9, que acrescentou agressividade à primeira fase de pressão e condicionou a saída de bola do adversário. Andrea Petagna, titular nos dois encontros anteriores, perdeu o lugar na última partida, mas certamente não perdeu a confiança de Luigi Di Biagio. É, juntamente com Andrea Belotti, um dos pontas-de-lança italianos mais cotados, apesar de o registo de golos na Serie A não impressionar (apenas 5). Formado no AC Milan, encontrou em Bérgamo um espaço de afirmação e tornou-se uma peça indispensável para Gasperini. Mesmo sem marcar muito, é sempre a referência nas bolas longas e a sua presença entre os centrais impõe respeito. Não tem grande mobilidade mas associa-se facilmente, oferecendo apoios frontais constantes e aproveitando a capacidade de jogar de costas para a baliza, talvez a sua principal qualidade. Segura ou entrega ao primeiro toque (sobretudo com o pé esquerdo, o seu preferido), aspecto em que também é forte. Com as características que possui, será difícil que a próxima época não traga mais golos a Petagna.

Vender ou manter: o dilema da Atalanta

Kessié já se transferiu para o AC Milan
Foto: Goal.com

A concentração de jovens promissores ajuda a explicar o surpreendente quarto lugar da Atalanta. Não tendo o poderio financeiro de outros emblemas, os nero blu vão apostando de forma continuada na sua formação e têm tirado bastante proveito desse investimento, não só pelos resultados desportivos mas também pela extrema valorização dos seus activos. Agora, depois de uma época tão bem sucedida, o dilema está em vender ou tentar manter a base da equipa, o que parece difícil face ao assédio de vários clubes.

Os objectivos iniciais eram os de sempre: assegurar a manutenção rapidamente e tentar terminar na metade superior da tabela. Não haveria argumentos para melhor do que isso, poderia pensar-se. Mas Gian Piero Gasperini, treinador que guiou a Atalanta nesta época brilhante, aproveitou a vontade de afirmação de vários jogadores que se tinham destacado na Serie B e construiu uma equipa capaz de vingar na Serie A.

Todos os jogadores que fazem parte da selecção de sub-21 deram provas de valor no competitivo escalão secundário de Itália. Conti passou pelo Perugia e pelo Virtus Lanciano, ganhando o bilhete de volta para Bérgamo. Caldara foi um dos destaques do Cesena em 2015/16, já depois de ter representado o Trapani. Petagna, apesar de só ter 21 anos, jogou no Latina e no Vicenza, antes de uma época excelente ao serviço do Ascoli. Também Gagliardini esteve cedido, juntando ao currículo as passagens pelo Cesena, pelo Spezia e pelo Vicenza. Mérito para a Atalanta, que soube gerir da melhor forma a transição para seniores das suas principais promessas.

Além dos jovens italianos, Gasperini contou com o contributo importante de nomes como Franck Kessié, médio costa-marfinense que já se mudou para Milão, Jasmin Kurtic, desequilibrador esloveno com boa chegada à área, e sobretudo AlejandroPapu’ Gómez, que fez a melhor temporada da carreira. Criativo, tecnicista e com golo (apontou 16 no campeonato), o argentino aproveitou bem o facto de Petagna fixar os centrais para ter mais espaço em zonas de perigo. Um dos melhores jogadores do último Calcio.

Pouco habituada às andanças europeias, a Atalanta terá em 2017/2018 o desafio de se manter competitiva em várias frentes. Já se percebeu que será difícil segurar a espinha dorsal da equipa, pelo que a chave do sucesso estará no critério com que o clube vai atacar o mercado. Fazer muito com pouco foi o lema desta temporada mas, continuando assim, em breve deixará de ser. Para já, é preciso provar que 2016/2017 não foi um episódio único.

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Ricardo LestreAbril 20, 20177min0

13 de Abril de 2017 é uma data que ficará para sempre na história do Associazone Calcio Milan. Silvio Berlusconi e Adriano Galliani, a dupla maravilha, estará para sempre cravada nos tempos de ouro do clube, mas, como em tudo na vida, existe um fim. Depois de dois longos anos de negociações, os impasses entre a Sino-Europe Sports, consórcio chinês que pretendia adquirir o clube, e a Fininvest, empresa fundada e liderada pelo próprio presidente terminaram e ficou estabelecido um acordo final de 740 milhões para a aquisição do gigante de Milão. Pelo meio de toda esta situação, surge Vincenzo Montella que dentro de campo foi afastando os maus olhados do exterior conquistando o possível e o impossível para aquela que se tornou, de facto, a triste realidade rossoneri.

De Allegri a… Mihajlović

Desde 2014, ano do despedimento de Massimiliano Allegri, curiosamente o último técnico que se sagrou campeão ao serviço do clube, o AC Milan embarcou num declínio gigantesco desportivo e, consequentemente, económico. A verdade é que Allegri caminhava para a segunda temporada consecutiva sem alcançar resultados palpáveis e o momento algo crítico que a equipa atravessava não parecia ter solução. O grande problema, no entanto, prendeu-se com a terrível gestão do plantel e com a escolha dos seus sucessores.

Jogadores de maior calibre começaram, pontualmente, a rumar a outras paragens – muitos deles por valores pouco significativos –  e, face aos poucos recursos disponíveis, as apostas da direcção recaíram em dois nomes bem conhecidos como Clarence Seedorf e Pippo Inzaghi. Pelos demais motivos, ambas as experiências não obtiveram os resultados desportivos desejados e a crise interna do AC Milan foi, oficialmente, anunciada. Em 2013/2014, os rossoneri terminaram em 8º lugar e, na temporada seguinte, em 10º.

AC Milan versão 2016/2017 Vs. AC Milan versão 2013/2014

Não existe comparação possível, pelo menos em termos qualitativos, entre os plantéis acima destacados. Hoje, na matéria prima que Vincenzo Montella tem ao seu dispor, existem várias peças de enorme potencial cujo valor de mercado disparou de forma acentuada. Contudo, isso deve-se, em grande parte, a Siniša Mihajlović. Se o AC Milan hoje mantém uma identidade própria, é porque o técnico sérvio assumiu, na época anterior, um papel de grande relevância no seu processo de reconstrução. Para além da aposta frutífera em Gigi Donnarumma, Mihajlović retirou o melhor, desportivamente falando, de elementos como Giacomo Bonaventura, M’baye Niang, Alessio Romagnoli ou até Juraj Kucka, adaptando as qualidades de cada um às suas maiores necessidades.

A equipa foi, aos poucos, demonstrando fases de maior fulgor exibicional, assim como outras menos positivas e conseguiu, à sua maneira, incomodar os seus rivais directos por muito que se denotasse uma diferença desportiva e económica abismal. Resultados atingidos, esses, longe de demonstrarem a verdadeira dimensão do clube. A relação entre Mihajlović e a direcção conheceu o seu ponto final a 11 de Abril de 2016, com o interino Christian Brocchi a assumir as rédeas nas poucas jornadas de sobra do campeonato. Na verdade, essa relação foi conhecendo alguns sobressaltos ao longo do tempo embora a justificação dada se prendesse com a sequência de maus resultados. Miha foi, ao contrário do que possa parecer, fundamental, em várias vertentes, para o AC Milan dos dias de hoje.

Foto: ESPN

O indesejado Vincenzo Montella

Curioso verificar que após as experiências falhadas com homens da casa como Seedorf e Inzaghi, o corpo directivo virou as suas atenções para dois técnicos com passados gloriosos em clubes rivais dos rossoneri como o Internazionale e a AS Roma. Montella, tal como Mihajlović numa primeira instância, não recebeu apoio da massa adepta. A impugnação logo se fez sentir e mais uma vez a divisão entre a direção e os adeptos entrava em decadência.

O ex-técnico da Sampdoria, clube onde não teve vida facilitada até ver assegurada a permanência na Serie A, foi aos poucos ganhando a confiança dos mais críticos depois de um arranque de temporada razoável. Por outro lado, viu apenas algumas posições da sua equipa serem cirurgicamente reforçadas com as aquisições de Matias Fernández, Mario Pasalic, José Sosa, Gustavo Gómez e Gianluca Lapadula. Retirando da lista Matias e Pasalic, ambos sob o título de empréstimo, o AC Milan despendeu cerca de 25 milhões de euros em três jogadores.

Fonte: transfermarkt

Obviamente que para um adepto do AC Milan a lista acabou por não deslumbrar, mas já em épocas anteriores o cenário havia-se repetido. Dinheiro investido em quantidades astronómicas em poucos jogadores – em alguns casos só mesmo num – precisamente quando o clube vivia tremendas dificuldades financeiras. O certo é que Montella, mesmo tendo-se apercebido bem cedo das maiores debilidades do seu plantel, suprimiu-as de forma exemplar. E isto deve-se, sobretudo, à identidade que devolveu à equipa. É notória a coesão do balneário. Os jogadores jovens têm-se integrado na perfeição – basta olhar para Donnarumma, Locatelli e Calabria – e a contribuição de alguns elementos experientes acabou por facilitar a mensagem do treinador.

Relativamente ao desenho táctico, a filosofia de Montella, ainda que com ligeiras diferenças, é praticamente idêntica à que elevou a Fiorentina a um outro patamar entre 2012 e 2015. Utilizando o esquema clássico 1x3x5x2 e um estilo assente na posse de bola – o meio-campo composto por Borja Valero, Alberto Aquilani e David Pizarro era, de facto, o motor da equipa – surpreendeu totalmente o mundo do futebol durante os anos em que esteve ao serviço dos Viola.

Em Milão, definiu o 1x4x3x3 como seu esquema base. A defesa volta a ser crucial na construção de jogo, cuja função Romagnoli desempenha quase na perfeição, da mesma forma que os extremos no auxílio defensivo aos laterais. A Montella, mais do que a vertente táctica, reconhece-se a valentia de apostar em jovens jogadores. A sua maior conquista, e afastando a projecção absolutamente fantástica de Donnarumma, foi, muito provavelmente, Manuel Locatelli. O jovem médio de 19 anos, que assumiu a posição de um ícone como Riccardo Montolivo fustigado pelas lesões e já sentindo o peso da idade, estreou-se no encontro frente à Sampdoria e deixou óptimas impressões sobre o seu futuro. Locatelli é um puro regista à italiana. Fã de Andrea Pirlo e com qualidades um pouco semelhantes ao pequeno maestro, Loca abarca uma excelente visão de jogo, qualidade de passe e, sobretudo, inteligência na ocupação de espaços. Dono de remate fácil e de boa capacidade de desarme, o talentoso médio atingiu o clímax da sua carreira com um golo memorável frente à Juventus, em pleno San Siro, que posteriormente ditou a vitória final do AC Milan sobre os campeões em título.

O posicionamento de Locatelli no encontro frente ao Chievo. (Fonte: calciomercato)

São vários os aspectos positivos que podem ser apontados a L’Aeroplanino. Desde a conquista da Supertaça à confiança depositada em Gabriel Paletta, passando ainda pela revitalização da carreira de Gerard Deulofeu – a grande sensação da segunda metade da época –, pela forma como lidou com a lesão grave de Bonaventura e terminando nos minutos concedidos a Leonel Vangioni, um autêntico desconhecido até então. Se nos próximos anos se projecta um AC Milan de volta à elite do futebol europeu, Vincenzo Montella já demonstrou, para todos os efeitos, que merece uma injecção de total confiança para conseguir alcançar tal proeza.

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Tomás da CunhaMarço 12, 20175min0

Um clube que contrata um jogador como Edin Džeko espera certamente que tenha impacto imediato na equipa, sobretudo no que toca aos golos. Pela qualidade e pelo percurso que tem realizado ao longo da carreira, as expectativas sobre o bósnio são naturais e reveladoras de um estatuto importante que foi construindo. Apesar disso, o avançado da AS Roma não tem sido capaz de deixar uma primeira impressão fantástica por onde passa. Fazendo uma retrospectiva, nota-se uma tendência bastante curiosa: o ano de estreia de Džeko nunca é famoso, mas a segunda época é simplesmente extraordinária. Com paciência, os golos lá aparecem.

Em Roma não tem sido excepção. Depois de uma época aquém do esperado, que até pode ser considerada um fracasso, o bósnio disparou para uma segunda temporada de luxo, mais de acordo com as suas reais capacidades. Os números não mentem e colocam-no como um dos avançados em evidência no futebol europeu, com 29 golos em 39 jogos e um papel decisivo em várias competições. Quando está bem, torna-se uma referência ofensiva temível.

A fase auspiciosa do ex-Man City durava desde o início da época, mas o melhor momento de forma surgiu recentemente, quando conseguiu deixar a sua marca em 8 jogos consecutivos – o destaque vai para o hat-trick no El Madrigal, num jogo em que lhe saiu tudo bem. Esse período foi também o ponto alto da temporada da AS Roma, com vitórias sobre adversários de respeito (Fiorentina, Villarreal e Inter, sobretudo) e exibições bastante convincentes.

Džeko parou de marcar e os giallorossi pararam de ganhar. A quebra de rendimento do bósnio está longe de ser a única causa para o mau momento da AS Roma, mas a dependência excessiva que a equipa sente do seu ponta-de-lança tem sido prejudicial nos últimos encontros. Ofensivamente, o modelo de jogo de Spalletti está bastante condicionado pelas características do seu ‘9’, dando a ideia de ter poucas soluções e tornando-se previsível e fácil de anular.

A AS Roma tenta explorar de forma constante o poderio físico de Džeko através do jogo directo (muitas vezes a partir dos centrais), diminuindo drasticamente as probabilidades de os lances de ataque serem bem sucedidos. Por muito forte que o bósnio seja no jogo aéreo, terá sempre dificuldades para garantir a posse de bola e dar a melhor sequência à jogada. Sabendo que uma das mais valias do avançado de 30 anos é a capacidade de dar apoio frontal e soltar com um ou dois toques apenas, permitindo a progressão da equipa, explorar esse aspecto será sempre melhor solução.

O guião errado de Spalletti

Spalletti não tem tirado o melhor proveito da qualidade de Strootman [Foto: Voetbal International]
 

Chegámos à fase decisiva da temporada e todas as expectativas que a AS Roma criou foram defraudadas. Spalletti, apesar de ter estabilizado a equipa a nível de resultados, está a demonstrar-se incapaz de tirar o melhor partido de um plantel recheado de bons intérpretes. O guião que o técnico italiano passa aos seus jogadores é frágil, mas acima de tudo desadequado. Tendo médios que se relacionam muito bem com a bola, é pouco inteligente pedir-lhes que se livrem dela tão facilmente. A obsessão pela vertigem, neste caso, está longe de aproximar a equipa do sucesso continuado.

Quem mais beneficia com o jogo de correrias é Salah, que vive das mudanças de velocidade. O egípcio tem sido o jogador mais próximo de Džeko desde a mudança para o 3-4-2-1 (Nainggolan é habitualmente o médio mais adiantado), que tão bons resultados trouxe inicialmente. Desde então, a AS Roma tem privilegiado cada vez mais a largura através dos laterais Bruno Peres e Emerson, ambos muito acutilantes, em detrimento das combinações pelo corredor central, não aproveitando convenientemente os espaços que conquista entre as linhas do adversário.

Neste momento, Rüdiger e Strootman são praticamente dois “lançadores”, bem ao estilo de um quarterback de futebol americano. É um desperdício ter jogadores com tanta qualidade a desempenhar este papel, ora procurando Džeko, ora tentando encontrar Salah nas costas da defesa contrária. A equipa divide-se, ataca com menos elementos e oferece inúmeras vezes a bola ao adversário.

Aumentar o tempo e a qualidade do ataque deveria ser uma prioridade para Spalletti nesta altura. O problema está na falta de ideias do treinador romano, que já terá chegado ao limite do que pode oferecer à AS Roma. Para poder pensar em ombrear com a Juventus nos próximos anos, é necessário que existam outros estímulos e é fundamental que os jogadores estejam no seu potencial máximo. Imagine-se se esta equipa procurasse construir mais pacientemente, aproveitando a qualidade dos seus médios, e se passasse mais tempo em organização ofensiva, jogando com maior critério. Daria certamente um salto que, assim, dificilmente irá dar.

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Ricardo LestreNovembro 3, 20167min0

A capacidade de gestão dos dois gigantes de Milão nos últimos anos tem sido alvo de fortes críticas. Os resultados desportivos alcançados continuam a não reflectir o milionário investimento efectuado, inclusive, o das novas entidades asiáticas e reguladoras de ambos os clubes. Em particular, o caso do Internazionale tem sido bastante debatido porque, ao contrário do seu eterno rival na vigente época, não tem conseguido materializar todo o seu potencial técnico-financeiro numa saudável e próspera evolução.

A curta era Mancini

O regresso de Roberto Mancini ao banco dos Nerazzurri em 2014, depois da fraca réplica ao leme de Walter Manzarri, pretendia devolver a glória de tempos passados a uma instituição que continua a viver na sombra das conquistas de José Mourinho. Para além de um valor exorbitante despendido a nível de infraestruturas e expansão da marca, o reforço do plantel foi um dado essencial e assinalável que colocou, no imediato, o Inter de Milão num patamar altíssimo, aos olhos do resto do mundo. Mancini teve, de facto, um enorme leque de opções de qualidade à sua disposição.

Imagem: transfermarkt.pt
Imagem: transfermarkt.pt

O saldo final calculado entre as muitas compras/vendas no ano civil de 2015, sorriu aos cofres da direcção liderada por Erik Thohir. Na vasta lista acima indicada, o valor total corresponde a 90 milhões de euros divididos entre inúmeros empréstimos com opção de compra e aquisições em definitivo. Em contrapartida, o total de vendas atingiu um montante astronómico de 105 milhões de euros (!), o que, para além de demonstrar uma gestão aparentemente bem conseguida, sobretudo a nível financeiro, significou uma remodelação global do plantel.

O desafio não seria fácil. No entanto, e por muito que seja motivo de desacordo entre as massas, o palmarés de Roberto Mancini mostrava que este, como havia trabalhado no Manchester City, estava à altura do desafio. Com a queda do pano na Serie A 2015/2016, o Internazionale terminou num amargo 4º posto da tabela classificativa, a uma distância considerável da AS Roma e do Nápoles de Maurizio Sarri. Foi um ano de altos e baixos. A equipa demonstrou, por um lado, uma excelente coesão defensiva, com a dupla de centrais Miranda-Murillo em evidência, mas, por outro, uma certa dificuldade do meio-campo para a frente. Isto porque a criatividade produzida no apoio a Icardi só funcionou realmente em algumas partidas e o internacional argentino encontrou-se desapoiado de forma frequente. A indecisões tácticas de Mancini, variando entre os sistemas 4-2-3-1, 4-3-3 e/ou 4-4-2, foram, assim, o espelho da inconstância do polo azul de Milão.

Foto: Manchester Evening News
Foto: Manchester Evening News

Incessante procura da salvação em solo holandês

A degradação das relações internas de Roberto Mancini levou ao seu despedimento apenas a duas semanas do início do presente campeonato italiano. Para o seu lugar aterrou o já esperado Frank De Boer, após inúmeras épocas ao serviço do Ajax de Amesterdão. Com um plantel já formado e com uma discrepância gigante entre compras e vendas  (de 129 milhões para uns meros 12 milhões), ao contrário do ano anterior, o timing da apresentação do ex-internacional pela Laranja Mecânica não foi, obviamente, o ideal. Bem longe disso.

Imagem: transfermarkt.pt
Imagem: transfermarkt.pt

O reinado de De Boer foi longo em Amesterdão. Foram mais de 260 jogos divididos por 6 épocas, com 4 títulos da Eredivisie conquistados (tetra entre 2011 e 2014), mas o seu epílogo vestiu-se cores fúnebres, que o Ajax viu escapar os últimos dois campeonatos para o seu arqui-rival PSV. Em 2015/2016, aliás, tal sucedeu na última jornada, e mais precisamente nos últimos 20 minutos de uma longa época que agudizou ainda mais o desgaste (natural) de De Boer.

Ainda que com números interessantes – no último exercício, o Ajax esteve 18 jogos sem sofrer qualquer golo e assinou uma 2ª volta sem experimentar o sabor da derrota –, o técnico holandês era, não raras vezes, acusado de não ter o rasgo e agilidade necessários para ultrapassar os problemas que o seu robotizado 4-3-3 enfrentava num ou noutro momento. A turma de Amesterdão vivia sobretudo de um jogo marcadamente exterior, com grande intervenção dos extremos, apelando à superior qualidade individual em terrenos holandeses. Essa capacidade de desequilíbrio – em muitos momentos fruto, precisamente, de mais mérito individual do que capacidade colectiva –, aliado a uma capacidade para saber congelar o jogo com bola – muitas vezes, até, tornando-se uma equipa algo monótona nos seus processos – era praticamente garante de ascendente interno no país das tulipas. Lá fora, porém, com um upgrade da dimensão competitiva, no referido ciclo temporal de 6 épocas, não houve uma única campanha digna de realce na Europa da parte do Ajax, falemos da Liga dos Campeões ou de Liga Europa. A saída do comando técnico dos Ajacieden configurou, assim, como que um alívio para ambas as partes. Para o próprio clube/equipa, que precisava de soltar as amarras que, muitas vezes, Frank lhe impunha; e para o técnico holandês, desgastado (e quiçá desmotivado), depois de longas seis épocas e de já pouco ter a provar no contexto interno.

Em Itália, a aplicação dos mecanismos do seu tradicional 4-3-3 não surtiu efeito. O Inter rubricou exibições paupérrimas e saiu várias vezes do Giuseppe Meazza sob forte contestação dos adeptos. A pressão acrescida a que De Boer estava sujeito, não só pela elevada injecção de capital mas também pela crise de troféus que o clube atravessava e atravessa de momento, colocou o holandês prontamente numa situação instável. Posto isto, o seu afastamento premeditado conheceu a oficialização no pós-Sampdoria, encontro em que o Inter saiu derrotado por uma bola a zero no Luigi Ferraris, relegando a equipa para um inacreditável 12º lugar.

As ilações que se retiram da estadia de Frank De Boer são claras. Numa altura em que considerava a possibilidade de fazer um ano sabático, o convite do Inter assumiu-se como um verdadeiro presente envenenado. Pelo timing em que surgiu, após a saída de Mancini e a escassos dias do arranque da época; pelo facto da pouca (ou nenhuma) influência que teve na construção e formatação do plantel; e ainda porque o Inter continua a viver entre o limbo de uma gestão ilusória e de expectativas atraiçoadas.

Foto: quotidiano.net
Foto: quotidiano.net

Artigo elaborado em parceria com Filipe Coelho, redator do futebol holandês.


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