17 Jan, 2018

Romário Ivo, Author at Fair Play

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Romário IvoAgosto 29, 20179min0

Com o aproximar das fases finais da China League Two (Terceira Divisão Chinesa), o Fair Play foi atrás do experiente centro-campista Chen Tao, um dos jogadores mais emblemáticos da história do futebol chinês. Hoje com 32 anos, falou sobre as Olimpíadas de Pequim, a mágoa de não ter actuado no futebol europeu, sobre a sonhada ascensão do Sichuan Longfor de Manuel Cajuda e o seu renascimento na divisão mais periférica do futebol mundial. Confira abaixo a entrevista exclusiva.

Chen Tao, esteve um período longo nas principais ligas do futebol chinês, antes de assinar com o Sichuan Longfor em 2016. Mesmo sabendo que o clube disputava o terceiro escalão nacional, o que o fez acreditar nesse projeto?

Tenho grande confiança no clube, no presidente. Ele deu-me muita força, incluindo o planeamento do futuro.

Com compromisso, acredito que há perspetivas de futuro para o Sichuan Longfor.

Apesar de termos tido algumas oscilações nesta época, estamos sempre a avançar, mais da metade do campeonato já se passou e estamos a jogar bem. Acredito que teremos sucesso esta época.

Chen Tao esteve com Mourinho, mas foram outros portugueses, Vítor Pontes e Cajuda quem lhe despertaram novamente o prazer e classe de atuar. [Fonte: weibo.com]
Antes de assinar pelo Sichuan Longfor, teve um longo período de inatividade. Naquele momento chegou a pensar em retirar-se?

Não pensei isso, deixar de jogar seria uma brincadeira na idade que tenho (risos). Eu tenho uma disputa contratual com o meu ex-clube e na China é assim.

Quando existe um comportamento pseudo-profissional de muitos clubes profissionais, disputas são normais.

A última década foi muito desgastante para a seleção chinesa, mas individualmente sobressaiu e destacou-se por longas temporadas, tendo sido inclusive o melhor jogador jovem do campeonato de 2004. O que correu mal na sua carreira e acha que poderia ter sido o maior jogador chinês de todos os tempos?

No meu caminho profissional, existiram várias questões, incluindo questões subjetivas, políticas, objetivos e sistemas que vão afetam a nossa carreira.

Este ano, por exemplo, com a execução da política de jogadores Sub-23 bem como no ano que vem, o que é impensável em outros países. Este é o ambiente do futebol chinês.

Como tem sido o apoio dos adeptos no dia a dia e nos jogos do Sichuan Longfor em casa?

Ótimo. Estão com muito entusiasmo, especialmente nos nossos jogos. Ganhamos mais e mais adeptos da equipe nesta época.

Muitos adeptos vêm de longe, viajam algumas horas de carro para ver o nosso jogo.

São fanáticos. Alguns adeptos também viajam quando o nosso jogo é fora de casa.

Na equipe do Sichuan Longfor, foi comandado somente por treinadores portugueses. Qual a importância do trabalho de Manuel Cajuda e Vitor Pontes, na sua opinião, até o momento? 

Sim, é difícil fazer comparações. Eu e o Vítor perdemos contacto, mas ficamos muito tempo juntos nos períodos de treino no campo. Trabalhamos até metade do campeonato.

Foi uma pena, a nossa equipe quase conseguiu chegar ao objetivo. Esta temporada trabalho com o mister Cajuda, desde o início da época, treino de inverno em Shenzhen.

Fizemos uma comunicação suficiente, ele é um treinador experiente e muito inteligente. Espero que possa usar a experiência para liderar a equipe até a subida de divisão.

Existe alguma diferença no método de trabalho dos portugueses em relação aos treinadores chineses? 

Os treinadores de ambos países, sobre a mesma questão, podem chegar em conclusões diferentes.

Sem dúvida que o futebol chinês é muito atrasado mesmo, muitos jogadores tem medo em questões dentro de uma partida, algumas muitos simples, eles não conseguem encontrar a solução, para tomar a decisão certa durante jogo.

Os treinadores europeus não entendem porque os jogadores profissionais da China têm tantas questões fundamentais, isto é a realidade que enfrentam. Mas os treinadores compreendem melhor a fraqueza dos jogadores e comunicam melhor com eles.

[Fonte: Arquivo Pessoal]
Como são a estrutura e centro de treinos do Sichuan Longfor e essa estrutura compara-se com as dos clubes da China League One e Superliga Chinesa?

Para mim é mais ou menos bom, pois não há mais campos, somente dois. Tinham algumas questões de mau tempo.

Comparando com os clubes da China, especialmente os grandes, estes têm mais quantidade, qualidade e melhor manutenção.

Outros clubes normais da 1ª divisão não têm condições tão boas. Para a 3ª divisão, a nossa estrutura e campo são excelentes.

A que patamar no futebol chinês acha que o Sichuan Longfor pode chegar no futuro?

Enquanto os investidores se mantiverem estáveis, o Sichuan Longfor poderá chegar à China League One ou até à Superliga Chinesa.

Na China League Two 2017 tem-se a presença elevada de grandes jogadores da década passada do futebol chinês, como Shen Longyuan, Ji Mingyi, Zhou Jie, Sun Jhi. Para si, qual a importância da presença de cada um deles na competição?

Como na Terceira Divisão Chinesa não se pode introduzir jogadores estrangeiros, os jogadores mais velhos podem trazer mais experiência.

Os jovens jogadores da China League Two têm um pouco da capacidade limitada, quando enfrentam dificuldades no jogo precisam da ajuda dos jogadores de maior experiência.

Chen Tao em partida pela terceira divisão chinesa, na competição o Sichuan Longfor soma 41 pontos em 19 rodadas e já está classificado para os quartos de final. [Fonte: Arquivo Pessoal]
É iminente que o Sichuan Longfor brigará por uma vaga nas quartas de final da competição, pelo desempenho até aqui. Visto isso, quais equipes que vocês consideram também como favoritas ao acesso a China League One?

Esta temporada há muitas equipes da Liga Sul que são fortes. As primeiras classificadas tem hipótese de subir de divisão.

Acho que Shenzhen Ledman, Meixian Techand, Nantong Zhiyun e Suzhou Dongwu.

Como você se tornou o capitão mais jovem de uma equipe, dentro do solo chinês na década passada? Qual a melhor temporada e qual a melhor equipe que você jogou?

Por coincidência naquele momento o futebol da China estava no vale mais baixo da história, muitos jogadores velhos se aposentaram e tive a oportunidade.

Para mim o Shanghai Shenhua (hoje com Tevez) é o melhor clube, onde encontrei a melhor condição estrutura.

A melhor época individual acho que foi na equipe do Tianjin Teda, naquele momento o treinador e meus colegas de equipes estávamos muitos entrosados, jogamos Champions Asiática e todos eram amigáveis e muito felizes juntos.

A que se deve o seu bom desempenho em 2017, com gols, diversas assistências e como você avalia seu período na seleção chinesa?

Dedicação, estou a tentar fazer o meu melhor possível, espero ajudar o Sichuan Longfor a subir de divisão nesta temporada.

Na seleção chinesa sempre joguei com grandes treinadores, são bons treinadores e bons jogadores. Aprendi muitos com eles.

Chen Tao na Copa do Mundo FIFA Sub-20 de 2005 [Fonte: weibo.com]
Para si, como tem sido o trabalho de Marcelo Lippi na seleção chinesa?

Marcelo Lippi é um treinador de renome internacional. Veio para a seleção chinesa para trazer o seu grande trabalho.

Tem táticas e capacidades avançadas e, para além disso, trouxe a confiança que os jogadores chineses não têm e que há um longo tempo não se via.

Gan Yingbo é um ídolo em Sichuan (se não o maior jogador da história dessa região). Pensa em escrever ou fazer, pelo menos, parte dessa história como ele fez em Sichuan? 

Sempre brincamos que o Gan Yingbo, nosso capitão, é o fóssil vivo da cidade e do futebol de Sichuan (risos).

Não sei, mas quero trabalhar junto com ele, com o objetivo de ajudar a nossa equipe a subir de divisão.

Gan Yingbo foi um dos motivos para aceitar esse desafio no Sichuan Longfor?

Sim, temos uma grande amizade dentro e fora de campo. Ele foi uma grande ajuda na decisão da vinda e na adaptação ao clube.

Foi assim que pude e posso integrar melhor na equipe.

Chen Tao num curto período de testes no Anderlecht. Por lá agradou, mas não assinou contrato, devido a algumas decisões do Shenyang Ginde, seu clube na época. [Fonte: Arquivo Pessoal]
Sonha um dia poder voltar à seleção? O sonho de todos os jogadores asiático é um dia chegar à Europa, tendo chegado a fazer testes na Bélgica, e teve outras propostas, mas o que aconteceu para não ter realizado esse sonho?

Sim, mas é muito difícil hoje voltar à seleção nacional, porque hoje estou na Terceira Divisão Chinesa.

Houve algum interesse de clubes europeus, muitos apresentaram propostas, mas infelizmente o clube não me deixou sair. Foi muito triste porque perdi, naquele momento, a grande oportunidade de jogar na Europa.

Como foram os Jogos Olímpicos de 2008 para si e o confronto com a seleção brasileira naquela época?

Eu só participei nos nossos dois primeiros jogos, infelizmenteestava lesionado no jogo contra o Brasil.

Vi o jogo da bancada e a diferença entre os dois lados era muito grande, não estávamos no mesmo nível do Brasil.

Poderá a China, se converter numa potência do futebol mundial? [Fonte: sportt.com.br]
Quais são os seus planos para o futuro no futebol?

Nos próximos anos vou continuar a minha carreira.

Mas tenho um plano de retirada temporária, pois não vou sair do círculo do futebol no futuro.

Tem alguma mensagem final para os leitores do nosso site e adeptos do Sichuan Longfor?

Muito obrigado pelo apoio e a vocês por esta conversa. Um abraço.

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Romário IvoJulho 7, 201716min0

É quase impensável ou poderia ser fictício, dizer que um dia um treinador português faria história na Terra do Gelo. Falamos de Diogo Nobre que deixou os relvados cedo, só que com persistência e estudos, formou-se e iniciou a sua carreira de treinador com 19 anos no Almada Atlético Clube. Diogo Nobre viajou cerca de 4.000 km de sua cidade natal, e há 6 anos que comanda o Peimari United da Finlândia, hoje em busca do 5° acesso consecutivo. Confira abaixo entrevista exclusiva do Fair Play com Diogo Nobre.


Perfil

Nome: Diogo André Folgado Vaz e Monteiro Nobre
Idade: 30 anos                                                                                                                                   Naturalidade: Corroios – Portugal
Currículo: Almada Atlético Clube, Clube Desportivo dos Olivais e Moscavide, Clube Desportivo da Cova da Piedade, Fabril Barreiro, Peimari United (2012- até o presente)


fp. Como surgiu a oportunidade para trabalhar no futebol finlandês?

DN. O meu presidente fez um estágio com os jogadores em Portugal, ainda eles eram juvenis e juniores. Visitou a academia de Benfica e Sporting, e gostou tanto dos métodos portugueses que quis contratar imediatamente um treinador português. O meu amigo e ex-colega André Lourenço recomendou o meu nome pois eu enquadrava-me no que o presidente queria (jovem treinador ambicioso que falasse bem inglês e já tivesse experiência no escalão sénior).

Diogo Nobre (Foto: Peimari United)

fpO que motivou a aceitar o convite, mesmo sabendo das dificuldades que teria?

DN. Na altura Portugal estava a atravessar uma grave crise financeira, e embora não me pudesse queixar tanto, sempre pensei que não tinha futuro em Portugal e estava à espera duma oportunidade para sair. Para além disso já há muito sabia que queria iniciar a minha carreira como treinador principal no escalão sénior e aqui estava a oportunidade. Infelizmente também surgiu um problema pessoal naquela altura, e portanto foram vários factores que juntos empurraram-me para um novo desafio, e quando o telefone tocou, aceitei a proposta em 1 minuto.

fp. Qual foi a sua primeira impressão na chegada e quais foram os maiores desafios naquele início?

DN. Assim que cheguei percebi logo que o clube era uma total anarquia de vários grupos de pessoas que não tinham qualquer ligação entre eles, e vestiam a mesma t-shirt ao fim de semana, e representavam o mesmo emblema, mas não havia qualquer noção de clube, plano de formação, cultura etc. Depois os maiores desafios para mudar isso tudo foram a falta de paixão e compromisso com o futebol que os finlandeses não têm, para além disso, as relações humanas, que foram muito difíceis de estabelecer no inicio porque é um povo muito fechado que não mostra emoções e fala muito pouco, com dificuldade para exprimir os sentimentos.

fp. Como foi o início da sua carreira no futebol?

DN. Eu comecei como jogador no CDR Vale Milhaços já como adolescente porque alguns amigos meus que jogavam comigo a bola na rua e na escola, me convenceram a ir com eles aos treinos de captação do clube. Na altura era fácil para um jovem, adaptar-se ao futebol, porque todos jogamos a bola na rua desde os 3-4 anos, portanto mesmo só começando tarde aos 14, logo no primeiro treino, o treinador pediu-me os dados e mandou-me logo assinar. Depois de alguns anos no VM, tive uma pequena experiência no Estrela de Amadora que não correu bem devido à instabilidade que o clube sofria na altura, e na última época júnior acabei no Clube Oriental de Lisboa. Ainda fiz a pré época de 2005-06 no Seixal, que também acabou esse ano com a equipa sénior, por isso decidi desistir da ideia de jogador e iniciei imediatamente na mesma época a carreira de treinador, no Clube Atlético de Almada, como adjunto dos juvenis.

Diogo Nobre (Foto: Peimari United)

fp. Como foi a adaptação e como é a vida hoje na Finlândia?

DN. A adaptação foi muito difícil. Muito frio e escuridão no Inverno, pessoas que não falam, amizades difíceis, muita desconfiança do único estrangeiro na aldeia, etc. Mas hoje em dia pelo menos as pessoas respeitam muito o nosso trabalho, e tentam ser prestáveis. A comida também não é má, e como já conheço bem o sul da Finlândia, dá para dar uns passeios e desanuviar de vez em quando. Mas continuo a não aceitar bem algumas coisas da cultura Finlandesa, e não me parece que vá algum dia adaptar-me totalmente.

fp. Além de você existe outros integrantes estrangeiros em sua comissão técnica e na equipe, e a qual ponto é importante a presença deles?

DN. Sim temos 3 jogadores portugueses (JU, Adimar e Gerson) que vieram para trazer qualidade e dar o exemplo, e tenho 2 treinadores adjuntos (Hugo Henriques e André Miranda) e um estagiário (Tiago Santos) de Portugal também. Para além de serem adjuntos, cada um deles tem á sua guarda uma equipa de cada escalão de formação, e seguem o projecto do clube, trazendo qualidade não só aos seniores mas também as camadas jovens. O Hugo por exemplo acabou de se sagrar campeão regional com os iniciados.

Diogo Nobre (Foto: Peimari United)

fp. Como é a sua rotina de trabalho no clube?

DN. Não tenho um verdadeiro horário estabelecido. O patrão confia totalmente em mim para resolver todos os problemas, e estou o dia todo a resolver os problemas do clube e dos jogadores/treinos. Normalmente de manhã, damos treinos individuais aos portugueses e a quem quiser mais, ou fazemos programas de ginásio. Fazemos também programação os ciclos semanais, análises de adversários para estabelecer estratégia, e para alem disso envolvo-me com patrocínios, acordos, cooperações de todo o tipo. Nas tardes/noites treino a tempo inteiro seniores e Juniores.

fp. Qual foi o acesso mais difícil com o Peimari? E como é apoio da cidade nos jogos na equipe?

DN. Penso que foi em 2015, quando subimos da 4ª para a 3ª divisão. Tivemos em certa altura a meio da época a 7 pontos de distância do primeiro, e eles com 1 jogo a menos! O capitão e toda a geração de 95 estava na altura obrigado a ir ao serviço militar, e foi um ano muito complicado, em que tivemos de renovar a equipa e não correu bem. Seja como for, o capitão e outros colegas acabaram o exército ainda a tempo de fazer uma recuperação magistral, acabando 5 pontos a frente dessa equipa que liderava a meio.
O apoio da comunidade começou a ser mais forte o ano passado quando se começou a acreditar que podíamos fazer história e ganhar também a 3ª divisão. Esse apoio cresceu até hoje, e o número de pessoas no estádio elevou-se de uma média de 50 fans, para uma média de 350 por jogo este ano! Esperamos agora com o estádio novo, aumentar ainda mais no futuro.

fp. Porque a sua filosofia tem dado certo com o Peimari United ao longo desses anos?

DN. Provavelmente porque a filosofia foi bem definida no início e passada a todas as equipas da formação de igual modo por todos os treinadores portugueses que trouxe, mas principalmente porque houve uma constante evolução dessa mesma filosofia. Por exemplo: o Peimari United jogou diferente todos os anos que fomos campeões (4 anos) com 2 modelos de jogo totalmente diferentes, e com as suas respectivas evoluções que nunca pararam. Junto com uma grande dedicação e horas perdidas em scouting, quando fomos campeão da 4ª divisão por exemplo, já sabíamos como íamos jogar na 3ª (totalmente diferente) e que jogadores precisávamos para melhorar a equipa. Mais do que uma filosofia foi o evoluir e adaptar essa filosofia a cada patamar para continuarmos a ter sucesso, Isto falando do aspecto táctico.
Sobre os valores do clube, esses nunca mudaram ou adaptaram. Somos super exigentes no que respeita a regras e compromisso com o clube, os pequeninos começam logo a fazer o grito que é transversal a todo o clube e que traduzido em português seria “perseverança, atitude, equipa – Peimari”. Depois é a ligação a comunidade que temos. Passamos sempre a mensagem no balneário, que estamos a conseguir meter as nossas pequenas vilas no mapa da Finlândia, e todos sabem que se tornaram nas estrelas locais, e que devem respeitar e honrar Sauvo e Paimio, e isso tem um efeito muito grande nos jogos em casa. Por exemplo no campo de Paimio nunca perdemos um jogo em nenhum campeonato em 5 anos.

Jogadores comemoram vitória. (Foto: Peimari United)

fp. Qual é o objectivo da equipe na Kakkonen?

DN. O objectivo da direcção é assegurar a manutenção, porque é o mais “realista” tendo em conta que temos quase o mesmo plantel do ano passado. Mas eu como “optimista” que sou, apontei para o top-5, vai ser muito difícil, mas sonhar é de graça e na minha óptica devemos sempre apontar sempre o mais alto possível.

fp. O que tem acontecido de errado, para o mau momento e desempenho da equipe até aqui na competição?

DN. Começámos bem a época, mas tal como disse, o objectivo realista é a manutenção, portanto não concordo que estejamos mal classificados, estamos acima da linha de água é o que importa. No entanto, obviamente que gostava de ganhar mais jogos, mas a falta de experiência nesta divisão paga-se caro, e temos perdido alguns pela margem mínima. Em certos momentos nota-se claramente que somos a equipa mais jovem e inexperiente da liga (alguns adversários também são jovens, mas têm experiência de 2ª divisão e selecções jovens). Estamos esta semana a mudar o modelo de jogo, para jogar como o ano passado e tentar ser mais compactos no meio campo, seguros no processo defensivo, para além de aumentar a velocidade e agressividade da transição defensiva, que tinha bastante sucesso nas divisões abaixo, mas na 2ª este ano não tem tido.

fp. Por quanto tempo você espera permanecer na Finlândia?

DN. Neste momento estou à procura de sair para um clube maior. Se alguém da 1ª liga Finlandesa apostar em mim, espero ficar alguns anos. Senão houver propostas concretas no final da época, possivelmente sairei. Para onde não sei, mas Reino Unido talvez é uma hipótese.

Diogo Nobre (Foto: Arquivo)

fp. Na sua opinião como seria uma experiência de José Mourinho na terra do gelo?

Se o Mourinho viesse para a Finlândia, desistiria na primeira semana. Devido a falta do espirito de sacrifício dos jogadores, da cultura individualista Finlandesa, da falta de profissionalismo de todos os intervenientes do Desporto (jogadores, árbitros, dirigentes, federação), da ineficácia dos postos médicos q tratam jogadores como civis e não como atletas de alto rendimento, etc…eu diria que tanto como ele, como qualquer treinador de topo não aguentaria aqui uma semana, em que divisão fosse

fp. Quais são as situações mais inusitadas que você viveu na Finlândia?

DN. Temos mesmo muitas. Mas posso contar 3: nos iniciados há bastante tempo, um rapaz só chegou a meio de um jogo oficial, a razão foi porque a mãe já tinha marcado a hora no cabeleireiro antes de nós mudarmos o horário desse jogo, de maneira que não queria perder a vaga (porque aqui só havia um cabeleireiro na aldeia e só por marcação) … Então faltou à primeira parte, e veio a correr para a 2ª. Outra história com juvenis: antes de termos a arena indoor, treinávamos e jogávamos futsal no inverno para manter a forma. Um dia tivemos um jogo e um rapaz disse que não podia vir, porque ia caçar alces com a família, o que é uma grande tradição antiga, aqui em Sauvo em que família inteira participa junta. Nos seniores temos um jogador que é realmente a mascote da equipa… é defesa, mas como profissão gere uma quinta com gado e agricultura. Uma vez íamos treinar processo defensivo e ele ia ser titular no jogo, mas nunca mais chegava para o treino…achei muito estranho, prolonguei o aquecimento, fiz tempo, mas no fim perdi a cabeça fui buscar o telemóvel e liguei a perguntar onde estava? Ele respondeu muito ofegante que não podia vir ao treino, porque um bezerro fugiu do estábulo e desapareceu na floresta, e ele andava a correr atrás dele, porque tinha de o encontrar depressa e traze-lo antes que fizesse noite, pediu me muita desculpa, e não veio, linha defensiva arruinada.

fpPensa num retorno ao futebol português? E o maior desejo na carreira?

DN. Não, pelo menos como primeira opção. Gostava de ficar mais uns anos a treinar no estrangeiro, a conhecer novas realidades, aprender, estudar o jogo, evoluir e depois um dia mais tarde voltar para um bom clube português. Mas nunca se deve dizer completamente não, e quem sabe, se houvesse neste momento uma boa proposta de um clube de 2ª liga por exemplo, talvez valesse a pena. Para mim é até mais uma questão de projecto do que de dinheiro, se houvesse um clube que me interessasse pelo projecto desportivo, e que me assegurasse que não me despedia depois de duas derrotas, ou depois de um atrito com alguém da direcção, provavelmente voltava sim. Treinar um dia um clube na Premier League.

Diogo Nobre (Foto: Peimari United)

fp. O que a equipe precisa fazer para alcançar o quinto acesso?

DN. Precisamos de aumentar o orçamento para conseguir garantir a contratação de 2 reforços de peso, especialmente para a defesa. Depois disso precisamos de começar a pagar a todos os jogadores, para se comprometerem mais com o clube e deixar de faltar a treinos por estarem a trabalhar ou a estudar. Fora isso não é preciso mais nada, temos boas instalações e estrutura, é mesmo só um problema do foro económico.

fp. Quais são os seus planos para o futuro no futebol?

DN. Tal como disse gostaria um dia de treinar na Premier League. Mas por agora ficaria contente se conseguisse entrar numa das divisões mais baixas em Inglaterra ou mesmo na Escócia. Se ficar na Finlândia espero subir para um clube da 1ª liga, e espero ter comigo a mesma equipa técnica no futuro, porque têm sido fantásticos.

fp.Tem alguma mensagem final para os nossos leitores?

DN. Acreditem nos vossos sonhos sempre, mesmo que sejam um jovem licenciado sem contrato de emprego, e a trabalhar a recibos verdes, a acumular empregos da treta de que não gosta, mas ao mesmo tempo nunca parem de estudar, de aprender, de evoluir, mesmo que vos custe muitas horas com amigos, família, vídeo jogos, etc. Leiam, investiguem e sobretudo pensem o futebol (que é diferente de estudar futebol) e no fim, mais cedo ou mais tarde, alguém há-de reparar em vocês e irão ter a vossa oportunidade. Quando isso acontecer, e vai acontecer se tiverem perseverança suficiente, é bom que estejam preparados para ela, por isso é que disse – não parem de evoluir. A faculdade e os cursos UEFA são só os princípios básicos para a partida. Sonhem alto, não tenham medo de arriscar nunca, sejam ambiciosos com os vossos objectivos e como alguém disse sobre isso: “apontem sempre para a lua, que assim se falharem ao menos acertam nas estrelas”.

Diogo Nobre – A caminho do sucesso. (Foto: Arquivo pessoal)

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Romário IvoJunho 21, 20177min0

Você já ouviu algo sobre a terceira divisão chinesa (China League Two)? Pois então lá atuam dois dos melhores jogadores do Sichuan Longfor, equipa treinada por Manuel Cajuda e Floris Schaap – este último já entrevistado pelo Fair Play.

Qu Cheng e Chen Tao, principais jogadores do Sichuan, comemoram mais um gol. (Foto: Arquivo pessoal – Chen Tao)

Eles serão os craques da China League Two ao fim da temporada? Difícil afirmar, mas uma ‘dupla mortal’ tem sido sem nenhuma dúvida, o principal fator para a liderança da equipe chinesa do Sichuan Longfor na terceira divisão chinesa. E o treinador português Manuel Cajuda tem se orgulhado e aproveitado o máximo da qualidade ofensiva de Chen Tao e Qu Cheng, que são os grandes nomes, marcadores e também os assistentes da China League Two 2017, até as rodadas já disputadas no momento.

Foram 9 partidas até aqui, e em quase nenhuma rodada eles passaram em branco, na difícil competição para o Sichuan. O acesso da equipe nas últimas temporadas bateu na trave, nos últimos instantes, e a semi-final tem sido o “fantasma” da equipe nos últimos 3 anos. Só que neste ano, as perspectivas são grandes para o objetivo estabelecido na comissão técnica portuguesa. E o meio-campo Chen Tao e o atacante Qu Cheng vem ajudando e muito no bom desempenho e nos bons resultados na liga sul.

Apresentação e a aquisição em conjunto dois dois jogadores na última temporada. (Foto: Sichuan Longfor)

Eles chegaram em 2016 e ninguém imaginaria que os dois brilhariam em 2017, tanto que o contrato de Chen Tao, foi quase “um período de teste”, no primeiro instante. O dia 21 de junho representou por mera coincidência, a chegada do armador Chen Tao de 31 anos e do centro-avante Qu Cheng de 27 anos.

Naquele momento o meia Chen Tao sem encontrava em clube, desde a sua saída do Dalian Aerbin FC, por onde atuou entre 2013 e 2015. Após uma saída inesperada se fazia como uma aposta certeira, pois o clube não possuía um jogador com as suas qualidades e características. Para Chen Tao, foi uma virada de mesa grande e muito surpreendente, pois deixava o futebol profissional para um recomeço de carreira. Era um convite que veio do capitão do Sichuan, seu velho amigo, Gan Yingbo, e Chen decidiu aceitar para ajudar a equipe a somar muita experiência.

A situação para Qu Cheng era muito parecida, ele ainda vinha da Super Liga Chinesa. Atuava pelo Jiangsu Suning onde  não havia conseguido, desenvolver o futebol que lhe foi confiado nas poucas oportunidades que teve. Foi emprestado várias vezes, passando pelo Parma FC, pelo Persipura Jayapura e por fim o empréstimo ao Sichuan Longfor, onde se esperava muito do grandalhão de 1,88m de altura, que acabou marcando em 2016, 2 gols em 9 jogos.

A confiança ocorreu e veio em sequência a renovação. (Foto: Sichuan Longfor)

O ano de 2016 para Chen Tao não foi fácil. Não era por ser um craque que a adaptação seria instantânea. A falta de ritmo pesou em algumas ocasiões, mas aos poucos foi ganhado o seu espaço com o treinador português Vítor Pontes e ajudou a equipe a chegar às semi-final, sendo eliminada pelo Jiangxi Liansheng.

O choque de realidade foi grande para Chen Tao e a cidade de Sichuan, já que o melhor-meia atacante da década passada se transferia para um modesto clube. Chen Tao sempre foi marcado por passagens vitoriosas na seleção chinesa, sendo também o capitão mais jovem da história do futebol chinês.

O auge de Chen Tao perdurou ao longo de 2002 e 2011, seu início de carreira foi arrasador: fazia sempre grandes golos, decidia, era um exímio cobrador de falta e o mais talentoso jogador chinês da década anterior. Em 2004 foi nomeado o Young Player of the Year da Super Liga, em 2005 a conquistou a East Asian Football Championship e em 2011, o título da Copa da China com o Tianjin TEDA. Muitos não acreditavam que, aos 31 anos, com a transferência para o Sichuan, ele pudesse render aquilo que ele havia de futebol, mas a diretoria confiou e estendeu o seu contrato até 2019.

2017 tem sido o maior uma das melhores épocas de Chen Tao e Qu Cheng, tanto que Manuel Cajuda comenta assim o encontro e trabalho com o meia atacante Chen Tao na China: “Sobre Chen Tao começo por dizer que foi com surpresa e muita alegria que pude encontrar este talento no futebol chinês. É para mim um privilégio treinar um atleta com toda esta capacidade”, afirma.

É difícil prever o que deu errado na carreira de Chen Tao. Poderia ter ido mais longe? Não sabemos, mas a sua qualidade vem sendo expressada em todas as partidas: as assistências, a liderança e as cobranças de falta voltaram ao seu lugar. E Manuel Cajuda também questiona da mesma maneira, o passado de Chen: “Todos os dias me pergunto, onde teria chegado este Chen Tao se quando mais novo estivesse, por exemplo, no futebol europeu. Grande capacidade técnica, uma intuição táctica fantástica. Pena que treinadores anteriores não tenham aperfeiçoado todas as arestas nos aspectos de disciplina emocional. É um Líder dentro do campo, um Homem de carácter e um Amigo que dá gosto ter. Quanto ao seu desempenho apenas digo que estou maravilhado e se continuar assim vai durar mais 3/4 anos a um nível superior. Estou muito contente com ele”.

Um abraço que tem nome: “gol”. (Foto: Sichuan Longfor)

O incrível desempenho em 2017 tem nome

Se o Sichuan Longfor está dentro do G4 desde a primeira rodada, muito se deve ao protagonismo e o poderio ofensivo de Chen Tao e Qu Cheng. Porque os dois jogadores também em 2017 já marcaram juntos, 12 gols em 10 partidas.

E não sendo “fominhas”, eles deram espaço, é claro, para os outros gols de seus companheiros: Xiao Zhen, Ma Chongchong, Fan Baiqun, Lu Cheng e Jiang Xiaochen. Juntos são os responsáveis diretos por 63% dos 19 gols feitos pelo clube da província de Chengdu.

São 8 gols e a artilharia geral da China League Two para Qu Cheng e 4 gols para Chen Tao, que é também o líder de assistências da liga e o o 3º artilheiro geral. Esse início arrasador veio a começar no dia 9 de abril, diante do Hunan Billows, o Sichuan estreou com vitória e um gol do artilheiro e do garçom.

Qu Cheng um finalizador nato, precisa de pouco mais de 90 minutos para marcar 1 gol, e se manter a média, o primeiro título do Sichuan Longfor virá. Chen Tao com sua técnica, passes e organização, vem tendo participação direta em muitos gols do Sichuan, renascendo e mostrando que pode e tem potencial para jogar a Super Liga e, se observado por Marcello Lippi, o retorno a seleção chinesa. Mesmo sendo um jogador de 32 anos, tem uma saúde e um cuidado incrível, para não deixar de jogar nenhuma das 9 partidas da China League Two. O futuro os espera, será que eles vão se separar ao fim da temporada? Seguiram outros rumos? É o que não queremos, porque a redenção é notável e em 2018 continuarão a lutar por um propósito: o de se tornarem ídolos e escreverem a mais bela história chinesa da liga.

O projetado no ano do Sichuan Longfor é o acesso. A equipe vem cumprindo o favoritismo, e como diz Cajuda: “O mais importante não é somente começar bem e sim terminar bem”.

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Romário IvoAbril 29, 201713min0

Na China para fazer história e elevar seu clube de divisão, o holandês Floris Schaap ex-defesa central de SC Braga, Portimonense, Olhanense e hoje treinador adjunto, está ao lado do treinador português Manuel Cajuda e do preparador físico Ahmed Harzallah, na belíssima província de Sichuan com a responsabilidade de gerir o acesso da equipe mais organizada da China League Two ao primeiro escalão do futebol chinês. Floris retorna à China após duas passagens anteriores, por Qinghai Senke  FC e Tianjin Songjiang, para defender o Sichuan Longfor FC. Confira a entrevista exclusiva do Fair Play com Floris Schaap, antigo atleta holandês e polivalente que construiu quase toda a sua carreira no futebol português.


Perfil

Nome: Floris Schaap
Idade: 52 anos                                                                                                                                       Naturalidade: Katwijk – Holanda
Principais clubes como jogador, treinador e treinador adjunto: SC Olhanense, SC Braga, Portimonense SC, VV Katwijk, Sport Clube União Torreense, Lusitano FC, Sharjah FC, Tianjin Songjiang, BEC Tero Sesana, Qinghai Senke e Sichuan Longfor (2017 até o momento)


fp. Como tem sido a adaptação e como foi o recebimento dos torcedores e profissionais do clube? Como veio o convite para a sua ida novamente para a China?

FS. A adaptação foi fácil e como é a terceira vez que estamos na China, fomos muito bem recebidos aqui por todos, mesmo sabendo tudo e sendo um clube do 3° escalão da China. As condições de trabalho são incríveis, muito boas. O convite foi dirigido ao filho do Manuel Cajuda, e, como todos sabem, o Sichuan é a terceira equipe que trabalhamos na China. O clube sempre vem com bons resultados na China League Two nas últimas temporadas.

Floris Schaap em mais um dia de treino no Sichuan Longfor. (Foto: Site oficial do Sichuan)

fp. Na sua chegada ao clube, quais foram os maiores desafios em termos esportivos e estruturais?

FS. O maior desafio nesta época é subir de divisão e sem nenhuma dúvida trabalhamos todas dias para atingir esta meta. Em termos estruturais, o Mister Cajuda tenta implantar a ideia dele e, como é uma pessoa muito inteligente, também sabe que não pode mudar tudo aqui em um dia. No entanto, estamos a mudar muita coisa na organização e na estrutura do clube.

fpQual é a avaliação que você faz desses quase 5 meses de trabalho na China?

FS. A avaliação é boa. Temos uma boa equipe, tentamos melhorar todos os dias a capacidade de todos os nossos jogadores e também melhorar a organização aqui, mas ter sempre em mente a diferença das culturas. De vez em quando não é fácil, nem todos os dias podes dar passos para frente.

fpComo foi a pré-temporada do Sichuan realizada em Dubai e na China? Nesses meses de preparação vocês enfrentaram grandes adversários (exemplo o Tianjin Quanjian de Fábio Cannavaro e o Shenzen FC de Sven-Göran Eriksson). A equipe apresentou uma evolução que vocês gostariam?

FS. Sim, a nossa pré-temporada durante 3 semanas foi muito boa. O Mister implantou a partir desse momento muitas ideias dele na equipe e também com cada vez mais dias e tempo na frente do clube a evolução é notória. Fizemos 3/4 jogos de preparação no Dubai onde saímos com uma ideia muito positiva pois jogar com equipes mais fortes faz nos evoluir mais rápido.

Floris Schaap e Manuel Cajuda ao serviço do Sichuan. (Foto: Arquivo Pessoal)

fpComo tem sido o trabalho ao longo desses anos com o Manuel Cajuda?

FS. Agora tenho 52 anos. A primeira vez que trabalhei com ele foi quando eu tinha 19 anos. Era jogador, fui durante 4 ou 5 anos jogador dele e em 2009 entrei na sua equipa técnica. Trabalhei com ele em Portugal, Emirados Árabes Unidos, Tailândia e agora na China. Aprendi muito com ele e com os outros membros da equipa técnica tanto agora como no passado e mantemos uma relação muito boa. Aqui no Sichuan Longfor também trabalha o nosso preparador físico da Tunísia Ahmed Harzallah, mais dois treinadores adjuntos chineses e um treinador de guarda-redes.

fp. Qual a maior dificuldade que vocês enfrentam e enfrentaram na adaptação e na vida na China?

FS. A maior dificuldade é mesmo a língua. Mesmo com um tradutor às vezes é complicado. Mas vamos andando. Também há muita diferença entre a nossa comida europeia e a chinesa, mas tudo tem solução.

fp. O que é diferente da sua primeira passagem na China?

FS. Um exemplo: o Qinghai Senke FC, minha equipe anterior, era muito mal organizada e sem infraestruturas onde não recebíamos salário. Aqui não temos este problema e o clube tem muito a oferecer. Praticamente não nos falta nada.

Academia do Sichuan Longfor e treinamentos dos jogadores. (Foto: Site oficial do Sichuan)

fpComo é a estrutura do Sichuan Longfor?

FS. A estrutura para uma equipa de terceira divisão é muito boa, com boas infraestruturas. Evidente que as culturas são diferentes, mas também tenho ser honesto pois existem poucas equipas com estas condições de trabalho que a nossa tem, no entanto, ainda tem aprender muita coisa com a organização. Acho que esta falha tem muito a ver com a diferença entre as culturas. É difícil comparar o futebol europeu com o chinês. O nosso presidente tem muita vontade para subir de divisão com o clube e também vai com certeza mexer muito com a organização. O Mister está a trabalhar e a ajudar nessa área estrutural.

fp. Infelizmente o Sichuan Longfor foi eliminado na Copa da China logo na primeira fase, mas ainda resta a China League Two. Isso gerou uma preocupação extra e foi fundamental da recuperação da equipe?

FS. Nunca é bom perder, mas não ficamos muito preocupados com a nossa derrota na Copa da China porque mesmo nesta partida fomos a melhor equipe. Só não conseguimos fazer o golo. Sim, depois ganhamos os dois primeiros jogos no campeonato contra o Hunan Billows FC e o derby de Sichuan contra o Chengdu Qianbao FC.

Chen Tao, o craque e artilheiro do Sichuan Longfor no campeonato após as duas primeiras rodadas, celebra o gol e mais uma vitória. (Foto: Site oficial do Sichuan)

fp. Qual é o objetivo do Sichuan Longfor na temporada? E como tem sido esse início tão arrasador?

FS. O objetivo aqui, como já tinha dito, é simples: subir de divisão. O nosso começo também não é arrasador, mas é muito bom. Começar bem é sempre melhor, mas estamos com os pés bem assentes no chão. O segredo é trabalhar muito e também a experiência que o Mister Cajuda já tem no futebol chinês. Mas, como eu digo, não conta como se começa, mas sim como acaba.

fp. Mesmo o Sichuan estando na terceira divisão chinesa, você pode afirmar que o clube possui melhor organização do que alguns clubes da China League One e talvez algum da Super Liga Chinesa?

FS. Sim, também é verdade porque já tivemos em Tianjin e a organização está no mesmo nível ou até é mesmo superior.

fp. Qual é o projeto do clube para os próximos anos e por quanto tempo vocês pretendem ficar no clube? Em caso de acesso prosseguirão ou não na próxima temporada?

FS. O projecto do clube é relativamente claro: tentar em 3 anos subir ao escalão máximo do futebol chinês. Temos um ano de contrato, com mais um ano um de opção e como você sabe, no futebol isso não conta para nada. Contam os resultados e às vezes nem isso.

Integrantes da comissão técnica do Sichuan Longfor, Cajuda, Ahmed, Floris e o diretor Ma Mingyu. (Foto: Arquivo pessoal)

fp. Pouco se fala dos trabalhos das pessoas internas nos clubes e hoje, sem dúvida, o Sichuan é a maior e também a mais organizada equipe da terceira divisão chinesa. Como tem sido o trabalho e o apoio do ex-jogador chinês e hoje diretor executivo Ma Mingyu?

FS. Ma Mingyu é um grande nome do futebol chinês. Conhece muita gente e com certeza o trabalho dele é também muito importante para o clube. A sua colaboração com Mister Cajuda tem sido muito boa para o nosso trabalho.

fp. O que foi determinante para o rendimento de sua carreira como jogador?

FS. Acho que não tive muita sorte na minha carreira. Lesionei-me com gravidade no tendão de Aquiles com 27 anos e na altura que eu estava na melhor forma de sempre precisei de mais dois anos para recuperar de 3 operações.

fp. Qual foi a temporada mais marcante na sua carreira como atleta?

FS. Acho que foi o meu primeiro ano no Portimonense SC. Depois da primeira volta tínhamos somado somente 11 pontos e na segunda fomos a terceira equipe que ganhou mais pontos. Tínhamos uma belíssima equipe e ganhámos por 4-1 ao Sporting Clube de Portugal em nossa casa.

Floris Schaap rumo ao acesso. (Foto: Arquivo pessoal)

fp. Durante duas temporadas você trabalhou na elite dos Emirados Árabes Unidos, e nas divisões menores da China. Que diferença você pode ver nos dois países em questões futebolísticas?

FS. O futebol é muito mais vivido na China do que nos Emirados Árabes Unidos pois muito mais pessoas vão ver o jogo. A Super Liga Chinesa é mais forte e tem mais qualidade do que o futebol praticado no país árabe, onde os jogadores têm outra mentalidade, de trabalhar mais. E o futebol na China está chegando. Nos EAU eu acho que o campeonato é menos competitivo nesta temporada.

fp. Tem o sonho de se tornar técnico no futuro? Visto que você e o Manuel Cajuda tiveram a oportunidade de conhecer um pouco dos outros clubes da China League Two, de fato qual foi a impressão que vocês tiveram?

FS. Acho que qualquer treinador adjunto quer ser um dia o treinador principal, mas também, com toda a sinceridade, me sinto bem em estar na equipa técnica liderada pelo Manuel Cajuda. Achamos o campeonato muito equilibrado, e de conhecer algumas equipas do ano passado podemos concluir que o campeonato que disputamos aqui está mais forte este ano.

fpGostaria novamente de treinar alguma equipe portuguesa um dia?

FS. Sim. Já fui treinador do SC Olhanense, clube onde eu comecei como jogador profissionalmente, mas onde infelizmente passaram pessoas que deram cabo no clube para proveito próprio. Esse é o clube que me marca mais aí em Portugal.

fp. Tem alguma mensagem final para os nossos leitores?

FS. Para todos os leitores do site Fair Play espero que continuem a acompanhar as vossas entrevistas. Vocês estão fazendo um grande trabalho. Continuem assim. Um grande abraço.

A classe e a sabedoria, na direção do sucesso e objetivo estabelecido. (Foto: Arquivo Pessoal)

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Romário IvoMarço 4, 201714min0

No futebol moderno, a longevidade está cada vez mais a ser esquecida deixada no banco de reservas e substituída por aquilo que traz resultados de imediato. Só que, desafiando o impossível no continente asiático, um brasileiro de 37 anos, que alinha há 14 temporadas na China, contabiliza mais de 340 jogos no futebol chinês. Seu nome é Vicente De Paula Neto, um baiano arretado que já se tornou o jogador estrangeiro mais longevo dentro da história do futebol chinês. Abaixo você confere a entrevista exclusiva do Fair Play com o experiente jogador Vicente.

Perfil


Nome: Vicente de Paula Neto
Idade: 37 anos                                                                                                                                       Naturalidade: Salvador – Bahia
Principais títulos no futebol chinês: 1x Campeonato Chinês da Série B: 2004, 1x Chinese Super League Cup: 2005
Principais clubes: Caxias,  Wuhan Guanggu, Shanghai International / Inter Shanghai, Shanxi Baorong FC, Shanghai Shenhua, Wuhan Zall, Xinjiang Tianshan Leopard (2013 até o presente)


fp. Como você foi parar no futebol chinês em 2004? Porque você foi para o futebol chinês deixando o Brasil tão cedo e o que de fato te atraiu nessa decisão?

VN. Eu estava jogando no Caxias de Joinville, o campeonato catarinense de 2004, estava muito bem, sendo o artilheiro do campeonato, e com várias propostas para me transferir a algumas equipes da elite nacional. Aí despertou o interesse do Wuhan da China que fez uma oferta boa junto com meu empresário e eu resolvi junto com ele para aceitar a oferta. Não foi por causa só do dinheiro, mas também porque na época no Brasil o futebol estava vivendo um momento de dificuldades e muitos clubes não estavam arcando com seus compromissos. Isso pesou muito.

Vicente em ação pelo Wuhan FC. (Foto: Arquivo pessoal)

fpComo era o futebol chinês em 2004, os clubes adversários e o Wuhan seu primeiro clube no futebol chinês?

VN. Naquele momento, os clubes não tinham o poder de compra que têm hoje, havia poucos jogadores estrangeiros e a seleção chinesa tinha jogadores bons que eram estrelas em seus clubes. Hoje em dia, com o poder que a maioria dos clubes têm, eles podem comprar jogadores fantásticos, dos melhores times do mundo, mas os jogadores chineses precisam de acompanhar isso.

fp Em 2004 você chegou a China, você tinha o pensamento que o futebol chinês teria toda essa transformação e a evolução dos dias atuais?

VN. Não, realmente eu não imaginava isso. Eu imaginava sempre que a seleção da China iria ser uma potência na Ásia, que chegaria fácil à um Copa do Mundo, mas que os clubes chegariam a esse nível nos dias de hoje, isso realmente não passava pela minha cabeça.

fp Qual era o seu pensamento, na verdade, em 2004, permanecer por um ano ou se tornar esse jogador estrangeiro mais longevo dentro do futebol chinês?

VN. Meu pensamento era ficar dois anos e depois voltar para disputar a Serie A do Campeonato Brasileiro. Tive algumas propostas e recusei, não pela parte financeira, mas pela organização dos clubes, pois sabia que não cumpriam com o compromisso do pagamento em dias.

fp Como foi a sua adaptação ao futebol chinês no ano de 2004? Como é a vida hoje na China e como é a cidade onde você vive hoje com a sua família?

VN. Bom, a adaptação ao clube, aos jogadores e à forma de jogar foram rápidas porque tinha mais 2 brasileiros no elenco que me ajudaram muito (Da Costa e Will). Dois jogadores experientes pois o Acosta já estava no terceiro ano na China e o Will tinha jogado no Japão. Só na alimentação é que demorei a me adaptar e tive dificuldades nessa parte. Mas hoje em dia, a vida aqui na China mudou muito. Você pode ir no supermercado que encontra tudo. Antes era mais fechado e lembro que até desodorante era difícil de encontrar (risos). Hoje vivo em duas cidades (Wuhan e Urumqi) e são as duas bem diferentes. Wuhan é a minha segunda casa, a cidade que vivo por mas tempo, e Urumqi é uma cidade também muito boa, mas muito fria e por isso nosso time fica metade do tempo na primeira. Minha família sempre que pode vem me visitar. Minha mulher ama a China.

Foto: Weibo

fp. O que mudou fora do campo de futebol, da China de 2004 para 2017 na sua opinião? Pra você é necessário gastar todo esse dinheiro com atletas que atuam dentro da Europa para ajudar no desenvolvimento do futebol chinês?

VN. Na minha opinião, mudou muito. A economia chinesa, hoje, é mais aberta e tem muitos estrangeiros vivendo aqui. Isso muda muito o país. O futebol é só um pouco do que é a economia chinesa, na verdade eu acho que para os olhos do mundo que estão vendo o futebol chinês, eles têm que comprar o que tem de melhor. E é isso que eles estão fazendo. Se Messi, Neymar ou Cristiano Ronaldo não estão jogando na China foi por opção porque hoje os grandes clubes podem pagar por eles. Assim, porque não? No entanto, eu acho que não pode só pensar em comprar os melhores jogadores do mundo pois tem que fazer jogadores chineses para no futuro jogarem nos melhores clubes da Europa ou do Brasil e para fazerem uma seleção chinesa forte e competitiva.

fp. É notável a evolução dentro do futebol chinês, para quem acompanha, desde a China Amateur League (4ª divisão) até à Superliga da China, mas nem todos os clubes e a seleção estão a obter bons resultados. O que precisa ser feito para a China poder ‘dominar’ e se tornar a primeira força no continente asiático?

VN. Eu acho que ter uma divisão de base forte aqui na China é muito importante. Pensar mais nos jogadores jovens, para que possam jogar em grandes equipes da Europa e serem bem treinados desde cedo. Só assim a China poderá chegar a ser a primeira força da Ásia.

fp. O que a China de tão especial para que o Vicente continue, ano após ano, algumas vezes a mudar de casa e de clube dentro do país, mas mesmo assim sempre no futebol chinês?

VN. Eu me adaptei muito rápido ao futebol chinês e fiz muitos amigos aqui. Fui vivendo um ano de cada vez e apesar de estar jogando na China, sempre ouvi amigos meus, jogando em grandes clubes, dizendo para eu não voltar que o Brasil estava difícil. Alguns me diziam mesmo que quando perdiam um jogo, não podiam sair de casa… então tudo isso fez com que eu ficasse aqui até hoje, sem falar no tempo de férias que sempre tive: 2 meses em média. Tudo isso influenciou na minha decisão.

Vicente Neto em ação pelo Xinjiang. (Foto: chuansong.me)

fpQual foi a situação mais inusitada que você vivenciou na China?

VN. Uma vez estávamos em Beijing, em 2004, e pedimos para o tradutor escrever os endereços da praça celestial e o de volta para o hotel. Saímos do hotel, andamos uma quadra para pegar o táxi e aí o Will trocou os endereços. Mostrou para o taxista o endereço do hotel e ele estava apontando que era só a gente andar um pouco que chegava no hotel (risos). A gente sem entender, não saímos do táxi e brigamos com ele que era para ele levar a gente. Depois de muita insistência, ele nos levou de volta. Quando chegou na porta do hotel, a gente se deu conta que estava mostrando o endereço errado para o motorista. Aí pedimos desculpas (risos).

fpComo é o clube do Xinjiang Tianshan na China e como é a sua estrutura? E como tem sido a pré-temporada (que iniciou com a Copa Lunar do ano novo chinês)?

VN. O nosso time é bom, tem uma estrutura boa. Presidente, treinadores, diretores, jogadores, torcedores, todos formam uma grande família. Nossa pré-temporada foi boa esse ano pois ganhamos um torneio e ficamos em segundo em outro.

fpQual o objetivo do Xinjiang Tianshan Leopard na temporada? E quais são os projetos do clube para os próximos anos?

VN. O nosso objetivo esse ano é, a princípio, ficar bem colocado na liga. Esse é o nosso objetivo principal mas para os próximos anos eu tenho a certeza que o clube tem pretensões de subir à Super Liga e de assistir grandes jogos em nossa cidade.

fpComo você avalia sua passagem pelo Shanghai Shenhua? Pode se dizer que foi o seu auge dentro do futebol chinês?

VN. No Shanghai Shenhua eu atuei ao lado do colombiano Riascos, que jogou no Cruzeiro e no Vasco (risos), mas não posso dizer que foi meu auge, não. Posso dizer que foi o meu melhor clube que joguei aqui na China, um dos melhores do país, e foi inesquecível comemorar gols no estádio.

Foto: Asian News

fp. Qual é a diferença entre a primeira e a segunda divisão chinesa?

VN. Isso eu posso falar o seguinte: a primeira divisão tem mais qualidade, os estádios estão lotados quase todos os jogos e o futebol é mais técnico. Os times tem um elenco maior e melhor também. A segunda divisão é mais um pouco na correria, os jogos são mais truncados, porém os times são um pouco idênticos em relação à primeira, que tem 6 times que você sabe que vão brigar pelo título e pelas vagas da Liga dos Campeões asiática.

fp. Qual foi a temporada e o jogo mais especial para você dentro do futebol chinês? Quem você considera como o melhor técnico e o melhor estrangeiros com quais você trabalhou e atuou?

VN. A minha temporada inesquecível foi a de 2005 onde fomos campeões da Copa e fizemos um ano brilhante com a equipe. 2006, para mim, individualmente, foi uma temporada muito boa pois fui um dos artilheiros do campeonato e mais tarde convocado para o ‘jogo das estrelas’. Foi mais um jogo especial aqui. Me lembro como se fosse hoje. Foram vários jogadores que joguei, que formei dupla de ataque, e alguns treinadores que tenho muito respeito. Os jogadores foram Will em 2004, depois Gilson em 2005, que até hoje dizem que foi a melhor dupla de ataque que o clube já teve (risos). Depois Ronny e Sheidt em 2008, Riascos o colombiano, que foi o artilheiro também e por fim o Adiel ex-Santos em 2012. Foram muitos grandes jogadores que atuei junto. Já como treinadores tive Balzevic, José Carlos, Cheng Yao, Dong, Pei e Lee Jun, que estou com ele até hoje no Xinjiang.

fpQual a avaliação que você da sua carreira ao longo desses, você se sente realizado por tudo que fez dentro desses anos?

VN. Sim, eu me sinto realizado por tudo que fiz. Pelo meu recorde aqui na China e pelos títulos. Só uma coisa eu sinto falta esses anos aqui: nunca ter sido artilheiro de um campeonato. Se desse para voltar no tempo, eu me esforçaria mais para conseguir.

fpEstá a pensar num regresso ao Brasil, ou a estadia na China é algo que tem em mente ainda para as próximas temporadas?

VN. Estou pensando no regresso ao Brasil, sim. Penso em jogar só mais essa temporada e a princípio voltar para minha terra e para minha família. E só depois de descansar bastante vou pensar no que fazer depois de aposentado (risos).

fpQuais são os planos para o futuro na sua carreira, e seguir como treinador é um sonho?

VN. Por enquanto ainda não parei para pensar, mas a ideia de ser treinador, eu acho que essa eu não quero, apesar de já ter alguns convites nesse sentido.

fp. Você possui algum apelidos que você possui dentro do futebol chinês, e quem é o jogador chinês que você tem uma grande amizade dentro e fora de campo? Você já aprendeu o mandarim?  

VN. Aqui eu sou chamado pelo meu nome mesmo. Não tenho apelido. Me lembro que os torcedores do Shanghai Shenhua me chamavam de ‘Obama’, mas era só brincadeira (risos). Os meus melhores amigos aqui são ex-jogadores, que jogaram comigo, e que hoje são treinadores: Zheng Bin e Wang Wenhua. Tenho amizade estreita não só com eles mas com toda a família.

fpTem alguma mensagem final para os leitores do nosso site Fair Play?

VN. A mensagem que deixo é que fico muito feliz em participar na entrevista e poder contar com pormenor um pouco do futebol chinês. Para vocês, um grande abraço a todos. Vou acompanhar vocês do FairPlay.pt sempre.

Vicente, uma lenda do futebol chinês saudado ao final do jogo pela torcida ‘adversária’. (Foto: cnhubei.com)

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Romário IvoFevereiro 15, 201711min0

A segunda divisão do campeonato chinês tem evoluído consideravelmente nos últimos anos, assim como a Super Liga, e a evolução foi algo determinante para a ida de Maurício Copertino, ex-jogador que inicia a carreira como treinador, após 8 temporadas como auxiliar, para a China. Depois de em 2016 se apresentar ao serviço do Tianjin Quanjian FC juntamente com Vanderlei Luxemburgo, o técnico brasileiro assumiu o projecto do Zhejiang Yiteng FC, clube que busca o retorno à elite do futebol chinês. Leia a entrevista exclusiva do Fair Play a Maurício Copertino.

Perfil


Nome: Maurício de Almeida Copertino
Idade: 45
Nacionalidade: Brasileira
Naturalidade: Santos (São Paulo)
Histórico profissional (principais clubes):  Internacional-RS (2007), Atlético Mineiro (2008), Bahia (2009), Al Ain (2010), Seleção Brasileira Sub-20 (2013-2015), Tianjin Quanjian (2016), Zhejiang Yiteng FC (2017 até ao presente)


fpO que você espera desse seu retorno ao futebol chinês?

MC. Realizar uma grande temporada dentro e fora de campo, quero retribuir a confiança na qual o presidente Cui Yi e o clube Yiteng FC estão depositando no meu trabalho!

fpComo surgiu a oportunidade para poder desenvolver o seu trabalho na China?

MC. Em 2014 eu estava trabalhando na CBF e fomos convidados para um torneio na China chamado “Panda Cup” com a seleção Brasileira sub-20, Croácia, China e Nova Zelândia (que seria a sede da competição mundial da categoria sub-20 em 2015). Eu vim como treinador neste torneio pois o técnico Alexandre Gallo, com quem eu trabalhava nesta época, estava como auxiliar técnico do Felipão na Copa do Mundo no Brasil e me falou. Acabamos por fazer um ótimo torneio e fomos campeões. Depois desse acontecimento recebi alguns convites para vir trabalhar na China, ano passado fui procurado pelo Sr Sun Wang e Sra Janny Wang (que são meus empresários aqui na China) para eu ser auxiliar-técnico do Vanderlei Luxemburgo no Tianjin, na qual aceitei, e este ano houve um novo interesse de outro clube chinês, na qual fiquei satisfeito com a proposta e estou aqui realizando meu 1º trabalho como treinador profissional.

fpComo você avalia sua experiência no ano passado com o Tianjin Quanjian?

MC. Para mim foi uma experiência fantástica no Tianjin Quanjian, aprendi muito com o convívio com o professor Vanderlei Luxemburgo, que me passou muitas informações e ensinamentos que irei levar para o restante da minha carreira como técnico!

Mauricio Copertino ao lado de Vanderlei Luxemburgo. (Foto: mauríciocopertino.com.br)

fp: Como é a segunda divisão da China?

MC. A 2ª divisão da China é um campeonato que está se qualificando muito a cada ano com as contratações de grandes jogadores estrangeiros tornando-se muito disputado, e esse ano não será diferente, teremos bons adversários e na minha equipe tem alguns atletas que disputaram a Superliga, pois o Yiteng FC subiu no ano de 2013 para 1ª divisão e disputou por um ano a Superliga. Tenho bons jogadores chineses no meu plantel, além dos 3 estrangeiros.

fpO que você espera na sua primeira experiência como técnico?

MC. Espero conseguir colocar na prática tudo que aprendi nestes quase 30 anos no futebol, 20 anos como atleta e 8 anos que trabalhei como auxiliar-técnico dos profissionais (Nenê Belarmino, Alexandre Gallo e Vanderlei Luxemburgo), respectivamente ter passado por grandes clubes brasileiros e também ter ficado por 25 meses na CBF (base), junto com toda minha formação acadêmica de treinador que acabei de finalizar em 2016 na CBF (Licença PRO). Acho que isso me credencia para assumir o cargo que estou exercendo hoje.

fp: Como está sendo a sua adaptação ao futebol e vida na China?

MC. O clube tem me dado todo suporte necessário, estamos fazendo uma pré-temporada muito boa e todos estão ajudando muito no processo de entendimento do nosso trabalho. A adaptação tem sido tranquila, gosto muito da China e gostaria muito que o Brasil seguisse o mesmo caminho de desenvolvimento do país. Seria perfeito para nossa população!

Maurício Copertino em passagem pelo Henan Jianye em 2013. (Foto: Arquivo pessoal)

fpVocê em 2004 quando atuou pelo Henan Jianye projetava ou pelo menos pensou naquele momento que o futebol chinês teria essa evolução enorme dos dias atuais?

MC. Como jogador tive uma temporada maravilhosa na China atuando pelo Henan Jianye 03/04 na qual nos tornamos vice-campeões e tenho grandes amigos chineses desta época. Foi uma surpresa incrível para mim, não imaginava a China em todos os aspectos assim, na mudança do país para melhor em tão pouco tempo e no investimento forte e crescimento do futebol no país.

fpE outras experiência que você teve foi no mundo árabe como jogador e treinador, existe semelhança entre a China com o futebol do Oriente Médio?

MC. Dois lugares que tem suas particularidades, religião e costumes diferentes…a única semelhança e o amor que a população tem pelo futebol e por nós brasileiros que somos respeitados no mundo inteiro ainda…depois de ter vivido em 4 países (Arábia Saudita, Grécia, Emirados Árabes e China), na minha opinião, nosso país só é respeitado no mundo ainda pelo futebol e música onde temos uma história espetacular!

fpComo que você avalia sua passagem no Tianjin Quanjian? E existe manipulação de resultados no futebol chinês?

MC. Foi uma experiência única, na qual tirei muitas lições para o amadurecimento da minha carreira como treinador. Tivemos uma sequência de resultados que não foram bons e acabamos sendo demitidos. Eu nunca presenciei isso aqui na China.

fpComo é a estrutura do Zhejiang Yiteng FC?  

MC. Temos um estádio novo com capacidade para 30.000 mil pessoas (parecido com o do Atlético PR no Brasil, inclusive com o teto retrátil) e um centro de treinamento com uma academia (que ajudamos a equipar) e um campo com gramado novo, que pedi para o clube fazer, pois gosto que minha equipe tenha essa condição de treinar em um campo muito bom.

fp: Como é a cidade de Zhejiang, tem praticado o mandarim? O quanto facilita a presença de estrangeiros como os brasileiros Guto, Tinga e o holandês Romeo Castelen que chegarão em 2017 ao clube? 

MC. A cidade que irei morar chama-se Shaoxing, fui uma única vez na cidade e bem rápido. Estou aprendendo o mandarim, sim. Os estrangeiros fazem a diferença aqui na China, espero que eles possam construir sua história no clube, são bons jogadores e juntos com o Romeo e Hughes espero que façam uma grande temporada!

Com Sven-Göran Eriksson, treinador do Shenzhen FC, futuro adversário do Zhejiang Yiteng no campeonato. (Foto: Twitter @m_copertino)

fpO Zhejiang Yiteng FC entra com qual objetivo e perspectiva na Copa da China? Para vocês é um torneio de importância? 

MC. Sim, nos dois torneios, a Copa da China e a China League One, nós entraremos com intuito de fazer o nosso melhor dentro das condições do time!

fp: Qual a sua opinião sobre os extraordinários e astronômicos salários dos jogadores dos clubes da Superliga chinesa?

MC. Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra e outros países europeus fazem isso também há décadas com os jogadores sul-americanos e africanos além dos atletas da própria união européia. Paga quem pode e vende quem tem juízo, bom para o publico chinês que vai ver grandes craques no seu campeonato e bom para os atletas que iram ter seu futuro e de toda sua família garantidos. Afinal a carreira do atleta é muito curta, acho justo.

fp: Qual foi a situação mais inusitada que você viveu no futebol chinês?

MC. O futebol traz histórias hilárias, uma delas aconteceu comigo na semana retrasada aqui na minha pré temporada que estávamos realizando na cidade de Kunming. Pedi pra um jogador “sair” da linha de impedimento e voltei minhas atenções para o treinamento novamente, mas quando me dei por conta o jogador estava desamarrando as chuteiras sentado ao lado do campo (risos), ele achou que eu estava brigando com ele e achou que eu pedia para ele “sair” do treinamento. Fato superado (risos), e o mesmo retornou ao treinamento.

fpComo que você o trabalho do Marcello Lippi a frente da seleção chinesa, em que patamar você acha que ele pode chegar com a China? 

MC. Não conseguir ainda acompanhar o trabalho do Lippi a frente na seleção Chinesa, mas é um profissional muito gabaritado para realizar um grande trabalho. A China está evoluindo muito no futebol e o trabalho e experiência do Marcello Lippi irá com certeza trazer grandes resultados. Na minha opinião, a China indo para uma copa do mundo no futuro (próximas eliminatórias), conseguirá passar a primeira fase e isso será uma grande conquista para o futebol chinês!!

fpQuais são os planos para o futuro? Pensa em desenvolver o seu trabalho um dia no futebol brasileiro e já houve propostas? 

MC. Me preparei muito para ser treinador de futebol, vivo muito meu presente e quero ser o melhor e evoluir na minha profissão sempre. Hoje estou na China iniciando minha carreira como técnico e pretendo evoluir aqui dentro deste mercado. Esse é meu principal objetivo. Não houve nenhuma proposta de clubes profissionais do Brasil.

fpTem alguma mensagem final para nossos leitores do Fair Play? 

MC. Tem uma frase que gosto e acredito muito “falaram para a gente que não era possível, se começar foi fácil, difícil vai ser parar”, dado minha mensagem, acredite nos teus sonhos e trabalhe muito.

Foto: Twitter @m_copertino


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