17 Ago, 2017

Arquivo de Croácia - Fair Play

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Tomás da CunhaDezembro 5, 20166min0

Quando se fala na formação de jogadores, há clubes que não podem ser esquecidos. O Dínamo Zagreb é um desses nomes incontornáveis, tendo sido considerado recentemente o terceiro maior produtor de talentos a nível europeu, apenas atrás de Ajax e Partizan. Nas ‘top 5’ do Velho Continente há 55 jogadores fabricados no gigante croata; um deles chama-se Alen Halilovic, “novo Messi” que ainda não cumpriu o que prometeu.

É no mínimo estranho perceber que o menino a quem todos auguravam um futuro brilhante está, neste momento, à procura de uma carreira de sucesso num clube que luta pela manutenção. Aquele craque com um pé esquerdo do outro mundo, que colava a bola no pé e ia ziguezagueando por entre adversários com uma facilidade arrebatadora, encarando os grandes como se não lhes devesse nada, porque o talento não se mede aos palmos.

O menino cresceu e “já” tem 20 anos. Para trás deixou uma passagem infeliz por Barcelona, onde nunca conseguiu lidar com o peso das expectativas. Chegou como futura estrela mundial e saiu sem glória, à procura de um lugar que o traga de novo à ribalta. Foi uma aposta sem retorno para os catalães, que em 2014 se anteciparam a meio mundo na transferência do “Messi da Croácia”, contratando-o por valores bastante razoáveis no panorama actual – em final de contrato com o Dinamo, custou apenas 2,2 milhões de euros.

Não foi, porém, por falta de talento que Halilovic não se afirmou em Camp Nou. Detentor de inúmeros recordes no campeonato croata – o mais novo de sempre a jogar e a marcar – e internacional pelo país desde os 17 anos (estreou-se frente a Portugal), cedo ganhou cotação pela sua qualidade prematura. Ainda assim, numa fase inicial percebia-se que a fama não lhe tinha subido à cabeça. “Admiro o Leo, mas estou muito longe da sua qualidade. Por agora, o meu objectivo é jogar bem e mostrar ao treinador [Ante Čačić] que pode contar comigo”, disse em 2012.

O problema veio depois. Não querendo renovar com o Dinamo, Halilovic terá dado o primeiro passo em falso. De malas feitas para Barcelona, o miúdo deixou o conforto de casa e das caras conhecidas para abraçar um novo desafio. Na teoria, a escolha até parecia oferecer boas probabilidades de sucesso, tendo em conta o passado recente dos blaugrana com jovens promissores. Contudo, Halilovic estagnou no conjunto secundário, perdendo todas as perspectivas de chegar à equipa principal.

O empréstimo ao Sporting Gijón foi bastante produtivo para o croata, que realizou uma época de bom nível. Já sem crédito em Barcelona, acabou por ser vendido ao Hamburgo, onde tem sido – estranhamente – pouco utilizado. Aos 20 anos, Halilovic talvez não seja o adolescente ingénuo e apressado que se deixou iludir, mas ainda sofre com o rumo que deu à sua carreira.

Ante Coric: a maturidade aliada ao talento

Ante Coric é um dos rostos da nova geração croata Foto: Clive Brunskill/Getty Images
Ante Coric é um dos rostos da nova geração croata
Foto: Clive Brunskill/Getty Images

A nova fornada do Dinamo tem, para não variar, um potencial muito elevado. Depois da saída de Marko Pjaca para a Juventus, Ante Coric é a principal esperança do clube, não só pelo que oferece em termos desportivos mas também pela mais valia financeira que pode vir a representar. As comparações com craques anteriores, como Modric ou Halilovic, são inevitáveis, mas o jovem médio, além de um talento enorme, parece ter a cabeça no lugar.

Coric tem muito em comum com o compatriota que se perdeu em Barcelona. A fisionomia de ambos pode ajudar a explicar a forma como se desenvolveram enquanto jogadores. Mais baixos e mais fracos do que quase todos os outros, desde sempre tiveram de inventar soluções criativas para fugir ao confronto físico. Tornaram-se médios ofensivos muito imaginativos, rápidos a pensar e a executar, criando desequilíbrios com tremenda facilidade.

Tal como Halilovic, o “wonderkid” Coric entrou rapidamente na órbita dos colossos do futebol europeu. Numa fase em que os clubes identificam cada vez mais cedo as possíveis estrelas do futuro, a capacidade de antecipação é um atributo negocial indispensável. Mas o jovem de 19 anos não foi no engodo, dando uma prova de maturidade que pode ser decisiva no seu crescimento. Aparentemente, terá recusado propostas do Real Madrid e do Chelsea em Janeiro deste ano, preferindo continuar a evoluir no Dinamo.

Em Zagreb, o médio internacional pela Croácia tem garantias de que o seu talento não será desperdiçado. O início da época não foi famoso para Coric, mas a chegada do treinador Ivaylo Petev devolveu-lhe a confiança e a motivação para mostrar o melhor do seu futebol. Agarrou, finalmente, um lugar cativo na equipa titular, e tem sido um dos principais responsáveis pela recente subida de forma do Dinamo. Além de toda a velocidade que empresta ao ataque dos campeões croatas, seja através de um passe mortífero ou da condução acelerada, marcou golos importantes frente ao Inter Zapresic e ao Osijek. Com liberdade total no terreno de jogo, é difícil travar Coric.

O interesse dos grandes clubes não terá certamente esmorecido, sendo expectável que surjam novos “ataques” no final desta temporada. Os exemplos do passado devem servir para que o talentoso croata não tome decisões precipitadas, que possam comprometer o crescimento natural de um jogador com imensa margem de progressão. Não estando pronto para um Barcelona ou Real Madrid, o mais indicado seria fazer a transição para um clube de uma liga competitiva, mas sem ter a pressão de corresponder no imediato à aposta efectuada. A gestão de expectativas anda de mãos dadas com a gestão de carreira, e Coric parece ser, por enquanto, um melhor gestor do que Halilovic.

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Tomás da CunhaNovembro 1, 20165min0

O Dinamo Zagreb está mais do que habituado a correr sozinho, pondo os olhos na meta e esquecendo quem vem atrás. Arranca, impõe um ritmo moderado e, no final, celebra sem ter precisado de conhecer os seus próprios limites. A história repete-se todos os anos. Há 11 anos. Esta época, contudo, o maior emblema da Croácia começou a passo de caracol e terá de suar para superar a mais forte concorrência da década.

Zlatko Kranjcar não durou muito no Maksimir. A pesada derrota frente ao Rijeka, líder do campeonato, por 5-2, precipitou o pedido de demissão do antigo seleccionador croata, que tinha a árdua tarefa de suceder ao tricampeão Zoran Mamic. Face à inexistência de ideias no futebol praticado, percebeu-se desde cedo que a relação entre o treinador e o Dinamo terminaria assim que os maus resultados surgissem.

Em Zagreb, paciência não faz parte do léxico. Na presidência de Zdravko Mamic, entre 2003 e 2016, passaram pelo comando do clube 15 treinadores, sendo que apenas Zoran Mamic, o seu irmão, conseguiu estar mais do que duas temporadas ao leme da equipa. Um técnico que chega ao Dinamo sabe previamente o que vai encontrar, e que ganhar pode não ser suficiente.

Escolhido por Zoran Mamic, que substituiu o irmão na presidência, Zlatko Kranjcar, pai do futebolista Niko Kranjcar, teve dificuldades inesperadas a nível interno. Frente a oponentes de valia inferior, que defendem com 11 jogadores atrás da linha da bola, o Dínamo foi sempre uma equipa pouco ou nada criativa, sem arte para desequilibrar a estrutura adversária. Com pouca capacidade de jogar por dentro, os campeões tornavam-se bastante previsíveis e dependentes de iniciativas individuais.

Num clube como o Dinamo, que detém a hegemonia no plano nacional, o papel do treinador por vezes é secundário, já que a qualidade individual do plantel costuma ser suficiente para ultrapassar todos os obstáculos que surgem no caminho. Zlatko Kranjcar complicou o que, à partida, parecia simples. Construiu uma equipa com demasiadas preocupações defensivas e acabou por não valorizar devidamente os melhores jogadores que tinha à disposição.

É ponto assente que o Dinamo tem de assumir a iniciativa em praticamente todos os encontros que disputa no campeonato croata. Assim sendo, a ideia de jogo do treinador terá obrigatoriamente de privilegiar a vertente ofensiva, dotando o colectivo de soluções para jogar em ataque continuado. Poderia pensar-se que Kranjcar, um técnico com bastante experiência, conhecia a realidade da liga melhor do que ninguém mas, em vez disso, provou ser um erro de casting.

As duvidosas opções de Kranjcar

 Zlatko Kranjcar não durou muito no campeão croata (Foto: nacional.hr)
Zlatko Kranjcar não durou muito no campeão croata (Foto: nacional.hr)

Foram raras as ocasiões em que Kranjcar abdicou de um trinco com um perfil defensivo (como Benkovic ou Jonas, também utilizados como centrais), o que acabou por retirar qualidade à equipa na saída de bola e na ligação entre sectores. Tendo em conta a postura dos adversários que defrontam o Dinamo, sobretudo no Maksimir, era perfeitamente dispensável a presença de um jogador que pouco oferece ao nível da construção naquela posição.

A pouca fluidez no jogo do campeão croata foi uma constante enquanto Kranjcar esteve à frente da equipa. Muita posse, pouca ou nenhuma capacidade de criar situações para marcar. Este cenário de apatia colectiva acabou por prejudicar Ante Coric, provavelmente o jogador mais talentoso do plantel. Depois do destaque que teve na última temporada, era expectável que ganhasse ainda mais protagonismo e se tornasse na principal figura da equipa, emprestando a sua criatividade e rapidez de execução.

Estranhamente, este início de época mostrou uma sombra de um jovem com futebol a mais para a liga da Croácia. Coric precisava de ser desafiado, de ter novos estímulos para poder crescer enquanto jogador, e Kranjcar não acompanhou essas necessidades. Ao invés de dar ao médio um papel central na equipa, transmitindo-lhe uma mensagem de confiança, prescindiu dele em partidas teoricamente complicadas – como as da Liga dos Campeões – e terá contribuído para a sua desmotivação. Perdeu aquele que, à partida, tinha condições para ser o desbloqueador que faltou à equipa do Dínamo.

As eliminatórias europeias dificultaram a missão de Kranjcar. Para fazer face aos compromissos internacionais, o treinador do Dinamo procurou gerir o plantel, mudando o sistema e as peças de jogo para jogo. Apesar de ter sido bem sucedido, ultrapassando o Dínamo Tbilisi e o RB Salzburgo para chegar à fase de grupos, sofreu as consequências por ter sido obrigado a fazer essa rotação. Sem uma base definida, a equipa não atingiu a estabilidade necessária e foi notória a falta de identificação dos jogadores com as ideias que Kranjcar pretendia aplicar. O problema habitual em clubes como o Dinamo, demasiado fortes no próprio país mas sem argumentos para brilhar no plano europeu, não foi bem resolvido.

Foi escolhido para ser o treinador da continuidade, mas o descalabro em Rijeka tornou impossível a permanência de Kranjcar à frente da equipa. Mesmo sem ter culpas exclusivas, o técnico somou alguns deslizes inadmissíveis e perdeu o crédito que possuía. Para o seu lugar chegou Ivaylo Petev, antigo seleccionador búlgaro. Um treinador mais jovem e com outra frescura nas ideias, que parece apostado em corrigir os erros do seu antecessor. Paulo Machado tem jogado à frente da defesa e Ante Coric vai recuperando o nível que mostrou na época passada. Não muda tudo, mas coloca o Dinamo num passo mais apressado na corrida pelo título.

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Tomás da CunhaSetembro 21, 20164min0

Sopram ventos de mudança no campeonato croata. Pelo menos é o que parece. Nunca foi tão realisticamente possível ver o Rijeka destronar o Dínamo Zagreb, a quem não foge o título há 11 anos. O contexto actual é bastante simpático para o terceiro maior clube da Croácia, sobretudo depois da vitória sobre o rival. Além dos 4 pontos de vantagem na classificação, que garantem desde já uma almofada de conforto, a equipa orientada pelo esloveno Matjaz Kek conta neste momento com mais estabilidade e uma superioridade moral que pode aproveitar.

O Dínamo caiu com estrondo em Rijeka. Há muito tempo que não se via o todo-poderoso de Zagreb ser vergado de forma tão clara, podendo até dar-se por satisfeito por “só” ter perdido por 5-2. Os campeões em título fizeram uma exibição para esquecer, com erros constantes do princípio ao fim, mas muitos deles provocados pelo adversário. Pelo momento actual, o Rijeka podia ser considerado favorito à partida e não quis deixar os créditos por mãos alheias. Com uma atitude pressionante desde o início do encontro, conseguiu recuperar inúmeras bolas em zonas adiantadas e explorou as transições de forma exímia, castigando as desconcentrações do Dínamo. Uma equipa organizada e com identidade, tudo o que o emblema de Zagreb não foi.

A estratégia montada por Matjaz Kek teve o resultado pretendido. Aliás, superou por completo as melhores expectativas de jogadores e adeptos do Rijeka. O objectivo era aproveitar a pressão enorme com que o Dínamo chegava a este encontro. Depois de duas derrotas consecutivas, em casa frente ao Osijek e em Lyon, os homens de Kranjcar entravam em campo sobre brasas. E isso notou-se desde cedo. Benkovic e Schildenfeld, os dois centrais, tremeram sempre que a bola lhes chegou aos pés e ofereceram inúmeras possibilidades à equipa da casa. Toda a defesa dos campeões esteve desastrada.

Houve demérito do Dínamo, é certo, mas também houve muita inteligência na abordagem do Rijeka. Com zonas de pressão bem definidas, a equipa da casa montou uma teia muito eficaz e conseguiu bloquear prematuramente todas as iniciativas do emblema de Zagreb. Vesovic e Gorgon, os dois alas, tiveram um papel determinante e recebem ambos o prémio de melhor em campo. Cada um marcou dois golos, o que podia só por si justificar esse rótulo. Foram duas setas apontadas à baliza contrária, assumindo-se como referências nas saídas rápidas para o ataque. Gorgon procurou mais as diagonais para o centro, por se tratar de um destro a actuar na esquerda, enquanto Vesovic jogou mais em largura. Além disso, ambos revelaram uma enorme disponibilidade defensiva, bloqueando os laterais adversários e ajudando a fechar o espaço interior.

Sai Bezjak, assume Gavranovic

Roman Bezjak era o goleador de serviço do NK Rijeka Foto: sportske.jutarnji.hr
Roman Bezjak era o goleador de serviço do NK Rijeka (Foto: sportske.jutarnji.hr)

Poderia pensar-se que a saída de Roman Bezjak, nos últimos dias do mercado, iria trazer problemas ao ataque do Rijeka. Afinal, a transferência do esloveno de 27 anos para o Darmstadt, da Bundesliga, representava a perda de uma das figuras da equipa e do melhor marcador da última época (marcou 13 golos, mais 3 que o albanês Bekim Balaj, que também saiu). Contudo, o suíço Mario Gavranovic, que nunca cumpriu o que chegou a prometer, tem sido um substituto à altura e vai fazendo esquecer Bezjak. Nesta fase, os adeptos do Rijeka só se devem lembrar de que, depois de Kramaric, houve mais um avançado no clube a mostrar valor para outros campeonatos.

A mobilidade do ataque é uma das imagens de marca deste Rijeka, que joga sem uma referência na frente. Gavranovic não é um jogador estático, como Bezjak não era. Movimenta-se para abrir espaços e sabe servir de apoio. O Dínamo nunca conseguiu travar a dinâmica ofensiva da turma de Matjaz Kek, concedendo inúmeras oportunidades de golo. Houve uma ligação bastante estreita entre os dois médios mais ofensivos – Bradaric e Andrijasevic – e os três jogadores mais adiantados, que permitiu à equipa da casa ter o controlo absoluto do encontro.

Com a travessia no deserto que o Hajduk Split vai atravessando, o Rijeka assumiu-se nos últimos anos como a principal ameaça aos títulos sucessivos do Dínamo. O terceiro maior emblema da Croácia, que conta com 4 Taças no palmarés (2 da antiga Jugoslávia), tem cimentado o seu estatuto no futebol nacional e apresenta um projecto destinado a vencer. Gabriele Volpi, o dono do clube, mantém Matjaz Kek no comando da equipa desde 2013, demonstrando que a estabilidade é quase sempre a receita para o sucesso. O Dínamo continua a ter algum favoritismo, pelo historial e pela superior qualidade do plantel, mas o Rijeka está apostado em contrariá-lo.


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