21 Out, 2017

Arquivo de FP+ - Fair Play

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Daniel FariaOutubro 1, 20174min0

Em dia de eleições autárquicas - há futebol -, com foco especial para o clássico entre Porto e Sporting, às 19h15 e ainda para o Marítimo-Benfica, às 21h30. Posto isto, importa perguntar: o futebol realmente impede a participação activa no acto eleitoral?

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Fernando SantosJulho 31, 20175min0

Este artigo faz parte da série “treino mental”, da responsabilidade do especialista Fernando Santos, do site “Muda o Teu Jogo“. A componente mental merece cada vez maior atenção por parte dos agentes envolvidos no desporto de alto rendimento, por isso muda o teu jogo com fair play

Tomemos como exemplo o sistema circulatório do ser humano. O que está a acontecer no meu sistema não afecta o do meu vizinho. Não é isto, de forma alguma, o que acontece no domínio das emoções, porque estas interagem entre os diversos indivíduos.

Até há bem pouco tempo julgava-se que o processo decisório se consubstanciava apenas com base num único elemento: a razão. O líder era visto como pessoa frontal, directa, que decide a frio, com rigor, sem dúvidas, sem emoções, distanciado, fora do mundo das incertezas e da ambiguidade, no mais alto patamar da organização. Ser emocional ou mostrar sentimentos era sinónimo de fraqueza, o que então não era permitido, tal como ainda hoje tende a acontecer. Mas a realidade está a mudar…

António Damásio define emoção do seguinte modo: “reacção automática a uma série de ameaças ou oportunidades que se põem a um organismo vivo”. As emoções são então consequência (sobretudo) de estímulos exteriores e predispõem-nos para a acção e a reacção. Se as emoções nos fazem reagir de forma automática, presume-se que essa reacção não depende de nós enquanto opção única da razão, logo, será legítimo afirmar que estamos condenados a trabalhar com elas em todos os processos activos das nossas vidas. Tal como não conseguimos não pensar, também não conseguimos pensar sem emoções. O velho “penso, logo existo” deu hoje lugar ao “sinto, logo existo”.

Todos sabemos que o excesso de emoções nos traz alterações comportamentais. O que não sabíamos é que, sem emoções, não somos capazes de decidir e, pura e simplesmente não decidimos. Daí que seja pertinente levantar a questão: sendo as emoções parte integrante da nossa vida, se a sua ausência ou excesso nos provocam alterações comportamentais, se estamos condenados a viver com elas, será racional da nossa parte deixá-las actuar sem qualquer tipo de controlo ou de influência sobre elas? Será razoável olhar para as emoções sem perguntar como e de que forma nos poderão ser mais úteis?  Como podemos optimizá-las nos nossos actos? E sendo elas um factor fundamental do nosso comportamento, como ter um controlo mais efectivo sobre elas?

Tomemos como exemplo o sistema circulatório do ser humano. O que está a acontecer no meu sistema não afecta o do meu vizinho. Não é isto, de forma alguma, o que acontece no domínio das emoções, porque estas interagem entre os diversos indivíduos. Neste caso falamos em sistema aberto, uma vez que a minha alegria ou a minha tristeza provocam (ou podem provocar) alterações do estado emocional àqueles que comigo lidam. Daí que possamos, no domínio das emoções, falar de “contágio”.

Fonte: arquivo pessoal

Podemos aqui abordar, a propósito do “contágio” emocional, a “Teoria dos Semáforos” proposta por Ken Ravizza no livro “Heads Up Basketball”. O primeiro passo para gerirmos o que quer que seja é termos a percepção clara do “objecto” a gerir. Neste caso o objecto são as nossas emoções e os comportamentos associados, ou seja, a gestão da nossa compostura.  Quando estamos compostos, confiantes e controlados podemos dizer que estamos num semáforo verde. O semáforo amarelo aparece quando nos sentimos distraídos, frustrados e confusos. Finalmente, nas situações em que perdemos o controlo e só queremos explodir ou desistir, atingimos o semáforo vermelho. Esta analogia entre o desempenho emocional e os semáforos ajuda a ter uma percepção mais clara dos diferentes estados de espírito em que nos encontramos e possibilitará, como irão ter oportunidade de constatar futuramente, gerir melhor emoções e, consequentemente, comportamentos:

Verde – composto, optimista, confiante, focado, determinado, comunicativo, encorajador, postura corporal correcta, agressividade competitiva;

Amarelo – frustrado, inseguro, negativo, queixoso, distante, distraído, confuso, revoltado;

Vermelho – zangado, fora de controlo, apático, resignado, postura corporal incorrecta, assustado, emotivo.

Qualquer atleta já experienciou, por vezes até quase em simultâneo, estes três diferentes estados de compostura. É frequente passar por dois destes estados no decurso de qualquer treino ou competição. É fácil estar no verde quando estamos a jogar bem. Podemos cair no amarelo quando o treino/jogo não corre tão bem ou quando os árbitros apitam de forma diferente da que achamos justa. No vermelho entramos quando começamos a lutar contra nós próprios e a perder o controlo emocional. Num dos próximos textos serão explicadas as formas de detectar sinais amarelos/vermelhos e o que fazer para voltar rapidamente ao semáforo verde do alto rendimento.

Fonte: arquivo pessoal

Para terminar, deixo-vos as sensações que foram descritas por vários desportistas de alta competição quando questionados sobre o que sentiram nos momentos de melhor rendimento das suas carreiras: “relaxamento mental”, “tempo a passar mais devagar”; “foco no presente”; “percepção elevada do próprio corpo e dos corpos dos atletas à sua volta”; “capacidade máxima de antecipação e resposta”.Em oposição, temos a descrição da sensação mais frequentemente associada ao sinal vermelho: tudo acontece muito depressa

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Fernando SantosJulho 30, 20174min0

Este artigo faz parte da série “treino mental”, da responsabilidade do especialista Fernando Santos, do site “Muda o Teu Jogo“. A componente mental merece cada vez maior atenção por parte dos agentes envolvidos no desporto de alto rendimento, por isso muda o teu jogo com fair play

Um candidato a árbitro até pode estar na melhor condição física possível e saber recitar todas as regras da frente para trás em três línguas diferentes. Apesar de muito importantes, esses aspectos nunca serão suficientes para atingir um patamar elevado.

Quando pensamos em gente do desporto com uma Força Mental acima da média provavelmente vêm-nos à cabeça nomes como o de Michael Jordan, Bruce Lee ou Muhammad Ali. Se pensarmos em portugueses talvez nos ocorram os nomes de Cristiano Ronaldo, Nélson Évora ou Telma Monteiro. Mas dificilmente será o nome dum árbitro o primeiro de que algum de nós se lembrará…

A Força (ou Robustez) Mental é “o repertório de valores, atitudes, comportamentos e emoções que te permite perseverar e superar qualquer obstáculo, adversidade ou pressão experienciadas, mas também manter a concentração e a motivação quando tudo corre bem para alcançar consistentemente os teus objectivos” (Gucciardi et al, 2008). A robustez mental é então um processo de longo prazo que pode ser influenciado pela motivação pessoal para o sucesso  e pelo apoio social.

Fonte: arquivo pessoal

“Quanto mais situações eu controlar antecipadamente, mais preparado estou, melhor e mais rápida é a minha resposta” – Fernando Rocha (árbitro de basquetebol)

Quando perspectivamos a importância da robustez mental no desempenho de um árbitro de qualquer modalidade, facilmente entendemos o cariz decisivo deste aspecto da preparação. Um candidato a árbitro até pode estar na melhor condição física possível e saber recitar todas as regras da frente para trás em três línguas diferentes. Apesar de muito importantes, esses aspectos nunca serão, se não forem acompanhados de uma grande robustez mental, suficientes para esse candidato a árbitro atingir um patamar elevado.

O que distingue então um árbitro de elite de outro razoável? Uma mistura de:

  • Foco consistente: por exemplo, evitar quebras de concentração repentinas ou daixar-se distrair pelos jogadores ou treinadores;
  • Tomar as decisões correctas, sobretudo sob pressão: por exemplo, assinalar as faltas correctas mesmo na presença de um público faccioso ou desconhecedor, apitar aquele penalti ou lances livres que podem mudar/decidir uma partida;
  • Perseverança: por exemplo, após um erro grave que alterou o que seria o desfecho justo dum jogo;
  • Humildade para Aprender/Mudar: por exemplo, usar técnicas de visualização para se preparar para todas as possibilidades no campo;
  • Foco nos Resultados: por exemplo, analisar, ajustar e agir consoante cada situação para atingir os melhores resultados possíveis.

Há um grande número de formas de um árbitro reduzir ou erradicar os “nervos, intimidação, dúvidas ou medos” que influenciarão o seu processo de tomada de decisão. A famosa “Pressão” pode ser originada pelas expectativas, pelo escrutínio e pelas consequências. A definição de tarefas, a compostura e os diálogos internos (e externos) são estratégias que podem e devem ser apreendidas e refinadas para reduzir/eliminar os erros. A gama de recursos é extensa e vai desde as rotinas de treino, técnicas de redução do stress e visualização até às influências pré-jogo ou às reacções durante a partida.

Fonte: arquivo pessoal

“Por favor, parem de pensar tanto. Não analisem demais. Não fiquem a digerir uma decisão. Não congelem em campo”. – Pierluigi Collina (árbitro de futebol)

Resumindo, a Força Mental é um requisito necessário para os árbitros de todas as idades e patamar competitivo. Um domínio dos 3 C’s do Alto Rendimento (Concentração, Confiança e Compostura) aliado ao Compromisso e à capacidade de improvisar, adaptar e superar farão toda a diferença na forma como os árbitros abordarão os seus próximos jogos em qualquer nível em que se encontrem.

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Fernando SantosJulho 30, 20173min0

“Novos” valores estão a ganhar um crescente espaço no desporto profissional e, consequentemente, no desporto amador e de formação. É cada vez mais frequente os jovens praticantes receberem uma mensagem diferente daquela que os seus pais queriam que eles recebessem.

Hoje em dia os nossos jovens são bombardeados com valores com os quais as gerações anteriores raramente tinham que conviver. Valores como a coragem, a humildade, a integridade ou a perseverança parecem estar em risco de extinção. Os seus guardiões são actualmente as famílias e as escolas que os tentam praticar e incutir, uma vez que, quer a internet, quer a cultura pop mainstream se têm revelado incapazes de o fazer.

“Novos” valores estão a ganhar um crescente espaço no desporto profissional e, consequentemente, no desporto amador e de formação. É cada vez mais frequente os jovens praticantes receberem uma mensagem diferente daquela que os seus pais queriam que eles recebessem. A perseverança parece ter sido substituida pela gratificação instantânea, a humildade substituida pela fama, o respeito substituido pelo “e o que é que eu ganho com isso?”.

Fonte: arquivo pessoal

“Para as crianças com menos de 10 anos, os objectivos mais importantes são: 1) ser famoso, 2) ser atraente e 3) ser rico.”

Num estudo realizado em 2011 pelas psicólogas de UCLA, Yalda Uhls e Patricia Greenfield, foram analisados os programas televisivos dos últimos 50 anos nos Estados Unidos e quais os valores transmitidos nos programas para a faixa etária dos 6 aos 9 anos. O que se verificou foi uma mudança drástica! Entre 1967 e 1997, os valores mais presentes eram o espírito de comunidade, a benevolência, a imagem, a tradição e a popularidade. No final da lista encontravam-se a fama, a condição física, o hedonismo o espiritualismo e o sucesso financeiro. Avançando até 2007 (ano em que os programas de maior sucesso foram Hannah Montanna e American Idol) os valores mais estimulados passaram a ser a fama, a realização, a popularidade, a imagem e o sucesso financeiro, seguidos de perto pelo egoismo, ambição, materialismo e prepotência. No final da lista encontramos agora o espiritualismo, a tradição, a segurança, a conformidade e a benevolência.

Com a globalização da internet e as centenas de canais televisivos, são cada vez mais os programas para a faixa etária dos 6 aos 9 sobre crianças que buscam a fama através da indústria do entretenimento. A consequência? A “Fama” é agora o valor mais presente na mente das crianças destas idades. Outro estudo recente revelou que, para as crianças com menos de 10 anos, os objectivos mais importantes são: 1) ser famoso, 2) ser atraente e 3) ser rico.

Fonte: arquivo pessoal

 É decisivo que os pais, professores e treinadores ganhem consciência da cada vez maior discrepância entre as reais necessidades e as vontades induzidas nos nossos jovens para se prepararem de modo a melhor servirem as primeiras, combatendo de forma informada e determinada as segundas. Se o mundo muda, adaptemo-nos a essa mudança sem fazermos de conta que não a vemos.

Em jeito de conclusão, os nossos jovens são hoje expostos a valores distorcidos que não os preparam para a vida adulta onde o narcisismo, a fama e a fortuna são raramente uma realidade. O desporto deve assumir, por isso, o seu papel crucial de caminho saudável de preparação de melhores cidadãos e cidadãs, para além de preparar melhores atletas.

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Francisco IsaacJulho 16, 201716min0

O Diário do Atleta regressa com Francisco G. Vieira, ou “Mini” como é conhecido em terras da Invicta! O formação português, ex-CDUP, conta os seus primeiros tempos em Inglaterra e a experiência total ao jogar num dos países do Rugby ao serviço dos Titans. O episódio I

Depois de ter finalizado contrato com o Gran Sasso Rugby, o meu futuro estava ainda por definir. A dúvida sobre o meu futuro pairava, apesar de ter bem claro aquilo que queria para a mim neste momento: ser jogador profissional de Rugby. Contudo, ainda sem nenhuma proposta em cima da mesa, como se iria desenrolar esse objectivo? Voltar para Itália? Para o Gran Sasso? Para outro clube? Conseguir um contrato profissional em Inglaterra? França? Ou adiar o sonho por mais uns tempos e continuar o meu desenvolvimento no CDUP ? 

Tinha uma proposta para a National One (3a divisão) mas decidi adiar a minha resposta, e em boa hora, porque uma semana depois recebi um telefonema do meu agente enquanto aproveitava um dia de sol numa das praias do Porto.

“Tenho um clube do Championship interessado em saber da tua disponibilidade para os representares na próxima época estás interessado?”

Respondi que sim e que podia avançar com o processo. Rotherham Titans RUFC, seria a minha nova casa. Um clube histórico no Championship e um dos clubes com mais sucesso nesta divisão.

Depois das sempre difíceis despedidas de família, namorada e amigos, estava a aterrar em Manchester por volta das 23:30 de dia 11 de Junho, onde à minha espera com um cartaz com o meu nome, estava um dos Vice-Presidentes do clube, Matt Cockton, para me levar até Rotherham. Como ainda não tinha encontrado casa, fiquei 2 dias num hotel que tem uma parceria com o clube e onde cheguei por volta da 1 da manhã.

O Matt (VP) ao me deixar no hotel perguntou-me a que horas queria que me viesse buscar ao que respondi, já ciente do horário dos treinos, 8/8:30 da manhã uma vez que não queria chegar atrasado ao meu primeiro treino. Disse-me que ninguém esperava que fosse treinar de manhã tendo eu chegado tão tarde contudo insisti que queria começar a horas o meu primeiro dia.

Assim foi e combinámos que me viria buscar às 9 da manhã. Já pronto e de pequeno-almoço tomado decidi subir rapidamente ao meu quarto e nisto tive o primeiro cheirinho da pontualidade britânica, às 9:01 estava a receber uma chamada para o quarto dizendo que estavam no lobby à minha espera para me levarem para o clube.

Depois de conhecer alguns elementos do staff e as pessoas que fazem o clube funcionar, o treinador adjunto Nick Rouse, que jogou contra os Lusitanos XV na Amlin Cup, levou-me a conhecer o ginásio e o preparador fisico, Muaz Buaben(“Mu”).

Depois de um treino leve de ginásio, eram horas de almoçar e voltar para o clube, altura em que conheci mais jogadores, mais pessoas do staff e o treinador principal, Andy Key (“Kiwi”).

O treino da tarde, mais direccionado para o condicionamento físico e por isso muita corrida, consistiu em 4 séries de 6 minutos, onde durante esses 6 minutos era suposto correr de uma linha de ensaio à outra o máximo número de vezes. Apesar de ter estado com os Sevens há pouco tempo, este treino custou bastante e ainda mais quando nos primeiros minutos, não conseguia “fugir” de um dos pilares e de um talonador que me acompanhavam no grupo da frente.

Depois de 3 séries feitas, com 1 minuto e meio de descanso entre elas, o Preparador Físico informou-me que para mim já chegava e que podia descansar, ao que imediatamente perguntei porquê! Disse-me que era por ser a minha primeira semana (os treinos tinham começado na semana anterior mas eu só me juntei ao grupo uma semana mais tarde) e que todos tiveram direito ao mesmo benefício.

Por muito desejado que fosse esse descanso, rejeitei e insisti que não queria tratamento especial e que iria acabar o treino com o resto da equipa.

Estou num campeonato 100% profissional e isso exige mais de mim”

Surpreendi-me a mim próprio ao ter este pensamento numa altura em que o racional não costuma aparecer e fiquei bastante contente por ter feito a quarta série com o resto da equipa. 

Segundo dia e primeiro feedback por parte do treinador! Disse me que gostou dos meus “boxkicks” e que era um “futebolista”, no bom sentido da palavra, ou seja, que tinha um bom contacto com do pé na bola e sabia onde acertar mas que apenas precisava de trabalhar a consistência do movimento e consequentemente o ponto de queda da bola. Gostei bastante da minuciosidade com que olhou para este “skill” fulcral num médio-formação, ao invés de apenas olhar para o resultado final.

No mesmo dia tive um primeiro cheirinho daquilo que é um treino numa “Wattbike”. Novamente no treino da tarde, o tema foi condicionamento mas desta vez um pouco mais complexo, o que implicava o uso da mão, e estando ainda de gesso na mão esquerda não poderia participar, contudo há sempre alguma coisa que podemos fazer e no meu caso foi a “Wattbike“.

Depois de recebermos as instruções sobre o nosso treino, eu e o meu novo amigo Fijiano Ifereimi Boladau (que partiu o rádio do antebraço direito há pouco tempo) marchámos até ao Ginásio. Quando acabámos os respectivos treinos, estava em tão mau estado das pernas que não consegui descer uma pequena rampa de acesso ao campo de treinos , para o divertimento do “Mu” que parecia estar a adorar o meu estado de sofrimento. 

Foto: Francisco G. Vieira

Uma vez que o Hotel estava cheio a partir de quarta-feira, precisava de arranjar um sitio para ficar até encontrar a minha própria casa. Amavelmente, o Allan McHale, Director-Geral do clube, ofereceu-me um quarto na sua casa pelo tempo que fosse preciso e sendo assim, terminado o dia de treinos levou-me para sua casa onde me apresentou à sua mulher, filho e neto.

Mais uma vez a tradição britânica apanhou-me de surpresa, e eram seis da tarde quando começámos a jantar! Nem correu mal até porque depois de um exaustivo dia de treinos e especialmente uma tarde dura, um lanche reforçado era mesmo o que precisava! 

Já jantado, o Allan convidou-me para o acompanhar novamente ao clube mas desta vez para assistir a uma das famosas “Titans Tuesday“. Explicou-me que o principal objectivo desta rubrica era passar o jogo do fim de semana na tela grande e assim dar oportunidade aos adeptos, que não puderam viajar com a equipa, de ver o jogo do fim de semana, podendo, ou não, a visualização ser acompanhada por alguém da equipa técnica a falar do jogo.

Foto: Francisco G. Vieira

Contudo, estando na pré-época e ainda sem jogos, aproveita-se para se darem palestras e para os jogadores terem a oportunidade de se apresentarem e se darem a conhecer ao público. Neste dia a estrela da noite era o nosso chefe do departamento de Fisioterapia, David Swift, que ia dar uma palestra sobre os testes que são feitos aos jogadores na pré-época e em que sentido se podem evitar certas lesões mediante os resultados obtidos nestes testes.

Para a sorte do “Swifty”, e meu azar, eu estava presente e automaticamente qualifiquei-me para ser a cobaia de serviço para realizar os testes a frente dos adeptos. Como se já não bastasse, ao meu segundo dia no clube já estar a expor as minhas eventuais fraquezas, pediu-me que tirasse a t-shirt para avaliar possíveis diferenças entre alturas dos ombros ou curvaturas excessivas na coluna.

Apesar do meu desconforto acabei por tirar a t-shirt e imediatamente alguém do publico disse “Arranjem-lhe um bife e umas batatas fritas rápido!!” Momento cómico, que me fez rir bastante e ajudou a quebrar o gelo e a deixar-me um pouco mais à vontade! No fim, e algumas gargalhadas depois, numa onda de simpatia, a grande maioria dos adeptos presentes fizeram questão de me vir cumprimentar e desejar o maior sucesso nos Titans!

Ao terceiro dia, fui ver uma casa que me agradou, mas ao saber que não tinha wifi instalado, impossibilitando por isso contactos com Portugal, risquei a casa da lista.

Porém, o Matt, que me foi buscar ao aeroporto, ofereceu-se para colocar o wi-fi em seu nome até eu estar acomodado (era necessário ter um cartão bancário inglês associado) e, também por não querer abusar da minha estadia em casa do Allan, acabei por aceitar esta proposta e, ao quarto dia, mudei-me para a minha nova casa.

Ainda sem internet e televisão as minhas viagens até ao clube eram regulares para abusar do wi-fi e ver uns jogos de rugby, ou pelo menos tentar! Sempre que entrava alguém na clubhouse, faziam questão de me cumprimentar e perguntar se estava bem, se precisava de alguma coisa, e que de certeza que ia adorar jogar pelos Titans! Até hoje ainda ninguém me deixou pagar seja o que for no bar do clube.

Na segunda semana, tivemos a primeira sessão de reuniões individuais com o staff técnico, pediram para falar um pouco sobre mim e sobre aquilo que poderia trazer à equipa

Finalizaram dizendo que estavam super agradados comigo e com os extras que trouxe e que não estavam à espera, e umas das coisas que me ficou é que claramente foi me dito que, como médio de formação esperavam que fosse um dos jogadores mais fit, nada que já não estivesse à espera! Contudo, o que me veio à cabeça foi que todos aqueles treinos de condicionamento doíam.. E muito! E ainda não me distanciava o suficiente para ser claramente o mais fit da equipa, ou seja, iria de ter de puxar ainda mais por mim se quisesse ser o indiscutível dono da camisola 9. 

Ao décimo dia recebi o n.29 no equipamento de treino (números entregues por ordem alfabética), fui o primeiro a chegar ao estádio e vi os treinadores todos no escritório a aplaudirem-me! Primeiro achei que fosse por ter chegado tão cedo, mas quando entrei percebi que era por ter vestida a camisola de Inglaterra!  “Eu sabia que o íamos converter” disse o Kiwi em tom de brincadeira, e a minha resposta foi óbvia “(risos) Não, não, nada disso! Sou português!! Só gosto é da camisola!!”.

O novo “kit”! (Foto: Francisco G. Vieira)

Depois de um treino extra antes do treino de recuperação que íamos ter no relvado do estádio, foram-nos entregues os Kits de treino da Scimitar Sports, uma marca nova onde um dos donos já jogou no GDD há muitos anos atrás e fez questão de me abordar e falar um bocadinho sobre o rugby nacional e queria saber como estava o campeonato português agora. 

Um ultimo episódio caricato acontece todas as sextas feiras quando temos um treino extra de boxe e devido à minha limitação da mão, só pude jogar com a minha mão direita. igualmente limitado está o meu grande amigo número 8 Fijiano de 1,90m e 115 kg . Uma visão algo cómica ver-me a aguentar os socos dele, que, felizmente, só pode usar a mão esquerda!!

 Do ponto de vista mais táctico, temos tido poucos treinos de rugby, mas o pouco  treino táctico que temos tido é sempre acompanhado de uma lição teórica antes com vídeo ou, no mínimo uma explicação calma e detalhada daquilo que é pretendido. Durante os treinos somos filmados por um drone e por câmaras frontais e/ou traseiras, onde os vídeos são colocados numa pasta privada para que possamos aceder e observar e eventualmente discutir coisas a melhorar! 

Uma semana tipo tem sido:

  • Segunda feira, treino de ginásio e de skills de manhã, almoço por volta do meio dia e meia no clube e treino da tarde a começar as 14:30h com exercícios de coordenação e manipulação da bola seguido de treino de condicionamento fisico até as 16h. Depois andar um bocadinho pelo centro da cidade e vir para casa ler, falar com Mãe e namorada e preparar o jantar.
  • Terça-feira, igual ao treino de segunda mas, normalmente, é o dia mais intenso da semana com os treinos de condicionamento a serem mais focados na intensidade e menos na duração.
  • Quarta-feira, treino de recuperação com exercícios de alongamento assistido, treino de equilíbrio e manipulação da bola com o dia a acabar no almoço. Todas as quartas, um grupo de jogadores (grupo diferente todas as semanas) vai dar uma aula de Rugby às escolas, tarefa que ainda não me calhou e por isso tenho aproveitado para tratar de coisas necessárias à minha estadia aqui, como conta bancária, compras, número de segurança social, entre muitos outros. 
  • Quinta-feira, semelhante ao ao dia de segunda e terça mas com um foco mais em treino de circuito, fazer muitas coisas diferentes e obrigar a cabeça a pensar em momentos de fadiga extrema, com exercícios de  skill no descanso entre as séries.
  • Sexta feira treino de ginásio de manhã seguido por aula de boxe de 1 hora e almoço, a tarde livre de sexta feira é geralmente usada para o Team Social, onde nos juntamos todos e vamos fazer coisas fora do rugby como por exemplo jogar bowling, ping pong ou simplesmente conviver no clube. 

Durante o fim de semana, ao sábado de manhã vou ver os Lions à clubhouse e ao Domingo faço um treino de recuperação para me preparar para mais uma semana de treinos de pré-época. 

O passado e presente dos Titans (Foto: Francisco G. Vieira)

Os primeiros jogos amigáveis começam em Agosto e jogamos contra o sheffield , os Newcastle Falcons e o Coventry. O campeonato começa dia 3 Setembro contra o Nottingham Rugby no Clifton Lane, nosso estádio e o primeiro jogo da fase de grupos da British and Irish Cup inicia-se a 13 de Outubro também em Clifton Lane contra o Connacht. 

Podem seguir alguns dos nossos treinos de ginásio através da conta de instagram @therugbygym

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Sávio AzambujaJulho 8, 20176min0

O Fair Play esteve na Rússia a acompanhar a Taça das Confederações. Já com vencedor definido – uma “propositadamente desfalcada” Alemanha – e com a seleção das Quinas a trazer para casa a medalha de bronze, este é o relato da competição por terras soviéticas.

Logo após um sábado de grandes emoções com o torneio do Football For Friendship 2017 (cujo balanço pode consultar aqui), o Domingo em São Petersburgo não poderia ser diferente. O Fair Play esteve por lá, e conta tudo o que se passou fora das quatro linhas.

O dia começou com a grande festa de encerramento do evento promovido pela Gazprom. Realizado num centro de convenções de última geração, a celebração do F4F contou com a presença de diversos representantes da FIFA e ídolos do futebol, além de espectáculos de dança e música.

As estrelas dos relvados Ivan Zamorano, Júlio Baptista, Aleksandr Kerzhakov e Panagiotis Fyssas entregaram os prémios aos jovens destaques do torneio. Outro momento importante foram as palavras da secretaria geral da FIFA, Fatma Samoura, destacando a importância da união, amizade e respeito entre jovens de países tão diferentes.

Apesar do grande sucesso do evento, nenhum dos presentes conseguia esconder a enorme excitação com tudo o que ainda estava por vir. A final da Taça das Confederações reservava uma noite de emoção com o confronto entre Chile e Alemanha.

A caminho do estádio não havia como não perceber que a cidade estava em festa e respirando futebol. Quanto mais a grandiosa Zenit Arena se aproximava, maior era a movimentação dos adeptos nas ruas. Ao longe, já era possível observar as bandeiras a tremular e a imponência do estádio era algo que saltava aos olhos.

A Zenit Arena, também conhecida como Saint Petersburg Stadium, é simplesmente deslumbrante. O design do estádio foi elaborado pela empresa de arquitectura japonesa Kisho Kurosawa e lembra muito a forma de uma nave espacial. Além disso, o estádio é muito bem localizado, uma vez que se encontra muito próximo do Maritime Victory Park, na ponta da ilha de Krestovsky e é cercado por três lados pelo Mar Báltico.

Ao entrar nas imediações da arena, tudo se apresentava de forma prática e com uma organização impecável. Os fãs misturavam-se numa grande massa de cores e sentimentos e, por mais que os alemães estivessem presentes e vestidos a rigor, a agitação dos chilenos era contagiante.

Entre cânticos e exaltações à “La Roja”, era possível observar que eles haviam viajado de todas as partes do mundo para apoiar sua selecção.

“Fico muito feliz por ver tantos compatriotas. São famílias inteiras que vieram do Chile!” conta feliz Cláudio Ortega, um chileno que vive na Suécia há mais de dez anos.

Mas não eram só os chilenos que estavam a apoiar a sua selecção. Os russos também não conseguiam esconder o seu apoio.

Leonid Kostiuk e Danil Kostiuk, pai e filho respectivamente, vieram da cidade de Belgorod e, apesar de trazerem pintados no rosto a bandeira das duas selecções, foram directos ao declararem a sua preferência:

“Tenho mais simpatia pela selecção chilena, admiro a sua raça e vou torcer por eles. Porém acredito que a Alemanha vai vencer desta vez”, previu Leonid.

O caminho para as bancadas foi rápido e dinâmico. A belíssima vista da Zenit Arena tornava o percurso um verdadeiro espectáculo e a boa preparação dos funcionários não deixava espaço para dúvidas.

A festa de encerramento contou com 1.500 pessoas envolvidas e empolgou os adeptos com os concertos dos cantores russos Polina Gagarina e Egor Kreed após uma apresentação ensaiada pelo director Felix Mikhailov. O avançado brasileiro Hulk, que jogou durante quatro anos no Zenit, da Rússia, foi o escolhido para apresentar a taça do torneio a todos os presentes no estádio.

Minutos antes do jogo, o que era uma suspeita tornou-se uma certeza: a maioria esmagadora do estádio torcia pela selecção chilena.

O que se tornou uma tradição dos adeptos brasileiros durante o Mundial de 2014, repetiu-se quando a claque chilena continuou a cantar seu hino nacional mesmo após o fim da gravação oficial. Um espectáculo de arrepiar!

Apesar de estarem em menor número, os adeptos alemães não ficavam atrás. Logo após o apito inicial os gritos e incentivos não paravam e, depois do golo aos 20 minutos, tornou-se um verdadeiro frenesim.

Com o passar do tempo o jogo tomou ares mais pesados, com brigas e discussões por parte dos atletas, porém, a claque em uníssono reprovava cada discussão entre os jogadores. Todos queriam assistir a um jogo limpo.

O Fair Play na Rússia (fotogaleria)

O último apito do árbitro deu fim à apreensão dos adeptos. De um lado os alemães festejavam e do outro os chilenos apoiavam a sua equipa. No final, todos aplaudiram o espectáculo.

A saída do estádio foi tão tranquila quanto a entrada, a diferença ficou por conta do céu da cidade. O fenómeno das “noites brancas”, típico desta época do ano, proporcionou um belíssimo anoitecer às 23:30h e, no final da partida, o estádio já se encontrava completamente iluminado.

Uma noite mágica na Rússia. O fim de um capítulo onde a história só se irá encerrar em 2018, no Campeonato do Mundo. Um futuro estampado no rosto dos jovens do Football For Friendship que nunca se esquecerão deste longo dia em São Petersburgo.

O presente artigo foi realizado no âmbito da parceria que o Fair Play estabeleceu com o Sapo24, e a sua publicação original pode ser consultada aqui.

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Sávio AzambujaJulho 1, 20173min0

Jovens de todo o planeta encontraram-se em São Petersburgo para jogar futebol e propagar valores como respeito, amizade e tolerância.

São 9:30 da manhã e a expectativa toma conta do lobby do hotel Park Inn by Radisson em São Petersburgo. Apesar do frio e do mau tempo na bela cidade russa, o colorido e a felicidade estampada no rosto de centenas de jovens de diversas partes do mundo aquece e enche de alegria o enorme corredor de entrada. Estão todos reunidos à espera do tão aguardado torneio Football For Friendship (F4F) 2017.

O evento define-se como um programa social para jovens, implementado pela empresa de energia russa Gazprom desde 2013, e inclui diversos eventos desportivos e educacionais por todo o mundo.

Os principais objectivos do programa são o desenvolvimento dos jovens na prática de futebol, a popularização de um estilo de vida saudável, a propagação da tolerância e do respeito por diferentes culturas e, por fim, a alimentação de um sentimento de amizade entre crianças de diferentes países. Com uma breve visão geral do ambiente, já conseguimos perceber o enorme sentimento de companheirismo e respeito que existe no ar.

“É simplesmente maravilhoso o facto de termos criado uma plataforma significativa onde as ideias de tolerância, respeito e paz são promovidas de forma tão ampla e positiva” conta Vladimir Serov, Diretor Global da F4F.

Os jovens da edição deste ano estão em São Petersburgo, na Rússia, que, para além de contar com o F4F, é também a sede da final da Taça das Confederações. Final esta que é o ‘grand finale’ do Football For Friendship, pois todos os jovens que participaram no evento este ano terão a oportunidade de desfrutar da final dentro do estádio, com uma visão privilegiada dos seus jogadores favoritos.

Depois de uma semana de treinos intensos (e divertidos) no espaço Nova Arena, em São Petersburgo, os jovens tiveram neste Sábado o tão esperado torneio F4F 2017, e o resultado não poderia ter sido melhor. Foram 64 jovens das mais diversas origens, divididos em 8 equipas de 8 jogadores.

“Estou impressionado. Nós somos de 64 países diferentes e estamos todos aqui, agora. Eu acho que muitos jovens gostariam de estar no meu lugar” relata o pequeno Ibrahim Khellil, da Argélia.

As equipas foram divididas por cores e um sorteio no início do evento determinou quais seriam os confrontos. Na sua primeira partida, a Equipa Vermelha, do jovem representante português Tiago Guerreiro foi derrotada pela equipa Laranja. Porém, Tiago, de apenas 10 anos, não desanimou.

“O importante é que jogámos bem”, gritava o miúdo em apoio aos seus companheiros.

Com o decorrer do campeonato, diversos talentos individuais surgiram. Entre eles podemos destacar para além do português Tiago (SR Almancilense – Loulé), o defesa brasileiro Juan (Fluminense – Rio de Janeiro) e o avançado argentino Ivan (San Lorenzo – Buenos Aires). Estes dois últimos foram os protagonistas da grande final, realizada entre a Equipa Laranja e a Lilás.

A última partida do torneio foi um show a parte. O placar de 4×3 a favor da Equipa Laranja retrata bem uma partida cheia de emoções e belas jogadas.

No final de contas, as palavras do jovem jornalista Stefan Radujko, da Sérvia, sintetiza muito bem o sentimento de todos: “Não importa quem ganhou. Nós estamos no F4F para nos divertirmos e para conhecer novos amigos. Vou lembrar-me disto por toda a minha vida”.

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Daniel FariaJunho 23, 20177min0

Onde existe dinheiro – em larga quantidade – todos sabemos que haverá sempre o “fantasma” da corrupção e da ilegalidade a pairar. Infelizmente, no futebol, esse espectro da “ilegalidade financeira”, se assim quisermos chamar, está cada vez mais presente, num desporto que se assume a olhos vistos como uma indústria ou uma máquina de fazer milhões.

Como todos sabemos, o futebol é actualmente um desporto milionário. Os clubes movimentam receitas astronómicas resultantes da venda de bilhetes, dos passes milionários dos jogadores, dos prémios atribuídos em competições, entre outros factores.

Os atletas, são vistos também como um mero instrumento financeiro, em que os clubes procuram ao máximo rentabilizar aquele activo, seja em transferências, ou contratos publicitários, que acabam por beneficiar e/ou promover o jogador e sobretudo o clube, que cada vez mais rico, está constantemente sedento por novo encaixe monetário.

Falamos claro dos maiores clubes a nível mundial, Manchester United, Real Madrid, Bayern Munique, entre outros, o leitor sabe a quem nos referimos. Deixe de fora o clube da sua terra, porque nesse meio futebolístico sim, ainda existe algum amor à camisola, descartando o lado industrial que está a “matar” o futebol e a sua verdadeira essência que é o jogo dentro das quatro linhas.

Muito dinheiro é movimentado no desporto rei. (Foto: apostas1x2)

Inflação desmedida

Hoje qualquer um vale 40, 50, 60, 70 milhões, fruto de uma inflação desmedida que desregula o valor real de cada jogador… Valor real esse que não existe na verdade, porque o que se pode fazer é uma avaliação de acordo com o que achamos que cada jogador vale, mas sinceramente, por vezes é difícil ver transferências astronómicas por “dá cá aquela palha”. Os clubes por vezes parecem “meninos mimados” que não sabem o que fazer ao dinheiro. Temos 100 milhões, ora pega 50 para este e mais 50 para aquele e pronto… E assim mostram que têm poder económico. Ridículo.

SAD’s, passes e salários

Noutra vertente, outra coisa que intriga, e que tem estado na ordem do dia é a relação do futebol com o fisco.

No meio de todas estas enormes quantias de dinheiro em movimento, como é que funcionam os impostos? É inegável que as Sociedades Anónimas Desportivas, as conhecidas SAD [Sociedades Anónimas Desportivas], apresentam grandes resultados com as vendas de grande valor que os clubes protagonizam.

Existem duas realidades fundamentais sujeitas a impostos no que se refere a um jogador de futebol: a primeira é o passe do atleta, ou direitos desportivos e a segunda é naturalmente o seu salário.

O passe do atleta é comercializado no mercado, tendo um grande valor económico consoante a valia do jogador, podendo ser detido por várias partes.

Ederson, ex-Benfica, é um exemplo de um jogador com o passe detido por várias partes. (Foto: O Benfiquista)

Exemplo – retirado de um artigo do um jornal português, que reflete bem a situação:

Um jogador começa a valorizar-se com boas exibições e atrai a atenção de outro clube. Este clube entra em negociações com a SAD que detém o “passe” do jogador e oferece pelo mesmo vinte milhões de euros. A SAD tinha despendido com a aquisição deste jogador cinco milhões de euros. Com o acordo estabelecido, o clube interessado terá então de negociar com o jogador. Efectuada a transferência e encerrado o negócio, a SAD terá gerado uma mais-valia de quinze milhões de euros.

Esta mais-valia de 15 milhões de euros vai ser sujeita a IRC à taxa normal. Porém, se a SAD reinvestir no prazo de três anos os vinte milhões de euros resultantes da venda do jogador, na contratação de outros jogadores verá a taxa de IRC reduzida para metade.

Os jogadores, são, regra geral, tributados em sede de IRS como trabalhadores dependentes. Porém, como se trata de uma profissão de desgaste rápido, poderão deduzir integralmente ao IRS o despendido em seguros de doença, acidentes pessoais, de vida ou reforma por velhice.

Regime especial é possibilidade

Os jogadores de futebol podem optar por um regime especial para agentes desportivos, em que lhes é aplicada uma taxa de tributação inferior à taxa normal (correspondente a apenas 60 por cento desse montante).

Ao optar por este regime, perde o direito a quaisquer deduções ou abatimentos, ou seja, os rendimentos serão sujeitos a tributação pelo seu montante bruto.

Mas, apesar disso, os prémios que os atletas recebem por classificações relevantes obtidas em provas desportivas de elevado prestígio, estão isentos de IRS.

Depois destes “factos rápidos”, é importante perguntar: como é que se vê tanto jogador e clube a fugir aos impostos, se ainda gozam em alguns casos de benefícios fiscais e têm na sua posse elevadas quantias de dinheiro que podem facilmente fazer face aos seus encargos fiscais e estarem bem economicamente?

Muitos jogadores têm sido acusados de fugir ao fisco, vejamos o caso de Cristiano Ronaldo e Messi. Ainda há poucos dias saiu uma notícia que referia o facto de mais de 40 clubes com a sua situação ao fisco fora dos trâmites legais…

Cristiano Ronaldo está acusado pelo fisco espanhol de evasão aos impostos, tal como Messi. (Foto: Google)

Não somos economistas nem pretendemos sê-lo, nem queremos fazer campanha negativa ao futebol e aos seus agentes, mas há coisas que não se percebem na relação do futebol com o fisco. Vale tudo para ter na sua posse a maior quantidade de dinheiro possível, sem cumprir obrigações legais?

Fisco atento aos negócios

As operações de transferências de jogadores, pelos elevados montantes que atingem e também pela sua relevância como fonte de receita, são cada vez mais objecto de planeamento fiscal e os clubes e jogadores têm que ter consciência disso, porque esta realidade foi criada pelos mesmos, que correm a todo o custo lado a lado nesta “guerra financeira”, com os empresários a serem também um dos principais impulsionadores dos negócios megalómanos.

Cada país tem as suas leis fiscais, sendo que este artigo foi feito com base na lei portuguesa, mas de nação para nação acreditamos que a disparidade entre os princípios económicos referentes ao futebol não seja muito grande.

O futebol e o desporto em geral têm cada vez maior importância na vida económica dos países. Por outro lado, e ao contrário da generalidade da actividade económica, neste campo estão envolvidas muitas paixões e multidões, o que faz com que o processo e notícias de evasões fiscais seja cada vez mais ampliado e alvo de dissecação.

Fisco espanhol tem estado particularmente activo nos últimos dias. (Foto: JN)

No meio de um desporto que se rege cada vez mais pelo dinheiro, o que acaba por infelizmente ser natural, pede-se aos clubes, atletas e sobretudo aos empresários, rigor na gestão do seu elevado património, contribuindo para limpar a imagem do futebol, que por vezes é “poluída” sem necessidade nenhuma.

Por isso e para concluir: investigue-se de maneira eficaz possíveis delitos na arte de usurpar impostos, não só no futebol, como em toda a actividade desportiva. Em todos os meios há quem pague impostos e quem faça de tudo para escapar aos mesmos, mas quando falamos em rendimentos de 20 ou 30 milhões anuais, parece-nos que a evasão fiscal não tem qualquer fundamento.


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