23 Out, 2017

Arquivo de Espanha - Fair Play

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Pedro NunesSetembro 23, 20174min0

Um Barcelona com muitas dúvidas existenciais e que viu sair dois dos seus grandes aliados dos últimos anos, uma Argentina com a possibilidade de falhar o Mundial, um Ronaldo prestes a igualar o número de bolas de Ouro. Aos 30 anos, esta é uma das épocas mais desafiadoras da carreira de Lionel Andrés Messi.

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Pedro NunesAgosto 22, 201712min0

Já começou, em Espanha, mais uma época de futebol onde se esperam muitas emoções fortes. Neymar saiu e deixou a liga sem uma das suas estrelas mais cintilantes. O Real parece estar a caminho de dominar a competição por mais um ano. O Barcelona está em queda enquanto que o Atlético se quer reerguer. A luta europeia está mais divertida que nunca. O Girona fará a sua estreia. Mas há mais e está tudo aqui.

Alavés

A fasquia está bem elevada no Mendizorroza. A equipa basca conseguiu um óptimo 9º lugar na época transacta a somar a uma chegada à final da Taça do Rei, que perdeu para o Barcelona, tornando-se assim numa das sensações da liga espanhola. Agora, muita coisa mudou e será bastante complicado repetir o feito. Houve mudanças no banco – Luís Zubeldia estará no lugar de Mauricio Pellegrino – e o plantel também apresentará muitas caras novas como Wakaso, Ely ou Enzo Zidane. Mesmo assim, a confiança está em alta e o Alavés não quer desiludir em 2017/2018.

 

Athletic de Bilbao

A diferença maior estará no banco de suplentes, onde os bascos apresentarão agora o antigo treinador dos B’s, Ziganda, para assumir o comando técnico da equipa principal, depois de Valverde rumar à Catalunha. Este facto mantém a formação com a sua identidade bem vincada, trazendo um conhecedor dos jogadores das equipas secundárias e jovens do clube, para os fazer chegar à equipa principal. Ziganda já tem algum trabalho desenvolvido neste papel visto que foi ele que chamou a atenção dos responsáveis para que estes fizessem subir à equipa A jogadores como o avançado Williams e o guarda-redes Kepa. Agora, poder-se-á pedir a Ziganda que também demonstre a mesma qualidade exibicional de Valverde, que será bem difícil de replicar, ou que apenas tenha uma época tranquila – mas estamos todos avisados que esta equipa é sempre capaz de surpreender.

 

Atlético de Madrid

Após algumas temporadas em que o Atlético se intrometeu entre Barcelona e Real, chegando mesmo a quebrar o duopólio espanhol com um título, a época passada ficou um pouco aquém do esperado. Esta época, os rojiblancos querem voltar a competir contra os maiores, pois sentem que é lá que pertencem. As dores de crescimento são muitas e a proibição de contratar jogadores até Janeiro complicou ainda mais as contas. Apesar disto, Vitolo foi contratado e chegará em Janeiro, por enquanto ficando emprestado ao Las Palmas. Continuar sólido na defesa – a principal chave da equipa – mas precisar de fazer mais golos é o desafio que se propõe a Simeone e aos seus pupilos para esta nova temporada.

 

Barcelona

Completamente entranhados numa crise existencial, há várias questões que se colocam à volta da equipa culé. A saída de Neymar deixou o trio da frente órfão da sua asa esquerda, que perderá qualidade obrigatoriamente, quer venha Coutinho ou Dembelé. No banco, é Ernesto Valverde quem tem a tarefa de não deixar o gigante cair. A contestação começa a ser muita e já chega mesmo ao presidente. Vivem-se tempos sem definição em Barcelona e o que acontecerá esta época é uma incógnita em toda a linha.

 

Bétis

Seguramente um dos projectos mais interessantes desta La Liga. Apesar de todas as novidades: desde o vice-presidente ao diretor desportivo, passando pelo treinador e por, pelo menos, nove caras novas no plantel, o trabalho parece ter sido bem planeado e Quique Sétien tem ao seu dispor um plantel com bastante qualidade, para por em prática o seu futebol atacante. Boudebouz é o nome mais sonante no que concerne às movimentações no mercado dos verdiblancos. Exige-se uma posição na tabela na primeira metade à equipa da Andaluzia.

 

Celta de Vigo

No ano que passou, Berizzo colocou os adeptos do Celta a sonhar. Conseguiu alcançar as meias-finais da Liga Europa, assim como da Taça do Rei. Agora saiu do clube e há novidades no banco. O argentino viajou para Sul para treinar o Sevilha e agora é Unzué, antigo assistente de Luís Enrique no Barça, que está encarregue de comandar a formação da Galiza. Sem saídas de maior nomeada e ainda com as entradas de Maxi Gomez e a assinatura definitiva de Jozabed, o Celta tem tudo para lutar por uma nova qualificação europeia.

 

Deportivo da Corunha

Na Galiza, depois de uma época em que foi necessário lutar contra o sufoco da despromoção, espera-se uma temporada mais calma. O técnico que conseguiu salvar a equipa, Pepe Mel, vai ficar para a nova época e já viu chegarem alguns reforços importantes. Para a frente de ataque, o Depor conseguiu os empréstimos de Adrian Lopez e de Zakaria Bakkali e ainda continua a novela à volta do regresso de Lucas Peréz, vindo do Arsenal. Para além disto, Fabian Schar e Guilherme também chegaram, para uma equipa que não teve saídas muito significativas e que espera passar esta nova temporada com menos sobressalto.

 

Eibar

O objetivo neste clube basco é claro: dar continuidade ao que tem vindo a ser feito nas últimas temporadas. Conhecido pela excelente gestão financeira que faz, os armeros venderam Lejeune para o Newcastle, numa movimentação que lhes trouxe 10M€ aos cofres. Com esse valor, recrutaram Paulo Oliveira ao Sporting por 3.5M€ e compensaram a perda do central gaulês. Este minúsculo emblema, tentará de novo consolidar a sua posição no futebol espanhol, sendo que já vem fazendo parte da mobília nos últimos anos.

Foto: Mantos do Futebol

Espanhol

O maior desafio de Quiqué Sanchéz Flores será dar coesão a uma defesa que já na época transacta havia sofrido bastante. Apesar dos reforços pedidos, a direção não correspondeu, o que obrigará a um jogo de cintura maior por parte do técnico. Na época passada, o clube catalão surpreendeu toda a gente com o futebol jogado e o 8º lugar conquistado, mas esta temporada parece bem mais difícil repetir esse feito, embora perfeitamente possível, face àquilo que Quiqué conseguiu. Diego Lopez e Pablo Piatti assinaram contratos definitivos e serão duas das caras mais importantes nesta nova época.

 

Getafe

A formação dos arredores de Madrid está de volta à principal competição espanhola e de futebol e consigo traz a base que permitiu a subida. Apesar de muitos dos jogadores não terem experiências nestas andanças, a manutenção do núcleo duro da equipa pode ser um factor decisivo para o técnico Bordalás, que aponta à manutenção. Nos reforços, nota ainda para a chegada do português Antunes, que vem da Ucrânia trazer mais experiência à lateral esquerda azulón.

 

Girona

Quem espera sempre alcança. Depois de muito tentar nos anos anteriores, esta foi a época em que o objectivo ficou cumprido. Para trás ficaram quatro quatros lugares nas últimas cinco épocas, o primeiro que não dá direito à subida. Pela primeira vez nestas lides, o Girona não tem nada a perder nesta nova época. Agora, tudo o que vier é por acréscimo. Com o Manchester City por detrás a colocar alguns jogadores a rodar, o Girona conseguiu montar uma equipa competitiva e disposta a lutar olhos nos olhos com qualquer clube. Vindos do clube inglês, jogadores como Maffeo, Douglas Luis e Aleix Garcia ligam as luzes da esperança para o clube catalão.

Foto: Umbro

Las Palmas

Muito investimento no ataque mas a defesa pode ser um problema, devido à carência de soluções de qualidade. As previsões apontam para uma temporada bem complicada para a formação da Gran Canaria. Boateng e Roque Mesa saíram e para os substituir chegou Vitolo, que jogará até Janeiro e depois rumará ao Atlético, e o avançado Calleri. Fazer uma boa primeira metade da temporada é obrigatório para fugir depressa ao terror da despromoção.

 

Leganés

Depois de garantida a permanência a estreia na Primera, o segundo ano tem tradição de ser bem complicado para estes emblemas. A permanência do técnico Asier Garitano é o a melhor notícia que podiam ter. Os pepineros, viram chegar alguns reforços como Ezequiel Muñoz e estão fazer valer a boa relação com a Juve, que já havia emprestado Gabriel Pires. A rivalidade com o Getafe será também um condimento para esta temporada, visto que é a primeira vez que ambos as formações jogam o principal escalão do futebol espanhol.

 

Levante

O campeão da Adelante da época passada quererá fugir rapidamente à zona dos lanternas vermelhas para fazer uma época descansada neste regresso aos escalão principal. No entanto, as más notícias não tardaram a chegar. Ainda na pré-temporada souberam que o seu goleador, Roger Matri, teria que parar 6 meses devido a uma lesão séria no joelho. Posto isto, arranjar forma de colmatar esta perda será o grande desafio que se coloca a Juan Muniz, técnico do emblema valenciano.

 

Málaga

Pode ser um ano com alguma turbulência no Sul de Espanha. Muitas saídas de grande nome podem causar dificuldades ao clube. Ignacio Camacho, Carlos Kameni, Sandro Ramirez, Pablo Fornals, entre outros, serão jogadores muito difíceis de substituir e adivinha-se uma tarefa bem complicada para Michel no La Rosaleda. É em Borja Baston e em Paul Baysse, antigo capitão do Nice, que os adeptos do clube depositam as esperanças numa época que, pelo menos, repita os níveis da anterior.

 

Real Sociedad

Já depois de ter conseguido a qualificação para a Liga Europa na época passada, a Real Sociedade aponta ainda para algo de maior esta temporada. As soluções de ataque já eram bastante boas e ainda melhoraram com as adições de Janujaz e Diego Llorente, necessárias já que a equipa vai entrar em três frentes. A saída de Yuri Berchiche para o PSG será colmatada com o regresso de lesão de Agirretxe. Há ainda a noticiar as permanências de Inigo Martinez, que vinha sendo muito cobiçado pelo Barcelona e do guarda-redes Geronimo Rulli, que esteve com um pé no Nápoles. Os muitos produtos da formação tentarão também ajudar o emblema a lutar por uma época bem conseguida.

 

Real Madrid

Por esta altura é difícil encontrar quem não considere que este Real é a melhor equipa da liga e que se sagrará vencedor da competição. Com uma equipa completa em praticamente todos os pontos, tentará continuar a hegemonia a que se tem proposto. Neste seguimento, virou-se para a renovação com reforços jovens carregados de potencial de futuro, para encaixar nas posições mais necessitadas. Vallejo, Ceballos e Theo Hérnandez darão ainda mais profundidade e qualidade a um plantel que se propõe a vencer tudo o que joga.

 

Sevilha

Na Andaluzia, as mudanças no corpo técnico não devem reflectir alterações muito significativas no jogo jogado. Sampaoli saiu para tomar conta da seleção argentina e Eduardo Berizzo foi uma solução quase natural para o substituir no cargo. O legado deixado por Monchi a nível de contratações parece ter feito boa escola e, apesar da saída do histórico diretor desportivo para a Roma, os andaluzes conseguiram reforçar-se com muita qualidade. Nomes como Nolito, Jesus Navas, Luís Muriel e Ever Banega vão estar ao serviço de Berizzo e adivinha-se uma nova época a lutar pelo altos voos.

 

Valência

Adivinha-se mais um ano como os últimos – na corda bamba entre voar alto ou cair em queda livre. Depois de muitos anos de gastos desmesurados, esta temporada o Valência tentou virar-se para os bons negócios, apesar das muitas saídas a registar. O acordo permanente com Zaza, a chegada por empréstimo de Gonçalo Guedes dão o mote para esta época, em que os ché querem quebrar o enguiço de terem ficado em 12º. A equipa, que conta com a média de idades mais baixa da liga, viu sair uma das figuras: João Cancelo está a caminho do Inter. No banco, estará Marcelino Garcia Toral, que já conseguiu devolver o Villarreal aos altos voos e tentará agora replicar o feito, mas com maior exigência que estão num nível diferente e já com um historial de treinadores falhados bem longo. A paciência começa a esgotar-se para os adeptos mas é improvável ver um Valência a terminar na parte superior da tabela.

 

Villarreal

O Submarino amarelo foi uma das defesas menos batidas e será novamente esse o mote que Fran Escribá quererá usar para esta nova temporada. A campanha da época passada foi impressionante, terminando em 5º, e esta temporada os adeptos voltam a colocar a fasquia a esse nível. Ainda chegou Carlos Bacca, que se juntará a Bakambu na frente e Semedo entrou para suplantar a saída de Musacchio. Tudo somado, mais uma vez pode lutar por um lugar na Liga dos Campeões.

Foto: Goal

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Pedro NunesJulho 23, 20174min0

Há uns meses, o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, apresentou um Livro Branco aos eurodeputados em que delineava os possíveis cenários da União Europeia. Resumidamente, Juncker previa que a União podia evoluir de cinco formas: recuando muito, recuando pouco, ficando na mesma, avançando pouco ou avançando muito.

Talvez pareça que o primeiro parágrafo não tenha nada a ver com o tema que se vai tratar em seguida, por isso é melhor contextualizar. Ora, não há dúvidas que Juncker usou uma excelente forma de prever o futuro – até porque dificilmente poderá falhar. E já que as boas ideias são para ser aproveitadas, o momento do Barça pode ser pensado da mesma forma, tentando imaginar as possibilidades futuras da equipa blaugrana.

Segundo a Lei de Murphy, tudo o que puder correr mal, correrá. Se assim é, combater Murphy será o desafio de Ernesto Valverde. O técnico que chegou de Bilbau tem agora de recuperar um império em queda, onde não há espaço para margem de erro. Outras mudanças, talvez mais profundas, vão sendo noticiadas na comunicação social. A mais impactante é que Neymar pode estar de saída numa transferência astronómica. Entra muito dinheiro, sai muito talento. Qual valerá mais neste momento para o Barcelona? Com a hegemonia europeia a voltar-se para a capital espanhola a grande velocidade, Camp Nou começa a ver o seu império desmoronar-se aos pouquinhos.

Neste momento, as principais decisões estão centradas naquilo que o mercado pode, ou não, oferecer. A direção sabe o que quer mas não sabe como fazer para ter. O buraco deixado por Dani Alves na ala direita tem sido bem difícil de colmatar. Sergi Roberto remendou, mas não chega para cumprir toda uma época ao nível Champions, tal como é requisito obrigatório em Camp Nou. Semedo chegou para o lugar. Para complicar, o interior daquele lado tem sido o lugar mais rotativo do plantel, pois não há quem o assuma totalmente. Rakitic caiu de forma, Denis não vingou e André Gomes apanhou-se num contexto em que não consegue fazer valer as suas capacidades. Agora, é falado Paulinho para o lugar, visto que a escolha inicial, Verratti, parece não ter modo de sair de Paris.

A previsão mais conservadora aponta para que tudo fique na mesma em Barcelona. Imagine-se este cenário hipotético. Se este ano Valverde vencer a Taça do Rei e cair na Champions e no campeonato, isso será uma boa ou má época? A resposta não é clara. Uns dirão que ficou aquém, outros que já foi um bom trabalho. Objectivamente falando, ganhar o mesmo é ficar na mesma – e não é assim tão descabido que tal volte a acontecer.

As melhores recordações da temporada passada para os adeptos culés foram a vitória para a Taça do Rei, a remontada épica contra o PSG e a partida no Santiago Barnabéu. Após estes dois últimos momentos, o Barça cedeu e deu passos em falso, que os fizeram cair dessas mesmas competições. São experiências como as de Turim e Málaga que os dirigentes não querem que volte a acontecer. Costuma-se dizer que as grandes organizações mudam antes de ser obrigadas a mudar. Numa visão progressista, para os fãs culés estas mudanças eram necessárias e foram efectuadas no momento certo, de maneira a não perder totalmente a hegemonia para a capital.

Num cenário de revolução como o que se vive em Camp Nou, a perspectiva mais positivista – que assume que este envolvimento tem sido o melhor para todas as partes – é praticamente inexistente. Mudanças na direcção, treinador novo, tácticas novas e novos reforços. É o primeiro ano de uma nova era e a reconstrução de um Barcelona que, em tempos, já foi totalmente dominador. A melhor notícia já chegou – a renovação de Leo Messi. A partir daí, é aguardar por mais desenvolvimentos.

Foto: Mantos do Futebol

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Bruno DiasAbril 21, 201716min0

Em certos períodos da época, a candidatura ao título parecia séria e fundamentada. Nos dias que correm, essa ambição já vai longe, e a luta pela 3ª posição com o Atlético Madrid assume-se como o grande objectivo para o que resta da temporada. Resultados que ilustram bem como tem sido a época do Sevilla: irregular.

Com 32 jornadas decorridas na La Liga, a apenas 6 do seu término, o Sevilla ocupa a 4ª posição, com 62 pontos. Luta arduamente pelo 3º lugar com o Atlético Madrid, rival que a dada altura pareceu estar completamente descartado das primeiras três posições da tabela classificativa. Uma recuperação que certamente terá muito de mérito por parte dos comandados de Diego Simeone, mas que terá ainda mais demérito da parte dos “rojiblancos”.

Já por aqui se tinha falado do Sevilla esta temporada, e da chegada altamente esperada e antecipada de Jorge Sampaoli à Europa, num excelente artigo do Diogo Alves. Esperava-se então que o Sevilla assumisse uma postura completamente diferente em campo daquela que possuía com Unai Emery, técnico que saiu para o PSG no mercado de Verão, e as mexidas operadas no mercado de transferências, através do já famoso director desportivo do clube, Monchi (que sairá do clube no final da temporada), assim o deram a entender. Foram vários os jogadores que chegaram ao clube, e quase todos eles com um perfil condizente àquele que Sampaoli aprecia: jogadores evoluídos do ponto de vista técnico e versáteis com a bola nos pés, sendo capazes de arranjar soluções alternativas àquelas que o técnico cria para eles, através da implementação do seu modelo de jogo.

No geral, o técnico argentino, de 57 anos, teve tudo aquilo que desejou no mercado de Verão. E em Janeiro, chegaram ainda Lenglet, Walter Montoya e Jovetic, para completar um plantel que estará, certamente, entre os 5 melhores da La Liga. No entanto, a época do Sevilla tem-se pautado por alguma irregularidade, quer em termos exibicionais, quer em termos de resultados. A época começou com a derrota em ambas as Supertaças: Europeia (contra o Real Madrid) e Espanhola (frente ao Barcelona), e com um Sevilla que, embora já muito interessante em termos ofensivos, possuía falhas claras na sua organização e na forma como defendia, em geral. Tal ideia ficou bem espelhada quando, na 1ª jornada, defrontaram o Espanyol no Ramón Sánchez Pizjuán e venceram por uns excêntricos 6-4. Ofensivamente, um espectáculo imperdível. Mas defensivamente, assistiu-se a uma equipa demasiado partida e mal preparada para defender os ataques rápidos adversários.

Sampaoli percebeu que teria que corrigir alguns posicionamentos sem bola, e começou a incluir mais jogadores de índole defensiva nas suas formações iniciais. O Sevilla passou a sofrer menos golos, mas passou também a encontrar mais dificuldades em marcá-los. Eventualmente, a equipa encontrou um equilíbrio positivo e, principalmente durante os meses de Dezembro e Janeiro, os resultados e as exibições foram bastante positivas, com destaque para a vitória em casa sobre o Real Madrid, por 2-1. No entanto, as últimas semanas deram a conhecer um Sevilla totalmente diferente do que se havia visto esta temporada, para pior. A equipa voltou a apresentar deficiências defensivas, e juntou a isso uma incapacidade ofensiva muito pouco usual nas equipas de Sampaoli. Um período horrendo, que custou ao Sevilha a eliminação da Champions League, às mãos do Leicester City, e que fez com que a equipa andaluza estivesse 5 jogos sem vencer para o campeonato, registo que não só acabou de vez com o “sonho” do título, como inclusive resultou na perda do 3º lugar para o Atlético Madrid.

Jorge Sampaoli tem tido uma primeira época irregular ao comando do clube andaluz. [Foto: fourfourtwo.com]

Como se joga em Sevilha?

Este Sevilla é uma equipa distinta daquilo que estamos habituados a ver nos trabalhos de Sampaoli. Não é, de todo, uma equipa tão ofensiva e vertiginosa como era o seu Chile, por exemplo. No início da temporada, até teriam algumas semelhanças nos momentos com bola, mas com o passar da temporada, Sampaoli procurou introduzir no seu Sevilla um maior equilíbrio do ponto de vista defensivo, abdicando para isso de algumas das suas ideias no plano ofensivo, e talvez seja essa uma das explicações para a irregularidade da equipa andaluza. Vão alternando entre dois/três sistemas, conforme utilizam defesa a 4 ou a 3. No primeiro caso, o 4x4x2, e nos restantes, o 3x4x3 ou o 3x5x2.

Quando em organização defensiva, o Sevilla utiliza uma linha defensiva de 4 ou 5 jogadores, dependendo do sistema em que está a jogar. Os laterais saem regularmente na pressão quando a bola se encontra nos seus corredores. O “6” fica mais fixo e posicional no corredor central, com o “8” a deambular mais na pressão ao portador da bola. Avançados e alas sempre pressionantes, procurando reduzir espaço e tempo sempre que a bola entra nos corredores laterais, mesmo em zonas mais afastadas da baliza. Já nos momentos seguintes à perda da bola, o Sevilla começou por ser uma equipa extremamente intensa (à imagem do que Sampaoli prometia), com posicionamentos muito subidos e com facilidade em instalar-se no meio-campo adversário, recuperando quase sempre a bola nesse espaço ou forçando uma bola longa, com poucas probabilidades de sucesso. No entanto, com o avançar da época, as linhas foram baixando, e a tentativa de recuperação da bola começou a ser feita em terrenos menos avançados. Mantém-se, no entanto, como um dos bons aspectos desta equipa.

O Sevilla actual é uma equipa partida nos momentos de construção, e essa será talvez a principal falha desta formação. Os médios (normalmente N’Zonzi e Nasri) baixam em demasia para iniciar a construção, aparentemente por falta de qualidade e confiança dos centrais para assumirem essa função. Quando com 3 centrais, esta limitação torna-se ainda mais evidente. Só Pareja parece capaz de arriscar mais na saída de bola. Isto faz com que as linhas de passe no corredor central sejam diminutas, pois o Sevilla coloca, nas fases iniciais de construção, demasiados jogadores atrás da linha da bola, e como consequência, as opções de passe em terrenos mais adiantados são menores e mais fáceis de controlar pelo adversário.

Laterais sempre com largura máxima e a projectarem-se em simultâneo. Algo que se altera na direita quando joga Mercado em vez de Mariano. Avançados a alternarem movimentos de aproximação com movimentos de procura da profundidade. Jovetic aparece bem entre linhas, e Ben Yedder apresenta muita qualidade a jogar na linha do último defesa, sempre à procura da possibilidade de ganhar a profundidade. É através dele que, por vezes, o Sevilla procura jogar de forma mais directa, quando percebe que a linha defensiva adversária se encontra demasiado subida/mal organizada. Entre os alas, Pablo Sarabia é mais imprevisível e dinâmico no posicionamento, e Vitolo fixa-se mais no corredor lateral, procurando desequilibrar através das suas incursões em acções de 1×1 e 1×2.

A equipa de Sampaoli demonstra uma intenção clara de criar superioridade nos corredores laterais, criando condições para conseguir chegar rapidamente ao último terço, empurrando consequentemente as linhas adversárias para a sua própria área. A partir daí, procura soluções para entrar na área adversária e finalizar, seja através de tabelas que permitam ganhar a linha de fundo e cruzar, normalmente de forma rasteira, para o coração da área e através do lateral do respectivo lado, seja através da circulação de bola por fora do bloco adversário (circulação em “U”), até que a oportunidade para arriscar no último passe apareça. Ocasionalmente, jogam mais directo à procura de explorar a profundidade, normalmente quando joga Ben Yedder.

Individualmente, o plantel do Sevilla possui bastante qualidade e profundidade na maioria dos sectores. Na baliza, Sergio Rico é o titular indiscutível. Guardião jovem e de grande qualidade, tem evoluído bastante esta época e inclusive “forçou” Salvatore Sirigu, guarda-redes italiano emprestado no início da temporada pelo PSG, a abandonar o clube apenas 6 meses depois de ter chegado, sendo actualmente o titular do Osasuna. O suplente actual é David Soria, guarda-redes que apenas fez 2 jogos, ambos para a Copa do Rei.

Na defesa, entre os centrais, Adil Rami é quem soma mais minutos. O francês, de 31 anos, tem sido peça fundamental no eixo, principalmente pela qualidade que oferece à equipa nas bolas paradas e no jogo aéreo. Há também Gabriel Mercado, argentino que chegou esta época proveniente do River Plate, jogador de quem Jorge Sampaoli raramente abdica e que tem dividido os seus minutos entre a zona central e a lateral direita. Melhor no papel de central que no de lateral, destaca-se pela sua agressividade sobre a bola e a sua capacidade de desarme. Também Nico Pareja tem sido muito utilizado. Tendo em conta o seu histórico de problemas físicos, a sua época tem sido positiva, e o argentino é talvez o melhor central da equipa andaluza, no cômputo geral. Para além destes, há também o português Daniel Carriço (muito atormentado com lesões) e o francês Clément Lenglet, chegado em Janeiro para ocupar a vaga do também francês Timothée Kolodziejczak, que saiu para o Borussia Mönchengladbach, equipa que milita na Bundesliga. Lenglet, ex-Nancy, demonstrou já excelentes pormenores no tempo em que jogou, e tendo apenas 21 anos, augura-se um futuro promissor para este jovem jogador.

Nas laterais, Mariano e Sergio Escudero, à direita e à esquerda, respectivamente, têm sido os titulares da equipa de Sampaoli. O brasileiro é um jogador de clara propensão ofensiva, com uma capacidade física e atlética invejáveis, que lhe permitem fazer sempre os 90 minutos em alta rotação, ao longo de todo o corredor. Assumiu-se, este ano, como um dos melhores laterais da La Liga. Já o segundo chegou na época passada ao clube, vindo do Getafe, e tem-se revelado como uma das boas surpresas na temporada que corre. Ágil e com boa qualidade técnica, envolve-se muito bem no ataque. Para a lateral esquerda há também Trémoulinas, mas o francês, ainda a contas com uma grave lesão, nem sequer jogou esta época.

No meio-campo, dois nomes principais emergem, ambos franceses. De Steven N’Zonzi irei falar mais à frente. Para além dele, Samir Nasri assume-se aqui como um dos jogadores essenciais da equipa. “Reinventado” como médio-centro, num papel mais de organizador e menos de desequilibrador, Nasri é o homem que pauta todo o jogo sevillista. Aos 29 anos, encontrou em Sevilha um contexto que lhe permitiu relançar a sua carreira. Para este sector, há ainda o argentino Matías Kranevitter, emprestado pelo Atlético Madrid, médio defensivo que poucas oportunidades tem tido devido ao rendimento de N’Zonzi, e que também não tem impressionado nos jogos que já realizou; o brasileiro Paulo Henrique “Ganso”, resgatado por Sampaoli ao São Paulo na tentativa de fazer dele o seu “camisa 10”, mas que também pouco tem jogado; e o espanhol Vicente Iborra, capitão de equipa e jogador que tem sido extremamente útil nesta campanha, sendo utilizado em várias posições do terreno e tendo já realizado exibições de grande categoria, como é exemplo os 45 minutos finais que fez em Balaídos, contra o Celta de Vigo, entrando ao intervalo e marcando os 3 golos da vitória dos “rojiblancos”.

Samir Nasri relançou a sua carreira em Sevilha. [Foto: dailymail.co.uk]
 

Nas alas, Vitolo e Pablo Sarabia assumem-se como os jogadores mais utilizados. O primeiro, internacional A espanhol, é um jogador relativamente completo. Já utilizado por Sampaoli em várias posições, da lateral esquerda à frente de ataque, caracteriza-se por ser tecnicamente muito forte, e possui uma capacidade de drible invejável. Já Sarabia tem feito por conquistar um papel de grande relevo na equipa. Com 10 golos e 13 assistências em 41 jogos, é um dos jogadores mais produtivos do Sevilla nesta temporada. Jogador de finta curta, muito ágil e com mudanças de direcção explosivas, tem também uma meia distância muito interessante, que inclusive já valeu pontos no campeonato. Para este sector, há também o argentino Walter Montoya, que chegou em Janeiro proveniente do Rosario Central, mas que praticamente ainda não teve oportunidades para jogar, e o dinamarquês Krohn-Dehli que, tal como Trémoulinas na lateral esquerda, se encontra lesionado desde o início da época, e que ainda não jogou. Até Janeiro, existia ainda o japonês Kiyotake, que chegou no início da temporada vindo do Hannover, mas que nunca foi uma aposta sólida de Sampaoli, e que saiu no mercado de Inverno, regressando ao seu país de origem.

Finalmente, no ataque, muita rotação. Franco Vázquez é o avançado mais utilizado por Sampaoli. No entanto, o argentino não encaixa bem nesse perfil, sendo antes uma espécie de “trequartista”, que normalmente joga atrás do avançado/avançados, no corredor central. Jogador alto (1,86m) e com uma morfologia que, aliada à sua enorme qualidade técnica, faz com que tirar-lhe a bola seja uma tarefa hercúlea. Perdeu algum espaço na equipa a partir da chegada de Stevan Jovetic, em Janeiro. O montenegrino encaixa na perfeição no perfil de avançado que Sampaoli procura. Forte na finalização, com qualidade técnica para dar e vender e com grande capacidade para explorar da melhor forma o espaço entre-linhas, Jovetic chegou e imediatamente começou a “marcar território”, tendo já apontado 4 golos e 3 assistências em 15 jogos realizados para o campeonato. No entanto, o melhor marcador do Sevilla é mesmo o francês Wissam Ben Yedder. Com 17 golos em 36 jogos, este avançado ex-Toulouse destaca-se por ser normalmente a referência mais adiantada da equipa. Joga constantemente na linha do último defesa, move-se muito bem na área e possui também capacidade para criar a sua própria situação de finalização. Para além dele, sobram ainda Luciano Vietto, argentino emprestado pelo Atlético Madrid, que tem tido uma utilização inconstante (muito mais utilizado na primeira metade da época, sendo que o seu último golo foi ainda em 2016), e Joaquín Correa. Contratado à Sampdoria por cerca de 15M€ no início da época, Correa também actua ocasionalmente pelas alas. Avançado de grande estatura (1,89m), destaca-se no entanto pela sua velocidade e capacidade finalizadora. É capaz de rematar com qualquer pé, seja na área ou explorando a meia distância. Tal como a maioria dos seus colegas, é também um jogador tecnicamente acima da média. Sampaoli pediu a sua contratação, e parece ter muita confiança neste jovem talento. E não é pelo ataque, certamente, que a equipa sevillista peca em termos de qualidade.

Ben Yedder é, actualmente, o melhor marcador do Sevilla [Foto: espnfc.com]

DESTAQUE: Steven N’Zonzi

Após 6 épocas no futebol inglês, primeiro ao serviço do Blackburn Rovers e depois no Stoke City, em 2015, o Sevilla investiu cerca de 8M€ na contratação de Steven N’Zonzi, médio defensivo francês de 28 anos. A sua primeira época pelo clube foi bem sucedida, tendo realizado 46 jogos em todas as competições, e sendo claramente um dos jogadores da confiança de Unai Emery.

Com a mudança de treinador, e a chegada de Jorge Sampaoli, poderia pensar-se que N’Zonzi se arriscaria a perder espaço na equipa. No entanto, Sampaoli apostou totalmente no jogador, e definiu desde o primeiro dia que ele seria o “seu” médio defensivo. N’Zonzi correspondeu, e de que maneira.

Apesar da sua estatura (1,96m), N’Zonzi destaca-se pela forma como joga sempre de cabeça levantada, à procura de opções de passe. É um médio defensivo acima da média em termos técnicos, que com Sampaoli evoluiu substancialmente na compreensão do jogo e na forma como coloca a sua qualidade com bola ao serviço da equipa da melhor forma. É bastante capaz no transporte de bola, e não é incomum vê-lo queimar linhas com bola através desse recurso. Dono de uma estampa física impressionante, confere também grande segurança e solidez ao corredor central quando a equipa não tem a bola. É um excelente recuperador de bolas, que fruto da sua forma de ver e pensar o jogo, procura sempre recuperar a bola jogável em vez de apenas destruir as jogadas adversárias. Para além disso, é também um jogador relevante nas bolas paradas defensivas e ofensivas.

Tem sido a “surpresa” da época, não só no Sevilla como na própria La Liga, e as suas prestações de enorme qualidade, tanto no campeonato como na Champions League, atraíram já a atenção dos principais “colossos” europeus. Mantê-lo em Sevilha será, sem dúvida, uma tarefa complicada para a próxima temporada, e N’Zonzi tem feito por justificar voos mais altos.

A La Liga aproxima-se rapidamente do seu final, e já se percebeu que a emoção e a imprevisibilidade estarão presentes até ao último minuto de competição. Com 6 jornadas por disputar e vários duelos que se apresentam como autênticas “finais”, acompanhar este campeonato é algo de carácter obrigatório para qualquer fã do desporto-rei.

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Bruno DiasMarço 3, 201710min0

Finalizadas que estão 25 jornadas da La Liga, o Celta de Vigo encontra-se na 10ª posição, com 35 pontos. Lutam por uma classificação que lhes permita chegar às competições europeias, objectivo que atingiram na temporada passada. No leme, Eduardo Berizzo, um dos excelentes treinadores deste campeonato.

O técnico argentino, de 47 anos, está na sua terceira temporada em Vigo, e o seu Celta tem vindo a apresentar um desenvolvimento claro e crescente. Na primeira época, terminaram no 8º lugar do campeonato, e não foram além dos oitavos-de-final da Taça do Rei. Na temporada seguinte, um 6º lugar (que valeu a qualificação para a Liga Europa, competição onde já estão nos oitavos-de-final, tendo eliminado recentemente o Shakhtar Donetsk de Paulo Fonseca) e as meias-finais da Taça. Feito que, de resto, alcançaram novamente esta temporada, tendo sido apenas eliminados por um surpreendente Alavés. No campeonato, a repetição da prestação da época passada continua a ser um objectivo perfeitamente realista, e um que consolidaria mais uma boa época do Celta.

Eduardo Berizzo é mais um dos muitos treinadores que seguem uma filosofia futebolística baseada na posse da bola como instrumento para comandar a partida, numa reacção agressiva à perda da bola e num futebol ofensivo que providencie muitas oportunidades de golo e um bom espectáculo para quem assiste ao jogo. Tal como nomes como Pep Guardiola ou Jorge Sampaoli, também ele possui claras influências de Marcelo Bielsa, o “pai” desta corrente futebolística no futebol moderno.

É, pois, com naturalidade que se constata que o seu Celta se enquadra perfeitamente nessa filosofia de jogo. Uma equipa que raramente se atemoriza pelo nome do seu adversário ou pelo estádio em que joga (embora seja necessário fazer-se uma adenda a este ponto, para referir a excelente prestação da equipa em sua casa, o estádio de Balaídos, com 8 vitórias em 12 jogos) e que procura impor o seu futebol sempre que entra em campo. Que sendo relativamente segura no plano defensivo, se sente bastante confortável quando o jogo se parte e o plano ofensivo se apodera da partida.

[Foto: skysports.com]

 O futebol do Celta

Sendo Berizzo um “discípulo” de Bielsa, a flexibilidade táctica é algo que faz obviamente parte da matriz futebolística do Celta. A equipa adapta-se com facilidade a diferentes estruturas tácticas (Berizzo muda frequentemente a estrutura-base da equipa, seja de início ou durante a partida) e é capaz de demonstrar um fio condutor de jogo nos mais diversos contextos e circunstâncias.

O Celta alinha normalmente num 4x2x3x1, que possui duas formas distintas: uma com um “10” (principalmente, Daniel Wass), e outra com um avançado móvel (normalmente Iago Aspas). Por vezes, também utilizam um 4x3x3 mais clássico, com Nemanja Radoja a “6” (ou Marcelo Díaz). Procuram jogar um futebol apoiado, sempre que possível pelo corredor central, mas utilizando também os corredores laterais para chegar ao último terço adversário. Entre os centrais, sai mais Sergi Gómez que Gustavo Cabral na condução e/ou no passe (sendo que, estando em boas condições físicas, é provável que Andreu Fontàs assuma a titularidade, dada a sua superior qualidade). Bom envolvimento ofensivo dos laterais, especialmente pela direita, com Hugo Mallo. Os alas variam entre a largura e a procura do espaço interior (Pione Sisto é muito forte na procura do espaço interior com bola, através do drible). Quando em 4x2x3x1 com Aspas, este joga sempre entre a linha defensiva e a linha média adversária. Já Wass baixa mais para participar na construção em fases iniciais/intermédias. Radoja, algo limitado com bola, recupera e entra simples. Díaz entra em jogo nas fases iniciais de construção e procura associar a equipa, criando superioridade numérica no corredor lateral, procurando linha de passe vertical (procura normalmente Aspas ou o ala que aparece por dentro) ou lançando longo, procurando a profundidade com Guidetti, que está sempre em movimento e trabalha imenso sem bola. O sueco é muito forte a atacar as costas da defesa.

Na baliza, a rotação entre os dois guardiões do plantel tem sido a nota dominante. Sergio Álvarez – mais experiente – tem jogado ligeiramente mais, mas Rúben Blanco – mais jovem – é também uma boa opção, e possui ainda uma margem de progressão bastante interessante.

Na defesa, destaque para o capitão de equipa Hugo Mallo. Com apenas 25 anos, mas já com mais de 250 jogos pelo Celta – o único clube da sua carreira –, é um dos símbolos do clube. Lateral de clara propensão ofensiva, oferece consistência e profundidade ao flanco direito. Do outro lado, joga normalmente Jonny Castro, jovem defesa da formação que também joga como central, e que ganhou o lugar a Carles Planas, jogador teoricamente mais experiente e talentoso, mas que tem tido algumas complicações com lesões na sua carreira. Já no eixo defensivo, os centrais mais utilizados são Gustavo Cabral (algo lento e duro de rins, mas forte pelo ar e razoável em termos técnicos) e Sergi Gómez (central consistente e com qualidade na saída de bola). Depois, Facundo Roncaglia funciona como um defesa mais polivalente, que joga em qualquer posição do quarteto defensivo. Finalmente, sobra Andreu Fontàs, excelente central, seguro defensivamente e com muita qualidade na saída de bola, mas que leva menos jogos que os colegas de posição, resultado de uma grave lesão contraída na época passada, e que só debelou totalmente já com esta época a decorrer.

No meio-campo, existem várias opções à disposição de Berizzo. Nemanja Radoja é o médio mais defensivo, vulgo “trinco”. Possui algumas limitações ofensivas, que são normalmente compensadas por Marcelo Díaz no duplo-pivot. O chileno, pleno conhecedor desta ideia de jogo (por já ter trabalhado durante vários anos com Jorge Sampaoli), funciona aqui como médio de maior ligação e construção. Jogador incrivelmente inteligente, fortíssimo na decisão, com boa visão de jogo e muita qualidade no passe. No duplo-pivot, são ainda opções Jozabed, médio clarividente e evoluído tecnicamente emprestado pelo Fulham em Janeiro; Pablo Hernández, médio chileno que acrescenta maior dimensão física ao jogo; e o próprio Daniel Wass, um antigo lateral direito que passou pelo Benfica, e que agora joga como médio mais criativo (ou, ocasionalmente, numa das alas). Este dinamarquês caracteriza-se por ser um jogador forte no drible, criativo q.b. e com uma meia distância acima da média.

Nas alas, há claramente um nome mais sonante que os outros. Pione Sisto chegou esta época ao clube, e já provou ter sido uma excelente contratação, pois tem sido um dos destaques da época do Celta. Este jovem extremo, sobejamente conhecido pelos fãs da saga Football Manager, tem demonstrado que o seu valor real não fica a dever nada ao seu valor virtual. Um desequilibrador puro, com uma velocidade de execução tremenda, um vasto leque de recursos e uma objectividade incomum em jogadores do seu perfil. O seu potencial é massivo. Para além dele, há também Theo Bongonda, extremo rápido e vertical, que gosta de apostar no 1×1 e que acelera constantemente o jogo, e o espanhol Josep Señé. Até Janeiro, Berizzo contava também com o chileno Fabián Orellana, jogador de grande valia e que era uma peça bastante importante da equipa. No entanto, Orellana saiu emprestado para o Valencia em Janeiro, devido a um desentendimento com o treinador.

Por fim, no ataque, três figuras de proa. De Iago Aspas falarei mais à frente, pelo que nos restam Giuseppe Rossi e John Guidetti. O primeiro é um jogador de enorme qualidade, emprestado pela Fiorentina, e que poderia ter chegado muito mais longe se não fosse o calvário das lesões, que tantas vezes foram um obstáculo na sua carreira. No Celta, procura voltar às grandes épocas. No entanto, a titularidade tem sido complicada de conquistar, pela sua condição física e principalmente por causa da importância de Aspas para a equipa. Já o sueco é o ponta-de-lança titular da equipa de Vigo. Apesar de ter apenas 7 golos nesta temporada (números aquém dos esperados), é um jogador que serve de referência para o resto da equipa e segura bem a bola na frente. Tem qualidade técnica, facilidade de remate e destaca-se também pela sua combatividade e personalidade carismática dentro do rectângulo de jogo, aspectos que certamente terão sido preponderantes para que Guidetti se tenha tornado, num curto espaço de tempo, um dos jogadores favoritos dos adeptos.

Pione Sisto, uma das boas contratações do Celta esta temporada [Foto: marca.com]

Destaque: Iago Aspas

O craque da equipa. 29 anos, 1,76m e um único jogo pela selecção espanhola (em Novembro de 2016), onde também marcou um golo. Teve uma passagem falhada pela Premier League, no Liverpool, e após uma breve passagem pelo Sevilha (por empréstimo do clube inglês) regressou ao “seu” Celta, clube onde fez a formação e onde se notabilizou no início da carreira. Leva cerca de 250 jogos e 89 golos pelo clube, e está a fazer provavelmente a melhor época da sua carreira, com 17 golos e 7 assistências em 31 jogos.

Avançado móvel, joga melhor como segundo avançado, entre linhas e atrás de um jogador mais fixo. Possui um pé esquerdo repleto de virtuosismo e magia. Muda com facilidade o ritmo do jogo, devido ao seu grande poder de aceleração, combinado com a sua agilidade acima da média. Evoluído tecnicamente, tem facilidade no remate e “faro de golo”. É fortíssimo em espaços curtos e no drible, possui uma excelente visão periférica e tem criatividade a rodos, que lhe permite criar oportunidades quase “do nada” e fazer golos que, por si só, valem o preço do bilhete. É um jogador com a cultura típica do futebolista espanhol, inteligente e que sabe explorar muito bem os espaços que encontra nas organizações defensivas adversárias. Pela combinação de características e qualidades que possui, é um jogador dificílimo de travar nos seus melhores dias.

Estamos às portas de Março, e a La Liga está ao rubro, com uma competitividade impressionante, com imprevisibilidade quase total na luta pelo título e pelas competições europeias e já com vários jogos de altíssimo nível, seja no plano táctico, seja no plano emocional. É em Espanha que moram os melhores do mundo, pelo que acompanhar a La Liga será sempre requisito obrigatório para qualquer fã de futebol.

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Bruno DiasFevereiro 2, 201711min0

Na pequena cidade de Villarreal, na província de Castellón, mora uma das melhores equipas da La Liga. O Villarreal CF alia um futebol de qualidade aos bons resultados, e passar no “El Madrigal”, o seu mítico estádio, é sempre uma tarefa hercúlea para qualquer equipa. As épocas vão passando, e a presença do “Submarino Amarillo” nos lugares cimeiros da classificação começa a ser uma constante.

Com 20 jornadas decorridas, o Villarreal encontra-se actualmente no 6º lugar, com 34 pontos. Está a apenas dois pontos do Atlético Madrid, que se encontra no 4º lugar, posição que dá acesso à pré-eliminatória da UEFA Champions League. Eliminatória onde, de resto, já estiveram presentes esta época, tendo sido eliminados pelo AS Monaco. Estão também ainda em prova na Liga Europa, onde irão defrontar a AS Roma, nos 16 avos-de-final.

No campeonato, o Villarreal ostenta neste momento a distinção de melhor defesa da liga, com apenas 14 golos sofridos em 20 jornadas. Estes números são fruto, principalmente, de uma excelente capacidade para reagir à perda da bola e pressionar o adversário ainda no seu meio-campo, evitando conceder muitas e boas oportunidades de golo, e ganham ainda mais relevo quando se percebe que a equipa tem vindo a ser assolada por uma terrível vaga de lesões, que no caso específico do sector defensivo, já retirou Mateo Musacchio – o “patrão” da defesa – dos relvados por vários jogos, quebrando assim o ritmo do que vinha a ser um excelente início de época por parte do defesa argentino.

Muito do trabalho visível nesta equipa é ainda mérito de Marcelino Toral, treinador que esteve no Villarreal durante três temporadas e meia e que dotou a equipa de uma organização e dinâmica com e sem bola muito interessantes (quase exemplares, em certos jogos). No entanto, há que reconhecer também o mérito de Fran Escribá, técnico de 51 anos que lhe sucedeu. Pressionado pelo momento da época em que pegou na equipa (com o campeonato praticamente a iniciar-se), e sem muito tempo para impor o seu cunho pessoal no futebol do Villarreal, ou até para construir um plantel que fosse mais do seu agrado, Escribá foi inteligente e procurou manter a estrutura já existente, alterando um ou outro pormenor, sempre de forma progressiva. Embora com um ou outro obstáculo mais complicado de superar pelo caminho, os resultados têm aparecido e a estabilidade tem sido mantida, e isso abre espaço a que, no futuro, Escribá possa talvez montar um Villarreal mais à sua imagem.

Fran Escribá assumiu o comando da equipa no início da época, substituindo Marcelino Toral [Foto: skysports.com]
 

Como joga o Villarreal?

O Villarreal organiza-se habitualmente num 4x4x2 dito “clássico”, mas que tem pouco desse estilo mais antiquado, do futebol dos idos anos de 80 e 90, assente num jogo essencialmente vertical e directo. A equipa de Fran Escribá caracteriza-se pela sua flexibilidade táctica e grande dinâmica, apresentando um futebol muito rotinado, com uma fluidez bastante interessante e com uma organização bem trabalhada e passível de ser identificada na maioria dos momentos do jogo.

Privilegiam uma saída de bola apoiada e a partir da defesa (muitas vezes é o próprio guarda-redes Asenjo que coloca a bola no chão e joga curto para um dos centrais), embora não descurem possíveis lançamentos mais directos, sobretudo quando joga Bakambu na frente, que se destaca pelos seus movimentos de procura da profundidade. Os laterais estão constantemente projectados, e servem como apoio para a circulação de bola no meio-campo adversário, de forma a haver uma presença efectiva de jogadores em todos os corredores.

Nas fases de construção, o principal ponto de referência é o capitão Bruno Soriano (de quem falaremos um pouco mais à frente neste artigo). Os alas procuram explorar os espaços entre linhas, não ficando presos ao corredor lateral, e os avançados procuram constantemente realizar movimentos opostos, de forma a criar várias opções de continuação do ataque e assim, confundir as marcações adversárias. Isto é, quando um dos avançados procura aproximar-se do portador da bola, o outro avançado realiza um movimento de procura da profundidade, tentando aproveitar uma possível desorganização momentânea da defesa adversária, criada por esta dinâmica. Dinâmica essa que, de resto, já resultou em alguns golos nesta temporada. A mobilidade dos avançados é um aspecto fulcral de todo o processo ofensivo do Villarreal.

Passando aos jogadores, na baliza, joga Sergio Asenjo, guardião já internacional A pela selecção espanhola, e que se destaca pela sua agilidade e eficácia no 1×1, para além de ser também bastante evoluído na distribuição com os pés. Ocasionalmente, comete também alguns erros insólitos, indicadores do arrojo que demonstra em campo. Mas no cômputo geral, é um guarda-redes sólido e que apresenta poucos pontos fracos.

Já no que toca ao quarteto defensivo, há uma figura que se destaca: Mario Gaspar. O lateral direito, também internacional A espanhol, é já uma referência da história do clube. Leva mais de 250 jogos pelo Villarreal, único clube que conheceu, de resto, em toda a sua carreira, e destaca-se pela incrível regularidade e consistência exibicional que apresenta. Não sendo um lateral de topo, não é nunca por ali que a equipa espanhola peca em termos qualitativos. Do outro lado, joga Jaume Costa, lateral de cariz bastante ofensivo e que dá grande profundidade ao flanco esquerdo. Já no eixo defensivo, a dupla habitual seria Victor Ruíz e Mateo Musacchio. Digo “seria” pois Musacchio tem tido problemas com lesões, e nos tempos mais recentes, o seu lugar vai sendo ocupado por Álvaro González, jogador contratado esta temporada ao Espanyol. É de notar que, sendo todos estes centrais sólidos do ponto de vista defensivo, nenhum deles possui especiais valências ofensivas.

No meio-campo, para além do capitão Bruno Soriano, outro jogador se assume como titular indiscutível e peça fundamental da equipa: Manu Trigueros. O espanhol, de 25 anos, é talvez um dos maiores “underrateds” da La Liga. Um médio bastante completo, que possui qualidade para causar impacto em todos os momentos do jogo, e que se destaca, acima de tudo, pela incrível inteligência e leitura de jogo que possui. Isto para além de toda a qualidade técnica que tem, e que lhe permite executar várias acções que outros jogadores só conseguem mesmo imaginar, por falta de capacidade para as realizar. É muito graças a este binómio Soriano-Trigueros que o Villarreal apresenta muita qualidade com bola no seu corredor central.

Nas alas, dois jogadores relativamente semelhantes. Na direita, Jonathan Dos Santos é o médio que cria através do drible. O mexicano encontrou em Villarreal a estabilidade que faltava ao seu futebol, e a sua imprevisibilidade confere maior variabilidade de opções ao ataque. Já na esquerda, joga normalmente Roberto Soriano, jogador que chegou esta época, proveniente da Sampdoria, por quase 15M€. Internacional italiano, formado nas escolas do FC Bayern (possui ascendência alemã), apresenta qualidade com ambos os pés, e cria principalmente através da sua grande qualidade de passe, aliada à excelente visão de jogo que possui. Aqui, quem também leva já bastantes minutos esta temporada é Samu Castillejo, um jogador de características diferentes dos habituais titulares. É um desequilibrador “puro”, que nutre especial prazer em levar o jogo para os duelos individuais (1×1, 1×2), e que possui uma eficácia assinalável nesse aspecto. Poderá crescer imenso de rendimento quando conseguir colocar da melhor forma toda a sua qualidade individual ao serviço do colectivo.

Finalmente, no ataque, muitos são os recursos deste Villarreal. Nos últimos dias chegou ao clube Adrián López, emprestado pelo FC Porto, mas para além dele, há também o jovem Santos Borré, emprestado pelo Atlético Madrid e que possui alguma qualidade técnica e na finalização, bem como uma capacidade de trabalho bastante apreciável e que se demonstra bastante útil nos momentos sem bola. E depois, há duas duplas: a da época passada, e a que tem jogado mais esta temporada. Roberto Soldado e Cédric Bakambu criaram o pânico em várias defesas adversárias na temporada transacta, pela forma harmoniosa como funcionavam em conjunto. O congolês desgasta qualquer defesa com as suas constantes movimentações à procura da profundidade, e o espanhol é exímio a perceber quais os espaços que deve explorar, e que lhe poderão providenciar oportunidades de finalização. Esta época, no entanto, por problemas físicos e, no caso de Bakambu, também pela recente convocatória para a CAN, o impacto de ambos no ataque do Villarreal tem sido bem menor.

Já a dupla desta época, não sendo talvez tão forte na finalização e na procura do espaço, é sem dúvida “outra loiça” no que à criação e à exploração do espaço entre linhas diz respeito. Nicola Sansone, italiano contratado ao Sassuolo, é um avançado em constante movimento e que possui recursos técnicos para jogar em espaços curtos, possuindo também a velocidade necessária para realizar bons movimentos de ataque à última linha defensiva adversária. Já Alexandre Pato (entretanto transferido para o campeonato chinês) tem conseguido, até ao momento, realizar uma temporada sem problemas físicos de maior (questão que sempre colocou em causa o seu rendimento), e a sua qualidade está acima de qualquer suspeita. Muito forte e criativo através da utilização do drible, com uma capacidade de finalização acima da média e com recursos técnicos sem fim definido, Pato é o jogador que, em determinados momentos, catapulta(va) o Villarreal para outros patamares qualitativos. A solução encontrada pela equipa espanhola para o substituir será, certamente, um dos maiores tópicos de curiosidade para o que resta desta temporada.

Alexandre Pato, agora na China, tem sido uma das principais referências do ataque do “Submarino Amarillo” [Foto: dreamteamfc.com]

 

Destaque: Bruno Soriano

No meio-campo do “submarino amarillo”, mora um dos melhores médios da La Liga. Bruno Soriano nunca conheceu outra casa que não o “seu” Villarreal. Estreou-se pelo plantel principal a 15 de Julho de 2006, num jogo frente aos eslovenos do Maribor, a contar para a extinta Taça Intertoto, e daí para cá conta com mais de 400 jogos pelo clube. Vai na sua 11ª temporada a representar o clube, e é com naturalidade que se apresenta como o capitão de equipa.

Para além de ser um líder no balneário, Soriano é também um líder dentro de campo. Lidera por exemplo, com o seu futebol. Um organizador de jogo puro, que faz funcionar todo o jogo do Villarreal, através da forma como faz a bola circular por todos os corredores, como descobre linhas de passe quase imperceptíveis ou como gere o ritmo do jogo a seu bel-prazer. Joga normalmente a partir da posição 6 (embora também possa actuar em terrenos mais adiantados), e juntamente com Manu Trigueros, forma uma das duplas de centro-campistas mais fortes do campeonato.

É internacional A pela selecção espanhola (10 jogos), e esta temporada leva 5 golos e 2 assistências em 27 jogos, distribuídos por todas as competições. Números relativamente modestos para um médio, e que não fazem total justiça à tremenda qualidade do futebol deste jogador.

Numa liga reconhecida pela sua enorme competitividade no que aos lugares europeus diz respeito, o Villarreal CF tem-se afirmado, época após época, como uma das principais equipas espanholas. Esta temporada não parece ser excepção, e tendo em consideração o facto de que as lesões não têm dado descanso, não é de todo descabido afirmar que, sem esse tipo de obstáculo para o que resta da época, este “submarino amarelo” pode mesmo chegar a bom porto.

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Bruno DiasDezembro 14, 20169min0

Com quase meio campeonato disputado, a Real Sociedad apresenta-se como uma das equipas mais entusiasmantes e imprevisíveis da La Liga. Entre o futebol positivo que apresentam, e a irregularidade que os caracteriza, é difícil prever qual a posição que ocuparão no final da temporada. Mas até lá, serão uma equipa que vale a pena acompanhar.

Ao fim de 15 jornadas, a Real Sociedad ocupa a 5ª posição da La Liga, com 26 pontos, pontuação que partilha com o Villarreal, que se encontra no 4º lugar, uma posição que dá acesso à pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Classificação bastante positiva nesta altura da temporada, que corresponde plenamente àquelas que seriam as ambições de todos os adeptos no início da temporada, e que passam pelo regresso da Real às competições europeias.

Após um início titubeante na La Liga, com uma derrota por 3-0 em casa frente ao Real Madrid e com apenas 7 pontos em 6 jornadas, a Real estabilizou e arrancou para as posições cimeiras da tabela. 5 vitórias nas 6 jornadas seguintes – incluindo uma vitória por 2-0, no Anoeta (a “casa” da Real, autêntica “fortaleza” que dificulta, e muito, a vida a qualquer adversário), frente ao Atlético Madrid – colocaram os “Txuri-urdin” (alcunha de origem basca, que se refere às cores utilizadas pelo clube: o branco e o azul) em lugares europeus. Dois períodos de jogos marcadamente distintos, que caracterizam o rendimento de uma equipa que consegue atingir o brilhantismo e a mediocridade quase com igual facilidade.

E as três últimas jornadas são o reflexo perfeito disso: em casa, frente ao Barcelona, a Real Sociedad fez a melhor exibição da temporada, e saiu do jogo com um 1-1 que soube, claramente, a pouco, face à superioridade demonstrada em campo (e que até poderia estar manifestada no resultado final, não fosse a equipa de arbitragem ter anulado, indevidamente, aquele que seria o 2-1, a Carlos Vela). Na jornada seguinte, no Riazor, estádio do Deportivo, a Real saiu vergada a uma pesada derrota por 5-1, num jogo inteiramente dominado pela equipa da Corunha. Cinco dias volvidos, e vitória por 3-2 frente ao Valencia, no Anoeta, num jogo dominado pela equipa da casa e que até poderia ter tido outra dimensão, se a eficácia na finalização tivesse sido outra. Uma imprevisibilidade de rendimento que, embora possa custar caro, a longo prazo, confere interesse a qualquer jogo desta equipa.

Eusebio Sacristán é o “timoneiro” da formação basca [Foto: elrincondelareal.com]
 

O futebol da Real

A qualidade de jogo apresentada pela Real Sociedad é um dos principais motivos – se não mesmo o principal – pelos quais vale a pena ocupar 90 minutos da vida a vê-los jogar. São treinados por Eusebio Sacristán, técnico de 52 anos que fez parte da lendária “Dream Team” do Barcelona, comandada pelo mítico Johan Cruyff, e que passou praticamente 15 anos no clube, como jogador e treinador. Não é, portanto, uma surpresa constatar que Eusebio tem no sangue a filosofia catalã, baseada na posse de bola e na utilização da mesma como instrumento para dominar o jogo e alcançar a supremacia sobre qualquer adversário.

É essa ideologia que ele procura reproduzir nesta Real. Normalmente em 4x3x3 (que, ocasionalmente, pode variar para um 4x2x3x1), é uma equipa que procura, sempre que possível, atacar pelo corredor central e jogar de forma apoiada, de pé para pé, em qualquer zona do terreno. Aqui, há que realçar a qualidade dada na saída de bola pelos centrais (sobretudo por Iñigo Martínez), que procuram fazê-la chegar com qualidade e pelo chão a terrenos mais adiantados, e inclusive pelo guarda-redes Rulli, que também faz da distribuição um dos seus pontos fortes. Também a utilização que a Real faz dos corredores laterais, embora seja significativa, tem apenas como objectivo o descongestionamento do corredor central e, no último terço, a utilização do cruzamento como meio de chegar ao golo, mas apenas quando existe uma presença efectiva de jogadores seus na área, que torne essa acção perigosa e realmente eficaz. Importante, aqui, a qualidade de decisão e o critério com bola exibido pelos seus laterais (Carlos Martínez ou Elustondo pela direita, Berchiche pela esquerda).

No meio-campo, a aposta recai habitualmente num trio de médios que se destacam pelo equilíbrio que conferem à equipa, através de uma boa capacidade de trabalho sem bola, e de uma qualidade de passe acima da média quando a têm. O papel de Illarramendi, Zurutuza e Xabi Prieto (o trio mais utilizado por Eusebio) é o de conferir fluidez à circulação de bola, procurando sempre o caminho mais simples para a fazer chegar ao último terço (mas tendo sempre em conta o valor da posse de bola, e o quão importante é circulá-la com segurança), sendo que possuem também grande importância na forma como a equipa reage, rapidamente, à perda da bola, e consegue pressionar de forma relativamente organizada no meio-campo adversário, complicando bastante a tarefa a equipas que pretendem sair a jogar de forma curta e apoiada. Esta estrutura apenas se altera durante o jogo, com a entrada de Canales para o jogo, um médio ofensivo bastante criativo e que possui claramente mais apetências ofensivas do que defensivas.

Já o ataque da Real Sociedad pauta-se por uma mentalidade jovem e arrojada. A partir da direita, Carlos Vela funciona como um avançado móvel e que percorre toda a frente de ataque. É o jogador mais preponderante da equipa, e é nele que os adeptos mais confiam nos momentos decisivos. O mexicano está no ponto mais alto da carreira até ao momento, e transformou-se num jogador que alia imensa qualidade a uma regularidade exibicional bastante apreciável.

Do outro lado, está a jóia da formação do clube, Mikel Oyarzabal. Com apenas 19 anos, tem um futuro muito promissor pela frente. É já internacional A espanhol, tendo feito o seu único jogo em Maio deste ano, num jogo amigável frente à Bósnia. Um extremo que representa a escola espanhola ao seu melhor nível. Apresenta qualidade com ambos os pés (embora o esquerdo seja o seu pé predominante), sente-se à vontade em espaços curtos, onde pode explanar toda a sua qualidade no drible, e possui também um entendimento do jogo digno de destaque, pela forma como encontra, com facilidade, linhas de passe que aproximam a equipa da baliza adversária. Não sendo um avançado, como Vela, é um jogador com características para poder jogar nos três corredores, e serve como um excelente complemento ao mexicano.

E depois, há o brasileiro Willian José na frente de ataque. O avançado brasileiro, de 25 anos, já tinha deixado boas indicações na temporada passada, ao apontar 9 golos em 30 jornadas pelo Las Palmas. Esta época, no entanto, finalmente “explodiu”, e tem demonstrado todo o talento que há muito lhe era reconhecido. Com 14 jogos realizados no campeonato, já igualou os mesmos 9 golos da época passada. Uma marca que lhe permite ser o actual goleador da Real, bem como um dos melhores marcadores da La Liga.

Forte fisicamente (possui uma velocidade e agilidade surpreendentes para um jogador com 1,89m), com elevada qualidade técnica e de remate fácil, Willian é a referência da Real na área e um avançado bastante completo, que oferece múltiplas soluções à equipa e cria perigo de diversas formas aos seus adversários. Apesar daquilo que a sua altura poderia indicar, é um avançado móvel. É frequente vê-lo sair da zona dos centrais, procurando participar nas fases de construção e criação da equipa. No fundo, Willian é o sucessor perfeito de Jonathas, goleador da Real na época passada, que foi transferido para a Rússia (para o Rubin Kazan), e jogador que partilha muitas das suas características.

Willian José tem sido uma das principais referências da Real nesta temporada [Foto: skysports.com]
 

Destaque: Iñigo Martínez

Apesar de existirem equipas com orçamentos significativamente superiores na La Liga, e com todas as condições para conseguir ter nas suas fileiras os melhores jogadores do campeonato, é na Real Sociedad que mora um dos melhores centrais a actuar em Espanha na actualidade.

Internacional A pela selecção espanhola (3 jogos realizados, tendo-se estreado num jogo amigável frente ao Equador, em Agosto de 2013), Iñigo Martínez é um jogador que se destaca, não só pelas qualidades associadas naturalmente a um central – como a capacidade de desarme ou a competência em aspectos como o jogo aéreo ou o sentido posicional –, mas sobretudo pela panóplia de opções que possui quando tem a bola em seu poder. Dono de uma qualidade de passe soberba, tanto curto como longo, com uma visão de jogo invulgar para um central e com uma qualidade técnica acima de qualquer suspeita, em todas as acções, Iñigo é o esteio da defesa da Real, e um dos pilares da equipa.

Com 25 anos (faz 26 em Maio), está na altura perfeita para “dar o salto” e demonstrar todo o seu valor num clube de outra dimensão, pois possui a qualidade necessária para o fazer. Mas tendo renovado recentemente com a Real Sociedad (em Abril do presente ano), e sendo um dos jogadores mais acarinhados (a Real é o único clube que conheceu na carreira, e aquele onde já conta praticamente com 200 jogos oficiais) e valorizados do plantel, é de esperar que os interessados sejam obrigados a “abrir os cordões à bolsa” para o retirar da formação basca. Mas ele valerá, certamente, esse esforço.

Seja pelos jogadores talentosos que alberga, pelo futebol positivo que pratica ou simplesmente por empatia com o clube, acompanhar os jogos da Real Sociedad é uma experiência que vale o tempo investido. Apesar da sua irregularidade, a equipa basca promete estar na luta pelos lugares europeus até final, numa La Liga que esta época se apresenta recheada de equipas talentosas e tacticamente interessantes.

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Bruno DiasNovembro 11, 20166min0

Quando pensamos no Atlético de Madrid, nos dias que correm, rapidamente nos vem à cabeça uma personalidade: Diego Pablo Simeone. O técnico argentino construiu no clube espanhol uma carreira de enorme sucesso até à data, e desde que assumiu o comando da equipa, em Dezembro de 2011, o Atlético conquistou praticamente tudo.

Uma Liga Europa, uma Supertaça Europeia, uma Copa do Rei e uma Liga Espanhola, sendo que atingiram também duas finais da Liga dos Campeões, ambas perdidas para o seu eterno rival, o Real Madrid. São estes os marcos da carreira de Simeone no Atlético. Mas, para além de todas estas conquistas, Simeone construiu também uma imagem para si próprio no futebol, que leva a que seja, nos dias que correm, um dos treinadores mais prestigiados e cobiçados do mundo. O seu estilo carismático e facilmente identificável, baseado na garra, no “sangue quente” que sempre o caracterizou enquanto jogador, está plenamente reflectido no seu Atlético.

Uma “equipa de autor”, que se dispõe num 4x4x2 clássico, com duas linhas de 4 e dois avançados na frente de ataque, e que alcançou objectivo atrás de objectivo, através de uma organização defensiva de elite. Considerar este Atlético como a melhor equipa do mundo em termos defensivos é algo perfeitamente válido e sustentável, e engane-se quem pensa que é possível atingir este nível apenas com base na garra e na capacidade de sacrifício. Há muito trabalho de Simeone na forma como a equipa se posiciona em termos defensivos, na forma como procuram ao máximo fechar o espaço entre linhas, na forma como conseguem conduzir o adversário para a zona onde estão preparados para pressionar em bloco, de forma a forçar o erro. É claro que a intensidade única deste Atlético aumenta a qualidade de todos os processos defensivos. Mas eles existem, estão lá e são muito bem trabalhados.

A solidez defensiva do Atlético é a sua principal imagem de marca [Foto: www.india.com]
A solidez defensiva do Atlético é a sua principal imagem de marca [Foto: www.india.com]
 

Pelo seu estilo defensivo, agressivo sobre a bola e, muitas vezes, quase à margem das leis (não há porque escondê-lo), e como todas as grandes equipas, o Atlético de Simeone recolhe tantas ou mais críticas que elogios. Uma das principais e mais comuns críticas foca-se na falta de capacidade ofensiva dos “colchoneros”. No facto de, sendo uma equipa de um estilo defensivo e pragmático, não possuírem qualidade nos momentos ofensivos e que envolvem a posse da bola. De facto, Simeone já por várias vezes assumiu em público que se sente mais à vontade quando o Atlético cede a iniciativa de jogo ao seu adversário, tendo assim mais espaço para lançar o contra-ataque quando recuperam a bola.

No entanto, esta época o Atlético parece estar a mudar. A matriz principal continua lá, obviamente, mas nota-se uma preocupação crescente de Simeone com a produção ofensiva da equipa, e com o número de jogadores de cariz ofensivo presentes na equipa. No jogo contra o Sporting de Gijón, na 4ª jornada da La Liga, por exemplo, o Atlético entrou em campo com Koke, Saúl Ñíguez, Gaitán e Ferreira Carrasco no meio-campo, com Gameiro e Griezmann no ataque. 6 jogadores de características ofensivas, na sua essência, e uma vitória por 5-0. A segunda maior da temporada, actualmente, apenas atrás da goleada imposta ao Granada, à 8ª jornada. Vitória por 7-1, com apenas duas alterações em relação ao jogo de Gijón: a troca de Saúl Ñíguez por Gabi, um médio de características mais defensivas, e a troca de Gaitán por Correa, um extremo argentino de maior verticalidade e bastante incisivo nas suas acções. Novamente um 11 com clara qualidade ofensiva, e nova goleada.

Outro dado curioso é a forma como os golos deste Atlético têm sido obtidos. Em épocas passadas, uma parte significativa da produção ofensiva do clube de Madrid era conseguida através das bolas paradas. A capacidade de explorarem livres ou cantos para criar oportunidades de golo foi maximizada ao longo das últimas temporadas. Esta época, no entanto, o Atlético ainda não marcou de bola parada. Todos os seus golos são de bola corrida ou através de grandes penalidades.

Diego Godín é a principal "arma" do Atlético nas bolas paradas [Foto: www.espnfc.com]
Diego Godín é a principal “arma” do Atlético nas bolas paradas [Foto: www.espnfc.com]
 

O Atlético tem vários jogadores de classe mundial, como Oblak, Godín, Filipe Luís ou Griezmann. Ainda assim, um dos destaques individuais deste “novo” Atlético tem sido o belga Yannick Ferreira Carrasco. O extremo, de 23 anos, há muito que demonstrava, em jogos isolados, possuir um enorme talento. Neste início de época, parece finalmente ter “explodido”, e às suas inquestionáveis mais-valias técnicas, acrescentou uma capacidade finalizadora até aqui algo adormecida e uma consistência exibicional muito interessante para um jogador do seu perfil. Está também mais trabalhador quando não tem a bola e melhorou substancialmente a sua qualidade defensiva, fruto certamente do trabalho de muitos meses que já leva com Simeone e que começa a reflectir-se nas suas exibições. Já com 7 golos na presente época, e sendo um jogador com uma tremenda capacidade para desequilibrar e criar oportunidades de golo, é de esperar que ainda venha a fazer jus ao nome várias vezes durante a época, e que seja o Carrasco de muitos dos adversários dos “colchoneros”.

Com 25 golos em 11 jornadas da La Liga, o Atlético apresenta-se como o 3º melhor ataque da prova, e é hoje, claramente, uma equipa algo diferente daquilo a que todos estávamos habituados a ver até aqui. O futuro dirá agora se esta mudança virá para ficar, e se terá consequências a nível defensivo. Mas é certo que a forma como conhecemos o Atlético começa a mudar.


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