17 Ago, 2017

José Duarte, Author at Fair Play

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José DuarteJulho 25, 20177min0

Jorge Jesus e o Sporting Clube de Portugal procuram redenção em 2017/2018, com novas apostas, mais contratações e outras ideias. Mas como está a decorrer a pré-época para os “leões” e que problemas subsistem no seio da equipa.

Com a realização do jogo com o Marselha chegou ao fim o estágio na Suíça. Ninguém imaginaria que o encerramento desta importante etapa encerrasse todas as dúvidas mas no balanço final as preocupações sobre o que será esta equipa capaz de produzir no imediato vão ainda continuar.

Ficam algumas notas sobre o que me parecem serem merecedoras de destaque:

Doumbia, nova companhia para Bas Dost (imagem Sporting CP)

Defesa nova, problemas velhos

À entrada de novos jogadores (novos no clube, não em idade…) que alegadamente deveriam contribuir com a experiência para dar maior estabilidade e segurança correspondeu afinal uma média de golos encaixados por jogo muito superior ao que estamos “autorizados” a consentir. Mas talvez mais importante que o número talvez tenha sido a forma que eles foram concedidos que mais chamaram à atenção.

Parecem parecem para já claros os problemas causados pela de falta de qualidade de alguns elementos (Piccini) e de no imediato pelo menos ritmo e identificação (Mathieu, Coentrão). O resultado são descoordenações comprometedoras decisões erradas em função do que o jogo pedia em determinados momentos. E, claro, quem joga com Jug na baliza perde o direito a reclamar do número de golos que encaixa.

Dúvidas: Estamos na presença de problemas inerentes à recomposição efectuada no sector, resolúveis com o treino? Os jogadores escolhidos têm o perfil adequado às necessidades dos desafios e mesmo ao(s) sistema(s) a implementar pelo treinador?

Mas a questão parece ser mais estrutural do que apenas do sector mais recuado ou deste ou aquele jogador que o compõe: JJ quer uma equipa a pressionar alto mas a pressão é ainda muito descoordenada e pouco intensa. E jogadores apontados à titularidade (Dost, Doumbia, Alan Ruiz) não parecem talhados para o fazer. Um problema que o ano passado foi fatal.

O que se viu nos jogos iniciais é que o problema subsiste, independentemente do 4x3x3 ou 3x5x2 e respectivas variantes. Os adversários dispuseram de grande liberdade para sair a jogar e, quando a equipa perde a bola – o que aconteceu várias vezes em momentos proibidos – a resposta está frequentemente condenada ao fracasso. O espaçamento entre os sectores, que reduz o número de elementos disponíveis para a contenção ou oposição às movimentações do adversário.  

Bruno Fernandes a contratação mais consensual (Foto: Sporting CP)

Médios que para já só parecem… médios

Para acentuar a suspeita de podermos estar na presença de problemas por resolver que se arrastam da época transacta está aí o sentimento de orfandade que as ausências de Adrien e William provocam. A incapacidade de reorganização e reacção após a perda sem o capitão é notória. O mesmo se pode dizer da qualidade com que saímos a jogar. E aqui é a falta de William que se nota. Se ele não é propriamente exemplar nos momentos defensivos, a sua ausência paga-se na qualidade das decisões com bola. Falta quem faça a gestão adequada do tempo certo para iniciar a saída ou de temporização com ela nos pés, diminuindo drasticamente a qualidade com que a bola chega à frente e com ela as nossas possibilidades de criar oportunidades de golo.

Depois de uma boa prestação inicial Petrovic está deixar transparecer que as listas horizontais do Sporting pesam mais que as verticais do Rio Ave. Bataglia obriga-nos a questionar constantemente se é um “6” ou um “8”, não se percebendo se JJ quer ou não dar a Palhinha o “6” que  parece ser seu com naturalidade.  Nota de conforto para a chegada de Bruno Fernandes, a permitir a esperança de finalmente estar resolvida a ausência de João Mário. Mas que, pelo que se percebeu pelo último jogo, precisa de melhor companhia. Está ainda também por saber quantas obras literárias vai ter tempo Francisco Geraldes para ler até Jorge Jesus conseguir ver o quanto lhe daria jeito tê-lo na equipa.

Para já fica uma certeza: o Sporting dificilmente subirá a qualidade do seu jogo por aqui, se vier a confirmar as saídas de Adrien e William. Que, não acontecendo, vai contribuir para um indesejável excesso de opções há luz da composição actual.

Para já muitos golos prometidos mas poucos concretizados

Não será propriamente surpreendente o reduzido número de golos marcados. Que se explicam de forma rápida por três ordens de razões: Desde logo pela qualidade dos adversários escolhidos, cujos nomes estão longe de significar promessas de goleadas. Depois porque o momento ofensivo é o que pode demorar mais tempo a preparar. A presença de um novo elemento (Doumbia) e a necessidade da respectiva articulação, especialmente com Bas Dost seria um terceiro. Mas há mais. A falta de desequilibradores a partir das alas, pela ausência do rei das assistências (Gélson) e utilização tímida de Iuri Medeiros e Matheus, acrescida do facto da chegada tardia de Acuña.

Mas quem tem Bas Dost pode estagiar mais ou menos descansado. Assim Doumbia o possa complementar com acerto. Para já ficou-se pela mostra de um sentido de baliza notável no jogo com o Fenerbaçe e predisposição para explorar a profundidade, posicionando-se quase sempre no limite das linhas defensivas. Algo que vimos desaparecer com a partida de Slimani e que tanto limitou o nosso jogo ofensivo em 16/17. Mas o costa-marfinense terá inevitavelmente que dar mais não apenas no entendimento com Dost mas também logo quando a equipa perder a bola, momento em que parece alhear-se do jogo.

Tarefa em que Alan Ruiz também se tem notabilizado pela forma como se esquece dela. E quanto à participação do argentino na ligação do nosso jogo, até agora a sua actuação resume-se a uma palavra: nulidade. Perdas de bola constantes e incapacidade de ligar com os colegas. O número habitual de dar dois passos e rematar está estafado. Teria perdido espaço para Podence, não tivesse o argentino carta branca de Jorge Jesus. Já o miúdo tem um futebol quase subversivo e agitador, não parecendo conformar-se com o facto de ter o banco quase certo como destino preferencial.

Pergunta por responder

Com tanto que ainda pode acontecer enquanto o mercado parecer aberto é ainda cedo para prognósticos definitivos. Mas a grande dúvida centra-se para já na qualidade dos reforços e no contributo que estes poderão dar à equipa. A sensação de emulação do registo do ano anterior – muitas aquisições, poucos jogadores capazes de merecer o título de verdadeiros reforços – pareceu formar-se sobre esta passagem pelos Alpes. Os próximos jogos ajudarão a perceber melhor se a ideia se confirma ou era produto do cansaço de que falou Jesus.

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José DuarteAbril 19, 20174min0

Não há derbies com pouca importância. Ainda que o próximo, a disputar no próximo sábado, não fosse decisivo para a atribuição do titulo, haveria um sem fim de dados a compilar e adicionar à já longa história  que se vai escrevendo desde 1 de dezembro de 1907. E há sempre muito a perder e a ganhar, até mesmo para o Sporting, que já está longe do título.

Foi então, em Carcavelos, onde jogava o Sport Lisboa, que o encontro aconteceu. O facto do Sporting se ter apresentado com oito ex-jogadores do adversário seria um dos muitos pontos de ignição da combustão permanente de rivalidade em que os embates entre os dois emblemas se confundem com a história do futebol português.

Para o Sporting pouco ou nada se poderá alterar de verdadeiramente significativo no que diz respeito à história deste campeonato. O terceiro lugar é cada vez mais a linha limite que se desenha no horizonte. Mesmo a tão útil como necessária qualificação directa para Liga dos Campeões, por via do segundo lugar, parece de todo improvável, atendendo a que já não há confronto directo com o FC Porto. A possibilidade da equipa de Nuno Espírito Santo perder o conforto dos cinco pontos que ainda detém em cinco jornadas é possível mas pouco provável.

Dost no último derby (Foto: Sporting CP)

Assim, o próximo derby será acima de tudo para o Sporting um jogo pelo brio e pelo orgulho e defesa do seu próprio palmarés. Isto porque não me parece provável que haja danos ou proveitos reais que se possam estabelecer na próxima temporada a partir do resultado final deste jogo. Mas, emoção, orgulho e brio são precisamente os principais temperos destes embates. E aqui há pelo menos um castelo a defender nesta história já secular de conquistas e desaires: impedir a entrada do rival no clube exclusivo dos tetracampeões. Um lugar que durante várias décadas foi apenas do Sporting e que agora tem de compartilhar com o FC Porto.

Historicamente, o papel de demolidor de “sonhos do tetra a vermelho” tem até agora sido bem sucedido. Apesar do rival ser o clube mais titulado do nosso campeonato, o titulo de tetracampeão continua por alcançar. Até hoje o SL Benfica dispôs de cinco hipóteses de conquistar um lugar cativo nesse clube tão exclusivo e nunca o concretizou.

Na primeira oportunidade, depois de conquistar os títulos das épocas de 35/36, 36/37, 37/38, o clube da Luz nem sequer discutiu o título. Quedou-se abaixo do campeão FC Porto, e do Sporting, que daria luta até final, ficando apenas com menos um ponto.

A primeira grande disputa ombro a ombro havia de acontecer na época 65/66. O Sporting era então o único tetracampeão, por força dos campeonatos de 1950 a 1954, pelo que luta foi feroz. Ao vencer em Alvalade a sete jornadas do fim, o SLB ficou à distância de um ponto, mas os nervos de aço dos pupilos de Otto Glória e Juca acabaram por manter a tetra-exclusividade até final.

O Sporting pareceu então especializar-se na defesa dos seus pergaminhos, pois foi novamente a barreira que se ergueu aos sonhos mais rubros dos rivais em 73/74. Na até agora derradeira possibilidade, foi o FC Porto que se entrepôs aos desejos benfiquistas, quando em 77/78 ganhou finalmente o campeonato, após 19 anos de jejum.

Que papel terá Ruiz na sua estreia nos derbies? (Foto: Sporting CP)

Desenha-se agora uma nova oportunidade para o seu eterno rival. Se um derby por si só já encerra todos os ingredientes necessários para a motivação dos jogadores, o que se disputará no relvado será um novo e suculento pedaço na história de uma rivalidade secular.

Há história que se escreve em cada decisão acertada e em cada erro ou falha. Defender a porta de entrada do seu clube exclusivo de tetracampeões é a derradeira tarefa de Jesus e dos seus comandados para o que resta da época. E nestas questões de história e de palmarés jogam-se valores que rivalizam com a conquista de títulos.

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José DuarteMarço 28, 20175min0

O que faz a direcção de um clube quando precisa de contratar um treinador? Avalia o curriculum ou o potencial? Qualquer treinador com uma trajectória de sucesso pode ser feliz em qualquer clube, independentemente do seu historial e do contexto presente?

A surpreendente contratação de um técnico como Jorge Jesus por Bruno de Carvalho, com uma proposta de jogo reconhecidamente atraente e vencedora, obliterou qualquer discussão sobre a indispensável análise do perfil do treinador que se entende ser necessário para regressar à conquista de títulos.

Mas essa discussão é necessária. Podem técnicos (Jardim, Marco Silva, Jesus) de perfis, carreiras e propostas de jogo tão diferentes ser úteis à mesma causa? Pergunta que nos leva a outra também muito frequente: é o treinador que deve adaptar a sua ideia de jogo ao plantel disponível ou o contrário? E ainda outra igualmente importante: como se determina se um treinador tem o perfil adequado à filosofia, objectivos e necessidades de um clube?

A resposta a estas perguntas é importante num clube como o Sporting, mas não tanto no Real Madrid, Barcelona, Manchester ou Bayern, e outros. Isto porque todos eles têm disponibilidade financeira para oferecer ao treinador  jogadores com o perfil adequado ao modelo que o treinador deseja implementar. Não é o caso do Sporting, pelo que a escolha do técnico tem que levar sempre em linha de conta o material humano que lhe pode disponibilizar.

Como tudo quase correu muito bem no primeiro ano, as respostas a estas questões não foram necessárias. O impacto da chegada de Jorge Jesus foi tal que só por um triz não se celebrou a conquista do campeonato. Aqui Jorge Jesus cumpriu com aquilo que se esperava dele como grande treinador: adaptou as suas ideias às características do plantel disponível, mantendo-se fiel aos seus princípios de jogo, conseguindo ainda oferecer aos seus jogadores o meio ideal para exponenciar as suas qualidades, valorizando-os.

Esta estadia de Jesus no céu a verde-e-branco durou muito pouco, provando que é relativamente fácil ter êxito fortuito no futebol, embora o emprego da palavra êxito até seja excessivo. Não o é no caso de Ranieri no Leicester, um caso de sucesso imediato, que passará a ser paradigmático. Mas é mais difícil ter êxito de forma duradoura e para tal é necessário mais do que um alinhamento favorável dos astros. A ideia que na corrida para o sucesso se podem queimar etapas pode ser muito atraente mas raras vezes paga dividendos.

Quantos dos actuais titulares transitarão para a próxima época? (Foto Sporting)

O insucesso total da presente época deveria remeter a SAD a profunda reflexão, porque só percebendo as suas causas se poderá evitar a repetição de erros e equívocos. Reflexão sem dogmas e com elevada abertura de pensamento e humildade. E se há imensas questões por responder a principal é a que deveria ter sido colocada em primeiro lugar, quando se partiu para a contratação de Jorge Jesus:

Tem ele o perfil ideal para ser treinador do Sporting? E por outro lado também deve ser perguntado: tem o Sporting as condições para proporcionar o sucesso ao seu treinador na exacta forma que ele entende como condições indispensáveis para lá chegar? Não está em causa a qualidade do treinador, como certamente não estará a de Guardiola, cuja mudança para Manchester deu ainda mais força a este género de interrogações.

A redefinição por parte de Bruno de Carvalho, reafirmando a famigerada “aposta na formação” vem tornar a resposta à pergunta imperativa. O contexto que levou à contratação de Jorge Jesus – procura de títulos de forma imediata e com recurso “ilimitado” ao mercado, em nítido desfavor do recurso à prata da casa – parece ter-se alterado subitamente, tornando esta questão ainda mais actual. Mais ainda porque parecem evidentes que as consequências económico-financeiras e até psicológicas do falhanço desta época condicionarão fortemente as opções.

A próxima  época ajudará a perceber melhor como será possível o entendimento entre duas versões aparentemente conflituantes e, mais do que as declarações de circunstância, serão as decisões que serão tomadas que falarão mais alto sobre a forma como se fará o respectivo equilíbrio de forças.

Facilmente se entende que esta reconfiguração é um grande desafio para ambas as partes. E também uma excelente oportunidade para o clube e para Jorge Jesus. É que, apesar da retórica à volta da “aposta na formação” o que não tem faltado desde sempre e apesar do sucesso são medidas avulsas e mesmo contraditórias.

Quer Jorge Jesus quer o Sporting teriam muito a ganhar com uma visão integrada para a formação, com o técnico a ser importante na definição do modelo de jogo de forma transversal em todos os escalões, algo que há muito já devia estar em marcha. Seria o primeiro passo para o treinador conhecer melhor um sector que poderia ganhar maior preponderância sob o seu comando, podendo os jogadores, dessa forma, dar resposta mais precoce às elevadas exigências que o modelo do treinador costuma suscitar.

Isto claro, se quer técnico quer a actual direcção clube estiverem mais interessados em construir um legado do que apostar todas as fichas apenas no imediato.

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José DuarteMarço 15, 20175min0

São grandes os desafios que o Sporting enfrentará na próxima temporada e uma parte substancial das dificuldades que terá que enfrentar serão a consequência directa ou indirecta do fiasco da que ainda está em curso. Faltará apenas perceber quanto tempo e quão intensos serão os sintomas de ressaca depois da ter vivido la vida loca de contratações no início da presente temporada. Talvez a melhor ilustração para esta afirmação seja a presença de Douglas como quarto central? Faz algum sentido?

A primeira consequência directa será a obrigação madrugar na preparação da candidatura à tão desejada e necessária Liga dos Campeões, pela via muitas vezes ingrata da pré-eliminatória. Um caminho já percorrido no ano de estreia de Jorge Jesus no comando e que não correu bem. É ainda cedo para antecipar os adversários, mas não é preciso ter dons de adivinhação para saber que a este nível não há adversários fáceis, há apenas nomes mais ou menos consagrados.

Como consequência indirecta, mas de grande impacto na formação de plantel, é a gestão do orçamento para a sua constituição. Dever-se-á contar ou não com os prémios de presença na Champions League como adquiridos, ou “simplesmente” ter como fito na respectiva constituição o objectivo principal da época – o campeonato – assumindo que tal é suficiente para a formação de uma equipa à altura das lides europeias?

De forma não tão directa, mas igualmente importante e condicionadora, estará a valorização de jogadores, tradicional fonte de receita para a obtenção de reforços. A presente época não proporcionou revelações e, embora não se possa afirmar que depreciou os valores seguros (Patrício, Coates, William, Adrien), também não os tornou mais apetecíveis.

Dificilmente encontraremos por isso a mesma apetência e a mesma generosidade que existiu na procura de Slimani e  João Mário. A venda de qualquer um deles criará a necessidade de serem substituídos por elementos de igual valor, vendo aumentados os riscos que estas operações acarretam e cujos exemplos estão ainda bem vivos nas mentes de todos. Da presente época sobreviverão problemas por resolver, alguns deles implicarão inapelável recurso ao mercado, outros poderão encontrar solução nos quadros do clube.

Questões laterais

O problema dos defesas laterais está mais que identificado, mas a sua resolução tem sido sucessivamente adiada. É sentimento maioritário entre muitos adeptos que foi aí que a época começou a ficar perdida. Em equipas como as de Jesus, com forte propensão atacante, eles são tão importantes a criar imprevisibilidade no ataque como a gerar reequilíbrios na reorganização da equipa quando perde a bola. Não parece que o problema possa ser resolvido satisfatoriamente sem recurso ao mercado e em mais do que um nome.

Questões centrais

A possibilidade de saída de Adrien e/ou William seria um festim para Carlos Vieira, o homem das finanças, mas um pesadelo para Jorge Jesus e grande parte dos adeptos, sobretudo se acontecessem em simultâneo. Mais ainda se tivermos em conta que, pelo que esta época foi demonstrando, que nem as suas ausências episódicas (castigos, lesões) ou baixas de forma encontram ainda resposta no plantel.

Faltará perceber se a baixa de Bryan Ruiz é um sintoma definitivo da veterania que se vai inapelavelmente instalando, precisando de alternativa, ou se poderá recuperar a influência determinante da primeira temporada. Ou se o ciclo de adaptação de Alan Ruiz está conseguido. Será igualmente interessante perceber que papel destinará Jorge Jesus a jogadores como Francisco Geraldes, Matheus e Podence, Palhinha, por exemplo.

Foto: sporting.pt

Questões avançadas

Pode parecer paradoxal mas, em época de desilusão como a actual, é no ataque onde se encontram os dois jogadores que poderão suscitar maior cobiça externa. Falo obviamente de Gelson Martins e de Bas Dost. Martins pelo potencial e qualidades já demonstradas e o holandês pela capacidade goleadora, ainda por cima numa equipa que nem sempre o serviu bem ou revelou essa preocupação. Algo que deverá mudar nos jogos que restam com a candidatura agora em aberto ao ceptro de goleador-mor do continente.

A partida de qualquer um deles abriria um problema semelhante à de Adrien ou William, embora me pareça ainda de mais difícil solução o abandono do holandês que, também de forma semelhante, não teve este ano alternativa. Felizmente não teve que se ausentar ou as coisas ainda se teriam complicado mais para Jorge Jesus.

Questões de gestão e comando

Embora muitas vezes as discussões se centrem nas individualidades as histórias das grandes conquistas escrevem-se pela força colectiva. Tudo começa no planeamento rigoroso, na escolha de nomes, datas, adversários, locais de estágio, etc. E se há algo que hoje parece pacifico constatar é que algo falhou na escolha do perfil de vários jogadores, o seu número e também o timing da sua incorporação, face à prontidão de resposta que se exigia, tendo em conta os compromisso da equipa.

Ora tempo é algo que o Sporting já terá que estar “comprar”, porque não terá em abundância para apresentar uma equipa nos níveis competitivos que as pré-eliminatórias da Champions League costumam colocar. Isto é, é bom que haja ideias claras sobre a organização da próxima temporada. Dificuldade que acresce com a reputação de exigência e dificuldade que a compreensão e adequação que o modelo de jogo Jesus coloca aos seus jogadores, em especial, obviamente as que chegam de novo.

Quer Jorge Jesus quer Bruno de Carvalho sabem que está em jogo a sua sobrevivência como dupla e que à terceira ou será de vez e, ou vai, ou racha.

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José DuarteFevereiro 1, 20176min0

Não se pode dizer que tenha constituído grande surpresa o comportamento muito discreto no mercado de Inverno por parte do Sporting. O insucesso desportivo reduziu significativamente as possibilidades do clube quer de contratar quer de rentabilizar o forte investimento feito no verão. Ora muito desse insucesso começou a desenhar-se na incapacidade demonstrada em reforçar-se, apesar da generosidade dos gastos efectuados. Daí que as palavras chaves deste período tenham sido “reduzir”, “redimensionar” (a quantidade no plantel para o compromisso restante) e “emagrecer” (a folha salarial). Mesmo esses objectivos ficaram aquém do desejável e só os mercados que ainda permanecerão em aberto permitirão realizá-los.

O número de jogadores continua assim excessivo, alguns dos excedentes são caros (p.ex. Douglas) e permaneceram por resolver os problemas resultantes da falta de soluções de qualidade em que os laterais são o exemplo mais notório. Mas não o único. Jorge Jesus certamente que terá que por uma velinha em vários altares a pedir a intervenção de todos os santos para que Bas Dost não se lesione ou seja castigado.

Não se pode dizer contudo que o plantel tenha ficado mais fraco, atendendo a que a participação dos jogadores que saíram mediaram entre o nada e coisa nenhuma no que ofereceram ao nosso jogo. O recurso agora à prata da casa, mais uma vez em momentos de aflição e não por convicção, terá pelo menos a vantagem de trazer sangue novo de jogadores que se identificam com o clube.

Ala, que se faz tarde

Meli: ao contrário do que a brincadeira que se poderia fazer com o nome do jogador foi uma contratação sem nenhum açúcar. No máximo pode-se dizer que foi uma oportunidade única de viver seis meses de férias bem pagas numa das cidades da Europa com cada vez maior procura.

Markovic: se a ideia era contrariar os rumores de uma morte antecipada como promessa de craque, o sérvio perdeu o seu tempo e nós o nosso dinheiro.

Elias: foi dos que mais jogou, o que só contribuiu para acentuar a imagem já desgastada que havia deixado. O risco da sua contratação não compensou e percebe-se agora que narrativa posta a circular de ter no horizonte um negócio da China não passou de fantasia ou propaganda para justificar o equívoco.

Markovic é imagem mais notória do fracasso da política de aquisições (Foto: Sporting CP)

Petrovic: se Markovic e Elias ainda se podem perceber pelo que conseguiram fazer num passado recente ou longínquo a vinda do sérvio só se pode compreender por teimosia e desconhecimento da totalidade dos jogadores à disposição e em particular os oriundos da formação. Um problema que poderá ser reeditado na nova época, uma vez que vai sob empréstimo para o Rio Ave.

Acabou-se o recreio

Para a generalidade dos regressos significa um corte abrupto em participações que até estavam a ser proveitosas para os jogadores. Para que se justifique é necessário oferecer-lhes condições reais para singrarem, porque entrar esporadicamente ou nos minutos finais dos jogos não o são.

Palhinha: foi ali a Belém comer uns pastéis que reforçaram a convicção do erro que foi a contratação de Petrovic. Não se pense porém que é o substituto ideal de William, trata-se de um jogador mais posicional que o habitual titular. Isso trará eventualmente mais segurança em momentos defensivos mas obrigará Jesus a repensar a forma como a equipa se comportará na hora de construir, algo em que William é peça fundamental.

Francisco Geraldes: é sobre ele que se concentrarão todas as atenções sendo por isso o primeiro desejo é que tal não lhe tolha as muitas qualidades que demonstra há algum tempo e que os seis meses no nível competitivo mais elevado confirmaram.

Justiça reposta (Foto: Sporting CP)

Podence: Não terá na maior parte dos jogos que o Sporting ainda tem para realizar o mesmo espaço no horizonte que desfrutou em Moreira de Cónegos. Isso é capaz de obrigar a reconfigurar-se. Se conseguir domar os seus impulsos e perceber os momentos adequados para fazer valer a velocidade que possui preparará com sucesso a sua integração no plantel do próximo ano.

Acabou-se o recreio mas talvez não ainda a brincadeira

Já sobre Spalvis, André Geraldes, Gauld impedem as maiores dúvidas sobre a sua prontidão para jogar, isto sem deixar de constatar que as razões do seu regresso nada tiveram a ver com a vontade do treinador, antes se deveram a decisões administrativas cuja bondade e acerto são altamente questionáveis.

Spalvis acabou por ser recambiado por não ter condições de poder jogar no imediato. André Geraldes e Gauld foram arrancados a uma época positiva para agora não saberem sequer se poderão ser inscritos. Ainda que a sua inscrição venha a ser considerada regular, não deixa de constituir um embaraço para quem assumiu como primordial a luta por valores mais elevados no relacionamento entre os diversas entidades que constituem o universo do futebol. Dificilmente os jogadores não deixarão de se sentir usados e prejudicados, vendo os seus interesses mais básicos serem atirados para debaixo do tapete.

Embora, como é dito acima, seja possível que mais jogadores saiam para os mercados ainda em aberto, e sendo muito pouco provável qualquer admissão, estarão encerradas as portas do mercado 2016/17. E antes que se comece a falar no próximo é imperativo analisar exaustivamente as decisões tomadas nos últimos meses no que diz respeito à formação do plantel.

É que, desde a gestão do potencial dos jogadores da casa, à política de empréstimos (para fora e para dentro), ao perfil adequado aos novos jogadores a integrar, há muita decisão a merecer análise profunda para que os mesmos erros de avaliação não sejam repetidos.

Dificilmente o Sporting encontrará no final do presente ano o mesmo volume de receitas que obteve no inicio da presente época. E, se o conseguir, terá que o fazer à custa da desvalorização do seu lote de titulares, ficando a interrogação se será desta que consegue suprir com acerto e realismo os lugares que venham a ficar vagos na titularidade.

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José DuarteDezembro 10, 20169min0

O Sporting regressava esta época ao clube exclusivo dos grandes europeus, depois de não ter conseguido ultrapassar o loby de entrada na época anterior e quando, em iguais circunstâncias, 2014/15 tinha ficado com um profundo sabor a injustiça. Para a tão ambicionada retoma do clube, a presença na companhia da “creme de la creme” do futebol europeu é um degrau imprescindível de ser subido.

Ninguém certamente estaria à espera que o Sporting se assumisse como candidato a um longo percurso na competição, muito menos à conquista do troféu e nem sequer à chegada aos seus momentos de decisão. Mas uma participação digna, conquistando a atenção de todos, com pontos e exibições meritórias era desejada e mesmo até essencial para esse projecto de recuperação em curso.

Uma parte substancial do fosso cavado para os seus tradicionais opositores na Liga Portuguesa nasceu precisamente na vitaminação que as receitas directas (prémios de participação, bilhética) e indirectas (valorização de jogadores, receitas com publicidade, etc.) proporcionaram à competitividade dos seus rivais.

Adicionalmente, o orgulho ferido por muitos anos de ausência e muitas páginas de glória por preencher na melhor competição de clubes do Mundo, que os rivais gostam de lembrar, completando com a exibição dos troféus conquistados. De facto a participação nesta competição, na actual designação e formato e nas que lhe serviram de origem, nunca foi muito feliz. Isso é observável na ausência do quadro que se segue, onde se pode visionar o top 25 de clubes com mais jogos na competição europeia mais importante. E para o inverter nunca é demasiado cedo para começar.

Top 25 de clubes com mais jogos na Taça dos Campeões/Liga dos Campeões

O sorteio, crónica de uma morte anunciada

Saindo do pote 3, era preciso muita sorte para que do emparelhamento com os possíveis adversários a ideia de qualificação para fase seguinte da competição pudesse ser encarada com alguma segurança. Mesmo que o sorteio pudesse ser substituído por um processo de escolha, as dificuldades dificilmente seriam menores. Isso é facilmente compreensível olhando para o resultado do sorteio.

Observando agora os clubes apurados para a fase seguinte da prova, verifica-se que o ponto de partida para o sorteio foi determinante: nenhuma equipa saída do pote 3 logrou vencer o destino de figurantes a que estão sujeitos todos os que não saem do par de potes superior. Ora isto reforça o que é dito no ponto inicial e que empurra o Sporting para a obrigação de ser campeão para não ter que estar permanentemente de passagem nesta competição. Porque para o prestígio e para a sua necessária subida no ranking esta passagem pela Liga dos Campeões foi um acto falhado.

Entrada de Leão

Foi feérica a entrada do Sporting no jogo inaugural. Nunca poderia ser um jogo qualquer aquele em que de outro lado estava o lidimo representante da sua escola, que em Madrid se tornou primeiro filho querido e muito rapidamente bandeira do clube. De tal forma feérica que ele mesmo, Ronaldo, se terá surpreendido com as dificuldades em fazer vingar o seu jogo e o da sua equipa.

Fonte: UEFA Champions League

A ideia que os madrilenos poderiam acalentar de ter pela frente descendentes de Egas Moniz, de corda ao pescoço, prontos a prestar vassalagem, depressa se revelou um logro. Tudo porém se havia de desmoronar num ápice, já quando o jogo se encaminhava para o final do tempo regulamentar, quando a ideia de uma vitória inédita parecia estar à nossa espera,  acenando-nos à despedida no Passeio da Castelhana. Ronaldo, primeiro, e Morata depois, encontraram o ponto limite da nossa resistência.

Promessas perdidas algures na viagem de regresso

Não sendo bom o resultado, a verdade é que o Sporting chegou a assustar e a impressionar. Não faltou quem antecipasse que aquela boa exibição, ainda por cima num cenário tão exigente,  era a promessa de uma equipa sólida, à altura das provas que ainda tinha para prestar enganar. Os mais optimistas atreviam-se a pensar que aquela equipa audaz, mesmo atrevida, era capaz de disputar a qualificação com alemães e espanhóis. Mas esse Sporting ficou perdido algures na saída de Madrid, sendo claro nos compromissos seguintes, quer a nível doméstico, quer fora de fronteiras, que havia danos por reparar.

E até ao jogo que marcaria mais uma passagem de Ronaldo pela casa que o viu despontar para a imortalidade, esse Sporting não voltou a ser visto. Pelo meio ficaram exibições sem vigor suficiente para afrontar os alemães de Tuchel e uma pálida vitória, em tons de verde desmaiado, ante os polacos do Légia. Um prenúncio do que estava reservado para os jogos finais do grupo e da sorte que lhe caberia na competição.

A hora do absurdo

No futebol, como na vida, o absurdo está sempre à espera da sua deixa para conquistar a boca de cena este acabaria por ser convocado para os momentos finais da recepção ao Real Madrid e oferecer bilhete de viagem para Légia. O hara-quiri de João Pereira, quando o Real dava mostras de incómodo e cansaço, havia de ser aprimorado na Polónia, quando Jorge Jesus decide decepar a identidade da sua equipa, baralhando-lhe as vértebras, tornando-a disfuncional. Quando quis rectificar o erro evidente já era tarde.

Laivos de qualidade sem maturidade e resiliência que a sustentem

A leitura dos dados finais da pole de qualificação é inequívoca e, juntamente com o súbito desaparecimento da Europa do futebol, sepultarão para sempre os bons sinais que o Sporting foi espalhando aqui e ali. Caído o pano, desligados os holofotes e com as objectivas à procura de palcos onde as atenções se passarão a concentrar, a estupefacção por este desfecho ainda assombrará por mais tempo as cabeças de técnicos, dirigentes e sobretudo adeptos. O que aconteceu? Porque tudo acabou assim, da pior maneira, como se fosse um castigo?

Olhando aos pormenores verifica-se que o Sporting só logrou pontuar no jogo em que não sofreu golos. Alguns deles nasceram de fragilidades defensivas sobejamente discutidas e identificadas assim que começou a ficar evidente que segurança do sector exibida no final do campeonato transacto se tinha perdido. Ora, a este nível as falhas, sejam de que natureza for, são punidas com um requinte quase cruel.

Vitima da pequenez de horizontes e experiências

Se é claro que esta equipa tem qualidade para conseguir outros resultados e que o clube, ao fazer um esforço financeiro importante, contraiu responsabilidades perante os seus adeptos que a obrigavam a outros resultados, parece resultar também claro que faltou maturidade e experiência para sustentar a ambição.Do ponto de vista disciplinar, além da já aludida expulsão de João Pereira, há a somar-lhe acto igualmente ingénuo de William no derradeiro jogo e de idêntico teor de Jorge Jesus, todos por certo limitados pelas experiências domésticas, onde a tolerância para estes actos não têm paralelo lá fora.

Falta de maturidade também notórias na falta de matreirice com que abordou vários momentos dos jogos e que resultam também do facto de por cá estar mais habituada a impor o seu jogo do que ao que lhe é imposto pelo adversário. Isso notou-se com o Real Madrid, quando podia e devia ter atirado a bola para lá de Vallecas, como quando a devia ter escondido do adversário, enervando-o, cansando-o. Ou com o Borussia de Dortmund, quando podia ter aguardado e provavelmente ter adoptado uma postura mais especulativa sobre o jogo, o que pode ser considerado também uma sobranceria resultante do hábito de impor o seu jogo por cá.

Parece por isso também que esta equipa não está habituada a sofrer nem o seu modelo de jogo a prepara muito para essa necessidade, que ao mais alto nível acaba por ser imprescindível, atendendo à diferença de valores. Quando tal foi necessário, (como em Madrid, por exemplo) a equipa foi denotando incómodo e desorientação, deixando-se resvalar até o cansaço se instalar e o valor dos adversários fazer o resto.

Uma nota final para o desastre comunicacional que se associou a este momento particularmente difícil de digerir para o clube e respectivas ambições. Da parte de quem dirige ser assim afastado pareceu “um dia normal no escritório”, aceite sem qualquer pestanejar. Da parte do treinador uma impassividade assustadora, revelador de um preocupante desfasamento e falta de identidade com os objectivos do clube. A promessa da possibilidade de uma carreira auspiciosa na Liga Europa feita na véspera depressa se esfumou. Aceitar tudo isto é também uma promessa de ver em breve, numa competição perto de nós, uma versão revista e aumentada.


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