21 Ago, 2017

Arquivo de Holanda - Fair Play

20314423_1637648169586752_240675662_o.jpg?fit=1024%2C576
Filipe CoelhoJulho 26, 201713min0

Depois de um 2016/17 muito positivo, a nova época na Holanda traz consigo, por diferentes e diversos motivos, desafios de sobra. A Feyenoord, Ajax e Utrecht de nada valerá gozar os triunfos passados; antes, terão de se readaptar face a novos contextos, para que 2017/18 seja uma época ainda mais saborosa do que aquela que tão boas recordações deixou.

FEYENOORD

Kampioen van Nederland! Finalmente o enguiço foi quebrado, e, dezoito anos depois, o Feyenoord voltou a provar o doce sabor da conquista, coroando-se como o rei do território holandês. O bom arranque da época foi fundamental para o sonho ser alimentado e, enfim, para a concretização de um objectivo há tanto tempo adiado.

A travessia no deserto foi longa e contou com momentos verdadeiramente humilhantes, como seja a hecatombe às mãos do PSV, em 2010/11, numa derrota por 10-0! Os primeiros sinais de ressurgimento haveriam de aparecer na época seguinte – Ronald Koeman assumiu o comando técnico da equipa e foi o responsável por uma certa mudança de mentalidade em Roterdão, conseguindo, por exemplo, um 2º lugar em 2013/14.

Depois de bons indícios em 2015/16 – e da conquista da Taça da Holanda –, 2016/17 foi a época da suprema redenção. Mas não foi, de todo, fácil, tendo em conta que os pupilos de Giovanni van Bronckhorst somaram 3 derrotas nas últimas 10 jornadas, sendo que, aqui, a curiosidade prende-se com o facto de duas dessas derrotas terem sido às mãos dos rivais citadinos – Sparta e Excelsior.

Na corrida para a conquista do título, é fundamental falar em vários nomes que se revelaram decisivos (sobretudo na recta final). Botthegin (central algo inestético no seu jogo mas eficaz), VilhenaEl-Ahmadi (dupla equilibradíssima no miolo) e Jorgensen (trouxe classe e killer instinct, acabando como o maior goleador da prova) fizeram épocas notáveis, sem esquecer nomes como Berghuis (muito forte no drible interior, como que fazendo lembrar Robben), Toornstra (elemento sempre ligado ao jogo e com um pontapé de meia-distância temível) ou o keeper Brad Jones, que assinou, quiçá, o mais importante momento da época quando fez uma defesa monstruosa, no último suspiro do jogo de Eindhoven (vitória do Feyenoord por 1-0, diante do PSV), aumentando assim a vantagem pontual para 5 pontos, face ao então bicampeão em título, à passagem da 6ª jornada. O Feyenoord foi, aliás, o único conjunto a vencer a turma de Eindhoven por duas vezes em 2016/17.

Mesmo permanecendo durante toda a temporada como líder da Eredivisie, o libertar do champagne por parte dos homens do Feyenoord só pôde ser consumado na última jornada. E que bonito congregar de emoções! 3-0 no Heracles Almelo com um hat-trick de Dirk Kuyt, ele que, volvidas algumas horas, anunciava a sua despedida do futebol profissional. O homem que volvera a Roterdão com um objectivo bem definido na sua mente, dava, assim, numa bandeja, a maior alegria aos (seus) adeptos sedentos.

Foto: Goal.com

2017/2018

O desafio para o agora campeão holandês passa pela capacidade de ultrapassar um defeso extremamente movimentado e, sobretudo, pelo regresso à Champions, uma competição que o Feyenoord não frequenta desde 2002/03.

Kongolo (Mónaco), Karsdorp (Roma), Elia (Basaksehir), Berghuis (regresso ao Watford) e Kuyt (fim de carreira) são todos nomes de elementos muito importantes na fantástica campanha de 2016/17. Mas todos eles acabam de abandonar Roterdão. A verdade é que, ainda assim, Giovanni van Bronckhorst pode dar-se por satisfeito. Primeiro, porque os substitutos destes chamam-se Haps (AZ), Diks (empréstimo da Fiorentina), Boetius (Basileia), Amrabat (Utrecht) e St. Juste (Heerenveen) – todos muito jovens (o mais velho é Haps, com 24 anos) mas igualmente com rendimento comprovado e potencial ainda por descobrir.

E na categoria dos reforços podem ainda encaixar-se os nomes de Vermeer (um dos melhores guarda-redes da Eredivisie em 2015/16) e – ainda que não no imediato – Van Beek (central de 22 anos), dois elementos que sofreram graves lesões e que estão há muito arredados da competição. A esta boa noticia ainda se podem juntar as renovações dos contratos de Van der Heijden e Toornstra, dois jogadores bem mais experientes e tão utilizados quanto utilíssimos na época transacta.

Com a saída de cena de Kuyt, há a possibilidade de o Feyenoord deixar um pouco de lado o seu 4231, ensaiando uma aproximação ao 433, com o trio El-Ahmadi, Vilhena e Amrabat no miolo. E (ainda) sem uma alternativa válida a Berghuis do lado direito do ataque, deriva Toornstra para essa zona, ele que sabe vir para espaços interiores, robustecendo o meio-campo – uma opção sobretudo a considerar em jogos de maior dificuldade, como seja os da liga milionária.

De qualquer forma, se há sector a que os homens de Roterdão deverão acudir através de reforços é o sector mais atacante. Só Jorgensen é um elemento claramente acima da média; e, talvez por isso, Van Bronckhorst já tenha assumido que decorrem conversas em forma de sondagem a Robin van Persie. Será um remake do que foi feito com Dirk Kuyt na busca de um desfecho igualmente feliz…?

Foto: MySoccer HQ

AJAX

2016/17 não trouxe títulos para Amesterdão mas o Ajax terá de ser considerado como um vencedor. Primeiro porque voltou a ser extremamente competitivo internamente; depois porque retornou a uma final de uma competição europeia, enquanto culminar de uma campanha grandiosa na Liga Europa; e, sobretudo, porque voltou a ver-se um Ajax fiel a um estilo cruyffiano, com um futebol ofensivo, atractivo, enfim, apaixonante, e que fez a Europa do futebol voltar a olhar para a Holanda como palco a considerar.

O grandioso mérito pertencerá a Peter Bosz, treinador que pegou na turma ajacien e que a retirou de um certo carácter amorfo em que se havia envolvido nas últimas épocas. Bosz mudou e inovou, ainda que isso tenha custado alguns pontos na 1ª volta da última Eredivisie, até que todas as suas ideias ganhassem corporização no relvado. Fiel a um estilo de jogo cativante, vários foram os jogadores que se catapultaram – Onana, Sánchez, De Ligt, Sinkgraven, Schone, Ziyech, Younes, Kluivert ou Dolberg – numa equipa que viu o título fugir-lhe por um ponto e enfrentou um Manchester United minuciosa e estrategicamente montado para anular as suas virtualidades na final da Liga Europa.

Seja como for, o orgulho foi restaurado em Amesterdão, com a equipa a expressar-se num 433 muito ofensivo, assente num trio de meio-campo completamente virado para a frente e com unidades no último sector tecnicamente muito habilitadas. Para além disso, a marca Ajax ficou bem vincada igualmente no aspecto da média de idades – um conjunto tremendamente jovem, mas que, inevitavelmente, em alguns momentos, também revelou ingenuidade.

Se os indícios eram bons e 2016/17 se encarava como uma óptima base para o futuro, rapidamente essa percepção mudou. Bosz foi convidado pelo Borussia Dortmund e esse foi o rastilho suficiente para se perceber que nem tudo ia eram rosas em Amesterdão. Tornaram-se públicos os desentendimentos entre Bosz (e o seu adjunto Kruzen) e a outra facção da equipa técnica, encabeçada por Dennis Bergkamp. O comboio do Borussia passou na hora certa e o competente técnico holandês deixou a (hoje) Arena Johan Cruyff rumo ao Signal Iduna Park.

Foto: NRC.nl

2017/2018

O enorme desafio por que passa hoje o Ajax traduz-se na forma como irá ultrapassar a saída do seu treinador (Bosz), a transferência do seu capitão (Klaassen) e o trauma provocado pelo drama vivido por um dos mais talentosos elementos da sua base (Nouri).

O sucessor de Bosz foi encontrado em casa – trata-se de Marcel Keizer, ex-técnico do Ajax B, para além de ser também sobrinho de Piet Keizer, lendário extremo do Ajax e da selecção holandesa na década de 70. Também calvo como Bosz, Keizer destacou-se pelo trabalho na equipa secundária na época passada, ao terminar a 2ª divisão holandesa no 2º lugar, depois de passagens pelo Telstar, Emmen e Cambuur (este último já na Eredivisie). Não é crível que altere substancialmente a forma como o Ajax se apresentou na última época, até tendo em conta o bom legado deixado por Bosz.

Diferentemente será se o mercado lhe levar os seus diamantes. Dolberg tem sido associado ao Real Madrid, Sánchez ao Barcelona e Younes já teve abordagens da Bundesliga. Até ver, porém, ‘apenas’ Davy Klaassen saiu rumo ao Everton – um ‘apenas’ enganador, que o loiro médio era a voz de comando em campo, para além de ser um elemento preponderante na manobra ofensiva, com grande chegada na área adversária –, e deixando assim a braçadeira de capitão a Joel Veltman (também ele com aproximações de Inglaterra, mais propriamente do Tottenham). De regresso está Huntelaar – e aqui reside um ponto importante, que Kaizer poderá sentir-se tentado a buscar uma compatibilização entre Dolberg e o veterano avançado. Se avançar para isso, terá, necessariamente, de mexer na estrutura e nos comportamentos colectivos da equipa, o que comportará um risco considerável.

Finalmente, será decisivo perceber como, colectivamente, o conjunto de Amesterdão superará a tragédia que se abateu sobre Nouri. O médio de 20 anos era um dos elementos mais queridos da cúpula ajacien, pelo facto de ter feito toda a sua formação no Ajax e de ter sido eleito o melhor jogador do 2º escalão na temporada passada, revelando-se um dos maiores talentos da nova geração. Por tudo isto, eram-lhe reservadas enormes expectativas para a nova época na equipa principal . Que terão de ser digeridas e ultrapassadas por um balneário que, naturalmente, sentiu (e ainda sente) emocionalmente um episódio desta natureza. Fazer do trauma o combustível é aqui indispensável.

Foto: De Telegraaf

UTRECHT

Tal como em Portugal, na Holanda, há os 3 e “os outros”. E o vencedor dos “outros”, nas últimas duas épocas, foi o Utrecht. Em 2015/16, ficou em 5º na Eredivisie e chegou à final da taça; na época passada, terminou em 4º e caiu nos quartos de final da segunda competição do país. Em qualquer destas épocas chegou ao playoff interno de acesso à Liga Europa (mini-campeonato entre as equipas que ficam no 4º, 5º, 6º e 7º lugares da classificação) – no primeiro ano, perdeu na final diante do Heracles Almelo; agora em 2016/17 ultrapassou na eliminatória decisiva o AZ Alkmaar e chegou, finalmente, à Liga Europa.

O obreiro chama-se Erik ten Hag. Proveniente das camadas jovens do Bayern de Munique – já depois de uma passagem bem sucedida pelo Go Ahead Eagles –, Ten Hag construiu uma equipa de autor, com um modelo muito bem definido, logrando, em 2016/17, a 2ª melhor prestação do Utrecht num período de mais de 20 anos. O que lhe terá valido, inclusivamente, a cogitação para o comando técnico do Ajax e até uma alegada indicação para o assumir do cargo de seleccionador nacional holandês.

Jogando estruturalmente de forma diferente em relação à maioria das equipas da Eredivisie, o Utrecht dispõe-se num 442 losango, com demonstrada aptidão para privilégio de um jogo construído de forma mais pausada, ou variando, em alguns momentos, para um jogo mais directo, surgindo Haller como jogador-alvo, com aproximações imediatas da linha intermédia, para, assim, surgirem ligações e combinações com Kerk ou com o ex-sportinguista Labyad, atacando a baliza do opositor rapidamente.

Com um plantel tendencialmente equilibrado, torna-se indispensável, no entanto, destacar o papel fundamental de elementos como Janssen (capitão e elemento fulcral ao nível da bola parada) Ayoub, Brama, Amrabat, Haller, para além do jovem Troupée (lateral de grande propensão ofensiva) e do entretanto reabilitado Labyad.

Foto: voetbal.com

2017/2018

A nova época é um teste de fogo para os utregs: pelas importantes baixas que o plantel já sofreu e pela oportunidade de voltar a disputar uma competição europeia (com a inerente necessidade de gestão do esforço que esse contexto implica).

Perder o melhor marcador estrangeiro da história do clube não é um bom sintoma; porém, segurar Haller tornou-se uma missão impossível. O francês era muito mais do que um matador, sendo elemento vital nas últimas duas épocas de sucesso, pela forma como jogava e fazia jogar os companheiros que com ele coabitavam. E as saídas de Amrabat (Feyenoord) e Barazite (Malatyaspor) possivelmente também deixarão mossa. Caberá a Ten Hag recuperar a fórmula utilizada há cerca de um ano, quando então partiram Letschert, Ramselaar e Boymans.

Todavia, a abordagem ao mercado aparenta ter sido cirúrgica e com padrões interessantes de qualidade, com o recrutamento de elementos interessantes de plantéis de equipas menores (Twente, NEC, Cambuur ou NAC), para além das oportunidades dadas ao renomado Urby Emanuelson e ao ex-Benfica Bilal Ould-Chikh. Resta saber se Simon Makienok (Palermo) terá capacidade para fazer esquecer Haller. Em termos fisionómicos, dir-se-ia que sim; em termos técnicos, os primeiros apontamentos deixaram muito mais dúvidas do que certezas.

Depois de, na 2ª eliminatória de acesso à Liga Europa, ter ultrapassado o Valletta (Malta), segue-se, de imediato, o medir de forças diante de um adversário bem mais robusto como é o caso do Lech Poznan (Polónia). Muito daquilo que será a época do Utrecht terá uma definição já nas próximas duas semanas, o que apela a que haja uma rápida integração dos elementos que agora chegam. E quão bom seria se chegasse também… Wesley Sneijder? Ten Hag não confirma contactos, mas, na Holanda, garante-se que já houve aproximações na tentativa de persuadir o jogador mais internacional de sempre pela Laranja a jogar pelo clube da terra onde nasceu.

Foto: nrc.nlrd

destaque-1.jpg?fit=1024%2C576
Filipe CoelhoMarço 30, 20178min0

Já distante vai a epopeica campanha no Mundial do Brasil, em 2014. Então, a Laranja materializou na perfeição o plano gizado pelo seu estratega – e Van Gaal era muito isso. Depois, de Hiddink a Blind, toda a projecção ruiu que nem um castelo de cartas. Não houve Europeu’2016 e o Mundial’2018 parece irremediavelmente condenado. A Laranja há muito deixou de ser mecânica – e agora sepultou o seu carácter suculento.

A ressaca de Van Gaal

O Mundial de 2014 esteve à beira de ser um sonho. A forma clara como os holandeses ‘limparam’ o grupo e a maneira meticulosa como sempre surgiram em campo – como se Van Gaal já tivesse jogado aqueles jogos noutra vida –, assente num 532 preparado para potenciar a genialidade de Robben, Van Persie ou Sneijder, deu sempre a ilusão de que a Holanda poderia finalmente chegar ao maior dos ceptros. Tal fantasia chocou com a realidade nas meias-finais, perdida nas grandes penalidades às mãos da Argentina de Messi.

Louis Van Gaal saiu para Manchester e a Selecção ficou entregue a Hiddink. O plano era claro: o veterano técnico conduziria a Laranja até ao França’2016, para depois a deixar nas mãos de Danny Blind, que já o acompanhava como treinador-adjunto. Quase três anos depois, todo o esboço saiu gorado. A qualificação para o último Europeu roçou o risível (4º lugar no grupo, a 5 pontos do 3º lugar!) – e Hiddink saiu, até de forma antecipada. Blind assumiu o lugar que lhe estava destinado, mas apenas 7 pontos em 5 jogos (atrás de França, Suécia e Bulgária) precipitaram um desfecho que nunca aparentou ser o final mais improvável. A hecatombe, em Sófia, na passada 6ª feira foi tão-só o paradigma daquilo que tem sido a realidade holandesa dos últimos anos.

Não, a Holanda já não é a super selecção que venceu o Euro’1988 ou que ofereceu ao mundo, pela mão de Rinus Michels, uma forma inovadora de pensar e o jogo, instituindo o ‘futebol total’ (a ponto de a FIFA o ter eleito como o Treinador do século XX). Outrora, mesmo quando perdia, a Holanda fazia-o com estilo, com uma identidade muito própria, deixando um odor a bom futebol. Actualmente, nem os resultados honram o passado, nem, sobretudo, o perfume futebolístico replica o que se vira com Cruyff, Van Basten, entre vários outros.

Não obstante, não sendo a melhor selecção do mundo, a Holanda está muito longe de poder aceitar o destino que lhe vem sendo traçado – há já quem tenda a esboçar paralelismos com a Hungria, que depois dos anos 50, não mais se voltou a reerguer, quer ao nível da selecção quanto a nível de clubes. Um cenário demasiado catastrofista; mas que acaba por encontrar um mínimo traço justificativo naquilo que tem sido o trajecto desde 2014.

Danny Blind e Louis Van Gaal (Foto: Daily Mail)

(Des)Confiança Blind

Se a opção por Hiddink não foi feliz, a continuação do projecto com Blind foi um verdadeiro tiro no pé. À excepção de uma curta passagem pelo comando técnico do Ajax, há mais de 10 anos, o antigo internacional holandês nunca demonstrou ter o pedigree e a capacidade desejáveis para ser o timoneiro da Laranja, ainda mais numa fase tão periclitante. A deslocação à Bulgária limitou-se a ser a gota de água que fez transbordar o copo. Mantendo a face táctica do 433 (recuperada depois da partida de Van Gaal), os holandeses voltaram a fazer uma partida lamentável a todos os títulos. O agora ex-seleccionador deu a titularidade ao central Matthijs de Ligt, jovem de apenas 17 anos do Ajax com pouquíssimos minutos que pudessem justificar tal convocatória e, ainda mais, uma aposta para titular – e que acabou em desastre, pela forma como o jovem sucumbiu à pressão e foi protagonista nos dois golos sofridos pelos holandeses; colocou Wijnaldum e Strootman lado a lado, como que funcionando num duplo pivot demasiado amarrado e sem conseguir potenciar as melhores vertentes do jogo de cada um deles, deixando Klaassen sem capacidade de criar jogo ofensivo; e na altura de correr atrás do prejuízo, retirou o malogrado De Ligt e o irreverente Promes (o extremo do Spartak de Moscovo foi dos menos maus) para lançar Sneijder pelo corredor esquerdo(!) e Luuk de Jong (elemento chamado à última da hora e claramente em má forma); e tudo isto com elementos como Viergever, Veltman, Vilhena e Depay, que, pela época que têm vindo a realizar, mereciam outra consideração e ponderação. Resultado: um conjunto de opções erróneas, e que tiveram o condão de transformar o jogo holandês em algo completamente desgarrado, sem ligação possível e pejado de apelo às disputas aéreas, como que traindo tudo aquilo em que Cruyff acreditava (e pregava) e que durante muito tempo foi o ADN dos holandeses.

Os números são ainda crus e duros: em 17 jogos, Blind somou 7 vitórias, 3 empates e 7 derrotas. E restringindo apenas a jogos oficiais, são 5 derrotas em 9 partidas, com apenas 3 vitórias, diante de Cazaquistão, Bielorrússia e Luxemburgo. Manifestamente pouco. Ainda que não conte com a qualidade de outrora, a Holanda tem toda a capacidade para criar um onze inicial isento de qualquer desconfiança e perfeitamente equiparável ao de outras selecções que, por ora, lideram os seus grupos de qualificação, como sejam os casos da Suíça, Polónia, Croácia ou Sérvia. Tem é de colocar as unidades devidas nos lugares/funções onde mais possam oferecer ao jogo, sem esquecer o imperativo resgate que há a fazer em relação a alguns princípios do seu jogo – esta Holanda parece ter-se esquecido de saber o que fazer com bola.

Para futuro

É inevitável pensar que nomes como Robben, Sneijder, Van Persie e Huntelaar contam já com 32 ou mais anos, estando prestes a fechar-se aqui uma geração que – não esqueçamos! – levou a Holanda a uma final (2010) e a um 3º lugar (2014) em Mundiais consecutivos. Tempos idos e que se ameaçam abafados se a ausência no Rússia’2018 se concretizar, naquele que seria o igualar do registo de 1982-1984, quando os holandeses ficaram de fora de Mundial e Europeu (época em que a fase de qualificação era, ainda assim, bem mais ‘apertada’, na medida em que se qualificavam muito menos selecções do que actualmente).

Não havendo um leque de jovens talentosos em quantidade assinalável (os sub-21 holandeses, por exemplo, não se qualificaram para o Europeu da categoria deste ano), a regeneração da equipa holandesa e a introdução paulatina de elementos com potencial – que Blind nem sempre soube gerir da melhor forma, como comprovado agora pelo caso de De Ligt, e antes, num episódio semelhante com Jairo Riedewald – terá de passar pelos nomes de Jetro Willems (PSV), Riechedly Bazoer (Wolfsburgo), Bart Ramselaar (PSV) ou Tonny Vilhena (Feyenoord), entre outros. Mas possivelmente também terá de encontrar-se um núcleo duro que sirva de ground zero a partir do qual seja possível evoluir, assente num plano de jogo convicto e ajustado.  

Sem jogos oficiais até Junho, a Federação Holandesa procura, agora, cortar com o passado Hiddink-Blind, optando por um nome que “ajude a reerguer o futebol holandês” (palavras de Jean Paul Decoussaux, director da KNVB). Entre as várias possibilidades aventadas, a mais desejada passa por Ronald Koeman. Todavia, o técnico do Everton terá já afirmado a sua indisponibilidade para tomar as rédeas da Laranja (tal como Frank de Boer), quiçá ainda ressentido pela opção de 2014 quando, após demonstrar interesse em suceder a Van Gaal, a KNVB nomeou… Hiddink. Há, pois, a hipótese Van Gaal (pouco provável que aceite regressar pela 3ª vez), Gullit (já demonstrou vontade), Ron Jans (técnico do PEC Zwolle, que tem feito um trabalho meritório neste clube agora sustentado na liga holandesa) e Jurgen Klinsmann (recentemente saído da selecção norte-americana).

Sob pena de o fundo ir baixando, a Holanda não pode voltar a errar. Ou a cometer constantes lapsos na escolha de quem os comanda em campo e, por consequência, de quem veste a malha laranja. Uma malha carregada de simbolismo, que, outrora, fora já exemplo de um futebol cativante e de resultados imensamente respeitáveis. E a Europa futebolística necessita dessa Holanda.

Holanda, rainha da Europa em 1988 (Foto: Fox Sports)

O presente artigo foi realizado no âmbito da parceria que o Fair Play estabeleceu com o Sapo24, e a sua publicação original pode ser consultada aqui.

vi.nl_.jpg?fit=1024%2C768
Filipe CoelhoFevereiro 7, 201710min0

Oito meses depois da conquista do bicampeonato, são também oito os (muito) pontos de distância face ao líder Feyenoord. Sem outra competição para disputar que não a Eredivisie, a época ameaça ser amarga para Cocu e companhia. As causas da crise são várias mas a porta não está totalmente fechada – como pode ainda reerguer-se o PSV?

Depois de diagnosticadas as causas para uma campanha bastante abaixo do expectável, é altura de perceber por onde pode o PSV crescer para encurtar as distâncias para os dois primeiros – 8 pontos face a Feyenoord e 3 relativamente a Ajax – e, assim, sonhar com a intromissão na luta pelo título.

Balança de mercado

O mercado de inverno trouxe duas noticias relevantes. Por um lado, o retorno de Marco van Ginkel, emprestado pelo Chelsea, tal e qual como havia sucedido há um ano atrás. O médio holandês traz outra capacidade de chegada à área adversária, destacando-se pela notável veia goleadora.

Por outro lado, o PSV deixou partir Narsingh (Swansea) e Jozefzoon (Brentford). Ambos extremos, se o segundo pouca relevância e minutos apresentava na equipa principal, já o primeiro era figura constante e importante no onze titular. Estranha-se, por isso, que os Boeren, tendendo a canalizar uma importante fatia do seu jogo pelos corredores laterais, tenham deixado sair dois elementos que actuam nessa zona do terreno. Ainda mais porque Locadia continua a recuperar de uma grave lesão, não havendo ainda uma data definitiva para o seu regresso.

Da nuance ao dilema

Em virtude destas saídas, o próprio modelo do PSV tem sofrido, nas últimas semanas, algumas nuances. Se era relativamente expectável que fosse Steven Bergwijn – um jovem extremo puro de 19 anos, ainda mais rápido e imprevisível do que Narsingh, mas com notórios e naturais problemas ao nível da decisão, sobretudo no momento (ou não) de finalização – a assumir o papel interpretado, até então, pelo agora jogador do Swansea, Cocu tem optado por colocar Ramselaar na ala esquerda (com Pereiro na direita).

E isto apresenta implicações claras na forma como o PSV se predispõe a jogar. Contratado ao Utrecht no inicio desta temporada, Ramselaar tem sido, possivelmente, o jogador mais constante e consistente da turma de Eindhoven, destacando-se no centro do terreno pela forma como é capaz de acelerar o jogo com e sem bola, e quase sempre pelo chão. Um autêntico dínamo, que busca, dá, acelera e volta para dar linha de passe.

Colocar o pequeno médio holandês na ala e esperar que ele apareça em velocidade (à semelhança do que fazia Narsingh) é contra-producente. E é o próprio jogador que, pela sua intuição, procura o espaço central, não se deixando fixar na ala. Isto leva a que o PSV acabe por viver um dilema. Não pode estar tão dependente de um jogo directo, ainda para mais quando não tem extremos puros para ganhar as costas das defesas em profundidade.

Ramselaar a perceber as dificuldades da equipa e a ter sensibilidade para recuar. É neste espaço que pode realmente fazer a diferença.

Por outro lado, cambiar uma matriz de jogo tão enraizada não é fácil. Ainda para mais quando Luuk de Jong é o ocupante do espaço #9, destacando-se pela sua imponência física e pela forma elogiável como vence praticamente todos os duelos aéreos. Há, pois, um instinto natural de colocar a bola na frente de forma rápida e pelo ar, não se promovendo um jogo de conexões e apoios.

Isto leva a situações algo discutíveis em termos de eficácia. Tomando por referência a partida do Heerenveen, e numa altura em que o PSV se encontrava em desvantagem (2-3), a partir do minuto 79, os Boeren despejaram autenticamente 8 bolas directamente da defesa para o ataque, em menos de 10 minutos! Uma enormidade de passes longos, com um critério pouco racional, num momento em que não havia grande capacidade de largura no jogo da equipa, já que, depois de mexer, Cocu deixou Ramselaar e Van Ginkel nas alas. É certo que o conjunto de Eindhoven ainda consumou a reviravolta, mas não como consequência directa da opção por esse estilo de jogo mais primitivo.

Vejamos alguns lances que ilustram plenamente a forma como o PSV tenta atacar.

Sem grandes linhas de passe, Daniel Schwaab vai fazer um passe mal medido. O Heerenveen recuperará a bola e terá espaço e capacidade para ‘meter’ o ataque rápido.

Um minuto depois, idêntica situação: na zona central do terreno, onde há 4 jogadores do Heerenveen, um vazio de elementos do PSV.

Jogada-tipo do PSV. Passe longo (aqui de Moreno), disputa aérea, (neste caso de Pereiro), e recuperação para remate de Luuk de Jong (sinalizado a amarelo, tal como Propper). Situação de 3×2 em função de um mau posicionamento dos homens do Heerenveen.

Mais um lance da mesma estirpe, que acabará por redundar em golo. Passe longo de Moreno, três homens a atacar a profundidade e vai ser Propper a cabecear a bola na linha limite da grande área do Heerenveen (aproveitando um erro do keeper Mulder).

A circunstância do costume. Aqui haverá passe de Ginkel com a bola a perder-se pela linha de fundo.

De facto, muitas das dificuldades sentidas pelo PSV nesta temporada decorrem desse perfil de jogar. Perante blocos recuados e relativamente coesos, a reiterada opção pelo passe longo e directo tem uma eficácia tremendamente discutível. Assim, se os Boeren não pretendem uma mudança na forma preferencial como atacam, é pelo menos evidente que a 2ª linha tenha de estar mais avançada e mais junta, mais preparada para a recuperação da 2ª bola, não permitindo que o esférico ‘fuja’ do último terço ofensivo.

Por outro lado, e recuperando uma ideia atrás expressa, o recente arrastamento de Ramselaar para a esquerda – em Almelo, até começou à esquerda e acabou à direita – e a afirmação de Pereiro na direita, ambos com pés trocados em relação à faixa ocupada, acaba por levar a que aconteçam com mais assiduidade movimentos interiores destes dois elementos, o que, inadvertidamente ou não, torna a equipa mais ligada entre si.  

Comportamento e conexões estabelecidas entre os jogadores do PSV em três partidas recentes. Da esquerda para a direita, do mais recente para o menos recente, nota-se uma evolução, com os jogadores mais próximos entre si e suscitando, assim, maior número de ligações. (Fonte: 11tegen11)

A rectaguarda

Finalmente, o PSV, habitualmente uma equipa que sofre poucos golos, tem, nas últimas semanas, visto a sua baliza ser violada de forma reiterada. São 6 golos sofridos nos últimos 3 jogos, e ainda a sensação de que a equipa de Cocu é facilmente desmontável, pela frequência com que surgem espaços no corredor central (diante do Heerenveen isso foi recorrente).

No fundo, nota-se uma equipa que, em organização defensiva, tem problemas na coordenação na linha defensiva mais recuada, com distância excessiva entre os elementos que a compõem e um controlo nem sempre competente da profundidade. Por outro lado, até pela opção de fazer de Guardado médio-defensivo, vários são os momentos em que a cobertura do espaço central do terreno não é feita da melhor forma, surgindo clareiras evidentes. O mexicano é elemento fundamental na forma como inicia o processo ofensivo dos de Eindhoven, mas a amplitude da sua acção em termos defensivos está longe de ser o garante de noites tranquilas ao reduto mais recuado.

Evidentes duas situações. A fraca cobertura do espaço central, bem como uma distância desmesurada entre os elementos da linha mais recuada (sobretudo entre Arías, defesa direito, e Schwaab).

Uma equipa pouco fechada em si para melhor controlar os movimentos do adversário. Mais gritante ainda: o controlo deficiente da profundidade por parte da última linha defensiva, dando possibilidade ao jogador do AZ Alkmaar de surgir isolado diante da baliza.

Para diante

Em suma, a chegada de Van Ginkel aporta consigo mais um elemento de inegável qualidade ao meio-campo do PSV, hoje com maior capacidade de fogo e de … golo. Tem ainda o condão de possibilitar a derivação de Ramselaar para a ala esquerda. E aqui pode estar o maior dilema para Cocu. Tornar a equipa mais versátil e ligada no seu jogo, com outra capacidade de se espraiar em campo através de um jogo posicional mais evidente ou manter a opção pelo chamamento de Guardado como primeiro homem de potenciação de um jogo mais directo e de apelo à disputa aérea, mas já sem a velocidade de Narsingh para explorar. E finalmente o acerto dos mecanismos defensivos colectivos, algo que pode sofrer um input com a ansiada total recuperação de Jorrit Hendrix.

Os oito pontos de atraso face ao Feyenoord podem parecer uma distância demasiado longínqua, mas são ainda recuperáveis. Até porque o PSV terá de visitar a Banheira de Roterdão ainda este mês, tendo a oportunidade de relançar todo o campeonato. Para aquele que é possivelmente o plantel mais robusto da Eredivisie, ainda há tempo. Mas Cocu tem de fazer por potenciar algum talento que, por motivos vários, tem estado oculto ou negligenciado.

psvinside.nl_.jpg?fit=1024%2C576
Filipe CoelhoJaneiro 27, 20176min0

Oito meses depois da conquista do bicampeonato, são também oito os (muito) pontos de distância face ao líder Feyenoord. Sem outra competição para disputar que não a Eredivisie, a época ameaça ser amarga para Cocu e companhia. As causas da crise são várias mas a porta não está totalmente fechada – como pode ainda reerguer-se o PSV?

Era pouco expectável que, à entrada para o inicio da 2ª volta, e ultrapassado o interregno invernal, oito pontos separassem PSV de Feyenoord. Pelo menos da forma como a tabela está montada, com o bicampeão tão atrás do rival de Roterdão.

Mas vários factores parecem contribuir para uma época perfeitamente abaixo das expectativas. Com efeito, para além da distância a separar da liderança, o conjunto de Eindhoven está já fora da Liga dos Campeões (e não conseguiu sequer a repescagem para a Liga Europa, quedando-se pelo último lugar do grupo D da Champions, com apenas 2 pontos) e viu-se afastado da Taça da Holanda às mãos do Sparta de Roterdão (derrota contundente por 3-1 em Outubro passado).

A performance do PSV na actual Eredivisie. (Fonte: statoo.com)

A culpa certamente se poderá repartir por várias aldeias. É certo que o bicampeão holandês, mesmo ostentando tal estatuto, nunca foi o protótipo de equipa apaixonante, com um jogo ofensivo, dominador, agressivo ou enleante. Pelo contrário, a sua coesão, pragmatismo, versatilidade e profundidade do plantel foram fulcrais para o sucesso das temporadas transactas.

As coisas parecem ter-se alterado em Eindhoven. Não em termos tácticos – de sistema, princípios ou modelo de jogo. Cocu continua fiel às suas ideias, optando invariavelmente por um 433 com jogo tendencial pelas alas, com ataques lestos e sem privilegiar uma posse de bola muito elaborada (diferentemente do Ajax).

Assim, ainda que, da espinha dorsal, apenas Jeffrey Bruma tenha deixado Eindhoven – rumo ao Wofsburgo da Alemanha –, o PSV tem sofrido imenso com uma dupla incapacidade num duo relevantíssimo. A saber, Andrés Guardado – hoje em dia a jogar no espaço #6 à frente da defesa – tem sido propenso a lesões, apresentando, ainda, um rendimento bastante inferior ao que lhe é habitual nas vezes em que tem sido opção. De grande municiador do ataque dos de Eindhoven, o mexicano apresenta-se hoje mais lento na execução e aparentemente com mais dúvidas na hora da decisão, com efeitos imediatos na sua principal arma: o passe.

Por outro lado, outro dos elementos com uma queda abrupta no seu rendimento é Luuk de Jong. O capitão de equipa e melhor marcador da Eredivisie em 2015/2016 mantém intactas as valências ao nível do jogo aéreo (é fortíssimo na impulsão). Contudo, apenas conheceu o doce sabor do festejo por 5 ocasiões esta época, atravessando uma grave crise de confiança e com uma nítida incapacidade em ser o serial killer que a sua equipa tanto necessitava. E que estava habituada, diga-se. Está é, aliás, a principal pecha do PSV na actual temporada. Se os Boeren continuam a ter capacidade de criar oportunidades de golo – ainda que em menor número do que em 2015/2016 –, têm sido gritantes as lacunas na finalização.

E é a partir daqui que se conseguem explicar empates poucos admissíveis, como os cedidos diante de Groningen (em casa), Willem II e Roda – todas estas partidas terminaram 0-0 (número ‘assustador’, se pensarmos que, nas anteriores cinco temporadas, o PSV apenas tinha concedido um 0-0). E tal trauma adensa-se, que nem mesmo as grandes penalidades escapam. Nas últimas 21 ocasiões em que pôde converter um penalty, o PSV desperdiçou 13, num problema que, em abono da verdade, se arrasta já desde a última temporada.

Por outro lado, para além de Guardado, elementos importantes na caminhada para o bicampeonato têm também sido alvo de infortúnios ao nível das lesões, como são os casos de Jorrit Hendrix (unidade relevante no meio-campo) e Jürgen Locadia (veloz extremo esquerdo). Ao que se pode aliar, ainda, os nomes de Siem de Jong e Oleksandr Zinchenko – ambos centrocampistas, emprestados por Newcastle e Manchester City, respectivamente, mas também eles atrapalhados por lesões sem conseguirem, até ver, afirmar-se como verdadeiros reforços na nova temporada.

Quanto a Siem, aliás, a expectativa era grande, pela forma como o médio poderia vir a interligar-se com o seu irmão Luuk. Todavia, tal conexão tem-se ficado sobretudo pelos intentos. Uma das raras excepções viu-se na partida da Arena de Amesterdão, frente ao Ajax (1-1), em que a entrada do jogador do Newcastle a meio da segunda parte foi fundamental para a equipa capitalizar um estilo de jogo mais directo. Com ele em campo, o PSV forjou uma aproximação a um 442 clássico, com maior presença na área e, por conseguinte, maior perigo. E Siem marcou mesmo, num lance em que a reconhecida visão de jogo de Pereiro foi essencial.

A forma como o PSV se comportou em campo diante do Ajax. (Fonte: 11tegen11)

Seja como for, as dificuldades do PSV esta temporada têm sido recorrentes. Poucas são as vitórias inequívocas, e as perdas de pontos sucedem-se. Dentro do terreno de jogo, perante blocos baixos, compactos e minimamente organizados, os pupilos de Cocu revelam uma imensa imperícia, optando grosso modo por um jogo carrilado pelas bandas laterais e/ou através de passes por alto na busca da profundidade. É raro ver os Boeren com um jogo mais ligado, através de um futebol mais apoiado, com soluções entre linhas e com uma maior dose de racionalidade.

Não obstante, o timoneiro Cocu não atira a toalha ao chão. Ainda há dias referiu-se à experiência que o PSV tem na disputa e conquista por títulos, por comparação com o Feyenoord, há muito tempo arredado das grandes decisões. E não teve papas na língua ao afirmar que a não conquista do título significará o falhanço da época desportiva.

A porta não está totalmente fechada para a equipa de Eindhoven. Mas para que o tricampeonato seja uma realidade há um claro upgrade a fazer no jogo da equipa, com várias unidades que podem dar mais de si e com outras a poderem surgir, encaminhando o conjunto para uma maior consistência, fiabilidade e qualidade ao nível exibicional. É esse o objecto da parte II.

Odds actuais relativamente à conquista da Eredivisie (Fonte: 11tegen11)

Evolução das odds relativamente à conquista da Eredivisie. (Fonte: 11tegen11)

capa.jpg?fit=1024%2C683
Filipe CoelhoNovembro 7, 20166min0

De nove jogos temperados com igual número de vitórias a dois pontos em três rondas, o Feyenoord regressa ao limbo entre a ilusão (da conquista) e o fantasma (de mais uma decepção). Os bons feelings do óptimo arranque de 2016/2017 tiveram sustentação – mas serão eles capazes de se auto-alimentar para garantir o doce sabor do título que foge desde 1999?

Giovanni van Bronckhorst não viveu esse ano de glória – comandados por Leo Beenhakker, os vermelhos e brancos venceram a liga holandesa com 15 pontos de avanço sobre o Willem II –, pois que já havia saído para o Rangers no defeso anterior. Mas é este antigo lateral esquerdo um dos principais responsáveis pela ascensão e cada vez maior consideração que o Feyenoord acumula enquanto competidor pelo título.

‘Gio’, à semelhança do ano passado, tem optado por dispor a equipa próxima de um 4231. À estabilidade táctica juntou-se a permanência das unidades mais relevantes e acrescentou-se um trio que se tem revelado fundamental no upgrade dos donos do De Kuip: Brad Jones (ex-NEC, veio acautelar a ausência de Vermeer devido a grave lesão e é tremendamente competente na saída dos postes), Steven Berghuis (emprestado pelo Watford, aportou  criatividade e repentismo ao lado direito do ataque) e Nicolai Jörgensen (ex-Copenhaga, um ‘9’ que elevou o jogo associativo do Feyenoord, destacando-se pela sua veia goleadora – é o melhor marcador da Eredivisie, com 8 golos em 12 jogos).

Não sendo uma equipa brilhante, empolgante ou completamente dominadora – à semelhança da esmagadora maioria das turmas holandesas, apresenta défices no processo defensivo, com uma indesmentível tendência para a marcação H-H –, o Feyenoord tem vindo a apresentar um futebol mais pensado e ligado do que na época anterior. Há vários factores que confluem para essa evidência.

Por um lado, a afirmação plena do ‘velhinho’ Kuyt como elemento de ligação entre os sectores intermédio e avançado. É o homem de 36 quem ocupa esse espaço pelo corredor central, afirmando-se verdadeiramente como a alma mater da equipa, futebolística e espiritualmente falando. Mantém toda a sua entrega ao jogo e – ate pela sua experiência – sabe sempre o que fazer com a bola, oferecendo inteligência à criação ofensiva – ademais, preserva a capacidade de surgir em zona de finalização (3 golos em 9 jogos), ligando muito bem com Jörgensen.

1
Dirk Kuyt (Foto: omroepwest.nl)

De facto, este avançado dinamarquês de 25 anos terá de ser visto como um plus em relação a Kramer. Alia a imponência física (1,90 m) e, por isso, a capacidade de servir como jogador-alvo (desde logo nas saídas de bola) a um à-vontade com a bola interessante, que potencia a capacidade que tem para recuar e se envolver no jogo colectivo, oferecendo destreza na movimentação, qualidade nos apoios frontais e fiabilidade na hora de segurar e esperar que a equipa se aproxime.

Finalmente, a dupla El Ahmadi- Vilhena tem sustentado muita da capacidade do Feyenoord de se superiorizar aos seus opositores. O primeiro destaca-se pela qualidade nas coberturas defensivas e pela segurança/tranquilidade que transmite no controlo do espaço central (revelando-se ainda muito equilibrado na integração no processo ofensivo) – fabulosa a forma como se exibiu na vitória no clássico diante do PSV, em Eindhoven; já Vilhena, de raízes angolanas, tem perfume no seu pé esquerdo, evidenciando-se pela qualidade de passe e pelo poderoso remate (a que acrescenta a skill da bola parada), sendo perceptível a nuance táctica que oferece à equipa com não raras trocas posicionais com Toornstra, um médio versátil muitas vezes utilizado a partir do flanco esquerdo. São estes dois homens que, nas costas de Kuyt, permitem que o Feyenoord tenha um jogo mais pensado, pausado e fluido do que em momentos precedentes.

Um perfil de jogo colectivo mais integrado e conectado – não se vê actualmente os fortes centrais em espaço aéreo Botteghin e Van der Heijden a libertar de forma directa a bola de modo tão assíduo quanto anteriormente, por exemplo – mas que mantém alguns vícios do passado, como sejam a (ainda) excessiva propensão para atacar pelas bandas (bons valores como Elia, Berghuis e o rato atómico Basacikoglu também assim o ‘obrigam’, para além da capacidade de galope por parte do lateral direito Karsdorp) e alguma negligência no momento defensivo (vislumbrada na recepção ao Roda JC, apesar da folgada vitoria, ou diante do Go Ahead Eagles).

Durante o exercício de 2015/2016, o conjunto de Roterdão guindou-se aos lugares de decisão mas uma queda considerável pós-interregno de Inverno (com derrotas consecutivas) voltou a adiar o longo sonho da reconquista da Eredivisieschaal. Agora o arranque com o registo interno de 9 vitórias em outros tantos jogos elevou o conjunto de Roterdão a figura principal, considerando que, tal performance, neste século, ainda não havia sido alcançada por qualquer outro emblema. Porém, tal élan parece desvanecer-se …

2
A derrota diante do Go Ahead Eagles poderá ter reaberto feridas não totalmente cicatrizadas (Foto: Sportfeed)

Os dois pontos conquistados nas últimas três jornadas desbarataram uma liderança que aparentava ser sólida. E pior poderia ser caso os mais directos perseguidores não tivessem também eles tropeçado – o PSV conquistou 7 em 9 pontos (segue em 3º) e o Ajax logrou 5 em 9 (segue em 2º). Sobretudo nas duas últimas partidas observaram-se circunstâncias com que os rotterdammers ainda não se haviam debruçado: diante do Heerenveen, os pupilos de Gio depararam-se com uma equipa que quis jogar e ter bola, condicionando imensamente o jogo dos homens de Roterdão e ameaçando com propriedade a baliza de Jones; e na derrota diante do Go Ahead Eagles, ficaram expostas as debilidades de um plantel que não resistiu à ausência do duplo pivot El Ahmadi-Vilhena (para além do keeper Jones), sendo ainda tremendamente penalizado por falhas defensivas comprometedoras (como o erro individual de Van der Heijden) e pela inoperância em termos ofensivos para dar a volta ao contexto negativo.

A pausa para os jogos competitivos das selecções é assim recebida, em Roterdão, com tons de alívio. O Feyenoord necessita de reencontrar-se, e sobretudo espantar o espectro negativo que sempre se abate a cada ciclo – por mais pequeno que seja – de resultados negativos. Um aspecto que terá muito mais que ver com questões psicológicas e motivacionais do que puramente tácticas. Ainda que neste último campo também haja espaço para crescer. É que mesmo com um plantel inferior em termos de soluções relativamente aos crónicos candidatos Ajax e PSV, Giovanni van Bronckhorst deverá garantir o regresso da solidez exibicional evidenciada nas primeiras semanas de 2016/2017. E assim talvez a longa espera termine.

capa.jpg?fit=1024%2C658
Filipe CoelhoOutubro 13, 20166min0

Não foi só mudar; foi mudar e inovar. O arranque de época sinuoso do Ajax obrigou o seu (novo) técnico a deambulações. Mais do que tácticas, as alterações situaram-se no xadrez das peças, com Bosz a fazer de proscritos peças renovadas, úteis e versáteis.

Não sendo unânime, a escolha de Peter Bosz para suceder a Frank de Boer no comando técnico do Ajax foi recebida com o devido entusiasmo. Visto como sendo próximo de Cruyff numa certa visão sobre o jogo, Bosz tinha (sobretudo) como trunfo a impactante campanha realizada com o Vitesse na primeira metade da época transacta, período durante o qual a equipa de Arnhem praticou um futebol vistoso, atraente e de evidente vocação ofensiva – quiçá o melhor conjunto esteticamente falando da 1ª volta em 2015/2016.

O arranque em Amesterdão não foi, de todo, fácil. Em pleno Agosto, e em onze dias, o Ajax sofreu duas derrotas e empatou em mais duas ocasiões, caindo, desde logo, na Liga dos Campeões, diante do Rostov (o empate em casa, num jogo em que o Ajax teve um caudal de jogo ofensivo tremendo condicionou a 2ª mão, onde o descalabro em terreno russo foi total). Mais, o empate em casa diante do Roda e a derrota também em plena Arena de Amesterdão às mãos do Willem II tiveram contornos de humilhação, que estamos a falar, respectivamente, do último e antepenúltimo classificados da Eredivisie neste momento.

Todavia, a conjuntura mudou. Mesmo sem deslumbrar em várias partidas (como na vitória frente ao Vitesse por 1-0 ou no triunfo por 2-0 diante do Heracles), o Ajax parece ter encontrado um determinado fio condutor … na instabilidade, procurando a normalidade aqui mesmo.

Vejamos. Comparando a equipa titular que enfrentou o Sparta de Roterdão na 1ª jornada (vitória por 3-1) com aquela que derrotou o Utrecht por 3-2 na última jornada, só encontramos três repetentes! E dois deles a jogar em posições adaptadas. Nem sequer está aqui em causa a janela de transferências ainda em pleno funcionamento no momento do arranque da Eredivisie, que Milik já havia saído para o Napoli – perda significativa, inquestionavelmente – e apenas Cillessen – péssimo arranque de época, com culpas diversas em vários golos sofridos – haveria de deixar Amesterdão (rumo a Barcelona).

sink
Daley Sinkgraven (Foto: zimbio.com)

Bosz engendrou a mudança procurando tornar a equipa mais capaz de agredir ofensivamente, dotando-a de soluções de maior criatividade e levando-a a ser mais imprevisível no último terço do terreno. As alterações mais significativas aconteceram por via dos nomes de Sinkgraven e de Schone. Num duplo sentido: primeiro, porque nenhum deles fora considerado de forma relevante por De Boer na última temporada; e depois, porque foram introduzidos na equipa em posições e papeis que nunca haviam experimentado em momento anterior.

Sinkgraven é um médio criativo de 21 anos. Habituado a pisar os terrenos de um ‘8’, destaca-se pelo perfume do seu futebol, pelo toque de bola e pelo tom de criação e invenção que dá a cada movimento no jogo. Já havia sido testado também descaído sobre a faixa esquerda ofensiva do terreno, mas o novo técnico do Ajax quis mais – recuou-o, recuou-o, recuou-o, a ponto de o vermos agora estabelecido como o novo defesa lateral esquerdo do conjunto de Amesterdão. É ainda curto o espaço temporal decorrido para se perceber se tal opção dará frutos; o jovem holandês oferece grande qualidade do ponto de vista técnico à ala esquerda, para além de critério e repentismo, incorporando-se com sabedoria no momento ofensivo. Ademais, tem demonstrado capacidade em termos defensivos no duelo individual mas ao nível posicional as suas carências são óbvias e claras – um aspecto a que Bosz deve atender se vir em ‘Sink’ potencial para ser o defesa esquerdo da sua equipa.

Por sua vez, Schone é um jogador já feito. Aos 30 anos, o internacional dinamarquês passou a sua carreira a deambular entre a posição ‘10’ e a ala direita. Bosz, no entanto, tinha outros planos para ele – o trintão tem ocupado a posição de elemento mais recuado do trio de meio-campo e tem-se revelado uma agradável surpresa. Dotado de capacidade técnica e com qualidade de passe qb, é ainda um elemento muito compenetrado, e tem servido de elo de ligação ao jogo da equipa, com muita intervenção na fase de construção (a última partida perante o Utrecht foi um claro exemplo disso). Não se pode menorizar ainda o aspecto da idade – numa equipa tão jovem quanto o Ajax (a esmagadora maioria dos jogadores tem entre 19 e 24 anos), Schone traz consigo a experiência e a calma necessárias em muitos momentos. E acrescenta ainda no aspecto da bola parada ofensiva, não sendo, no entanto, de menorizar uma certa incapacidade para suster o ímpeto atacante do adversário pela falta de rotinas defensivas – algo que leva a que seja substituído em momentos em que as cautelas defensivas são redobradas.

ctw3pzpwaaazzr-1
A influência de Schone e de Sinkgraven no jogo colectivo do Ajax, diante do Utrecht (Imagem: 11tegen11)

Mantendo o 433 que é quase a pele do Ajax desde há longos anos, Bosz tem mexido sobretudo nas peças utilizadas, com largas alterações em relação à época transacta. Dijks, Riedewald, Gudelj e sobretudo Tete, Bazoer e El-Ghazi têm visto o seu espaço diminuído consideravelmente, também em função da chegada dos reforços Sánchez, Ziyech e Traoré e da afirmação do jovem Dolberg.

Depois de um inicio titubeante, o Ajax estabeleceu-se já na 2ª posição da Eredivisie e poderá afirmar-se como a verdadeira concorrência face ao super Feyenoord (8 vitória em 8 jogos). Para além disso, depois da queda para a Liga Europa, os Ajacieden venceram os dois primeiros jogos da fase de grupos, uma marca que não era atingida desde 1995/96! No mínimo, inspirador. Tal e qual como o carácter inventivo de Peter Bosz. A ver se os frutos colhidos serão os desejados …

voetbalprimeur.nl_.jpg?fit=1024%2C513
Filipe CoelhoAgosto 5, 201622min0

Sem a Laranja no Euro’2016, este foi um longo Verão na Holanda. Que termina hoje. 18 equipas voltam à acção para mais uma edição de uma competição que é jogada desde 1888. Com um campeão à prova de bala, com um Ajax em reconstrução e com um Feyenoord à procura de quebrar um prolongado jejum; mas com mais, muito mais, num campeonato que se revela a cada ano um viveiro de novos talentos. Uma por uma, todas as equipas ao detalhe, com as estrelas e as pérolas a seguir. Eis a Eredivisie 2016/2017.

PSV

2015/2016: Campeão
Estrela: Luuk de Jong
A seguir: Gastón Pereiro
Treinador: Phillip Cocu
Estádio: Philips Stadion (35 600 lugares)
Títulos: 23

O PSV arrancou 2016/2017 tal como havia terminado 2015/2016: a vencer. O triunfo na Supertaça diante do Feyenoord (1-0) ajudou a confirmar que os homens de Cocu partem na linha da frente para o ataque ao título. O cenário catastrofista que apontava para a saída de vários elementos preponderantes apenas teve concretização nos casos de Jeffrey Bruma (Wolfsburg) e de Van Ginkel (regressado ao Chelsea depois do empréstimo). Em sentido contrário, Daniel Schwaab chegou a custo zero proveniente do Estugarda e o talentoso Hidde Jurjus (De Graafschap) perfila-se como a alternativa a Zoet na baliza. Mantendo praticamente incólume a base da equipa, Cocu deverá continuar a apostar num 433 que, apesar de pouco espectacular, destaca-se pelo pragmatismo e eficácia. O PSV é, actualmente, uma equipa muito adulta, que não titubeia e que tem laivos de matreirice. Confirmar a hegemonia interna é o objectivo dos Boeren para 2016/2017, ao mesmo tempo que tentarão chegar mais longe do que os Oitavos-de-Final na Champions.

psv_twittermoreno
(Foto: Twitter Hector Moreno)

 

Ajax

2015/2016: 2º lugar
Estrela: Davy Klaassen
A seguir: Riechedly Bazoer
Treinador: Peter Bosz
Estádio: Amsterdam ArenA (53 502 lugares)
Títulos: 33

O reinado de Frank de Boer terminou. Depois de levar o Ajax a um tetracampeonato, o técnico holandês saiu após perder dois títulos para o PSV, o último dos quais de forma quase dramática, tendo em conta que aconteceu na última jornada de 2015/2016. Para o seu lugar chegou Peter Bosz, responsável pelo fascinante futebol apresentado pelo Vitesse na 1ª metade de 2015/2016 (haveria depois de sair para Israel). A transição, porém, não tem sido suave – a pré-época contou com várias derrotas e exibições frouxas, e o Playoff da Champions foi ultrapassado a muito custo (triunfo sobre o PAOK por 3-2 no agregado). Há, pois, muitas incógnitas em Amesterdão, também devido à saída do influente Milik (Napoli) e de 2ªs linhas relevantes como Fischer (Middlesbrough), Van der Hoorn (Swansea) ou Van Rhijn (Club Brugge). À excepção de Heiko Westermann (Betis), o Ajax reforçou-se sobretudo com jovens como Mateo Cassierra (Deportivo Cali) e Davinson Sánchez (Atlético Nacional), para além de ter promovido à equipa A o promissor Kasper Dolberg – ou seja, tudo apostas a médio-longo prazo, que não garantem a competitividade necessária no imediato. Peter Bosz terá de dar tão rápido quanto possível uma nova identidade à equipa ajacied, esperando ainda por possíveis reforços que venham trazer profundidade e outra qualidade ao elenco de uma turma muito jovem mas que tem, ainda assim, como objectivo o resgate do título.

ajax_fbajax
(Foto: Facebook Ajax)

 

Feyenoord

2015/2016: 3º lugar
Estrela: Dirk Kuyt
A seguir: Tonny Vilhena
Treinador: Giovanni van Bronckhorst
Estádio: De Kuip (51 177 lugares)
Títulos: 14

1999 já lá vai há muito tempo. Mas é exactamente desde essa altura que o Feyenoord não saboreia o doce momento de erguer a Eredivisie. São já 17 anos num ciclo que, em 2015/2016, pareceu próximo de ter o seu fim; todavia, os homens de Roterdão soçobraram de forma gritante no inicio da 2ª volta, apenas conseguindo recuperar até ao último lugar do pódio. Para a nova temporada o Feyenoord corre mais uma vez por fora. Tem, no entanto, a vantagem de não ter sofrido nenhuma baixa significativa, tendo ainda o mérito de ter conseguido recrutar nomes interessantes como Brad Jones (NEC), Nicolai Jörgensen (Copenhaga) e o internacional holandês Steven Berghuis (empréstimo por parte do Watford). Falta, no entanto, uma certa star quality, um elemento diferenciador que permita aos donos da Banheira de Roterdão dar um passo em frente para se assumirem como reais candidatos. A época começou com um desaire na Supertaça às mãos do PSV, onde foi mais uma vez notória a predilecção por jogar pelos flancos (Elia será muito importante), com Kuyt a assumir-se como o elo de ligação entre o meio-campo e o ataque, numa estrutura de 4231 de que Giovanni van Bronckhorst não deverá abdicar.

fey_fbfey
(Foto: Facebook Feyenoord)

 

AZ Alkmaar

2015/2016: 4º lugar
Estrela: Ron Vlaar / Markus Henriksen
A seguir: Joris van Overeem
Treinador: John van den Brom
Estádio: AFAS Stadion (17 023 lugares)
Títulos: 2

Que AZ Alkmaar teremos em 2016/2017? O que terminou a 1ª metade de 2015/2016 em 10º lugar ou o que fez uma tremenda 2ª volta a ponto de chegar ao 3º lugar e de ter feito 47 golos em 17 jogos? Boa questão! Os problemas defensivos – principal responsável pelo descalabro no 1º semestre de 2015/2016 – desapareceram em Janeiro com a chegada de Vlaar e, tendo em conta a contração de Rens van Eijden (NEC), deverão manter-se ao largo de Alkmaar. Todavia, Haye (Willem II), Ortiz (Monterrey) e, principalmente!, Janssen (Tottenham) deixaram o clube, ficando o AZ com um problema para resolver na zona do #9. Friday (Lillestrom) e Weghorst (Heracles) representam um investimento de 3M€ para tentar debelar este problema, e um deles tenderá a assumir a posição mais adiantada num esquema que deverá alternar entre o 433 e o 4231. Até ver, a época do AZ arrancou da melhor forma, tendo ultrapassado o PAS Giannina na 3ª pré-eliminatória da Liga Europa.

az_fbaz
(Foto: Facebook AZ Alkmaar)

 

Utrecht

2015/2016: 5º lugar
Estrela: Sébastien Haller
A seguir: Kristoffer Peterson
Treinador: Erick Ten Haag
Estádio: Stadion Galgenwaard (23 750 lugares)
Títulos: 1

Quase tudo o que havia a ser dito em relação ao Utrecht já aqui o foi. 2015/2016 acabou por ser uma época algo inglória para os comandados de Ten Haag, na medida em que a Taça da Holanda e o apuramento para a Liga Europa lhe fugiram no último momento. O desafio para a nova época passa por confirmar as boas indicações deixadas na última Eredivisie, tentando, desta feita, ter mais sucesso na etapa final. Não será fácil, todavia: o Utrecht tem sido um alvo preferencial do mercado, sendo que nos últimos dias Timo Letschert (pilar defensivo) acertou a sua ida para o Sassuolo. Já antes disso, Bednarek (De Graafschap), Kum (Roda JC) e Boymans (Al-Shabab) haviam deixado o clube, ainda que, em abono da verdade, tenham sido sempre 2ªs escolhas para Ten Haag. Até final de Agosto o desafio passa por tentar sobreviver, segurando as restantes pérolas, como Strieder, Ramselaar e, principalmente, Haller. Caso contrário, e mesmo que Peterson tenha regressado depois do empréstimo ao Roda JC e Joosten possa confirmar todo o potencial que demonstra, os Utregs terão mesmo de lutar para se regenerar. Até ver, David Jensen (Nordsjaelland) é a única entrada confirmada.

utr_fbutr
(Foto: Facebook Utrecht)

 

Heracles Almelo

2015/2016: 6º lugar
Estrela: Iliass Bel Hassani
A seguir: Vincent Vermeij / Brandley Kuwas
Treinador: John Stegeman
Estádio: Polman Stadion (12 400 lugares)
Títulos: 2

O bonito sonho vivido em 2015/2016 terá continuidade? Cabe aos pupilos de John Stegeman responder. A verdade é que o Heracles fez muito mais do que o que lhe era exigido e já neste inicio de nova época, pese embora o afastamento da Liga Europa às mãos do Arouca, deixou indicações muito interessantes. Algo que não será mais do que consequência da manutenção da estrutura-base, em que se destaca apenas a saída da máquina de golos Wout Weghorst para o AZ Alkmaar. Mas os homens de Almelo não dormiram: entre Excelsior (Kuwas e Van Mieghem) e De Graafschap (Propper e Vermeij), o Heracles recrutou 4 elementos com critério e que lhe poderão trazer maior profundidade e qualidade ao elenco já de si muito homogéneo. O 433 será para manter, com Bel-Hassani como patrão do meio-campo e da equipa, e com extremos muito ágeis e imprevisíveis, a procurar assiduamente as diagonais nas costas das linhas defensivas contrárias.  Será difícil ao Heracles repetir a performance da época passada – andou durante imenso no top4 – mas, pelo menos em termos teóricos, tudo está a fazer para que o conto de fadas tenha novos episódios.

her_fbher
(Foto: Facebook Heracles)

 

Groningen

2015/2016: 7º lugar
Estrela: Albert Rusnák
A seguir: Juninho Bacuna
Treinador: Ernest Faber
Estádio: Euroborg (22 500 lugares)

2015/2016 foi um ano de grande instabilidade para os moradores do Euroborg. A equipa sofreu muito na 1ª metade fruto da presença na Liga Europa, com altos e baixos contantes e com o técnico de então, Van de Looi (hoje no Willem II), a anunciar, ainda em Janeiro, a sua saída no final da temporada. Curiosamente, o cenário melhorou a partir daí e o Groningen ainda foi a tempo de chegar ao 7º lugar. Hoje sob o comando de Ernest Faber (ex-NEC) e sem figuras relevantes e com peso no balneário como Rasmus Lindgren (Hacken) e Michael de Leeuw (Chicago), os verdes e brancos mantêm um poder ofensivo assinalável (Rusnák, Drost, Idrissi, Bacuna ou Sorloth) a que acrescentaram o interessante Van Weert (Excelsior) e um jovem avançado italiano proveniente da Juventus de seu nome Nicolò Pozzebon, para além do internacional norueguês Ruben Jenssen (Kaiserlauten). Com um elenco com potencial, resta perceber se Faber replicará o 4231 com que fez o NEC atingir plenamente os seus objectivos; em Groningen, porém, a fasquia a atingir chama-se Liga Europa.

gro_fbgro
(Foto: Facebook Groningen)

 

PEC Zwolle

2015/2016: 8º lugar
Estrela: Ryan Thomas
A seguir: Hachim Mastour
Treinador: Ron Jans
Estádio: MAC³PARK Stadion (12 500 lugares)

O período dourado iniciado em 2013 parece não ter fim. De lá para cá, o PEC venceu uma Taça, uma Supertaça, atingiu um 6º lugar em 2014/2015 e, no último exercício, quedou-se pelo 8º posto. É, assim, uma das equipas com um crescimento mais interessante no contexto holandês. Um dos obreiros de tal feito é Ron Jaans, o técnico que parte para esta nova época com renovadas ilusões de repetir as últimas campanhas. As saídas de Van Hintum (Gaziantepspor), Lam (Nottingham Forest), Bouy (retornado à Juventus) e Veldwijk (regressado ao Nottingham Forest) podem preocupar mas a turma de Zwolle conseguiu recrutar os interessantes Verdonk (Feyenoord), Mastour (AC Milan) e manter Menig (Ajax) – todos por empréstimo –, sabendo ainda que tem o promissor Ryan Thomas finalmente recuperado de uma complicada lesão. Jaans irá por certo manter o 4231, esperando-se que Achahbar (ex-Feyenoord) possa assumir como #9. Se o plano A não resultar, Jaans pode sempre experimentar o B, com Stef Nijland como arma secreta, alargando a frente ofensiva e aproximando a equipa de um 442 (ou, em alguns momentos, 424).

pec_fbpec
(Foto: Facebook PEC Zwolle)

 

Vitesse

2015/2016: 9º lugar
Estrela: Valeri Qazaishvili
A seguir: Milot Rashica
Treinador: Henk Fraser
Estádio: Gelredome (25 500 lugares)

A 9º posição na última época teve um sabor demasiado amargo para o Vitesse. Uma das equipas que melhor qualidade no seu futebol apresentou e que, durante largo tempo, andou próximo do topo da tabela acabou por não resistir à saída do técnico Peter Bosz, em Janeiro, e Rob Maas jamais conseguiu agarrar a equipa. Para a nova temporada, Henk Fraser (vindo do ADO Den Haag) é o homem escolhido e terá como objectivo voltar a colocar o Vitesse na rota europeia. As manutenções de Room, Kashia, Nakamba, Qazaishvili e Rashica são boas notícias, às quais se juntam a chegada de Foor (NEC) e de Van Wolfswinkel (Norwich). O avançado ex-Sporting, de 27 anos, tem, em Arnhem, a oportunidade de relançar a sua carreira, cabendo-lhe substituir Solanke, que, tal como Brown, regressou ao Chelsea. Os Blues, porém, voltaram a ceder Baker e Nathan, que terão de mostrar mais nesta nova temporada. O VItesse apresenta um plantel equilibrado e que dá garantias, pese embora as saídas importantes de Diks (Fiorentina), Ibarra (América) e Oliynyk (sem clube). Resta saber se Fraser repristinará o perfume futebolístico da 1ª volta de 2015/2016 ou se apostará num estilo mais pragmático (como era o futebol do seu ADO Den Haag).

vit_fbvit
(Foto: Facebook Vitesse)

 

NEC Nijmegen

2015/2016: 10º lugar
Estrela: Gregor Breinburg
A seguir: Dario Dumic
Treinador: Peter Hyballa
Estádio: Goffertstadion (12 500 lugares)

Em 2015/2016, a fantástica performance da 1ª volta não encontrou espelho na 2ª metade e o NEC acabou por quedar-se pelo meio da tabela, fora da zona europeia. Todavia, isso não apaga, por um lado, a grande força apresentada a jogar em casa (4ª equipa com melhor pontuação neste capítulo) e, por outro, o interesse em muitas das suas individualidades. Resultado? Debandada. Saiu o treinador Ernest Faber (Groningen), bem como Jones (Feyenoord), Kane (de regresso ao Chelsea), Foor (Vitesse), Santos (Alavés) e Limbombe (Club Brugge). Sobram, pois, muitas dúvidas, desde logo em relação ao novo líder – Peter Hyballa é um alemão que já passou pelos escalões de formação de Borussia Dortmund, Wolfsburg e Bayer Leverkusen. Mas com tantas saídas relevantes a sua tarefa avizinha-se muito complicada – como, aliás, o testemunha a pré-época com vários resultados pesados frente a Hannover 96, Zulte Waregem e até Achilles ’29. Se na transacta temporada o NEC foi uma surpresa (pelo menos a tempo parcial), por ora é apenas uma incógnita. Por certo toma-se, porém, que o português Janio Bikel continue a ser peça preponderante no meio-campo dos de Nijmegen.

nec_fbnec
(Foto: Facebook NEC)

 

ADO Den Haag

2015/2016: 11º lugar
Estrela: Mike Havenaar
A seguir: Danny Bakker / Dennis van der Heijden
Treinador: Zeljko Petrovic
Estádio: Kyocera Stadion (15 000 lugares)
Títulos: 2

A tranquilidade de 2015/2016 poderá dar lugar ao sobressalto em 2016/2017? É a dúvida-desafio que o ADO Den Haag enfrenta. Perdeu o seu timoneiro – o bom trabalho de Henk Fraser redundou em convite do Vitesse – e para o seu lugar recrutou Zeljko Petrovic, um sérvio que já fora adjunto no Feyenoord, Sunderland, West Ham, Hamburgo e na própria selecção sérvia. Ah, e que teve uma breve passagem por Portugal, em 2006/07, onde orientou o Boavista durante 7 jogos. Em Haia há também hesitações em relação à defesa depois das saídas do keeper Hansen (Ingolstadt) e dos defesas Wormgoor (Aalesunds FK) e Zuiverloon (ainda sem clube), sendo que na frente o trio Duplan-Havennar-Schaken permanece intacto e é garante de bastantes golos. Crentes de que a concretização ofensiva possa suplantar alguma da instabilidade no sector recuado (por via das inúmeras mexidas), os pupilos do mecenas Hui Wang (investidor chinês que recuperou o clube) procurarão garantir ao ADO mais uma época inconvulsa na Eredivisie.

ado_fbado
(Foto: Facebook ADO Den Haag)

 

Heerenveen

2015/2016: 12º lugar
Estrela: Sam Larsson
A seguir: Jerry St. Juste
Treinador: Jurgen Streppel
Estádio: Abe Lenstra Stadion (26 100 lugares)

A temporada transacta foi de decepção para o Heerenveen – se é verdade que nunca se deixou cair em posição intranquila, também nunca foi capaz de se imiscuir na luta pela Europa. O carismático Foppe de Haan deu lugar a Jurgen Streppel (Willem II) no comando técnico da equipa e o conjunto que actua no Abe Lenstra Stadion parte com expectativas interessantes para 2016/2017. Primeiro, porque, à excepção do capitão Joey van den Berg (Reading), não perdeu nenhum elemento-chave; depois, porque Schaars (PSV) e o iraniano Reza Ghoochannejhad (emprestado pelo Charlton) têm tudo para acrescentar qualidade à equipa, sendo potenciais titulares. Juntando estes a nomes como Mulder, St. Juste, Cavlan, Thern, Larsson e Zeneli, o Heerenveen apresenta condições para construir uma equipa competitiva e que abra possibilidades para entrar na corrida europeia.

hee_fbhee
(Foto: Facebook Heerenveen)

 

Twente

2015/2016: 13º lugar
Estrela: Hakim Ziyech / Kamohelo Mokotjo
A seguir: Enes Ünal
Treinador: René Hanke
Estádio: De Grolsch Veste (30 205 lugares)
Títulos: 1

Não é que a vida corra bem ao Twente mas só o facto de poder arrancar 2016/2017 na Eredivisie já é, por si só, uma grande vitória. Aos problemas financeiros acresceram-se os problemas directivos e o clube de Enschede esteve na corda-bamba para perder a autorização para competir no escalão máximo do futebol holandês; à ultima da hora, porém, a decisão da KNVB foi revertida e … eis o Twente na Eredivisie! Mas agora sem Bruno Uvini (regressou a Nápoles), Felipe Gutierrez (Bétis) e Jerson Cabral (Bastia). Todavia, em Enschede permanece uma pérola escondida – por quanto tempo? Hakim Ziyech continua a ser alvo dos mais insistentes rumores mas (ainda) não saiu e, caso realmente fique, será em tono dele que a equipa será (re)construída. Jovens valores como Andersen, Ter Avest, Mokotjo, Oosterwijk e Ünal (promissor avançado turco emprestado pelo Manchester City) tentarão dar o mínimo de garantias a René Hanke para este segurar os cavalos vermelhos na Eredivisie.

twe_fbtwe
(Foto: Facebook Twente)

 

Roda JC

2015/2016: 14º lugar
Estrela: Tom van Hyfte
A seguir: Abdul Ajagun
Treinador: Giannis Anastasiou
Estádio: Parkstad Limburg Stadion (19 979 lugares)
Títulos: 1

Eis mais uma revolução! Em Janeiro último as instalações do Parkstad Limburg Stadion viveram um corrupio com entradas e saídas em catadupa; pouco mais de meio ano depois, o Roda volta a revirar a casa. A saída de Kalezic já era pública e para o seu lugar chegou o ex-treinador do Panathinaikos: o grego Giannis Anastasiou. Muitos dos protagonistas da campanha (desequilibrada) de 2015/2016 também viram o seu futuro deixar de se pintar de amarelo mas resta saber se Inceman, Faik, Juric, Poepon ou Van Duinen terão substitutos de valia. Aparentemente, Kum (Utrecht), Auassar (Excelsior) e Bouwers (Borussia Monchegladbach) são adições satisfatórias, sendo que este último regressa ao Roda para fechar a carreira onze anos depois de ter partido rumo à Alemanha. Resta saber se Anastasiou terá o condão para, ao mesmo tempo que dá o seu cunho à equipa, perceber que os primeiros tempos poderão não ser suaves. O Roda é, bem assim, uma das verdadeiras incógnitas para esta edição da Eredivisie.

Roda _ rodajc.nl
(Foto: rodajc.nl)

 

SBV Excelsior

2015:/2016: 15º lugar
Estrela: Ryan Koolwijk
A seguir: Terell Ondaan
Treinador: Mitchell van der Gaag
Estádio: Woudestein (4 500 lugares)

Depois da saída da comando técnico de Alfons Groenendijk, o nosso bem conhecido Mitchell van der Gaag assumiu o lugar e o desafio. Que não é menos do que hercúleo. Depois de dois 15ºs lugares consecutivos, o Excelsior alimenta a esperança de não ter de conviver de novo com a corda no pescoço. Todavia, a saída de várias peças fulcrais do plantel como Fischer (Go Ahead Eagles), Kuwas (Heracles) ou Van Weert (Groningen) parece longe de estar colmatada, sendo o Excelsior um dos conjuntos com mais indefinições e susceptível de maiores interrogações no arranque da nova temporada. Sobra um destaque: aquele que vai para um dos reforços do conjunto de Roterdão, de seu nome Fredy, extremo internacional angolano que já passou por Portugal, onde fez carreira no Belenenses.

excelsior _ sbvexcelsior.nl
(Foto: sbvexcelsior.nl)

 

Willem II Tilburg

2015:/2016: 16º lugar; Salvou-se no Playoff depois de ultrapassar Almere City e NAC Breda
Estrela: Erik Falkenburg
A seguir: Jari Schuurman
Treinador: Erwin van de Looi
Estádio: Koning Willem II Stadion (14 700 lugares)
Títulos: 3

Várias mudanças em Tilburg depois de uma época decepcionante. À cabeça, Jurgen Streppel deixou o clube rumo ao Heerenveen, assumindo-se Erwin van de Looi (Groningen) como novo treinador. Depois, os empréstimos de Hupperts e Andersen terminaram, sendo que também Ondaan e Nemec rumaram a outras paragens. Uma mudança considerável numa equipa que apresenta acrescentos interessantes, como são os casos dos jovens Lieftink (Vitesse), Haye (AZ), Fran Sol (Villarreal) e do também promissor Schuurman (emprestado pelo Feyenoord). É possível que chegue mais gente para a defesa assim como para dar largura ao ataque do Willem II (que se deverá dispor em 4231), ataque esse que contará com o internacional sub-19 português Asumah Ankra e com o nigeriano Bartholomew Ogbeche, quiçá o melhor reforço depois da lesão que o impediu de dar o seu contributo à equipa durante alguns meses.

Willem ii _ facebook
(Foto: Facebook Willem II)

 

Sparta Rotterdam

2015:/2016: Vencedor da Jupiter League
Estrela: Thomas Verhaar
A seguir: Craig Goodwin e Zakaria El Azzouzi
Treinador: Alex Pastoor
Estádio: Het Kasteel (10 599 lugares)
Títulos: 6

Um dos históricos de Roterdão e do futebol holandês regressa em 2016/2017 à Eredivisie depois de, em 2015/2016, ter garantido de forma relativamente tranquila o título do 2º escalão. E as perspectivas não deixam ser interessantes: o Sparta não só não perdeu nenhum elemento vital da sua campanha na transacta temporada, como ainda acrescentou elementos com elevado potencial. Bart Vriends (Go Ahead Eagles), Craig Goodwin (apelidado de Bale australiano e proveniente do Adelaide United), Zakaria El Azzouzi (emprestado pelo Ajax) e David Mendes da Silva (antigo internacional holandês de origem cabo-verdiana) têm capacidade para acrescentar qualidade e profundidade ao plantel liderado por Pastoor. Se a capacidade de fogo de Thomas Verhaar se mantiver (24 golos e 17 assistências em 2015/2016) e os bons resultados da pré-temporada tiverem seguimento (empataram com o Groningen a 3, por exemplo), o Sparta pode ser uma das surpresas a despontar na Holanda.

Sparta Rotterdam _ facebook
(Foto: Facebook Sparta Rotterdam)

 

Go Ahead Eagles

2015/2016: 5º na Jupiter League; Garantiu a subida depois de ultrapassar Venlo e De Graafschap no playoff de promoção
Estrela: Leon de Kogel
A seguir: Sam Hendriks
Treinador: Hans de Koning
Estádio: De Adelaarshorst (10 400 lugares)
Títulos: 4

O clube com um dos nomes mais exóticos do panorama competitivo holandês está de regresso à Eredivisie. Hans de Koning pegou na equipa em Fevereiro de 2016 numa altura em que esta nem sequer sonhava com a possibilidade da subida de divisão; porém, o caminho foi sustentado e redundou em felicidade extrema. Mas os tempos agora não se avizinham fáceis … A saída do central e capitão Bart Vriends é uma baixa significativa, colmatada(?) pelo recrutamento de Sander Fischer (Excelsior). No meio-campo, um duo proveniente de Breda – Kevin Brands e Joey Suk – tentará dar a consistência necessária a esse sector, num conjunto que deverá actuar próximo de um 4231. A esperança da manutenção passará certamente e em grande dose pelo nº9 Leon de Kogel, ele que marcou 24 golos na última temporada com a colorida camisola das Águias.

go ahead eagles _ facebook
(Foto: Facebook Go Ahead Eagles)

cpa.jpg?fit=864%2C486
Filipe CoelhoAgosto 1, 20166min3

Da instabilidade inicial à afirmação como um dos emblemas mais atraentes da Eredivisie 2015/2016, o Utrecht foi conduzido pela mão de Ten Haag, um holandês que bebeu em Munique. Com vários elementos assediados pelo mercado, qual a base de onde parte o Utrecht para encarar 2016/2017?

utrechtQuando em Março deste ano, nas vésperas de receber o Utrecht, Foppe de Haan, lendário técnico do Heerenveen (e que agora, aos 72 anos, deu por finalizada a sua carreira), apelidou o seu adversário de “mini Bayern de Munique” até poderia estar a exagerar. Como em outras partidas da anterior época, o Utrecht acabou mesmo por sair vencedor (0-4 foi o score final), sinalizando os 3 pontos com um futebol atractivo e tacticamente assente numa estrutura pouco vista na Eredivisie.

O óbvio elo de ligação ao clube da Baviera centra-se no nome de Erick Ten Hag. O actual técnico do Utrecht treinou, em 2013/2014 e 2014/2015, a equipa secundária do Bayern de Munique (onde conquistou o título regional da Baviera), tendo, por isso, tido a oportunidade de beber de Guardiola. Aos 46 anos, voltou à Holanda – do seu currículo já constavam passagens por PSV e Twente como treinador adjunto – para pegar no Utrecht e o balanço é bastante interessante.

Em 2015/2016, o arranque não foi auspicioso, é certo, e contou com algumas aventuras tácticas que não correram bem – o 532 inicial não soltava suficientemente o potencial da equipa e não foi bem-sucedido mesmo pensando em termos ‘resultadistas’. A mudança foi-se operando à medida que Rico Strieder consolidou a sua presença na equipa – o médio alemão veio com Ten Hag desde a Baviera e é um daqueles jogadores que guia a equipa de forma tão discreta quanto eficaz, dando e mostrando os caminhos certos para esta percorrer. Estabelecendo-se como #6, o Utrecht cresceu a partir daqui, ensaiando um 442 losango perfeitamente original na Liga holandesa.

Não se afirmando como uma equipa obcecada com a posse de bola, o Utrecht revelou-se um conjunto a procurar sair de forma apoiada, com várias soluções possíveis para o passe curto, privilegiando um futebol interligado. Porém, destacou-se ainda por ser um todo suficientemente descomplexado para abdicar de um estilo que, por certas insuficiências técnicas, lhe poderia ser contraproducente. E aqui emergiu Sébastien Haller: o avançado francês foi o jogador-alvo quando a equipa não conseguiu sair a jogar desde trás, optando, então, por esticar jogo. Aos 21 anos, alia uma dimensão física tremenda (187 cm e 82 kg) a uma vertente técnica que o transforma no plus da equipa, sabendo reter bola e aguardar pelos companheiros, servir através de jogo aéreo ou arrancar, ele mesmo, explosivo e com notável capacidade de drible (nos últimos 5 jogos, em 30 dribles tentados, saiu vitorioso em 22) – o que, tudo somado, já lhe valeu comparações com Thierry Henry. Não esquecendo os golos: 17 em 33 jogos.

h
Sébastien Haller em acção (Foto: voetbal.com)

O conjunto de Ten Hag foi, no entanto, mais do que Haller. O meio-campo apresentou-se muito compacto, procurando invariavelmente que os actores que habitavam nesse espaço estivessem bastante próximos. Para além de Strieder, o destaque vai para Bart Ramselaar: aos 19 anos, já foi chamado à Laranja, e tal convocatória apenas foi o corolário de uma época de grande nível. Um #8 que enche todos os recantos do campo, com uma qualidade técnica assombrosa e fiel ao estilo do ‘recebe-toca-e-procura’, sempre disposto a servir de linha de passe ao seu colega mais próximo. A verdadeira intensidade cerebral. Actuando mais pela direita, foi ainda fundamental nas coberturas aos laterais, tal como Ludwig do lado oposto. Muitas vezes, em processo defensivo, o Utrecht abdicou do seu 442 losango, organizando-se num 433 puro, com a dupla avançada (normalmente Haller e Barazite, outro interessante jogador) a fechar os corredores laterais dos adversários, e o elemento do espaço #10 (tendencialmente o capitão Janssen) fixando-se no miolo do terreno, sendo relevante a sua acção na procura do condicionamento do jogo do adversário.

Fazendo jus à tradição holandesa, o Utrecht não foi uma equipa exemplar do ponto de vista defensivo. A linha mais recuada não se mostrou imune à abertura de espaços entre as suas unidades, e houve alguma exposição ao erro até pela enraizada tendência de seguir mais o homem do que a bola. Não obstante, foi neste sector que despontou mais um elemento entretanto chamado à selecção holandesa. Com 22 anos, e participando na totalidade dos jogos da edição da Eredivisie, Timo Letschert emergiu como o esteio defensivo do Utrecht, evidenciando-se pela sua agressividade, capacidade de impulsão e arrojo, tendo ainda qualidade técnica suficiente para conduzir e arriscar no passe.

Se, numa perspectiva estética, o clube da cidade do rio Reno foi uma das mais agradáveis surpresas da edição 2015/16 da Eredivisie, tal acabou por ter também materialização na (dura) frieza dos números.  O Utrecht logrou um 5º lugar final – a melhor classificação do século, igualando 2000/01 e 2012/13 –, o que lhe permitiu ainda buscar um lugar na Liga Europa por intermédio da Nacompetitie (playoff disputado entre os 5º, 6º, 7º e 8º classificados da Eredivisie). Todavia, acabou por soçobrar diante do Heracles – de forma algo surpreendente, até –, sentindo em demasia a ausência de Ramselaar e Letschert no embate decisivo. Por outro lado, marcou ainda presença na final da Taça da Holanda (perdida para o Feyenoord), depois de ter eliminado o campeão PSV em Eindhoven. No fundo, uma época protagonizada por uma equipa com a impressão digital de Ten Hag – ele que acabou por vencer o Prémio Rinus Michels, troféu que premeia o melhor treinador do contexto holandês em cada temporada.

Para a nova época, a expectativa passa por perceber se o Utrecht conseguirá manter a sua espinha dorsal – Letschert, Strieder, Ramselaar e Haller. Apesar de diversas movimentações e de incontáveis rumores, até ao momento Ten Haag não viu partir nenhuma destas peças essenciais. De relevante apenas as saídas de Christian Kum (lateral esquerdo utilizado sobretudo na 2ª metade da época) e de Ruud Boymans (ponta-de-lança autor de vários golos importantes mas sempre encarado como 2ª opção). Pelo contrário, a porta do Stadion Galgenwaard apenas se viu abrir para o retorno de Kristoffer Peterson, jovem extremo sueco que evoluiu positivamente no Roda JC na 2ª metade de 2015/2016.

Se, até ao final da janela de transferências, não for desmembrado na sua corporização, conseguindo ainda acrescentar alguma harmonia defensiva à performance da última época, então o Utrecht tem, definitivamente, tudo para ser uma das mais belas ideias a seguir na próxima Eredivisie.


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS