23 Nov, 2017

Tomás da Cunha, Author at Fair Play

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Tomás da CunhaAgosto 18, 20179min0

O paradigma do futebol italiano tem vindo a mudar nos últimos anos. O calcio já não é aquele futebol ultra-defensivo, sem espaço para magia, e o facto de ter sido a liga das top-5 com maior número de golos marcados é prova disso mesmo. A renovação está em curso e o elevado número de jovens talentosos que vão ganhando espaço nas diversas equipas é também um sinal das diferenças em relação ao passado. Muitas dessas promessas são aqui apresentadas, para que não se percam de vista.

Alex Meret (SPAL) – Já é conhecido o potencial formador da Itália no que diz respeito aos guarda-redes. Nos últimos anos, a qualidade não parou de surgir e a concorrência promete ser apertada nos próximos tempos. Alex Meret é um dos nomes mais talentosos da nova geração e um candidato firme a assumir a baliza da Squadra Azurra. Formado na Udinese mas sem espaço no Friuli, o jovem de 20 anos foi cedido ao SPAL e brilhou na subida de divisão da equipa de Ferrara. Um guarda-redes sereno e maduro, evoluído no posicionamento e com uma agilidade impressionante entre os postes, parecendo voar para cada bola com relativa facilidade. Este ano terá a oportunidade de jogar na Serie A, campeonato mais desafiante e que exponenciará as suas qualidades. No SPAL, será posto à prova com bastante frequência, o que até lhe permite mostrar-se aos responsáveis dos zebrette, onde acabará por regressar em breve. Aí, terá a concorrência de Simone Scuffet, outro futuro monstro das balizas. Só podendo jogar um, veremos quem vencerá a corrida.

Andrija Balic (Udinese) – Numa liga que tem saudades de Pirlo, um regista de classe mundial, o pé direito de Balic, um predestinado, pode servir de recordação. Pela visão de jogo invulgar, pela precisão no passe longo e até pela cabeleira, o diamante formado no Hajduk Split não vai passar despercebido cada vez que estiver em campo. Aos 20 anos (sim, são apenas 20 anos, apesar de parecer que anda cá há muito tempo), o médio ignorou vários convites de emblemas de topo e escolheu a Serie A para prosseguir a carreira. Terminou a temporada como titular, e este ano tem tudo para ser de afirmação definitiva. Podendo actuar em qualquer posição do meio campo, é um jogador que gosta de ter a bola e que transborda confiança sempre que a tem sob controlo. Alto mas com muita habilidade, constrói a partir de zonas recuadas com imenso critério. É um “lançador” de excelência e um exímio marcador de bolas paradas. Se for bem protegido (isto é, se não for sobrecarregado com tarefas defensivas), vai fazer a diferença no meio campo da Udinese.

Rolando Mandragora (Crotone) – A abundância de médios no plantel da Juve dificulta bastante a afirmação dos mais jovens. Mandragora, tal como Bentancur, pode vir a impor-se no futuro mas, por enquanto, terão de dar provas de valor noutras paragens. Em Crotone, o jovem italiano será provavelmente uma das figuras da equipa e uma das principais esperanças para conseguir o objectivo da manutenção. Pode jogar à frente da defesa, mantendo a posição, ou um pouco mais adiantado, ligando-se aos homens do ataque com facilidade. Com um pé esquerdo excepcional, resiste bem à pressão e constrói com critério, de cabeça levantada. Tem várias soluções no seu jogo, mas a qualidade no passe longo – notória no último Mundial sub-20 – promete fazer estragos na Serie A.

 

Sem espaço na Juve, Mandragora terá mais tempo de jogo em Crotone [Foto: Signoria Mia Calcio News]
 

Filippo Romagna (Cagliari) – Para um jogador jovem é altamente complicado ganhar espaço num dos melhores plantéis do mundo. Romagna, apesar do enorme potencial, deixou a Juventus em definitivo, passo que lhe valerá mais tempo de jogo. O Cagliari está longe de ser uma equipa consistente do ponto de vista defensivo, mas vai certamente beneficiar da presença do jovem de 20 anos. Com todas as características de um central moderno, o italiano poderá ser o líder do quarteto defensivo rossoblu, ocupando a vaga do português Bruno Alves. Não é um jogador tão agressivo nos duelos, mas compensa com um posicionamento inteligente e uma velocidade acima da média. Depois, apresenta um nível técnico muito razoável, que lhe permite assumir a saída de bola com relativa facilidade. Sente-se confortável nesse papel e consegue desequilibrar através do passe. Vale a pena seguir a sua evolução.

Riccardo Orsolini (Atalanta) – Nos últimos anos, a Juventus tem adoptado a “política do eucalipto”, garantindo grande parte das jovens promessas que actuam no país. Se resultarem, o clube terá proveitos desportivos e financeiros. Se não evoluírem como se perspectivava, pelo menos não foram parar aos rivais. Tendo de apostar, não hesitaria em colocar as fichas em Riccardo Orsolini. Depois de brilhar na Serie B, ao serviço do Ascoli, e no último Mundial sub-20, o extremo esquerdino terá a oportunidade de demonstrar o seu talento numa das melhores equipas da temporada anterior. Partindo da direita, de forma a explorar as diagonais para o espaço interior, cria desequilíbrios com facilidade e tem um perfil de decisão bastante evoluído para a idade e, sobretudo, para o estilo que apresenta. Um jogador que gosta de ter a bola, sem problemas em assumir o 1×1 ou mesmo a finalização (marcou 8 golos na última época). Candidato indiscutível a revelação da Serie A.

Pol Lirola (Sassuolo) – O espanhol já foi uma das revelações da última época mas, por ainda ser algo desconhecido, tem lugar nesta lista. Emprestado pela Juventus ao Sassuolo pelo segundo ano consecutivo, é um dos laterais-direitos mais interessantes do campeonato italiano e ainda tem imensa margem de progressão. Destaca-se essencialmente pela facilidade com que se integra no ataque, fazendo um vaivém constante durante os 90 minutos. Ainda assim, está longe de ser um jogador que sobressaia pela capacidade física; é muito evoluído tecnicamente e aproveita para criar desequilíbrios em zonas interiores. Caso Berardi não seja colocado na zona central, a sociedade entre o espanhol e o italiano no flanco direito vai ser bem interessante de seguir.

Pol Lirola é um dos laterais-direitos mais interessantes da Serie A [Foto: goal.com]
Nicolò Barella (Cagliari) – Não faltam médios talentosos nesta Serie A e o jovem do Cagliari é mais um com potencial elevado. Os 28 jogos que realizou no último campeonato levaram-no ao Mundial sub-20, de onde uma lesão inesperada o afastou prematuramente. Ainda assim, mostrou valor no tempo que esteve em campo e esta época deverá fazer com que a sua cotação dispare. Terá lugar garantido no meio campo rossoblu, seja como 6 ou como 8, e a sua qualidade com bola dificilmente vai passar despercebida. Sempre com um papel activo na construção, é um jogador bastante resistente à pressão e procura entregar com critério, de preferência verticalizando. Quando joga como segundo médio arrisca mais no transporte, queimando linhas adversárias com facilidade. Apesar de ser mais forte nas tarefas ofensivas, não só pelo nível técnico mas também pela capacidade de decisão, é igualmente disponível no processo defensivo. Um médio completo.

Daniele Verde (Hellas Verona) – O potencial ofensivo do Hellas Verona é deveras assustador para um clube recém-promovido. Ao lado dos experientes Pazzini e Cerci estará Daniele Verde, um jovem irreverente e com um estilo de futebol bastante atractivo, que faz lembrar Ezequiel Lavezzi. A facilidade que tem em jogar com os dois pés, apesar de ser canhoto, coloca-o como uma opção válida para ambos os flancos, embora beneficie quando parte da direita. Atrevido e imprevisível, desequilibra no 1×1 e aparece bem nas zonas de finalização. Depois de se destacar no Avellino, marcando 8 golos, terá uma oportunidade de se mostrar de forma consistente num escalão mais competitivo. Em Roma, onde já se estreou, esperam por ele.

Dawid Kownacki (Sampdoria) – No último Europeu sub-21 foi um dos poucos destaques positivos da Polónia, selecção da casa, confirmando as credenciais que já tinha apresentado ao serviço do Lech Poznan, onde marcou 11 golos na temporada anterior. A Sampdoria tem descoberto talentos em diversas paragens, e a contratação do jovem avançado de 20 anos enquadra-se na política recente do clube genovês. Kownacki, que não deu um passo maior do que a perna, pode valer benefícios desportivos e financeiros, caso a adaptação corra como é expectável. Não sendo talhado para jogar como única referência do ataque, pode actuar em qualquer posição da frente e será sempre garantia de alguns golos. Melhorando os índices de eficácia terá números ainda melhores, já que aparece com facilidade em zonas de finalização e não lhe falta poder de remate com ambos os pés. Móvel mas com uma presença forte nas imediações da área adversária, dá-se bastante ao jogo e cria condições vantajosas para si e para os colegas. Ainda com enorme margem de progressão, vai acabar por ganhar o seu espaço na Sampdoria e pode tornar-se – ainda mais – um valor seguro do futebol polaco.

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Tomás da CunhaAgosto 16, 201718min0

Não é um dado adquirido que todas estas equipas terminem na segunda metade da tabela (a Fiorentina, por exemplo, ganhou vida nos últimos dias), mas é garantido que muitas delas vão lutar pela manutenção. Na diversidade que a Serie A possui, há espaço para surpresas e autênticos milagres por parte de equipas com poucos argumentos. 

Fiorentina

O mercado não foi fácil em Florença, e a certa altura chegou a pensar-se que a época se preparava para ser um descalabro. Borja Valero, Vecino e Bernardeschi estavam de saída e Kalinic forçava a transferência, deixando o projecto da Fiore a abanar por todos os lados. As contratações sucediam-se, mas a maioria apresentava qualidade duvidosa. Entretanto, os dirigentes do clube ganharam consciência e decidiram dar algum ânimo aos adeptos viola. Benassi, um dos jovens médios com mais potencial do calcio, foi adquirido ao Torino, e Jordan Veretout, que errou ao transferir-se para o Aston Villa, chegou para colmatar a saída de Vecino. Dois reforços que deverão ter lugar garantido no onze base de Stefano Pioli, ficando a outra vaga em aberto. Cristóforo, Badelj e Sánchez são mais disponíveis para tarefas defensivas, mas Matias Fernández e Riccardo Saponara poderão dar um toque de criatividade. Mais à frente, o português Gil Dias foi o escolhido para assumir funções semelhantes às de Bernardeschi, partindo do flanco direito para zonas interiores. Uma decisão de carreira bastante interessante por parte do esquerdino, ainda que a titularidade não esteja garantida. Eysseric, contratado ao Nice, e Federico Chiesa (enorme expectativa para perceber a evolução do italiano) são outras opções de grande nível para os corredores, além do explosivo Rebic e dos irreverentes Zekhnini e Hagi. O eixo do ataque é que não tem tanta abundância, faltando claramente um substituto à altura de Kalinic. Se quiser lutar pelos lugares europeus, a Fiorentina terá de encontrar um goleador até final do mercado e, se possível, aumentar a qualidade do sector mais recuado, onde o português Bruno Gaspar figurará.

Gil Dias escolheu a Fiorentina para evoluir
[Foto: Facebook de Gil Dias]

Bolonha

O desafio de um clube como o Bolonha passa por manter a motivação até final, já que, depois de conseguida a manutenção, não há qualquer objectivo pelo qual lutar. Começou mal a temporada, com a eliminação da Coppa Italia na recepção ao Citadella, mas a equipa de Donadoni tem condições para realizar um campeonato tranquilo, embora não deva haver potencial para mais do que isso. Apesar de a última época não ter sido famosa, o plantel rossoblu – que é uma verdadeira sociedade das nações, contando com 15 nacionalidades diferentes – tem boas armas, sobretudo do meio campo para a frente. As opções para o sector intermédio já davam garantias, e a chegada de Andrea Poli, o reforço mais sonante, acrescenta valor e experiência a essa zona do campo. Mais jovem mas não menos talentoso, o húngaro Ádám Nagy deverá assumir um papel muito relevante na manobra do Bolonha, podendo dar o salto para um emblema com outras ambições. Tem muito futebol no corpo. Pulgar, Verdi, Taider e Crisetig, outro médio com bastante qualidade, também entrarão na rotação, dando dores de cabeça positivas a Donadoni. No ataque, Destro deverá manter-se como a principal referência no eixo, bem acompanhado pelo esquerdino Krejci (para seguir com atenção) e pelos jovens Petkovic e Di Francesco.

Sassuolo

Será um ano de mudança para os neroverdi. Depois da saída de Eusebio di Francesco, sobrou um vazio no clube, pois foi o técnico que fez a equipa subir a pulso nos últimos anos, tendo jogado a Liga Europa na passada temporada. Para Roma, o técnico levou consigo dois dos principais jogadores do plantel: Lorenzo Pellegrini e Grégoire Defrel, baixas de vulto e que deixam uma sensação de que este pode ser um ano zero para a equipa. É certo que a estrela do conjunto, Domenico Berardi, se vai mantendo (estranhamente, dada a qualidade) no clube, para bem da equipa, mas é certo que esta temporada não teremos um plantel tão forte. O Sassuolo apostou em jogadores jovens para esta temporada, com destaque para a contratação do médio centro Francesco Cassata à Juventus e a manutenção em definitivo de Federico Ricci, dois jovens craques que podem a vir dar muito que falar. De resto, ainda no que toca a reforços, destaque para a contratação do central Goldaniga ao despromovido Palermo e para o regresso do ponta de lança Diego Falcinelli, que, depois de um empréstimo produtivo ao Crotone, pode ocupar a vaga deixada por Defrel. O técnico Cristian Bucchi, que terá o desafio de manter o clube estável, deverá construir a equipa em torno de jogadores como Consigli, Francesco Acerbi, Alfred Duncan, Matteo Politano e a estrela Berardi, que, neste ano de transição, poderá ter ainda maiores responsabilidades. Um lugar a meio da tabela parece o destino mais provável para os neroverdi.

Génova

As últimas épocas não têm sido fáceis para o conjunto rossoblu. A equipa tem potencial para fazer mais do que tem feito nas últimas temporadas, sendo obrigatório garantir a manutenção com maior margem – no último ano, o emblema que joga no Luigi Ferraris ficou no 16º posto, com apenas 4 pontos de vantagem para os lugares de despromoção. O mercado de Verão trouxe algumas mexidas importantes no plantel, com a chegada de Lapadula e os regressos de Bertolacci (figura importante no passado) e de Ricardo Centurión, polémico mas talentoso argentino. Ivan Juric conta com um elenco bem apetrechado, diga-se, contribuindo para isso a manutenção em definitivo de Oscar Hiljemark e a entrada dos experientes centrais Spolli, do Chievo, e Zukanovic, por empréstimo da Roma. Estes reforços dão um maior grau de profundidade e obrigam o Génova a fazer muito mais, visto que, do plantel principal, apenas saíram Lucas Órban e Ezequiel Muñoz, além dos emprestados Ocampos, Cataldi, Pinilla e Ntcham. A baliza está assegurada por Mattia Perin, um dos melhores guarda-redes do calcio, que há vários anos é apontado a outras paragens. O meio campo, com Miguel Veloso, Hiljemark, Cofie e agora Bertolacci, também apresenta uma qualidade bastante razoável. Diego Laxalt, explosivo uruguaio, é um nome a ter em conta nas alas, bem como Darko Lazovic, Centurión e o regressado Gakpé. À partida, Lapadula será o líder do ataque, já que Giovanni Simeone deverá deixar Génova, podendo abrir espaço para a evolução do teenager Pellegri, de apenas 16 anos. Resumindo, Ivan Juric precisa de provar o porquê da sua contratação em Abril e está obrigado a superar o modesto 16º lugar da última temporada.

Pellegri, aos 16 anos, estreou-se a marcar na Serie A [Foto: Corriere della Sera]

Chievo

Ano após ano, o Chievo Verona tem partido com um dos plantéis menos apetrechados da Serie A. No entanto, está desde 08/09 na elite do futebol italiano e não parece com vontade de a abandonar. O segredo dos gialloblu parece estar na estabilidade: Rolando Maran vai para a quarta temporada no comando técnico da equipa e nunca esteve em apuros na fuga à despromoção (em 15/16 conseguiu, inclusive, um belíssimo nono lugar). O plantel também não costuma sofrer muitas mudanças, sendo, por esse motivo, um dos mais envelhecidos do Calcio. No sector defensivo, por exemplo, Cesar já leva 35 anos, tal como Gamberini, Frey tem 33 e Dainelli carrega 38 anos no corpo. É precisamente essa a idade de Sergio Pellissier, mais um caso que comprova que a experiência é mesmo um posto – pelo menos em Itália. Vai para a 17ª (!) época ao serviço do Chievo, é uma lenda para os adeptos do clube e ainda consegue manter intactas as qualidades de goleador. Com a idade avançada do capitão, Roberto Inglese, que apontou 10 golos no último ano, e Riccardo Meggiorini poderão ter de assumir mais vezes as despesas do ataque. No apoio estará Valter Birsa, médio criativo que tem sido um dos jogadores mais destacados do conjunto de Maran. Marcou 7 golos e fez 9 assistências, números extremamente relevantes num clube como o Chievo. Mais responsáveis pelas tarefas defensivas estarão Ivan Radovanovic e o argentino Lucas Castro, dando liberdade ao esloveno.

Udinese

Há uns anos, a Udinese era um dos melhores exemplos de prospecção no futebol europeu. Foi ali que despontaram nomes como Alexis Sánchez, Juan Cuadrado ou Allan, antes de rumarem aos grandes palcos do futebol europeu. Entretanto, o clube do Friuli travou o seu crescimento e não conseguiu cimentar a sua posição entre os melhores do Calcio. Aliás, não é exagerado catalogar os zebrette (zebras, em português) como uma das principais desilusões dos últimos anos. Para esta temporada, a expectativa passa apenas e só por conseguir a manutenção de forma tranquila, se possível valorizando alguns jogadores do plantel. Luigi Del Neri conta, desde logo, com uma das maiores promessas das balizas italianas. Simone Scuffet deverá aproveitar a previsível saída de Karnezis para finalmente conquistar o seu espaço. Meret, também ele com um talento enorme, vai rodar novamente no SPAL. Outra das posições mais interessantes é a lateral-esquerda, onde Ali Adnan terá a concorrência de Pezzella, que se destacou no último Mundial sub-20. Samir, central de origem, também poderá desempenhar este papel. O meio campo ganhou um reforço de peso com a chegada de Valon Behrami, que parece destinado a ocupar a posição 6, mas o principal motivo de interesse será o maestro Andrija Balic. Dono de um talento extraordinário, o jovem médio croata apareceu bem no final da última temporada e é expectável que conquiste o seu espaço na equipa. Seko Fofana, mais agressivo no transporte de bola, oferece outras características a um sector particularmente entusiasmante. Quem não deve ter ficado entusiasmado com a saída de Duván Zapata são os adeptos da Udinese, que viram uma das referências do ataque regressar a Nápoles. Para o seu lugar chegou Lasagna, mas Théréau deve manter-se como o principal goleador do conjunto bianconero. De Paul e Jankto serão os desequilibradores a partir das alas.

Sampdoria

Não sendo candidata a altos voos, a Sampdoria é uma das equipas que pode surpreender. O plantel sofreu uma espécie de revolução, com a saída de várias figuras fundamentais, mas o clube genovês tem demonstrado bastante astúcia na abordagem ao mercado. Ainda assim, não será fácil colmatar as baixas de Skriniar, central eslovaco que rumou ao Inter, de Bruno Fernandes ou de Luis Muriel, que saltou para Sevilha. Além destes, espera-se que a transferência de Patrik Schick se confirme (o negócio com a Juve falhou, mas não faltam interessados), o que significaria a perda da maior revelação do último campeonato. Um avançado que combina qualidade técnica, inteligência nas movimentações e uma capacidade extraordinária de utilizar o corpo. Talvez por isso o comparem com Zlatan. Marco Giampaolo deverá ter uma réstia de esperança na permanência do checo, mas a Samp precaveu-se e garantiu a contratação de Gianluca Caprari, que deu nas vistas ao serviço do Pescara, e do promissor David Kownacki, um dos mais talentosos da nova geração polaca. Não sendo talhado para jogar como referência, pode actuar nos flancos ou no apoio a um jogador que procure constantemente as zonas de finalização. O meio campo, indiscutivelmente o sector mais forte do emblema de Génova, conta com opções de luxo, entre as quais os promissores Lucas Torreira (junta a fibra uruguaia a uma qualidade no passe notável), Dennis Praet e Karol Linetty, ambos com potencial para mais do que o que demonstraram na última temporada. Gastón Ramírez foi contratado ao Boro e volta à Serie A, campeonato mais adequado às suas características, como uma das estrelas cintilantes dos bluecerchiati. Tem um pé esquerdo fantástico. Valerio Verre, embora possa ter dificuldades para jogar regularmente, é outro nome a ter em conta, bem como o experiente paraguaio Barreto. Djuricic e Ricky Álvarez, cuja explosão definitiva parece eternamente adiada, são duas incógnitas e nem sequer é possível afirmar que vão fazer parte do plantel. O excesso de opções para o sector intermediário vai certamente condicionar as escolhas de Marco Giampaolo, que não estará tão satisfeito com as alternativas para a linha defensiva. Murru, contratado ao Cagliari, é um lateral-esquerdo com potencial, mas parece faltar um líder que faça esquecer Milan Skriniar.

Ainda não há certezas sobre a permanência de Schick na Samp [Foto: around-j.com]

Cagliari

Em ano de regresso à Serie A, o emblema da Sardenha construiu um plantel com algumas individualidades de excelente nível e terminou no 11º lugar. O Cagliari foi uma das defesas mais batidas do campeonato, mas também conseguiu um registo assinalável de golos marcados. Esta temporada não deverá ser diferente, e o Comunale Sant’Elia poderá assistir a espectáculos bastante interessantes. As mudanças no plantel foram significativas, nomeadamente no sector mais recuado, que perdeu Bruno Alves, Isla e Murru. Apesar das chegadas de Andreolli e Romagna, promissor central italiano que deixou a Juve em definitivo, restam dúvidas sobre a capacidade de Massimo Rastelli formar uma defesa consistente. Como 6, embora possa jogar mais à frente, Nicolò Barella deverá assumir-se como o pensador e o principal construtor de jogo dos rossoblu. É um médio com uma qualidade técnica superior, distinguindo-se de Padoin e Dessena. João Pedro, criativo brasileiro, está encarregue de fazer a ligação com os dois avançados, que se complementam bastante bem. Sau, mais móvel, procura abrir espaços para o letal Borriello, que, aos 35 anos, ainda é uma ameaça constante para os adversários (16 golos no último campeonato). Duje Cop, caso não volte a ser emprestado, terá certamente uma palavra a dizer.

Crotone  

Parecia impossível, mas o estreante Crotone, depois de uma recuperação simplesmente notável, conseguiu a manutenção na última jornada. Esta época ninguém quererá sofrer tanto, por certo, mas o clube da Calábria dificilmente se livra de ter a corda ao pescoço. À excepção do talentoso médio Rolando Mandragora, cedido pela Juventus para ocupar a vaga deixada em aberto por Crisetig, o plantel não teve adições de valor significativo e Davide Nicola precisa de mais uma volta a Itália em bicicleta. Confuso? A explicação é simples: o técnico do Crotone, ciente de quão improvável era segurar o clube na primeira divisão, prometeu percorrer o país de bicicleta caso houvesse um milagre. E lá pedalou 1300 quilómetros. Diego Falcinelli, com 13 golos marcados, foi um dos principais responsáveis pela proeza, mas o Sassuolo, casa de origem, não prescindiu dos seus serviços para a nova temporada. Sem o seu goleador, os squali terão ainda mais problemas num ataque que anseia a chegada de reforços.

SPAL

Foi preciso esperar 49 anos para ver o SPAL 2013 (data da última refundação) de novo na elite do futebol italiano. O clube da cidade de Ferrara regressa como vencedor da Serie B, depois de uma campanha quase imaculada sob o comando do técnico Leonardo Semplici. A segurança defensiva foi uma das imagens de marca dos spallini, muito por culpa da serenidade transmitida pelo guarda-redes Alex Meret. O eixo defensivo também parece estar assegurado: a Gasparetto e Cremonesi juntam-se Felipe, proveniente da Udinese, e Oikonomou, cedido pelo Bolonha. O plantel do SPAL conta com vários emprestados, mas a grande maioria tem condições para dar uma contribuição importante. Alberto Grassi, que pertence aos quadros do Nápoles, é um dos médios com mais potencial da nova geração e tem no SPAL um óptimo espaço de afirmação. A seu lado deverão estar Federico Viviani e Luca Rizzo, emprestados pelo Hellas Verona e pelo Bolonha, respectivamente. No ataque, ao contrário do Crotone, rival na luta pela manutenção, o conjunto recém-promovido possui muitas e boas opções. Mirco Antenucci foi decisivo na subida, encontrando as redes contrárias em 18 ocasiões, e ainda há Alberto Paloschi (flop na Premier League, mas tem muita qualidade) e o experiente Sergio Floccari. Há razões para sonhar com a permanência.

Benevento

A estreia na Serie A é, por si só, um prémio simpático para o Benevento, clube que no ano passado disputou pela primeira vez a Serie B. Ainda assim, os stregoni não quererão desperdiçar a oportunidade de garantir o seu lugar no escalão máximo. A viver um autêntico conto de fadas, com duas promoções consecutivas, o elenco de Marco Baroni recebeu um upgrade significativo para tentar a manutenção. A Lazio cedeu Danilo Cataldi, médio com qualidade para se impor no meio campo da equipa, e poderá libertar também o talentoso (mas inconstante) Ricardo Kishna. Por empréstimo do Inter continua George Puscas, avançado romeno com nome de craque, decisivo na “finalíssima” frente ao Carpi. Venuti, lateral-direito que pertence aos quadros da Fiorentina, continuará a evoluir no Stadio Ciro Vigorito, onde o ganês Chibsah, fundamental na temporada anterior, permanecerá em definitivo depois de ter sido adquirido ao Sassuolo. Para acrescentar experiência ao plantel, o emblema recém-promovido “pescou” Panagiotis Kone na Udinese e Memushaj no despromovido Pescara. Percebe-se, portanto, que houve um esforço para compor um plantel de primeira divisão. Veremos se será suficiente para escrever mais uma página de glória em Benevento.

Hellas Verona

Ao colo de Pazzini. Foi assim na última temporada e será assim na época que se avizinha. O experiente goleador italiano marcou nada mais, nada menos do que 23 golos na Serie B e contribuiu de forma decisiva para o regresso do Hellas Verona à primeira divisão. Este ano terá a companhia de Alessio Cerci, que, depois de uma má experiência no Atlético e de sucessivos empréstimos, tem a ambição de recuperar o nível que demonstrou em Turim. O trio de ataque fica fechado com o promissor Daniele Verde, avançado rápido, desequilibrador e com golo. Está cedido pela Roma e tem potencial para eventualmente voltar ao Olímpico. As principais figuras do conjunto de Fabio Pecchia, jovem treinador de 43 anos, estarão na frente, mas haverá alguma qualidade à disposição nos restantes sectores. Bruno Zuculini, ainda à procura de atingir um patamar superior na carreira, é o nome mais sonante de um meio campo que conta com Daniel Bessa, Büchel, Marco Fossati e Mattia Valoti. O uruguaio Martin Cáceres foi contratado para ser o patrão do sector defensivo, mas a contratação de Heurtaux à Udinese também acrescenta valor a uma zona algo carente de qualidade. Em suma, teremos uma equipa bastante dependente dos seus avançados.

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Tomás da CunhaJunho 26, 20177min0

Maus resultados, escassez de talento e, sobretudo, uma falta de identidade preocupante. As equipas de formação de Itália atravessaram um período bastante negativo na viragem da década e nos anos que se seguiram, o que fez surgir uma necessidade incontornável de reestruturação. Tão importante como o trabalho federativo é o contributo dado pelos clubes, que se começa a reflectir nas gerações que agora evoluem. Há talento espalhado por todos os emblemas da Serie A, campeonato do passado que ano após ano se coloca como um campeonato de futuro.

À selecção de sub-21, que já garantiu a presença nas meias-finais do Euro, ninguém fornece mais jogadores do que a Atalanta, que conseguiu um notável quarto lugar no Calcio. Com toda a naturalidade, o seleccionador Luigi Di Biagio convocou quatro jogadores dos nero blu (Grassi esteve emprestado pelo Nápoles), aos quais se pode juntar Roberto Gagliardini, transferido para o Inter em Janeiro mas com formação feita no clube. O sucesso desta Squadra Azurra deve-se, em boa parte, à aposta frutífera do emblema de Bérgamo.

Mattia Caldara, já contratado pela Juventus, foi um dos centrais em evidência no futebol europeu na última temporada e mantém o nível elevado ao serviço da selecção. Fazendo parelha com Rugani, possivelmente o seu futuro companheiro em Turim (e que dupla será!), o jovem da Atalanta tem sido praticamente intransponível, liderando o sector defensivo com enorme personalidade. Ficou no banco na segunda jornada e, por coincidência ou não, a Itália foi derrotada pela República Checa. Tem apenas 23 anos, mas reúne todas as características para vir a ser uma referência na posição. Muito concentrado sem bola, lendo e antecipando, destaca-se pelo que oferece ofensivamente, tanto no passe como em condução (ficou na retina o túnel a Dahoud). As bolas paradas são outro capítulo em que faz a diferença, tendo marcado uns incríveis 7 golos na Serie A.

Caldara em acção no Juventus Stadium
Foto: JN24.it

O entendimento eficaz de Caldara com Andrea Conti resulta das rotinas que foram criando ao longo da temporada. Tal como no clube, o lateral-direito da equipa projecta-se constantemente, sendo um dos principais receptores das bolas longas do central. Habituado a jogar como ala na Atalanta, devido ao sistema com três centrais, Conti é um autêntico cavalo de corrida no flanco, impressionando pela resistência com que executa o vaivém. Não sendo muito refinado, é um jogador com competências técnicas ao nível da recepção e do passe e explora o jogo interior com inteligência. Para o confirmar surge um registo assinalável de 8 golos apontados na Serie A, que o coloca como o segundo melhor marcador da equipa. Defensivamente, apesar de ter algumas lacunas ao nível do posicionamento, é forte a reagir à perda e muito agressivo em todos os duelos que disputa. Ao que tudo indica vai fazer parte do novo projecto do AC Milan, com a Atalanta a encaixar cerca de 25 milhões de euros.

Desta geração, Roberto Gagliardini foi o primeiro a cativar o interesse de um dos maiores clubes da Serie A. Emprestado pela Atalanta ao Inter, que tem opção de compra do passe, o médio conquistou rapidamente o seu espaço no Giuseppe Meazza e pode tornar-se um dos principais rostos do conjunto de Spalletti. Sempre de cabeça levantada, dá muita fluidez à saída de bola na construção, ora procurando o passe vertical a queimar linhas, ora variando o centro de jogo em busca do homem livre. Contra a Alemanha fê-lo de forma exímia, assinando uma exibição para mostrar como cartão de apresentação. Além do que ofereceu com bola, permitiu que a equipa pressionasse em zonas adiantadas, dando cobertura aos interiores Pellegrini e Benassi. Um ‘6’ bastante culto tacticamente.

Outro dos aspectos decisivos para o triunfo italiano sobre os alemães foi a presença de Bernardeschi como falso 9, que acrescentou agressividade à primeira fase de pressão e condicionou a saída de bola do adversário. Andrea Petagna, titular nos dois encontros anteriores, perdeu o lugar na última partida, mas certamente não perdeu a confiança de Luigi Di Biagio. É, juntamente com Andrea Belotti, um dos pontas-de-lança italianos mais cotados, apesar de o registo de golos na Serie A não impressionar (apenas 5). Formado no AC Milan, encontrou em Bérgamo um espaço de afirmação e tornou-se uma peça indispensável para Gasperini. Mesmo sem marcar muito, é sempre a referência nas bolas longas e a sua presença entre os centrais impõe respeito. Não tem grande mobilidade mas associa-se facilmente, oferecendo apoios frontais constantes e aproveitando a capacidade de jogar de costas para a baliza, talvez a sua principal qualidade. Segura ou entrega ao primeiro toque (sobretudo com o pé esquerdo, o seu preferido), aspecto em que também é forte. Com as características que possui, será difícil que a próxima época não traga mais golos a Petagna.

Vender ou manter: o dilema da Atalanta

Kessié já se transferiu para o AC Milan
Foto: Goal.com

A concentração de jovens promissores ajuda a explicar o surpreendente quarto lugar da Atalanta. Não tendo o poderio financeiro de outros emblemas, os nero blu vão apostando de forma continuada na sua formação e têm tirado bastante proveito desse investimento, não só pelos resultados desportivos mas também pela extrema valorização dos seus activos. Agora, depois de uma época tão bem sucedida, o dilema está em vender ou tentar manter a base da equipa, o que parece difícil face ao assédio de vários clubes.

Os objectivos iniciais eram os de sempre: assegurar a manutenção rapidamente e tentar terminar na metade superior da tabela. Não haveria argumentos para melhor do que isso, poderia pensar-se. Mas Gian Piero Gasperini, treinador que guiou a Atalanta nesta época brilhante, aproveitou a vontade de afirmação de vários jogadores que se tinham destacado na Serie B e construiu uma equipa capaz de vingar na Serie A.

Todos os jogadores que fazem parte da selecção de sub-21 deram provas de valor no competitivo escalão secundário de Itália. Conti passou pelo Perugia e pelo Virtus Lanciano, ganhando o bilhete de volta para Bérgamo. Caldara foi um dos destaques do Cesena em 2015/16, já depois de ter representado o Trapani. Petagna, apesar de só ter 21 anos, jogou no Latina e no Vicenza, antes de uma época excelente ao serviço do Ascoli. Também Gagliardini esteve cedido, juntando ao currículo as passagens pelo Cesena, pelo Spezia e pelo Vicenza. Mérito para a Atalanta, que soube gerir da melhor forma a transição para seniores das suas principais promessas.

Além dos jovens italianos, Gasperini contou com o contributo importante de nomes como Franck Kessié, médio costa-marfinense que já se mudou para Milão, Jasmin Kurtic, desequilibrador esloveno com boa chegada à área, e sobretudo AlejandroPapu’ Gómez, que fez a melhor temporada da carreira. Criativo, tecnicista e com golo (apontou 16 no campeonato), o argentino aproveitou bem o facto de Petagna fixar os centrais para ter mais espaço em zonas de perigo. Um dos melhores jogadores do último Calcio.

Pouco habituada às andanças europeias, a Atalanta terá em 2017/2018 o desafio de se manter competitiva em várias frentes. Já se percebeu que será difícil segurar a espinha dorsal da equipa, pelo que a chave do sucesso estará no critério com que o clube vai atacar o mercado. Fazer muito com pouco foi o lema desta temporada mas, continuando assim, em breve deixará de ser. Para já, é preciso provar que 2016/2017 não foi um episódio único.

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Tomás da CunhaMaio 20, 20177min0

O Fair Play elegeu alguns destaques do Euro Sub-17 que teve como vencedor a selecção nacional espanhola.

Denia e a identidade espanhola – Nos últimos anos, todas as selecções espanholas têm mantido uma identidade que privilegia o controlo do jogo através da posse de bola. Contrariando o que seria de esperar, a equipa orientada por Santi Denia nem sempre procurou dominar dessa forma, abdicando muitas vezes da iniciativa. Essa postura mais expectante colocou os espanhóis perante maiores dificuldades, dependendo daquilo que os adversários eram capazes de fazer. Se no perfil dos jogadores continuam a sobressair as boas decisões, é certo que foram as opções do seleccionador que diminuíram as probabilidades de sucesso e obrigaram a dois desempates por grandes penalidades.

O talento explosivo de Sancho – Há 2 anos, quando cativou a atenção do Manchester City enquanto jogador do Watford, Jadon Sancho motivou desde logo as maiores expectativas quanto ao seu futuro. A relação com a bola denunciava um jogador com um talento distinto, num patamar de desenvolvimento bem acima do que a sua idade poderia fazer prever. O nível que apresentou nesta competição confirma todo o potencial e prova que o jovem inglês é uma das maiores promessas da sua geração. Sancho estabeleceu as diferenças em todos os encontros, criando desequilíbrios atrás de desequilíbrios com uma enorme facilidade. Partindo do corredor esquerdo, embora tenha tido liberdade de movimentos, impressionou pela qualidade técnica e pelo repentismo na mudança de velocidade. Procura muitas vezes as situações de 1×1, em que é praticamente impossível de travar, mas não é um jogador exageradamente individualista, apesar de ter forçado demasiado no jogo contra Espanha. Na fase a eliminar (exceptuando a final) surgiu mais vezes em zonas interiores, recebendo em espaços potencialmente mais perigosos para o adversário. Foi um dos jogadores em destaque na prova, com 5 golos e 5 assistências.

Um lateral para o futuro – Tendo em conta a posição que ocupa, Mateu Morey, do Barcelona, é uma das figuras deste torneio com maiores probabilidades de vir a ser uma referência a nível mundial. Foi um dos jogadores mais influentes da sua selecção, destacando-se pelo que conseguiu oferecer a nível atacante. O seleccionador Santi Denia aproveitou o trabalho feito em La Masia e colocou muitas vezes o lateral em terrenos interiores nos momentos de organização ofensiva, posicionamento que lhe valeu uma preponderância tremenda na manobra espanhola. Criativo e muito inteligente na tomada de decisão, Morey assumiu-se como um dos principais desequilibradores da equipa, sobretudo pela capacidade de progredir em condução. A facilidade de jogar com os dois pés permite que tenha mais soluções quando flecte para o espaço central, como se viu nos 3 golos que marcou no torneio.

Morey em disputa com Sancho
[Foto: UEFA]
 

Dois ‘9’ para seguir – Depois de ter dado nas vistas no Europeu do ano passado e também na UEFA Youth League ao serviço do Barcelona, Abel Ruiz fez disparar a sua cotação com as exibições de luxo que realizou na Croácia. Não estivéssemos numa competição de sub-17 e provavelmente ninguém diria que o espanhol ainda é juvenil, tal a maturidade e a inteligência nos movimentos que exibe. O jovem que vai evoluindo em La Masia apresenta um leque de soluções assinalável – soberbo na forma como oferece apoios frontais constantes – e é claramente um projecto com potencial para vingar em Camp Nou. Só Amine Gouiri, avançado francês, conseguiu ter um peso semelhante na equipa, deixando a sua marca em todos os encontros. Não se sente tão confortável como referência, beneficiando quando tem espaço para encarar o adversário e desequilibrar no 1×1. Nesta altura é uma das principais promessas das escolas do Olympique Lyonnais e possui excelentes características (mobilidade, agressividade e qualidade técnica) para fazer um percurso interessante.  

O poder dos criativos – Pé esquerdo temível, agilidade, criatividade e facilidade de remate. A descrição encaixa na perfeição em Sergio Gómez e Phil Foden, dois jogadores que tiveram um contributo decisivo nas respectivas selecções. O espanhol, apesar de ter sido prejudicado pela estratégia conservadora de Santi Denia, que o fez desaparecer do jogo em muitos momentos, foi um dos elementos em evidência nos campeões. Descaído sobre a esquerda, ganhou influência quando apareceu no espaço central e se associou com Abel Ruiz, seu colega em Barcelona. Outro dos motivos de interesse deste torneio foi o baixinho inglês, que espalhou classe pelos relvados croatas. Foi uma ameaça constante para os adversários, mostrando muita imaginação e uma habilidade fantástica. Fazendo lembrar Patrick Roberts, criou inúmeros desequilíbrios através de diagonais em condução acelerada.

Foden tenta ultrapassar Moha [Foto: UEFA]
 

Os mais talentosos da máquina alemã – Não chegou à final, mas a selecção germânica foi indiscutivelmente uma das mais fortes da competição. Mesmo não tendo uma geração brilhante do ponto de vista individual, a turma de Christian Wück impôs-se e passou grande parte dos jogos em ataque posicional. Mas, se na fase de grupos se assistiu a um autêntico passeio dos alemães, na fase a eliminar surgiram outras dificuldades, que permitiram que se separasse aqueles que de facto têm um talento acima da média. Elias Abouchabaka, médio ofensivo esquerdino, foi um dos que suscitou mais curiosidade para o futuro. Sem ser especialmente criativo, o jogador do RB Leipzig (clube cada vez mais presente nas selecções jovens) tem uma boa visão de jogo e muito critério nas decisões. Com características bem diferentes, John Yeboah, talentoso médio/extremo do Wolfsburgo, foi o responsável por oferecer algum rasgo à máquina alemã. Um jogador difícil de travar, pela velocidade e imprevisibilidade que tem no seu futebol.

Babacan e uma interessante geração turca – Entre o lote de melhores jogadores da competição tem de estar obrigatoriamente Atalay Babacan, a figura mais entusiasmante da Turquia. O jovem talento do Galatasaray apresentou-se como um médio ofensivo de elevado requinte técnico – bola sempre colada ao pé esquerdo – e bastante criativo na procura de soluções. Quando está enquadrado com a última linha do adversário é letal e preciso no passe à procura do colega. Babacan não esteve desacompanhado no meio campo turco, contando com o bom nível de jogadores como Kerem Kesgin, muito racional, ou Hasan Adigüzel, criterioso e resistente à pressão. Estranhamente, tendo em conta a sua qualidade, Umut Günes, médio canhoto com uma facilidade incrível de romper com passes verticais, não foi das primeiras opções mas saltou do banco para deixar sensações muito positivas.

Destaques de outras selecções: Moses Kean (Itália/Juventus, avançado), Dominik Kotarski (Croácia/Dinamo Zagreb, guarda-redes), Ivan Ilic (Sérvia/Estrela Vermelha, médio), Dominik Szoboszlai (Hungria/RB Salzburgo, médio), Kris Szereto (Hungria/Stoke City, médio ofensivo), Zakaria Aboukhlal (Holanda/Willem II, avançado), Glenn Middleton (Escócia/Norwich, extremo) e Aaron Bolger (Irlanda/Shamrock Rovers, médio)

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Tomás da CunhaMarço 31, 20175min0

Haverá poucos países no mundo com uma tradição tão forte na formação de pontas-de-lança de topo como Itália. Neste século, porém, o número de goleadores nascidos na “bota” tem vindo a diminuir drasticamente. Depois do final de carreira de nomes como Pippo Inzaghi, Christian Vieri ou Luca Toni, a Squadra Azurra tem andado numa busca que parece não ter fim por um herdeiro à altura. Em parceria com a Talent Spy, olhamos para o melhor “9” italiano do momento.

Para júbilo dos transalpinos, e especialmente do seleccionador Giampiero Ventura, Andrea Belotti, avançado do Torino, reúne todas as características essenciais para ser uma referência por muitos anos. Sem entrar em comparações com nomes sonantes do passado, é seguro dizer que, pela qualidade e margem de progressão que apresenta, o jovem de 23 anos veio para ficar.

A segunda época de Belotti ao serviço do Torino – foi contratado ao Palermo em 2015 – tem sido simplesmente deslumbrante. Apesar da concorrência de Higuain, Icardi ou Dybala, vai liderando a corrida pelo prémio de Capocannoniere, que distingue o melhor marcador da Serie A. O feito do avançado do Torino, que leva 22 golos apontados, ainda se torna mais impressionante se pensarmos que actua numa equipa bem menos poderosa do que as dos seus rivais directos. Dos 54 golos marcados pelo Torino, 22 foram da autoria do ponta-de-lança, o que diz bem da sua preponderância no conjunto granata.

Fonte: Soccerway

Ainda numa fase prematura da época, quando não se imaginava que pudesse ter um rendimento tão elevado, Andrea Belotti foi chamado à Squadra Azurra e estreou-se pela equipa nacional. Giampiero Ventura trabalhou com o avançado no Torino e conhece perfeitamente as suas qualidades, dando-lhe a possibilidade de se tornar internacional AA (tem um percurso longo nas selecções jovens). Em boa hora o fez.

Ver Belotti jogar é quase uma viagem ao passado. Com uma cultura de movimentos que faz lembrar alguns dos grandes avançados italianos, o jovem de 23 anos apresenta muitas soluções no seu jogo. É especialmente forte na exploração da profundidade, sendo inúmeras vezes solicitado no espaço pelos seus companheiros. Destaca-se pelo timing com que procura a desmarcação e pela forma inteligente como normalmente ganha vantagem, fazendo uma diagonal curta e colocando o corpo à frente do adversário.

Tendo uma capacidade invulgar no jogo aéreo, Belotti é a referência quando a equipa necessita de jogar longo. Sabe utilizar o corpo para se impor, resistindo ao choque e esperando pela chegada de apoios. Além disso, é um avançado com uma postura altamente combativa, tendo, por isso mesmo, um papel importante no processo defensivo.

Não sendo um prodígio em termos técnicos, o avançado do Torino tem todas as competências que um jogador da sua posição deve ter, nomeadamente ao nível do remate. Com um sentido de baliza excepcional e muita agressividade no ataque a zonas de finalização, Belotti consegue antecipar-se e visar a baliza com espontaneidade.

O que distingue o goleador do Torino, porém, é um atributo que não é facilmente perceptível. Podemos chamar-lhe instinto: aquela capacidade de os avançados estarem no sítio certo à hora certa, como se tivessem algum poder de adivinhação. Se pensarmos que essa qualidade se vai aprimorando com o passar dos anos, imagine-se o que poderá ser Belotti daqui a uns tempos.

O “galo”, alcunha que recebeu pela forma como festeja, fazendo uma espécie de crista, pode evoluir na forma como se associa com a restante equipa, contribuindo mais activamente na fase de criação. Não sendo um avançado que se esconda do jogo, sente-se mais confortável quando procura a profundidade e ataca zonas de finalização (o modelo do Torino também acaba por propiciar esse tipo de movimentos).

Ainda jovem, o italiano terá o maior desafio da carreira quando se transferir para um emblema com outras ambições, algo que poderá acontecer já na próxima reabertura do mercado, apesar da cláusula de rescisão de 100 milhões de euros. Habituado a ter muitos metros à sua frente, Belotti terá de provar que consegue adaptar-se a outro tipo de jogo, com menos espaço e maior vigilância. Se mantiver a consistência e regularidade que tem mostrado nesta época,  será cada vez mais um “natural born killer” de referência.

BOA OPÇÃO PARA…

Chelsea FC – Numa altura em que se fala insistentemente de um possível regresso de Diego Costa ao Atlético de Madrid, a transferência de Andrea Belotti para os blues não é uma hipótese irreal. Por motivos óbvios, Conte tem uma ligação próxima com o mercado italiano e as qualidades do ponta-de-lança do Torino certamente não terão passado despercebidas. Com um estilo relativamente semelhante ao de Diego Costa, seria uma aposta interessante do clube e uma escolha inteligente do jogador.

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Tomás da CunhaMarço 12, 20175min0

Um clube que contrata um jogador como Edin Džeko espera certamente que tenha impacto imediato na equipa, sobretudo no que toca aos golos. Pela qualidade e pelo percurso que tem realizado ao longo da carreira, as expectativas sobre o bósnio são naturais e reveladoras de um estatuto importante que foi construindo. Apesar disso, o avançado da AS Roma não tem sido capaz de deixar uma primeira impressão fantástica por onde passa. Fazendo uma retrospectiva, nota-se uma tendência bastante curiosa: o ano de estreia de Džeko nunca é famoso, mas a segunda época é simplesmente extraordinária. Com paciência, os golos lá aparecem.

Em Roma não tem sido excepção. Depois de uma época aquém do esperado, que até pode ser considerada um fracasso, o bósnio disparou para uma segunda temporada de luxo, mais de acordo com as suas reais capacidades. Os números não mentem e colocam-no como um dos avançados em evidência no futebol europeu, com 29 golos em 39 jogos e um papel decisivo em várias competições. Quando está bem, torna-se uma referência ofensiva temível.

A fase auspiciosa do ex-Man City durava desde o início da época, mas o melhor momento de forma surgiu recentemente, quando conseguiu deixar a sua marca em 8 jogos consecutivos – o destaque vai para o hat-trick no El Madrigal, num jogo em que lhe saiu tudo bem. Esse período foi também o ponto alto da temporada da AS Roma, com vitórias sobre adversários de respeito (Fiorentina, Villarreal e Inter, sobretudo) e exibições bastante convincentes.

Džeko parou de marcar e os giallorossi pararam de ganhar. A quebra de rendimento do bósnio está longe de ser a única causa para o mau momento da AS Roma, mas a dependência excessiva que a equipa sente do seu ponta-de-lança tem sido prejudicial nos últimos encontros. Ofensivamente, o modelo de jogo de Spalletti está bastante condicionado pelas características do seu ‘9’, dando a ideia de ter poucas soluções e tornando-se previsível e fácil de anular.

A AS Roma tenta explorar de forma constante o poderio físico de Džeko através do jogo directo (muitas vezes a partir dos centrais), diminuindo drasticamente as probabilidades de os lances de ataque serem bem sucedidos. Por muito forte que o bósnio seja no jogo aéreo, terá sempre dificuldades para garantir a posse de bola e dar a melhor sequência à jogada. Sabendo que uma das mais valias do avançado de 30 anos é a capacidade de dar apoio frontal e soltar com um ou dois toques apenas, permitindo a progressão da equipa, explorar esse aspecto será sempre melhor solução.

O guião errado de Spalletti

Spalletti não tem tirado o melhor proveito da qualidade de Strootman [Foto: Voetbal International]
 

Chegámos à fase decisiva da temporada e todas as expectativas que a AS Roma criou foram defraudadas. Spalletti, apesar de ter estabilizado a equipa a nível de resultados, está a demonstrar-se incapaz de tirar o melhor partido de um plantel recheado de bons intérpretes. O guião que o técnico italiano passa aos seus jogadores é frágil, mas acima de tudo desadequado. Tendo médios que se relacionam muito bem com a bola, é pouco inteligente pedir-lhes que se livrem dela tão facilmente. A obsessão pela vertigem, neste caso, está longe de aproximar a equipa do sucesso continuado.

Quem mais beneficia com o jogo de correrias é Salah, que vive das mudanças de velocidade. O egípcio tem sido o jogador mais próximo de Džeko desde a mudança para o 3-4-2-1 (Nainggolan é habitualmente o médio mais adiantado), que tão bons resultados trouxe inicialmente. Desde então, a AS Roma tem privilegiado cada vez mais a largura através dos laterais Bruno Peres e Emerson, ambos muito acutilantes, em detrimento das combinações pelo corredor central, não aproveitando convenientemente os espaços que conquista entre as linhas do adversário.

Neste momento, Rüdiger e Strootman são praticamente dois “lançadores”, bem ao estilo de um quarterback de futebol americano. É um desperdício ter jogadores com tanta qualidade a desempenhar este papel, ora procurando Džeko, ora tentando encontrar Salah nas costas da defesa contrária. A equipa divide-se, ataca com menos elementos e oferece inúmeras vezes a bola ao adversário.

Aumentar o tempo e a qualidade do ataque deveria ser uma prioridade para Spalletti nesta altura. O problema está na falta de ideias do treinador romano, que já terá chegado ao limite do que pode oferecer à AS Roma. Para poder pensar em ombrear com a Juventus nos próximos anos, é necessário que existam outros estímulos e é fundamental que os jogadores estejam no seu potencial máximo. Imagine-se se esta equipa procurasse construir mais pacientemente, aproveitando a qualidade dos seus médios, e se passasse mais tempo em organização ofensiva, jogando com maior critério. Daria certamente um salto que, assim, dificilmente irá dar.

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Tomás da CunhaDezembro 5, 20166min0

Quando se fala na formação de jogadores, há clubes que não podem ser esquecidos. O Dínamo Zagreb é um desses nomes incontornáveis, tendo sido considerado recentemente o terceiro maior produtor de talentos a nível europeu, apenas atrás de Ajax e Partizan. Nas ‘top 5’ do Velho Continente há 55 jogadores fabricados no gigante croata; um deles chama-se Alen Halilovic, “novo Messi” que ainda não cumpriu o que prometeu.

É no mínimo estranho perceber que o menino a quem todos auguravam um futuro brilhante está, neste momento, à procura de uma carreira de sucesso num clube que luta pela manutenção. Aquele craque com um pé esquerdo do outro mundo, que colava a bola no pé e ia ziguezagueando por entre adversários com uma facilidade arrebatadora, encarando os grandes como se não lhes devesse nada, porque o talento não se mede aos palmos.

O menino cresceu e “já” tem 20 anos. Para trás deixou uma passagem infeliz por Barcelona, onde nunca conseguiu lidar com o peso das expectativas. Chegou como futura estrela mundial e saiu sem glória, à procura de um lugar que o traga de novo à ribalta. Foi uma aposta sem retorno para os catalães, que em 2014 se anteciparam a meio mundo na transferência do “Messi da Croácia”, contratando-o por valores bastante razoáveis no panorama actual – em final de contrato com o Dinamo, custou apenas 2,2 milhões de euros.

Não foi, porém, por falta de talento que Halilovic não se afirmou em Camp Nou. Detentor de inúmeros recordes no campeonato croata – o mais novo de sempre a jogar e a marcar – e internacional pelo país desde os 17 anos (estreou-se frente a Portugal), cedo ganhou cotação pela sua qualidade prematura. Ainda assim, numa fase inicial percebia-se que a fama não lhe tinha subido à cabeça. “Admiro o Leo, mas estou muito longe da sua qualidade. Por agora, o meu objectivo é jogar bem e mostrar ao treinador [Ante Čačić] que pode contar comigo”, disse em 2012.

O problema veio depois. Não querendo renovar com o Dinamo, Halilovic terá dado o primeiro passo em falso. De malas feitas para Barcelona, o miúdo deixou o conforto de casa e das caras conhecidas para abraçar um novo desafio. Na teoria, a escolha até parecia oferecer boas probabilidades de sucesso, tendo em conta o passado recente dos blaugrana com jovens promissores. Contudo, Halilovic estagnou no conjunto secundário, perdendo todas as perspectivas de chegar à equipa principal.

O empréstimo ao Sporting Gijón foi bastante produtivo para o croata, que realizou uma época de bom nível. Já sem crédito em Barcelona, acabou por ser vendido ao Hamburgo, onde tem sido – estranhamente – pouco utilizado. Aos 20 anos, Halilovic talvez não seja o adolescente ingénuo e apressado que se deixou iludir, mas ainda sofre com o rumo que deu à sua carreira.

Ante Coric: a maturidade aliada ao talento

Ante Coric é um dos rostos da nova geração croata Foto: Clive Brunskill/Getty Images
Ante Coric é um dos rostos da nova geração croata
Foto: Clive Brunskill/Getty Images

A nova fornada do Dinamo tem, para não variar, um potencial muito elevado. Depois da saída de Marko Pjaca para a Juventus, Ante Coric é a principal esperança do clube, não só pelo que oferece em termos desportivos mas também pela mais valia financeira que pode vir a representar. As comparações com craques anteriores, como Modric ou Halilovic, são inevitáveis, mas o jovem médio, além de um talento enorme, parece ter a cabeça no lugar.

Coric tem muito em comum com o compatriota que se perdeu em Barcelona. A fisionomia de ambos pode ajudar a explicar a forma como se desenvolveram enquanto jogadores. Mais baixos e mais fracos do que quase todos os outros, desde sempre tiveram de inventar soluções criativas para fugir ao confronto físico. Tornaram-se médios ofensivos muito imaginativos, rápidos a pensar e a executar, criando desequilíbrios com tremenda facilidade.

Tal como Halilovic, o “wonderkid” Coric entrou rapidamente na órbita dos colossos do futebol europeu. Numa fase em que os clubes identificam cada vez mais cedo as possíveis estrelas do futuro, a capacidade de antecipação é um atributo negocial indispensável. Mas o jovem de 19 anos não foi no engodo, dando uma prova de maturidade que pode ser decisiva no seu crescimento. Aparentemente, terá recusado propostas do Real Madrid e do Chelsea em Janeiro deste ano, preferindo continuar a evoluir no Dinamo.

Em Zagreb, o médio internacional pela Croácia tem garantias de que o seu talento não será desperdiçado. O início da época não foi famoso para Coric, mas a chegada do treinador Ivaylo Petev devolveu-lhe a confiança e a motivação para mostrar o melhor do seu futebol. Agarrou, finalmente, um lugar cativo na equipa titular, e tem sido um dos principais responsáveis pela recente subida de forma do Dinamo. Além de toda a velocidade que empresta ao ataque dos campeões croatas, seja através de um passe mortífero ou da condução acelerada, marcou golos importantes frente ao Inter Zapresic e ao Osijek. Com liberdade total no terreno de jogo, é difícil travar Coric.

O interesse dos grandes clubes não terá certamente esmorecido, sendo expectável que surjam novos “ataques” no final desta temporada. Os exemplos do passado devem servir para que o talentoso croata não tome decisões precipitadas, que possam comprometer o crescimento natural de um jogador com imensa margem de progressão. Não estando pronto para um Barcelona ou Real Madrid, o mais indicado seria fazer a transição para um clube de uma liga competitiva, mas sem ter a pressão de corresponder no imediato à aposta efectuada. A gestão de expectativas anda de mãos dadas com a gestão de carreira, e Coric parece ser, por enquanto, um melhor gestor do que Halilovic.

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Tomás da CunhaNovembro 27, 20164min0

Foram precisos 22 anos para que o Palmeiras pudesse saborear de novo a conquista do Brasileirão. O Verdão não foi o campeão do bom futebol, nem sequer uma equipa que se destacou pela qualidade da organização, mas tem o mérito de ter mantido a regularidade ao longo do campeonato.

Cuca preparou o conjunto para o título. No imediato, para quebrar o jejum de uma vez por todas. Se há coisa que não se pode dizer é que o Palmeiras não é uma equipa trabalhada. Foi sempre um conjunto pragmático, que não facilitou em encontros acessíveis e que esteve sempre à altura dos desafios mais exigentes.

Alternando entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1, os novos campeões do Brasil nunca apresentaram um futebol muito envolvente, preferindo ter alguma segurança. O modelo de Cuca privilegia o jogo exterior, daí que os laterais Jean e Zé Roberto (por vezes Egídio), ambos muito experientes, tenham sido fundamentais ao longo da temporada. Os médios ficam responsáveis pelos equilíbrios, sobretudo quando o marcador é favorável.

Não se pense, contudo, que o emblema paulista não apresentou qualidade ofensiva. Apesar de a construção a partir de trás ser pouco arrojada, com inúmeras bolas bombeadas na frente sem critério, a forma como os três jogadores da frente se associavam com Moisés, habitualmente o médio mais ofensivo, originou momentos de bom nível.

A defender, o Palmeiras não fugiu ao paradigma do futebol brasileiro. As referências individuais deixam muito espaço entre sectores e também na mesma linha, provocando desequilíbrios frequentes. Contudo, a turma de Cuca conseguia ganhar grande parte dos duelos durante o jogo, com os centrais Vítor Hugo (a quem a bola atrapalha) e Mina a fazerem valer a sua dimensão física.

Gabriel e outras figuras do título

Gabriel Jesus foi a figura maior do Palmeiras Foto: Pedro Martins/Mowa Press
Gabriel Jesus foi a figura maior do Palmeiras
Foto: Pedro Martins/Mowa Press

No último terço, a qualidade individual dos jogadores fez a diferença em muitos encontros. Gabriel Jesus apareceu nos momentos decisivos e tem o perfil dos bons velhos avançados brasileiros. É um “rato” de área, com um poder de desmarcação assinalável e muita agressividade na finalização. Sente-se mais confortável com espaço, partindo das alas, mas conseguiu ser uma referência à altura. Crescerá no jogo sem bola e vai adquirir naturalmente a frieza que lhe falta em algumas situações de exigência.

O jovem foi a figura do campeonato, e o que fez pelo Palmeiras mostra o amor que tem pelo clube. Fez questão de ficar até ao final da temporada, apesar de já ter assinado pelo Man City, obrigando-se a sacrifícios enormes para poder contribuir na caminhada. Jogou em Lima, no Peru, e menos de 48 horas depois foi titular pelo Verdão no terreno do Atlético Mineiro. As lágrimas de emoção quando marcou o golo da sua equipa têm um significado forte e provam que Gabriel não esquece as origens.

Os parceiros do ataque são duas revelações, embora com estatutos diferentes. Roger Guedes fez, aos 20 anos, a primeira temporada neste nível, cativando a atenção de vários olheiros europeus. Não parece ter potencial para ser um jogador de topo, mas teve a sua importância no título. Curiosamente, possui algumas características em comum com o português Gonçalo Guedes, sendo também ele muito vertical. Peca por ter um perfil de decisão algo imaturo, mas no corredor central, como segundo avançado, poderia ganhar outra dimensão no seu jogo.

Dudu, apesar da qualidade, sempre foi um extremo algo inconsequente e irresponsável. Cuca foi inteligente, deu-lhe a braçadeira de capitão e elevou-o a outro patamar. Mais focado no jogo, foi uma referência para a equipa e um dos desequilibradores de serviço do Palmeiras. Falando em referências, não se pode ignorar o papel de Moisés, o patrão do meio campo, ligando sectores e emprestando critério na posse. Foi decisivo na recta final da temporada.

O outro caso de sucesso é Tchê Tchê, que foi contratado ao Audax São Paulo após o campeonato paulista. Não sendo muito criativo, é um jogador bastante disponível fisicamente e que pode desempenhar várias posições em campo (foi lateral-direito e médio). Mesclando experiência e juventude, o Palmeiras conseguiu superar a concorrência de Santos, Flamengo e Atlético Mineiro. É campeão.

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Tomás da CunhaNovembro 17, 20163min0

Os media alemães noticiaram uma suposta oferta do Borussia Dortmund para adquirir Mahmoud Dahoud ao Borussia M’Gladbach na reabertura do mercado. Aparentemente, o BVB pretende contratar o alemão de origem síria por 15 milhões e a cedência de Sahin. Não existe, por enquanto, qualquer certeza de que o negócio se irá concretizar, mas Tuchel ficaria com um brilho no olhar caso pudesse contar com o talentoso médio de 20 anos.

Esta alegada movimentação do Dortmund demonstra que o clube não está satisfeito com as opções que tem para o meio campo. Percebe-se agora, com quase um terço do campeonato alemão disputado, que as dúvidas iniciais sobre se Gonzalo Castro e Sebastian Rode seriam suficientes para atacar a temporada eram justificadas.

Sabia-se de antemão que nem um nem outro teriam capacidade para fazer esquecer Gundögan, mas os dirigentes do Dortmund pensaram que dariam conta do recado. Enganaram-se rotundamente. Rode, que foi bastante utilizado numa fase prematura, somou exibições apagadas e foi perdendo espaço na equipa. Um autêntico peixe fora de água, revelando lentidão de processos e demonstrando que tem um nível técnico bastante abaixo da média do plantel.

Castro é um jogador de outro calibre, com mais recursos e uma capacidade superior de jogar em espaços curtos e sob pressão. Não fossem as lesões e teria conquistado facilmente a preferência de Tuchel. Assim, o técnico alemão foi obrigado a inventar soluções. Deixou Weigl como único médio responsável pela construção, abdicando do duplo pivot, e acrescentou profundidade à equipa com quatro jogadores atrás de Aubameyang.

Certo é que a mudança acabou por ter um impacto positivo no jogo do Dortmund. Weigl, que até então vinha sendo estrangulado pela pressão dos adversários, passou a ter mais liberdade, conseguindo receber mais vezes enquadrado com a baliza. O posicionamento dos quatro jogadores à sua frente (dois extremos em largura máxima e dois interiores procurando receber dentro do bloco) forçava o oponente a baixar as linhas, tal como fez o Sporting em Alvalade. Entre condicionar Weigl ou tentar reduzir o espaço entre a linha defensiva e os médios, os leões escolheram a segunda opção.

Weigl ganhou mais liberdade com a mudança de Tuchel (Foto: Borussia Dortmund Brasil)
Weigl ganhou mais liberdade com a mudança de Tuchel
(Foto: Borussia Dortmund Brasil)

Antes disto, Tuchel já tinha testado outras alternativas, como o recuo de um dos médios para a linha dos centrais. Vimo-lo em Leipzig, por exemplo, com Rode a baixar para o lado direito de modo a ser mais participativo na fase de construção. Não resultou, e o Dortmund, sem conseguir progredir pelo corredor central, limitou-se ao jogo exterior.

A adaptação de Raphaël Guerreiro ao meio campo também poderá ser explicada pela falta de um médio competente em todos os momentos. Utilizado várias vezes como interior, o português, além da qualidade de decisão que apresenta, oferece uma agressividade defensiva que Götze ou Kagawa não conseguem dar, permitindo que a equipa recupere a bola imediatamente após a perda.

Apesar de todos os testes feitos por Tuchel, a chegada de mais um médio afigura-se indispensável na reabertura do mercado. Dahoud, que não tem tido tanto protagonismo nesta temporada, é um jogador de fino recorte técnico, inteligente na procura dos espaços e com uma capacidade de resistência à pressão que nem Castro nem Rode possuem. Talvez seja a peça que falta para que o Dortmund afaste as exibições cinzentas e possa voltar à espectacularidade de outros tempos.


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